POSTO DE ESCUTA 08.03.2014

Nervosa copyNo primeiro fim-de-semana verdadeiramente primaveril do ano, presentamos os nossos leitores com algumas sugestões audiófilas para tempo bom. O heavy metal clássico dos Ancillotti, Lucifer’s Hammer ou Sparta é bom para ouvir na areia da praia, o rock alternativo dos portugueses And Then We Fall ou o proto-thrash das brasileiras Nervosa é o ideal para ouvir nos passeios de carro e o extremismo dos Hiss From The Moat e The Committee é excelente para começar uma longa noite. Depois, há o neo-classicismo pleno de imagens de Federico Albanese, que se predispõe a explorações de madrugada, na companhia de uma garrafa de vinho. Quem for mais de pensar a música, tem sempre o offshot dos King Crimson The Crimson ProjecKCt e os mindfuckers Scraps Of Tape para se entreter. Bom fim-de-semana.

BrokenWings-CoverArt(ColorAdd)-DimitarNikolov.psdANCILLOTTI «The Chain Goes On»
Pure Steel Records
Cada vez que uma banda italiana de verdadeiro heavy metal dá uma entrevista, menciona os compatriotas Strana Officina ou Bud Tribe como uma das suas primeiras influências. Por isso, imaginem o entusiasmo entre os fãs do estilo quando o vocalista desses grupos, Daniele “Bud” Ancillotti, regressa ao activo com um novo projecto formado com o seu irmão no baixo e o seu filho na bateria. «The Chain Goes On», o álbum de estreia, é heavy metal old school feito a meio-tempo, com autenticidade, originalidade e os traços de personalidade de um dos pilares do estilo em Itália. Por vezes, a coisa envereda por terrenos de metal teutónico à Accept, mas a linha condutora dos 11 temas é a qualidade nas guitarras, o bom gosto na melodia e uma originalidade vincada. (4/5)

AndThenWeFall_SoulDesertsAND THEN WE FALL «Soul Deserts»
Ethereal Sound Works
Formados por ex-elementos de bandas como Noctívagus ou Phantom Vision, seria de esperar que os And Then We Fall fossem um projecto de rock gótico. Nada mais errado. Os dez temas da estreia «Soul Deserts» mostram um grupo apostado em explorar as várias vertentes do rock alternativo, com ênfase na voz poderosa e versátil de Susana Correia. A “fome” de exploração leva por vezes o quarteto a experimentar coisas um pouco menos conseguidas, como as letras em espanhol em «Tu Eres Mi Mal» (os resultados são bem melhores em «E Mais Um Dia», cantado em português), mas o ponto alto do disco é a bluesy «All the Pain Inside», em que os And Then We Fall parecem libertar verdadeiramente o seu talento. As influências de bandas como Siouxie And The Banshees e do catálogo da 4AD parecem evidentes, mas «Soul Deserts» mostra um grupo que procura ainda o seu próprio caminho musical. (3/5)

FedericoAlbanese_TheHouseBoatAndTheMoonFEDERICO ALBANESE «The Houseboat And The Moon»
Denovali Records
Pianista por natureza e formação, Federico Albanese andou em bandas, experimentou vários instrumentos e chegou a trabalhar na produção de filmes até voltar ao seu instrumento de eleição e lançar agora o seu disco de estreia em nome próprio. «The Houseboat And The Moon» não é, por isso, apenas um disco de piano. O seu poder evocativo e ambiente de banda sonora só é possível devido à compreensão que o italiano trouxe da sua experiência no cinema e as nuances electrónicas, de sampling de gravações de terreno e a própria opção de produção num velho piano de 1969 todos contribuem para que esta colecção de temas seja, apesar de um trabalho instrumental de piano, uma proposta emotiva, colorida e ideal para quem anda a ressacar de discos de Les Fragments De La Nuit e Ashram. (3/5)

HissFromTheMoat_MisanthropyHISS FROM THE MOAT «Misanthropy»
Lacerated Enemy Records
Pensem numa mistura de Fleshgod Apocalypse, Behemoth e The Black Dahlia Murder. Não estarão longe do que os italianos Hiss From The Moat propõem no seu disco de estreia. O trio, formado por gente dos Tasters, Hour Of Penance e Doomsayer, dispara certeiro nas direcções do black e death metal (se por “death metal” entenderem uma estirpe particularmente virulenta de deathcore) e acerta em cheio no alvo em termos de técnica, coesão, peso e força de produção. «Misanthropy» é um vicioso, rápido, técnico e obscuro exercício de blackened deathcore, potenciado por convidados especiais como Tommaso Ricciardi (Fleshgod Apocalypse), Ryan Knight (The Black Dahlia Murder) e Paolo Pieri (Hour Of Penance, Aborym). Valha-nos Satanás! (4/5)

LucifersHammer_DemoMMXIIILUCIFER’S HAMMER «Night Sacrifice (Demo MMXIII)»
Shadow Kingdom Records
Originalmente editada pela banda em Outubro do ano passado (numa prensagem em cassete limitada a 150 cópias) esta maqueta de três temas marca a estreia dos chilenos Lucifer’s Hammer, cujo heavy metal tradicional tem uma sonoridade e produção que reproduzem fielmente o som dos anos 80. Em termos de abordagem estilística, é heavy/speed metal do mais clássico possível, com os toques de melodia NWOBHM que fará os fãs de Salem’s Wytch, Iron Maiden, Heathen’s Rage ou Damien Thorne virarem a cabeça na direcção do grupo com um esgar de surpresa. Depois da reedição em CD-r (limitada a 40 cópias) feita pela The Power Cage Records, eis que «Night Sacrifice (Demo MMXIII) chega agora ao formato digital e a uma nova edição em cassete, limitada a 100 unidades. (4/5)

Nervosa_VictimOfYourselfNERVOSA «Victim Of Yourself»
Napalm Records
Vamos esquecer por momentos o exotismo do facto das Nervosa serem um trio de miúdas brasileiras a praticar thrash. «Victim Of Yourself», o seu disco de estreia, continua a ser uma colecção de temas com a fúria do underground herdada dos Sarcofago, a velocidade ácida do speed/thrash metal alemão e aquele shred crossover que apenas os predestinados são capazes de sacar. Tipo uma mistura de Hirax, Destruction, Sodom e Toxic Holocaust. Agora junte-se de novo o elemento exótico da coisa. «Victim Of Yourself» é um disco de thrash do caraças E sexy. Há como resistir a isto? (4/5)

ScrapsOfTape_SjättevansinnetSCRAPS OF TAPE «Sjätte vansinnet»
A Tenderversion Recording
Depois de ouvir «Sjätte vansinnet», o mais recente de vários trabalhos que os Scraps Of Tape editaram desde 2001, é inevitável considerá-los um dos mais deliciosos segredos musicais da Suécia. O indie rock que praticam tem laivos do pós-rock, hardcore e noise que já praticaram e vai-se metamorfoseando à frente dos nossos olhos, em temas que captam a essência de bandas como Mogwai, Mudlin Of The Well ou Joan Of Arc, retendo ao mesmo tempo uma originalidade e personalidade muito próprias. Vale a pena conhecê-los, seja em CD, download ou na magnífica versão em vinil em que «Sjätte vansinnet» foi editado. (4/5)

Sparta_WelcomeToHellSPARTA «Welcome To Hell»
High Roller Records
Depois de terem sido, no final da década de 70 e primeira metade da de 80, mais um dos grupos “com grande futuro” da NWOBHM que falhou a sua confirmação e desapareceu do radar, os Sparta tiveram de esperar quase três décadas para terem algum reconhecimento de novo. O saudosismo pelo heavy metal clássico fez com que a compilação «Use Your Weapons Well», editada em 2011 pela High Roller, trouxesse a banda para as bocas de uma geração à procura de tudo o que é obscuro no NWOBHM e aqui estão os Sparta de volta, dois anos depois, com um álbum de originais. «Welcome To Hell» rocka como se fosse 1979 e respira NWOBHM clássico, com ocasional crossover para o rock’n’roll clássico. É interessante, tem uma aura de autenticidade, mas também exala um cheiro a mofo e a segunda oportunidade não exactamente merecida. (3/5)

TheCommittee_PowerThroughUnityTHE COMMITTEE «Power Through Unity»
Folter Records
Com a particularidade de serem um projecto verdadeiramente internacional, começado por um francês na Bélgica com o delicioso nome de guerra “Igor Mortis”, a que depois se foram juntando elementos de nacionalidades russa, holandesa e ucraniana, os The Committee foram “construindo” a sua sonoridade na mesma medida. É por isso que «Power Through Unity», o disco de estreia, apresenta evolução em relação ao doom/black metal do EP «Holodomor» editado o ano passado. Os riffs são mais hiperbólicos e com uma ponta de folk/heathen, as atmosferas são mais bárbaras e o peso e extremismo acabam por realçar as partes em que o quarteto explora, com mestria, as suas influências mais funerárias e doom. Tudo com um som poderoso, grave e verdadeiramente negro. Soberbo. (3/5)

TheCrimsonProjeKCT_LiveInTokyoTHE CRIMSON PROJEKCT «Live In Tokyo»
InsideOut Music
Como mais uma banda herdeira do legado dos King Crimson, os The Crimson ProjecKCt são um dos mais excitantes e legítimos offshots da extinta e influente banda. Tony Levin e Pat Mastelotto estão lá, o material (tudo temas dos King Crimson) é escolhido com particular cuidado para representar toda a carreira, exemplarmente executado, o conceito de “trio duplo” devidamente recuperado e o próprio Robert Fripp deu a sua “benção” ao projecto. Por isso, ouvir temas plenos de fusão jazzística/prog como «Frame By Frame», «Dinosaur» ou o excepcional «Indiscipline» ao vivo, tocado por estes tipos, é quase o mesmo que ouvir os King Crimson interpretá-los hoje. Com a diferença de que o “quase” é o mais próximo que podemos chegar neste momento, já que Fripp se reformou da vida de músico ao vivo. (4/5)

TherionAdulruna400

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