POSTO DE ESCUTA 24.11.2014

Soen copyNada melhor para começar a semana do que um Posto de Escuta cheio de música fresca e pronta a ser descoberta e enfiada no vosso leitor de música. O gourmet da semana vai para o heavy metal clássico dos Hi-Gh e para o metal/rock progressivo dos Soen, mas também há EPs novos de Sodom, Cinemurte e Year Of The Goat e boas descobertas para quem gosta de black metal ambiental, doom/heavy metal, grindcore, rock/metal alternativo e música neo-clássica contemporânea. Boa semana!

CarlosCipa_AllYourLifeYouWalkCARLOS CIPA «All Your Life You Walk»
Denovali Records
Depois de um disco de estreia em que se colocou graciosamente entre os mais promissores artistas de música contemporânea de piano, Carlos Cipa lançou, em 2003, um EP em colaboração com a pianista e compositora Sophia Jani e inseriu um lado experimental na sua música, acrescentando sons de dentro do piano na sua sonoridade. «All Your Life You Walk» segue o mesmo caminho. Por um lado, é composição neo-clássica obviamente inspirada por nomes como Mozart, Debussy ou David Lang. Por outro, quando ouvidas com atenção, as músicas revelam pormenores deliciosos, de instrumentos raros e/ou antigos, recuperados e interpretados por Cipa para depois serem processados e entrarem suavemente nas suas composições. Uma proposta de música neo-clássica para piano não deveria ter este lado negro e experimental. Ou deveria? (6/10)

Cinemuerte_DhistCINEMUERTE «Dhist»
Raging Planet Records
Não foram necessários mais de dois anos depois da edição de «Wild Grown», o terceiro álbum de originais dos lisboetas Cinemuerte, para o que o projecto voltasse cheio de música nova. Desta feita, o plano é editar três EPs consecutivos, dos quais «Dhist» é o primeiro. As cinco faixas do registo seguem as pisadas de rock alternativo e electrónico que têm dados bons resultados ao grupo liderado pela vocalista Sophia Vieira e pelo guitarrista e programador João Vaz, mas com uma estética sonora mais heterogénea e com um aguçar de peso nas guitarras. Em termos de melodias, no entanto, os Cinemuerte continuam a evitar ser demasiado óbvios e a ter uma robusta componente experimentalista na composição, acabando por propor meia-dezena de canções que, tal como nos álbuns anteriores, ficam a meio entre o adulto e o imediato, entre a fusão inteligente de rock/electrónica e o pop/rock alternativo meio inconsequente em termos de estruturas. Não surpreende, mas também não desilude. (6/10)

Esoterica_AseityESOTERICA «Aseity»
Demonhood Productions
Cerca de um ano depois da edição original em CD, este primeiro longa-duração dos Esoterica chega agora ao formato de vinil pela mão da Demonhood e dá-nos oportunidade de voltar a destacar o black metal de forte componente ambiental feito por este projecto com gente de Accursed Aeons, Lithotome e Chaos Moon. A descarga de black metal é opressiva, sonicamente carregada e rápida como poucas, e o trio de Filadélfia usa as atmosferas cheias para adensar ainda mais o ambiente do lado extremo, optando por parar poucas vezes o blastbeat e o caos sónico coroado pelos gritos desesperados de A. Poole (que, por sinal, é guitarrista dos Krieg, só para terem uma ideia do tipo de qualidade aqui envolvida). Se falharam a edição em CD, a Demonhood dá-vos agora uma nova oportunidade de levarem esta fatia de negridão psicadélica para casa. (7/10)

Hi-gh_TillDeathAndHI-GH «Till Death And After»
Metal On Metal Records
Directamente das ruas de Roma para a ementa de heavy metal clássico bem feito, os Hi-gh estão de volta para o segundo álbum de originais e acrescentam competência técnica a uma atitude que já tinham provado ser a ideal para quem gosta de heavy metal old school mas não se revê no revivalismo do rebanho. Agora, com uma mistura explosiva de speed metal, punk e heavy metal clássico, «Till Death And After» não dará qualquer hipótese aos fãs de Motörhead, Judas Priest, Exciter e afins. Antes de conseguirem dizer “autenticidade”, estarão mergulhados num remoinho de riffs contundentes, speed metal, solos arrasadores e punk/metal que encheria Lemmy Kilmister de orgulho. A cena está aqui. (9/10)

GDOB-30H3O1-001.pdfIN AEVUM AGERE «Limbus Animae»
Pure Steel Records
Se fossem necessárias mais provas de que os In Aevum Agere são a melhor banda de doom/heavy metal que a Itália produziu nos últimos anos, aqui estão 300. Uma por cada cópia do vinil onde «Limbus Animae», o novo EP da banda, foi gravado. São três temas originais (mais uma versão de «Solitude» dos Candlemass, pois claro) onde o espírito mais honesto e tradicional do doom é recuperado, componente a componente, com uma formalidade e entusiasmo contagiantes. Grandes – e épicos – solos são a imagem de marca do projecto napolitano, que segue o mesmo tipo de melodias, riffs e estruturação de temas dos seus heróis musicais que são, invariavelmente, os deuses suecos: Candlemass, Memory Garden, Memento Morti ou Sorcerer. Agarrem uma das 300 cópias (o MLP está apenas disponível em vinil) e provem por vocês mesmos a superioridade doom dos In Aevum Agere. (8/10)

Sodom_SacredWarpathSODOM «Sacred Warpath»
Steamhammer
O thrash dificilmente pode ser mais clássico e icónico do que quando sai dos instrumentos dos alemães Sodom. A banda liderada pelo baixista e vocalista Tom Angelripper está activa – sem desistências a meio do caminho nem reuniões com desculpas patéticas – desde 1981, lançando 14 álbuns de originais e inúmeras outras edições, nunca derivando a sua música do mais beligerante e teutónico thrash que pode ser feito. O trio também não precisa de grandes desculpas para editar música nova, por isso «Sacred Warpath» é uma faixa que os Sodom tinham escrito para o próximo álbum de originais, mas apeteceu-lhes lançá-la já. Vai daí, sai um EP (em CD e vinil, este último limitado a 1.000 unidades e com o selo de objecto de coleccionador) com esta canção de puro thrash alemão com a imagem de marca de uma das mais agressivas e empenhadas bandas que ajudaram a formar o estilo. O disco fica completo com três clássicos gravados ao vivo: «The Saw Is The Law», «Stigmatized» e «City Of God». Não é preciso grandes explicações ou teorias; os fãs de thrash devem ter isto em casa. (8/10)

Soen_TellurianSOEN «Tellurian»
Spinefarm Records
O projecto que junta o baterista dos Amon Amarth Martin Lopez e o vocalista dos Willowtree Joel Ekelöf está de volta para um segundo álbum de originais, que confirma a forma elegante como a banda trilha o caminho entre o metal progressivo (do meio da carreira) dos Opeth e o rock/metal dinâmico e emocional dos Tool. Desta vez não há Steve DiGiorgio agravar o baixo, mas os Soen surgem mais soltos de amarras, mais emotivos e com uma composição mais coesa, plena de melodias viciantes, ritmos intrincados e canções tão multifacetadas que podem ser ouvidas dias a fio sem nunca fartarem. «Tellurian» é o disco perfeito para fãs de Opeth (afinal, Lopez foi o baterista dos suecos durante sete anos) que acham que a fase «Ghost Reveries» devia ter durado mais um pouco. (9/10)

SposaInAltoMare_NevergrindSPOSA IN ALTO MARE «Nevergrind»
Auto-financiado
Nada parece deter os italianos Sposa In Alto Mare,que desta vez apontam o seu grindcore explosivo e corrosivo ao grunge e propõem um álbum chamado «Nevergrind». E, como já é habitual no trio transalpino, cozinham uma bela sopa com influências de punk hardcore e crust punk, temas mais orelhudos, outros mais rápidos, outros ultra-brutos, uma dose dupla de versões (Agathocles e Regurgitate) e alusões a temas de outras bandas (Nirvana, pois claro, mas também «At War With Satan» dos Venom) metidas no meio dos originais. No total, são 17 faixas de puro divertimento grind que é suficientemente parvo, suficientemente irónico e suficientemente competente para convencer os mais exigentes fãs do estilo. E, claro está, a classe de canções com títulos como «Poo Fighters» ou «No, We Aren’t Another Fuckin’ Stoner Doom Band» serve como um delicioso e enorme bónus. (8/10)

ThomasGiles_ModernNoiseTHOMAS GILES «Modern Noise»
Metal Blade
Thomas Giles tem provado ao longo dos anos, não apenas nos “seus” Between The Buried And Me mas também nos trabalhos em nome próprio e em algumas colaborações com outros artistas, que é um músico e compositor de mão cheia. «Modern Noise», o novo disco “a solo” (Will Goodyear, ex-percussionista dos Between The Buried And Me, gravou a bateria) de Giles navega num mar de rock progressivo, pop/rock alternativo e electrónica, ao sabor da mais natural composição “não-metálica” do vocalista e multi-instrumentista. Há momentos sublimes, momentos mais ou menos e momentos de alguma bizarria que requerem um bom poder de encaixe para os percebermos na sua totalidade, se é que alguma vez os percebemos. Deve um pouco à coesão, mas «Modern Noise» pode ser uma boa opção para quem procura rock adulto, sofisticado e com um pé no progressivo experimentalista sem peneiras. (7/10)

YearOfTheGoat_TheKeyAndYEAR OF THE GOAT «The Key And The Gate»
Napalm Records
«The Key And The Gate» é o primeiro sinal de vida dos suecos Year Of The Goat depois de terem lançado, há dois anos, um disco de estreia que ficará para os anais da história do doom rock/metal como um dos mais brilhantes momentos dos anos 10. Os três novos temas agora apresentados pelo sexteto seguem o mesmo caminho estilístico: rock ocultista à The Devil’s Blood, aliado ao doom rock mais psicadélico e a pózinhos de blues e soul, genialmente usados em composições que brilham com arranjos inteligentes, melodias memoráveis e ambientes proto-litúrgicos envolventes. Pelos vistos o brilhantismo da estreia não foi obra do acaso. (8/10)

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