POSTO DE ESCUTA 06.11.2014

Brant Bjork copyÀ medida que nos aproximamos de mais um fim-de-semana, os leitores de CDs, os gira-discos e os MP3s parecem ansiar por música nova, e nós também. É altura de contactar os dealers e ver o que eles têm. Aqui fica um guia do que lhes podem pedir por estes dias. O stoner rock de Brant Bjork, o sludge/doom de contornos crust dos Downfall Of Gaia e o death/thrash metal melódico dos Shadowsphere estão no topo da lista, mas há virtualmente de tudo para todos os melómanos. Deixem-se perder.

Image generated by GPL Ghostscript (device=pnmraw)ANGUISH «Mountain»
Dark Descent Records
Os suecos Anguish fizeram um bom trabalho, em 2007, com o seu disco de estreia. Actualizaram a sonoridade “clássica” dos Candlemass, dando-lhe uma roupagem mais grave e pesada, não perdendo no entanto o sentido de terror e fantasia negra que ilustra tão bem este estilo de música. Conseguiram, com isso, obter as atenções dos fãs de doom metal, que capitalizarão certamente com esta segunda proposta, um pouco mais variada mas nem por isso menos focada ou interessante. Quando uma banda consegue juntar, na mesma faixa, heavy/doom metal, funeral doom e teclados eerie, não há como não gostar dela. É o caso dos Anguish, de «Mountain» e, nomeadamente, da canção «The Woven Shield». É um mundo musical labiríntico e estranho, mas as regras do doom clássico são cumpridas, servindo de ponto de partida para algo maior e mais sinistro. (7/10)

Arroganz_TodAndTeufelARROGANZ «Tod & Teufel»
FDA Rekotz
Terceiro álbum de originais para os alemães Arroganz, cujo death metal rico em intensidade e assertividade parece conquistar um cada vez maior número de fãs. «Tod & Teufel» mostra bem porquê: a afinação de guitarras à Bolt Thrower, os riffs a meio caminho para o black metal suecos dos Marduk e um sentido de estética death/black metal muito presente em cada um dos 51 minutos do disco fazem desta proposta uma coisa apetecível para fãs da abordagem mais tradicionalista e competente que é característica das bandas alemãs. Ainda não é desta – e provavelmente nunca será – que os Arroganz se arriscam a entrar por terrenos de alguma originalidade e personalidade própria, mas quem procura bom death/black metal, sólido e feito pela cartilha, tem aqui uma boa alternativa. (7/10)

BrantBjork_BlackPowderFlowerBRANT BJORK AND THE LOW DESERT PUNK BAND «Black Powder Flower»
Napalm Records
Como baterista dos Kuyss, o baterista Brant Bjork ascendeu à meca do stoner metal/rock, via genialidade psicadélica. Actualmente parte da formação da banda que herdou o legado espiritual dos Kuyss – os Vista Chino – Bjork largou a bateria por uns tempos e gravou, à guitarra e voz, um disco em nome próprio, com ajuda de três tipos da zona do Palm Desert a que chamou The Low Desert Punk Band. O resultado é «Black Powder Flower», uma colecção de uma dezena de temas de stoner/doom/blues rock em que a distorção, os solos psicadélicos e os riffs podem parecer familiares, mas são-no apenas porque Bjork os retira directamente do Grande Livro do Stoner que ajudou a escrever há duas décadas atrás. Entre os Vista Chino, o disco a solo de John Garcia e este «Black Powder Flower», os habitantes espirituais do Palm Desert não têm tido razão de queixa ultimamente. (8/10)

BroughtonsRules_AnechoicHorizonBROUGHTON’S RULES «Anechoic Horizon»
Relapse Records
Segundo as regras não escritas do pós-rock, quanto mais evocativa for a música, melhor. Atmosferas, ambiente de banda-sonora, melodias hipnóticas, vale tudo para plantar imagens dentro da cabeça do ouvinte. Os Broughton’s Rules acrescentam-lhe ainda um lado de imprevisibilidade desconfortável que afasta imediatamente que acha que o pós-rock deve ser sempre bonitinho, mas o resultado final é interessante. Em «Anechoic Horizon», o segundo disco do projecto (liderado pelo guitarrista dos Don Caballero, que conta ainda com um ex-guitarrista da mesma banda) as coisas baseiam-se num precário equilíbrio entre o noise negro caótico e a beleza aural de momentos de pura luz atmosférica. Não é perfeito e nem sequer é minimamente coerente, mas por este tipo de imperfeição e absurdidade extrema, uma pessoa pode perfeitamente apaixonar-se, se quiser. (7/10)

DownfallOfGaia_AeonUnveilsTheDOWNFALL OF GAIA «Aeon Unveils The Thrones Of Decay»
Metal Blade
Podiam ser apenas mais uma banda no mar de pós-metal e sludge atmosférico, mas as raízes crust dos Downfall Of Gaia dão à sua música um sabor bem distinto e original. Ao chegar ao terceiro álbum, o quarteto alemão recupera boa parte da fúria dos seus primeiros tempos e incrusta-a, com arte e sabedoria, nos momentos mais atmosféricos e lentos dos sete temas. O resultado respira dinâmica como poucos discos hoje em dia conseguem ter, abarcando fúria insana e fragilidade ambiental num pulsar musical coerente e coeso, completo com um conceito inteligente sobre o maior inimigo do homem: o tempo. É um bom terceiro álbum e uma boa surpresa para quem deixou, até agora, passar ao lado esta muito válida proposta de sludge/pós-metal/crust. (8/10)

LadderDevils_CleanHandsLADDER DEVILS «Clean Hands»
Brutal Panda Records
Depois de uma série de lançamentos secundários (EPs, splits, etc), os norte-americanos Ladder Devils editam em «Clean Hands» o seu primeiro longa-duração a sério, se caso consideremos 31 minutos um período “longa-duração”. Não faltam, no entanto, argumentos à banda de Filadélfia para fazer cada um dos minutos do disco um monumento de intensidade, com a mistura de noise-rock, punk, grunge e pós-hardcore que praticam. Há um sentido de experimentação selvagem, muito Pixies, na música dos Ladder Devils, o que faz com que mesmo os temas mais lentos – como «Land Of Beauty» – nunca sejam momentos verdadeiramente mortos, mas é no fogo distorcido de temas de menos de dois minutos como «Eye Of The Mundane» que está a verdadeira alma desta banda. Não é incrivelmente revolucionário, mas é suficientemente bom. (7/10)

NKVD_HakmarrjaN.K.V.D. «Hakmarrja»
Avantgarde Music
Partindo de uma interessante e original base temática da ditadura soviética, o projecto francês N.K.V.D., gerido por L.F., chega ao segundo álbum de originais com uma dissonante e quase fisicamente ameaçadora pasta sonora de black metal industrial. O véu de dark ambient que envolve toda a contundência da ocasional velocidade e a variedade vocal (death metal, black metal, tom autoritário, pontual sampling) é uma definitiva mais valia e «Hakmarrja» não tem grande dificuldade em perfilar-se ao lado dos mestres do black metal industrial como Aborym ou Mysticum. Possui densidade, extremismo e provocação aural suficientes para isso. (7/10)

Saille_EldritchSAILLE «Eldricht»
code666
É cíclico, mas isso não tem de ser necessariamente mau. À medida que as bandas “grandes” de black metal épico e sinfónico vão gastando a inspiração e sonoridade, novos grupos aparecem para manterem a “chama” viva. É o caso dos belgas Saille que, neste terceiro disco de originais, limam todas as arestas que ainda impediam o seu black metal altamente evocativo, sinfónico e épico de funcionar na perfeição. Há de tudo em «Eldricht» o que os fãs do estilo querem e apreciam: rapidez, agressividade, atmosferas densas, inspiração na literatura gótica e um lado épico e grandioso difícil de superar. Assim que derem mais um passo em frente e encontrarem algo verdadeiramente seu, nada impedirá os Saille de reclamarem o trono que em tempos pertenceu aos Dimmu Borgir e Keep Of Kalessin. (7/10)

Shadowsphere_DarklandsSHADOWSPHERE «Darklands»
Auto-financiado
Uma das coisas que mais frequentemente passa pela cabeça de quem vê os Shadowsphere ao vivo é “Como soariam clássicos como «The Everlasting Dream» gravados hoje, com produção moderna e esta coesão da banda?”. A resposta está nesta regravação do disco de estreia da banda da Margem Sul, produzida por Wilson Silva (dos More Than A Thousand) até à perfeição cristalina e punitiva do mais destrutivo death/thrash metal melódico. Os Shadowsphere não regravaram todos os temas de «Darklands», concentrando-se nas cinco canções mais emblemáticas e nos três interlúdios originais, fazendo um trabalho exemplar na “modernização” deste clássico do metal nacional, inspirado no filme “Drácula” de Francis Ford Coppola. Mesmo quem tenha a primeira versão, terá poucos argumentos para resistir a esta “sequela”, tais os níveis de intensidade, poder e coesão do thrash/death que os Shadowsphere lhe injectam. (8/10)

Usnea_RandomCosmicViolenceUSNEA «Random Cosmic Violence»
Relapse Records
Sim, os Usnea são mais uma banda a praticar doom/sludge. Sim, são daquelas que chegam à Relapse. E sim, têm uma sonoridade capaz de fazer disparar um sismógrafo. Antes, no entanto, de lhes colarem a etiqueta “Hype!”, escutem «Random Cosmic Violence», seu segundo álbum de originais, e tentem ficar indiferentes a todo aquele doom a acumular peso sludge e ritualismo funerário. É que estes americanos, meus senhores, podem usar os mesmos ingredientes sonoros de centenas de outras bandas, mas o resultado é tudo menos previsível ou batido. Pelo menos na intensidade, distorção e poder hipnótico que conseguem transmitir. E isso, no doom/sludge ritualista, faz toda a diferença. (8/10)

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