POSTO DE ESCUTA 20.08.2014

Crucifyre Photo2 copyMais uma típica semana de Agosto, e mais um Posto de Escuta em que temos um pouco de tudo para todos. Os destaques vão para o crossover dos Cross Examination, para a roupagem old school dos Crucifyre e para o split cheio de coisas maldosas dos שְׁאוֹל (Sheol) e Fōr, mas há também metal/jazz, música experimental contemporânea, pop/punk, black metal sinfónico/industrial, AOR, metal/punk e power metal progressivo para tirar o sal dos ouvidos.

ARoadToDamascus_InRetrospectA ROAD TO DAMASCUS «In Retrospect»
Mighty Music
Em 2011, os dinamarqueses A Road To Damascus deram nas vistas, com o seu disco de estreia homónimo, por interpretarem aquilo que a imprensa classificou como “versão nórdica da sonoridade grande do rock/pop/punk americano”. Pensem na sensibilidade melódica dos 30 Seconds To Mars e na tendência para escreverem canções matadoras dos Green Day e terão uma ideia do tipo de proposta que o quarteto tem em mãos. «In Retrospect» é o segundo disco do projecto, de escrita um pouco mais simples que o antecessor e com uma melhor exploração do que realmente os A Road To Damascus têm de diferente: a melancolia. Isso e uma participação especial de Harry Radford, da banda inglesa de pós-hardcore Yashin, são os pontos altos de um disco que cumpre o objectivo de colocar-se entre o mais brilhante mainstream e, ainda assim, brilhar. (7/10)

CrossExamination_DawnOfTheCROSS EXAMINATION «Dawn Of The Dude»
Organized Crime Records
O verdadeiro crossover dos Cross Examination atinge um novo nível com «Dawn Of The Dude», este novo EP em vinil de 7” (também há uma versão digital) de sete faixas rápidas e letais em que o thrash, o punk, o hardcore e o crust são sovados até se tornarem uma polpa disforme. A estética da abordagem do quinteto do Missouri é tão cuidada quanto as unhas de um sem-abrigo em Kinshasa, mas o carisma e a energia que daí advêm são das coisas mais autênticas, violentas e contagiantes que o crossover/thrash expeliu nos últimos tempos. Estão aqui os verdadeiros herdeiros dos D.R.I.. (8/10)

Crucifyre_BlackMagicFireCRUCIFYRE «Black Magic Fire»
Pulverised Records
Juntar influências de death metal old school, black metal e thrash não é uma ciência muito exacta, mas o ponto de perfeição a que os suecos Crucifyre chegam neste seu segundo álbum de originais quase faz parecer que sim. A receita é aparentemente simples – misturar as sonoridades de Hellhammer, Nihilist e Venom – mas há nuances atmosféricas em «Black Magic Fire», assim como uma apetência natural para o death’n’roll dos infernos, que faz desta uma banda muito especial. Também não admira, com gente na formação que faz, ou fez, parte de bandas como Kaamos, Morbid, General Surgery, Nasum, Repugnante e Crematory. Mas, mesmo para super-banda, a relevância de um álbum de death metal sueco old school nesta altura do campeonato é alguma coisa de extraordinário. (8/10)

digipackDYNASTY OF DARKNESS «Empire Of Pain»
The Leaders Group
O passado dos Dynasty Of Darkness está envolto em alguma confusão e contradições, principalmente devido a uma ânsia da banda alemã em promover-se à conta do baterista contratado Hellhammer (Mayhem, Dimmu Borgir) e de fugazes aparições de Attila Csihar (Mayhem) e Weston Coppola Cage (Arsh Anubis), ainda numa altura em que se chamavam Death Of Desire. Agora, com novo álbum e novo nome, ficam “apenas” reduzidos a uma estirpe particularmente sinfónica e industrial de black metal, que faz um bom equilíbrio entre o lado mais romântico e o extremismo absurdamente rápido que Hellhammer consegue invocar tão bem. É vagamente interessante e chega a níveis de intensidade muito decentes, mas falta-lhe chama, alma e vísceras. (6/10)

matthewcollings_silenceisarhythmtooMATTHEW COLLINGS «Silence Is A Rhythm Too»
Denovali
Matthew Collings é um daqueles artistas modernos, que colabora com tudo o que é gente left field, incluindo outros músicos, realizadores e dançarinos. Algumas das suas obras incluem “instalações” em diversas exposições de arte contemporânea, vários discos do projecto lo-fi/ambient Sketches For Albinos e, por exemplo, uma banda-sonora composta para acompanhar o filme clássico de 1929 de Dziga Vertov. Em «Silence Is A Rhythm Too» Collings explora o mundo da música electro-acústica e contemporânea. Como não podia deixar de ser, trata-se de um conjunto de faixas altamente experimental, compostas por uma série de gravações de terreno, trabalhadas com pós-produção electrónica até à quinta casa do sofisticadamente esquisito. Não é para todos, como nenhuma música contemporânea é, mas «Silence Is A Rhythm Too» cai bem naquela categoria de obras que se ouve atentamente e onde se tenta sempre descobrir mais alguma coisa. (6/10)

Sheol_FORשְׁאוֹל (SHEOL)/FŌR «Split»
Iron Bonehead
Caso precisem de um refresco mental para os dias quentes que vão e vêm, a Iron Bonehead tem a solução perfeita. Um split 7” de duas bandas com capacidade para gelar qualquer cérebro e envolvê-lo em trevas vitrificadas. Osשְׁאוֹל (Sheol) são ingleses e o death/black metal da faixa apresentada («Phosphagous Amorpheon», de sete minutos) é tão cavernoso e nodoso que é impossível não pensarmos nuns Grave Miasma mais underground. Quanto aos suecos Fōr, a abordagem de «To Envisage A Fuliginous Sun» é bem mais indutora de drone e baseada no doom, mas a ética e a estética death metal estão bem presentes, em acelerações extremas e numa estrutura de composição retorcida e doentia. Magia, misticismo e brutalidade sem limites em 14 minutos preservados no mais nobre dos formatos; há melhor maneira de gastar o que sobra do subsídio de férias? (8/10)

StateOfSalazar_AllTheWaySTATE OF SALAZAR «All The Way»
Frontiers Records
Quem ouviu o EP de estreia dos suecos State Of Salazar sabe que não seria difícil à banda de Malmö confirmar os bons predicados do seu AOR/hard rock melódico num disco completo. «All The Way» fá-lo sem dificuldades, com uma dúzia de faixas que fazem da melodia do vocalista Marcus Nygren a sua grande arma, que não receiam usar os arranjos “clássicos” nas harmonias e estruturas, mas que têm um inconfundível sabor a modernidade. As habituais referências de Toto, Journey ou Survivor permanecem intocáveis, mas os State Of Salazar usam o seu entusiasmo para refrescar o estilo com uma série de canções que combinam riffs poderosos, solos assertivos e um sentido musical que confirma a Suécia como Meca do novo AOR. (7/10)

Studfaust_WhereTheUnderdogsSTUDFAUST «Where The Underdogs Bark»
Soulseller Records
Depois de um single inaugural lançado em 2012, os noruegueses Studfaust estão de volta com um mini-LP em 7” de sete faixas que carrega de novo na tecla do heavy metal de costela punk. Claro que o baterista Bard Faust (dos Aborym, Blood Tsunami, Emperor e Scum) sabe uma coisa ou duas sobre o assunto e a legitimidade que carrega transforma qualquer projecto em que entre numa coisa minimamente interessante, mas «Where The Underdogs Bark» sofre de uma certa falta de ambição que faz os temas serem “apenas” momentos interessantes de metal/punk. Com um pouco mais de gasolina nos riffs, dinâmica nos arranjos e cuidado na composição e teríamos uma proposta verdadeiramente válida, em vez de apenas um sucedâneo – embora bem engendrado – de Darkthrone e Chrome Division. (6/10)

Trioscapes_DigitalDreamSequenceTRIOSCAPES «Digital Dream Sequence»
Metal Blade
«Separate Realities», em 2012, cumpriu o sonho molhado de muitos amantes da fusão de jazz e metal, juntando o baixista de Between The Buried And Me Dan Briggs, um saxofonista e flautista chamado Walter Fancourt e um baterista chamado Matt Lynch. Nesse disco, notas, mudanças de tempo, melodias e anti-melodias voavam por todos os lados à velocidade da luz, por vezes numa complexidade anti-musical. O sucessor, agora, vem impor um pouco mais de ordem à música dos Trioscapes, mas nem por isso a amansa. «Digital Dream Sequence» é uma colecção de temas de puro jazz metal, que vai da improvisação selvagem às harmonias inspiradas em Yes, que vai da música étnica ao desumanamente técnico, muitas vezes na mesma faixa e em poucos segundos. Seguram-se bem porque a viagem é alucinante. (7/10)

Valkeryion_VisionOfFireVALKERYON «Vision Of Fire»
The Leaders Group
Power metal progressivo feito no Panamá é uma coisa com um potencial tão exótico que quase que se “vende” só pelo conceito. Infelizmente, os Valkeryon tentam afinar a bitola pelos parâmetros internacionais – nomeadamente o italiano – neste seu disco de estreia. E se, sem termos instrumentais, o colectivo parece bem desenvolvido e coeso, com solos de guitarra complexos e fortes e um teclista muito activo nos temas, por outro lado as vocalizações sofrem um pouco com a esterilidade desta colagem à cena italiana (Vision Divine, Labyrinth, etc). É certo que, de vez em quando, os Valkeryon lá conseguem engrenar em arranjos neo-clássicos em que o tom alto de Rubens acaba por resultar bem, mas continuaríamos, ainda assim, a preferir que houvesse um elemento de diferença em «Vision Of Fine» que mostrasse que os Valkeryon são do Panamá e têm orgulho disso. (6/10)

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