POSTO DE ESCUTA 08.04.2014

PoseidonÉ tempo de mais um Posto de Escuta e de conhecer umas coisas novas, esta semana particularmente extremas. Uma banda underground finlandesa com uma maqueta em cassete, por exemplo. Black/death metal das profundezas da cena australiana. Black metal niilista grego. Depois, para os amantes de coisas menos carregadas, há o rock do deserto dos Valley Of The Sun, o sludge/doom progressivo dos Koloss, o pós-metal original dos Poseidon e o cagaçal dos Taurus. Entre splits limitados, novos projectos e/ou confirmações, muita música nova para conferir esta semana.

CemeteryFog_ShadowsInTheCEMETERY FOG «Shadows From The Cemetery»
Iron Bonehead Productions
É complicado resistir ao encanto do bom e velho black/doom/death metal quando este é editado em maqueta, em formato cassete copiada em casa e de capa fotocopiada. Mesmo quando, como é o caso dos finlandeses Cemetery Fog, se trate de uma versão algo básica e standard do género. Ainda assim, há um encanto muito underground nas três faixas de «Shadows From The Cemetery», materializado numa atmosfera de horror e de entusiasmo em misturar os mais obscuros e extremos estilos do metal tradicional. Esta reedição da Iron Bonehead Productions é também em cassete, pois claro, embora neste caso fabricada profissionalmente. (4/5)

Collision_The RottedCOLLISION/THE ROTTEN «Split»
Hammerheart Records
O familiar conceito do split-7”, de tiragem limitada a 500 unidades (100 delas em vinil splatter), aqui aplicado aos grinders holandeses Collision e aos adoradores ingleses de Napalm Death, The Rotted. Os primeiros disparam duas faixas de velocidade alucinante, plena daquele grindcore tão extremo e dinâmico (dois vocalistas incluídos) que leva tudo à frente, especialmente fãs de Brutal Truth, Nasum e S.O.D. Os The Rotted propõem «Rotted Fucking Earth», um tema bem mais punk do que o death/grind a que nos habituaram, mas com os mesmos valores de brutalidade groovy e inteligência de letras do seu fundo de catálogo. Simples e eficaz. (4/5)

Epistasis_LightThroughDeadEPISTASIS «Light Through Dead Glass»
Crucial Blast
Se o black metal aural, ensopado de noise e progressivo dos norte-americanos Epistasis era algo confuso na estreia, homónima, editada em 2012 pela The Path Less Traveled, neste novo MCD ganha propósito e esclarecimento. Não pensem, no entanto, que a coisa se simplificou: os 26 minutos de «Light Through Dead Glass» são uma viagem ao turbilhão de black metal carregado de ambientes soturnos dos Portal, com ocasionais incursões pelo prog-rock visionário dos King Crimson (o trompete da vocalista Amy Mills dá um excelente contraste ao caos sonoro que o envolve) e um noise experimental e selvático. Não é ainda uma proposta genial e irresistível, mas começa a fazer sentido e, sobretudo, a mostrar que os Epistasis têm um caminho próprio definido. (3/5)

GD17V4.pdfHERESIARCH «Wælwulf»
Iron Bonehead Productions
Black/death metal do mais obscuro que há é a proposta dos neo-zelandeses Heresiarch, que têm neste EP em 7” o seu terceiro lançamento, depois de uma maqueta de estreia e de um outro EP editados em 2011. A receita é complexa e cheia de zonas-sombra: death metal que oscila entre o mórbido/lento/atmosférico e as explosões de blastbeats, de voz cavernosa e letras obscuras. É o expoente máximo do underground death/black metal, com raízes no doom feio e desconfortável de gente como Convulse ou Witchcrist. Como não podia deixar de ser, «Wælwulf» tem edição em vinil de 7”, devidamente limitada. (4/5)

Koloss_EmpowerTheMonsterKOLOSS «Empower The Monster»
Argonauta Records
O bom e (começa a ficar) velho sludge/doom/pós-metal progressivo pelos ensinamentos dos Cult Of Luna, Isis e Neurosis, aqui na versão dos suecos Koloss, que se estreiam nos longa-durações com este «Empower The Monster». É intenso, envolvente a espaços e tem uma boa dinâmica entre riffs verdadeiramente monolíticos e partes melódicas de arranjos melancólicos. Seria espantoso há uma dezena de anos, mas agora os padrões estão demasiado altos, demasiado batidos e os Koloss não são assim tão bons que nos permitam esquecê-los. Isso faz destes 42 minutos um bom trabalho para fanáticos por Cult Of Luna e pouco mais. A edição é em LP de 180 gramas e limitada a 250 unidades. (3/5)

Poseidon_InfinityPOSEIDON «Infinity»
Argonauta Records
Não podemos andar a clamar por originalidade e depois, quando uma banda sai verdadeiramente fora da caixa, condená-la se as coisas não resultam exactamente bem. Os russos Poseidon tiveram a coragem de fazerem evoluir o seu pós-metal/sludge para uma espécie de rock atmosférico altamente evocativo, atmosférico e de vocalizações limpas. As influências pós-metal continuam lá e, mais para o fim do disco de estreia «Infinity», começam a aparecer brechas na receita musical que, na primeira parte do lançamento, se revela verdadeiramente refrescante, original e interessante. Mas isso não é motivo para rebaixarmos a incrível coragem dos Poseidon em enveredarem por algo que faz o crossover entre os universos de The Ocean e Ved Buens Ende. É que afinal, em boa parte dos 53 minutos de «Infinity», o grupo consegue-o com talento e classe. (4/5)

Septuagint_NegativeVoidTrinitySEPTUAGINT «Negative Void Trinity»
Forever Plagued
Sendo a mais nova da última geração de bandas gregas de black metal, os Septuagint marcam logo posição, neste MCD de estreia, no terreno mais ortodoxo e conservador do estilo. O duo sabe como acelerar as coisas, com blastbeats precisos, e salpica a coisa com a reserva de gelo nos riffs. Mas é suficientemente inteligente para apresentar tudo num manto de dinâmica que faz com que os cinco temas desacelerem frequentemente para mostrar o lado mais niilista e mórbido do projecto. «Negative Void Trinity» é, pois, black metal grego em todo o seu esplendor mas, também, uma súmula de tudo o que foi feito até aqui, sem acrescentar absolutamente nada. Vale o que vale. (3/5)

Taurus_NoThingTAURUS «No/Thing»
Auto-financiado
Os Taurus andam ali, no muro entre o vanguardismo tão out there que chega a ser assustador, e a pura esquisitice só pela esquisitice. Essa vontade desenfreada de evoluir e fazer algo de novo leva-os a trabalharem numa base de auto-financiamento, longe de editoras que possam cortar-lhes amarras criativas e colocar-lhes pressões indesejadas devido a resultados de vendas menos conseguidos «No/Thing», a nova proposta, é pois os Taurus a fazerem a sua cena sem qualquer tipo de reserva ou filtros. Ou seja, drone/doom com ocasionais gritos torturados black metal (Wrest, dos Leviathan, canta numa das cinco faixas), riffs death metal, sampling muito bem escolhido e produção (e ocasionais vocalizações) de Billy Anderson. Não se evita, por vezes, a sensação de que estamos, de fora, a ver passar um freak show, mas quem tem uma faixa como «Increase Aloneness», plena de hipnotismo atmosférico e prog-doom, pode dar-se ao luxo de ser freak. (3/5)

Thisquietarmy_SyndromeTHIS QUIET ARMY/SYNDROME «The Lonely Mountain»
ConSouling Sounds
Se thisquietarmy é fantástico e toda a gente mais ou menos o sabe, o projecto belga Syndrome, gerido por Mathieu Vandekerkhove dos Amen-Ra, não tem o mesmo tipo de exposição. É por isso que este álbum em conjunto faz tanto sentido. Mathieu colabora com os Eric Quach em três faixas de estúdio, mais negras, drone e dissonantes do que o material que ambos os projectos têm lançado até aqui, e o resultado é assustador e coeso. Ambientes pesados, noise ao alto e um grande sentido de atmosfera. A quarta e última faixa são 15 minutos de gravação ao vivo na actuação conjunta que ambos os projectos levaram a cabo durante a última digressão comum. Um dos momentos mais interessantes de drone/dark ambient dos últimos tempos. (4/5)

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}VALLEY OF THE SUN «Electric Talons Of The Thunderhawk»
Fuzzorama Records
Três anos e meio depois de terem iniciado a carreira, os norte-americanos Valley Of The Sun estreiam-se nos longa-duração e permitem-nos vislumbrar um pouco mais do stoner rock que agraciou os seus dois EPs. Os dez temas de «Electric Talons Of The Thunderhawk» são certamente algo que os fãs do género saberão apreciar, compostos pelas leis do estilo e gravados com uma qualidade seca – por vezes a roçar o lo-fi – que agudiza o sentido de rock’n’roll do deserto do trio. Por vezes, a coisa escapa um pouco para o pop (ouvir «Maya»), mas no geral os Valley Of The Sun contentam-se com o estatuto de banda de meio de tabela do stoner rock americano e apresentam um álbum condizente com isso. (3/5)

LostSocietyTH728

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