POSTO DE ESCUTA 02.05.2014

ExistanceApesar do par de lançamentos de black metal, do par de lançamentos de stoner rock, de um disco colaborativo de dois monstros em potência do doom/sludge/noise e da energia thrashcore dos Dis.agree, o Posto de Escuta desta semana está tomado de heavy metal clássico. Destacamos os Existance, mas há também a veia teutónica dos Edgedown, o NWOBHM dos Deep Machine e o heavy/doom dos Exorcism. Propostas muito válidas para quem se prepara para um fim-de-semana de temperaturas mais altas e procura a música certa para recebê-las em grande.

AHillToDieUpon_HolyDespairA HILL TO DIE UPON «Holy Despair»
Bombworks Records
Praticamente desconhecidos do lado de cá do oceano, os norte-americanos A Hill To Die Upon têm desenvolvido o seu black metal fortemente atmosférico e influenciado pelo death metal ao longo dos últimos dez anos, que lhes valeram dois álbuns de originais antes deste «Holy Despair». Na nova proposta, a música do duo composto pelos irmãos Cook (Michael na voz e bateria e Adam na guitarra, voz e baixo) adensa um pouco mais as coisas, com algumas partes acústicas e uma canção mais folkish, que têm como condão tornar ainda mais intensa a componente agressiva e pesada do black/death metal atmosférico que é a espinha dorsal da sonoridade dos A Hill To Die Upon. É interessante, é profundo e, não saindo muito do espectro do vosso black metal habitual, é uma boa proposta de meio de tabela. (3/5)

DeepMachine_RiseOfTheDEEP MACHINE «Rise Of The Machine»
High Roller Records
Depois de lançarem uma mão cheia de maquetas na primeira metade dos anos 80, os Deep Machine não tiveram a mesma sorte dos seus parceiros de cena NWOBHM Iron Maiden, Samson, Angel Witch ou Praying Mantis e nunca conseguiram o tão almejado contrato discográfico. Como resultado, o grupo perdeu motivação e cessou actividades, regressando em 2009 com o renascimento do género. Agora, dois EPs depois, lançam finalmente o seu álbum de estreia e mostram que o seu talento apenas precisava de uma montra. Porque não tentam soar como nos anos 80 – está-lhes nas veias – e o seu heavy metal de pendor NWOBHM é tão tradicional que parece retirado directamente da década dourada do estilo. Inocente e entusiasmante, mas também convincente e com uma vontade férrea de recuperar o tempo perdido, cumpre todas as premissas e lugares comuns do NWOBHM, mas fá-lo bem e com uma honestidade a toda a prova. Os fãs não precisam de saber mais nada. (3/5)

Disagree_BreakTheChainsDIS.AGREE «Break The Chains»
SAOL
Os alemães Dis.agree são uma jovem banda com uma enorme tragédia na sua curta história: o falecimento do cantor Denis Tiedz num acidente de viação em 2011, que faz com que este segundo álbum estreie Sebastian Linder na voz. Não é certo que o acontecimento incendeie ainda mais a fúria do thrashcore do quinteto, mas «Break The Chains» consegue chegar com alguma facilidade a padrões internacionais, inserindo no estilo da banda os inevitáveis breakdowns, particularmente pesados, e um lado death metal melódico que é tão previsível quanto funcional. Infelizmente, os Dis.agree contentam-se em chegar à receita-tipo e nunca tentam fazer alguma coisa própria com ela. Por conseguinte, «Break The Chains» é um disco de thrashcore bem feito, bem produzido mas estéril de ideias inovadoras, onde a alma musical própria parece ter tirado um dia de folga. (3/5)

Edgedown_StatuesFallEDGEDOWN «Statues Fall»
Massacre Records
Como banda relativamente jovem (foram formados em 2008) de heavy metal, os alemães Edgedown não escapam às influências “clássicas” do estilo, nomeadamente de Dio, Iron Maiden ou Savatage. E isso acaba por fazer com que a sua sonoridade seja mais ou menos igual a cada uma das outras novas propostas deste género que aparecem um pouco por toda a Europa. Certo, «Statues Fall» tem uma qualidade de produção apenas ao alcance de uma banda que vive na Alemanha e as ambições dos Edgedown incluem “modernizar” a sua abordagem com influências mais contemporâneas que, na prática, se traduzem num pouco mais de groove na composição e push na produção da secção rítmica. Mas continua a ser necessário mais alguma experiência e personalidade musical mais vincada. (3/5)

Existance_SteelAliveEXISTANCE «Steel Alive»
Mausoleum Records
Se a primeira coisa que chama a atenção nos Existance é o apelido do seu vocalista e guitarrista Julian Izard (filho de Didier Izard, da influente banda francesa de speed metal dos anos 80 H-Bomb), a verdade é que a música corresponde com qualidade à pressão que um nome como esse acarreta. «Steel Alive» é o primeiro disco “a sério” dos Existance, depois de duas maquetas (a última das quais de oito faixas, reeditada pela Pure Steel em CD e vinil) e mostra como o heavy metal “clássico” ainda pode ser feito de forma contemporânea, sem andar a copiar exactamente bandas do passado. Os 11 temas de «Steel Alive» são melódicos, blindados em termos de estruturas, de secção rítmica bem sólida e um dos melhores trabalhos de solos feitos nos últimos tempos. Soberbo e excitante. (4/5)

Exorcism_IAmGodEXORCISM «I Am God»
GoldenCore Records/ZYX Music
Três músicos dos Raven Lord e um baterista que faz parte das bandas que acompanham Jeff Beck e Joe Lynn Turner não fazem um “super-grupo”, como o comunicado de imprensa que acompanha «I Am God» quer fazer acreditar, mas os Exorcism têm experiência suficiente para fazerem as coisas minimamente bem. E é isso que este seu disco de estreia mostra, numa espécie de mistura de Black Sabbath da era mais heavy metal, de doom rock moderno e dos riffs de Zakk Wylde. Os dez temas cumprem escrupulosamente as regras do estilo, são bem compostos e bem tocados, mas nunca saem da zona do previsível e apresentam uma falta de alma que acaba por impedir «I Am God» de ser um disco realmente bom. É só mais ou menos bom. (3/5)

Intercostal_IntercostalINTERCOSTAL «Intercostal»
GPS Prod.
Os suíços Intercostal não resolvem o problema de como transformar o stoner metal em algo novo ou original, mas também não o ajudam a afundar fazendo apenas uma mera cópia de Torche. A abordagem do quarteto, instrumental, é especialmente afinada em baixo, dando uma intensidade extra aos riffs e à parede sonora criada por duas guitarras e por uma poderosa secção rítmica. Os 12 temas deste álbum de estreia homónimo revelam uma banda mais concentrada em soar intensa do que em procurar soluções complicadas para uma música que se quer simples, mas nem sempre directa. Algures entre o pós-rock instrumental e o stoner metal verdadeiramente pesado o mundo dos Intercostal aguarda visitas de fãs de Black Cobra, High On Fire e afins… (4/5)

Malhkebre_RevelationMALHKEBRE «Revelation»
I, Voidhanger Records
Adeptos confessos do black metal satânico “feio” e “nuclear”, os franceses Malhkebre editam aqui o seu primeiro longa-duração. Não esperem qualquer tipo de melodia de «Revelation». Os quatro elementos (três deles provenientes dos Melekhamoves e dos Kektarism e outro, o baixista, dos Merrimack e Vorkreist) destilam puro veneno em forma de black metal lo-fi, de altos e baixos rítmicos e vocalizações gritadas em desespero, à laia de ordens militares (se Satanás tivesse um exército disciplinado). Ainda algo confuso ao nível das ideias, nota-se em «Revelation» vontade dos Malhkebre assumirem o turbilhão black/death metal ultra-grave da escola francesa mas, ao mesmo tempo, respeitarem o lado mais tradicional, porco e niilista escandinavo de uns Carpathian Forest. Fica ali a meio. (3/5)

PetThePreacher_TheCaveAndPET THE PREACHER «The Cave & The Sunlight»
Napalm Records
Não há nada a fazer… As bandas de stoner rock/metal saem de todos os buracos e não há como parar a sangria. Os Pet The Preacher são dinamarqueses, «The Cave & The Sunlight» é o seu segundo álbum de originais e, se estivermos virados para ouvir stoner, a sua música propõe uma boa mistura de peso, refrões melódicos e solos psicadélicos. Se já ouvimos tudo o que o stoner tem para nos oferecer, não vão ser estes três nórdicos que nos vão surpreender, com a sua falta de ambição em fazerem algo mais do que apenas stoner rock/metal pela cartilha e com um pé na velha guarda. O que os safa é que o fazem bem, de forma eficiente e com uma dose generosa de talento na composição e arranjos. Não magoa, mas também não vos mudará a vida. (3/5)

TheBody_ThouTHE BODY/THOU «Released From Love»
Vinyl Rites
Não nos cansamos de dizer… Os álbuns colaborativos são os verdadeiros splits, aqueles em que é realmente acrescentada alguma coisa às ofertas dos grupos envolvidos. Por isso, não há forma de não gostar de «Released From Love», um conjunto de três temas originais e mais uma versão de «Coward» (um original de Vic Chesnutt), em que os norte-americanos The Body e Thou se juntaram para escrever e gravar juntos. E, mesmo levando em linha de conta o noise/metal dos primeiros e doom/sludge ensopado de noise dos segundos, a experiência destes 22 minutos é invulgarmente intensa, lamacenta, cheia de distorção, riffs monolíticos e vocalizações loucas. É preciso ouvir para acreditar. Edição exclusiva em vinil de 180 gramas. (4/5)

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