POSTO DE ESCUTA 04.06.2014

Zlang ZluTA semana está quase a terminar e não há maneira do calor vir para ficar. Por isso, este Posto de Escuta está recheado de propostas “quentes”. Temos hard rock com violoncelo, thrash alemão, emo sueco, darkwave/electro italiano, death metal old school, doom/sludge ensopado de noise e mesmo as propostas de black metal, apesar de virem de “congeladores” como a Finlândia e o Canadá, têm qualquer coisa de reconfortante. Vão buscar os auscultadores e uma ventoínha.

Colloquio_IoELautroCOLLOQUIO «Io E L’Altro»
Sad Sun Music
«Io E L’Altro» foi, em 1995, o último dos álbuns editados em cassete por Gianni Pedretti e pelos “seus” Colloquio. A partir daí, e devido ao estatuto de culto que a sua mistura de darkwave, música electrónica e tradição de composição italiana tinha já alcançado, o caminho foi sempre para cima, com álbuns em CD e um contrato com a Eibon Records firmado em 2001. Ainda assim, os 60 minutos desta obra de 1995, baseada na debilitação mental que uma série de ataques de pânico causam num determinado indivíduo, manteve a sua aura de experimentalismo inteligente e boa mistura sonora de elementos musicais aparentemente díspares. É um exercício desconfortável, contemporâneo e envolvente de música italiana (cantada em italiano!), enriquecida por darkwave e ligeiras influências elecrónicas. Quem não conhece pode agora obter esta versão em CD, remasterizada e com uma faixa-bónus. (4/5)

CrookedLetter_CrookedLetterCROOKED LETTER «Crooked Letter»
Black Star Foundation
Rock emo feito nos anos 90 era o que havia mais nos, erm, anos 90, mas a cena continua em grande nos E.U.A.. Por isso, não é admiração nenhuma que uma banda como os Crooked Letter apareça em… Espera lá, Suécia!? Pois. Gävle, uma das cidades mais working class suecas tem uma cena independente ocasionalmente forte e parece ter “cozinhado” a conjuntura ideal para os Crooked Letter, que juntam elementos dos In Ruins Of e Meleeh. Neste EP homónimo editado em vinil de 7” mostram uma consciência perfeita do que era a “cena de Gävle” nos anos 90, num misto de rock alternativo, emo e pós-hardcore cheio de intenção, melodias viciantes e estrutura indie. Vale bem os 5,00 Euros que custa. (4/5)

DustBolt_AwakeTheRiotDUST BOLT «Awake The Riot»
Napalm Records
Os Dust Bolt são jovens, são alemães e tocam thrash. Mas, de alguma maneira, as suas influências estão na Bay Area, em vez de no triunvirato germânico, e o resultado da abordagem musical que apresentam é um requentamento das sonoridades “clássicas” dos Exodus, Metallica e Testament. É suficientemente bem feito para agradar aos fãs do género, ainda para mais neste segundo álbum de originais em que a banda limou as arestas mais inúteis da sua música e apresenta apenas uma “sopa” de riffs da velha guarda, estruturas by the book e solos bem enquadrados. Mas não é suficientemente bom para entusiasmar por aí além, sobretudo quem já segue esta coisa do revivalismo thrash há tempo suficiente para saber que tudo isto já foi feito, de forma melhor, antes e muito antes. (3/5)

Fange_PoisseFANGE «Poisse»
Cold Dark Matter Records
Não faltam descrições sugestivas aos Fange nem à sua editora para ilustrar a música do EP de estreia «Poisse». “Se os Nihilist tocassem sludge nos amplificadores dos Sunn O)))” ou “Os Bongzilla encontram os Entombed num concerto dos Merzbow” são apenas duas, ambas aplicáveis. A verdade, nua e crua, é que o trio – onde pontifica o baixista dos Huata e o baterista dos Brain Pyramid – tem distorção e low end suficientes no seu doom/sludge/noise para atirar qualquer um da cadeira abaixo. Especialmente concentrados num som gravalhão, feio e hipnótico ao ponto do drone, os seis temas de «Poisse» são daquelas coisas tão extremas, tão impossivelmente pesadas que nos apelam ao gosto mórbido e nos fazem voltar para trás para ver o atropelo de comboio que fazem ao doom. (4/5)

Mirzadeh_DesiredMythicPrideMIRZADEH «Desired Mythic Pride»
Inverse Records
O black metal melódico e gótico pode parecer, à luz dos dias de hoje, uma coisa muito Dimmu-Borgir-anos-90, mas os finlandeses Mirzadeh têm provado na última década, com dois álbuns de originais editados, que é possível recuperar a sonoridade com um mínimo de dignidade. «Desired Mythic Pride» volta a fazê-lo com aquela mistura de black metal e teclados que produz uma atmosfera gótica e romântica em partes iguais, depois complementada com vocalizações variadas – mais guturais, mais gritadas, com letras em inglês e em finlandês – e uns pózinhos de folk que parecem inspirados em Finntroll e Glittertind. O resultado é muito específico e agradará certamente apenas a fãs deste género mais pegajoso de black metal, mas para os parâmetros do estilo é suficientemente coeso, frio e melódico para funcionar. (4/5)

Mordbrand_ImagoMORDBRAND «Imago»
Doomentia Records
Sim, o cadáver do death metal old school já cheira mal por todos os lados, mas é impossível não arranjar lugar na colecção para a outra banda do vocalista Per Boder, dos God Macabre, que chega finalmente aos álbuns completos depois de quatro anos a editar splits e EPs. «Imago» é o som do death metal mais distorcido da velha guarda sueca a apodrecer mais um bocadinho, de sonoridade clássica quanto o termo o permite, mas com ocasionais piscadelas de olho à melodia e mesmo um ensaio de cantoria com voz limpa na última faixa. Não é vanguardista, não é novo – de facto, é velho como se os God Macabre estivessem a gravar o seu disco de estreia agora, mas com produção decente – mas vale a pena ouvir, mesmo para quem pensa que já conhece tudo o que o novo/velho death metal sueco tem para dar. (4/5)

Rude_SoulRecallRUDE «Soul Recall»
FDA Rekotz
Os Rude são um belo artefacto para fãs de death metal old school. Reformados em 2011 (entre 2010 e 2011 chamaram-se Forsaker), rapidamente editaram uma maqueta em cassete e chamaram a atenção com uma mistura visceral de death metal primitivo à Pestilence e Autopsy e black metal das cavernas inspirado em Bathory e Celtic Frost. «Soul Recall», o álbum de estreia, concentra-se mais no lado death metal da sonoridade da banda e não se poupa a truques para recuperar o lado underground do estilo dos anos 90 – nem em técnica, nem em escrita e nem em sonoridade. O resultado é um conjunto de faixas muito definido, muito orientado para fãs dos primeiros lançamentos de Pestilence, mas nesse particular poucos projectos conseguem fazê-lo actualmente com a fidelidade, entusiasmo e atmosfera fétida dos Rude. (3/5)

Sabbatory_EndlessAsphyxiatingDoomSABBATORY «Endless Asphyxiating Gloom»
Unspeakable Axe Records
Death metal à antiga é a proposta dos canadianos Sabbatory, que se inspiram fortemente em bandas como Obituary, Celtic Frost e Asphyx para evocarem 33 minutos de pura blasfémia neste disco de estreia. A produção é um pouco fraca, mas suficientemente clara para percebermos que o quarteto do Winnipeg sabe o que faz e, no negócio do tráfico de influências, têm uma potencial receita vencedora em mãos, na medida em que sai do batido eixo sueco e usa maldade black metal para polvilhar o death metal rápido e vicioso que constitui a sua espinha dorsal. Por enquanto não passa de uma tentativa vagamente interessante, mas com o tempo, com o apurar de qualidades e, sobretudo, com uma produção mais pujante teremos aqui um caso sério para amantes do extremismo antigo. (3/5)

Thantifaxath_SacredWhiteTHANTIFAXATH «Sacred White Noise»
Dark Descent Records
Trio anónimo canadiano, os Thantifaxath praticam black metal que parece, numa primeira audição, meio ortodoxo mas que, na realidade, serve de capa a muito mais do que isso. Dissonâncias nos arranjos, pequenas texturas de prog rock nos cantos dos temas e uma gravação bem mais cuidada e clara do que é habitual no género transformam «Sacred White Noise», o disco de estreia do projecto, numa agradável surpresa. Imaginem os Negative Plane a tocarem músicas dos Deathspell Omega e terão uma ideia bastante clara no nível de vanguardismo sóbrio com que os Thantifaxath operam. Têm tudo para se tornarem o próximo caso sério do black metal do outro lado do Atlântico. (4/5)

ZlangZlut_ZlagZlutZLANG ZLUT «Zlang Zlut»
Czar Of Crickets Productions
O vocalista da mais importante banda suíça de tributo aos AC/DC (e baterista de nomes de relevo locais como Erotic Jesus ou Underdog) e um tipo que é frequentemente apelidado pela imprensa helvética como o “Hendrix do violoncelo”. Se estão a perguntar-se o que isto pode dar, precisam de ouvir o álbum de estreia, homónimo, dos Zlang Zlut. O duo distorce o violoncelo ao ponto dos riffs, leads e solos, aplica-lhe as estruturas simples do rock’n’roll clássico dos AC/DC e o tipo de melodias que funcionam (é aqui que entram as influências de Soundgarden e Clutch mencionadas no comunicado de imprensa da editora). É diferente, mas não é esquisito. É rock’n’roll que funciona bem, com os princípios certos nos locais certos. Só que é feito com um violoncelista, um baterista e a ajuda de um baixista. Vale a pena ouvir. (4/5)

Vad_Tibi_728x90

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s