POSTO DE ESCUTA 17.12.2014

Crossed Fire copyComo diz o outro, o Inverno está a chegar e, com ele, uma altura festiva que requer, frequentemente, uma capacidade de alheamento apreciável. Por isso neste Posto de Escuta damos-vos uma série de alternativas para colocarem os headphones e esquecerem que estão naquela fila interminável ou num centro comercial qualquer cheio de formigas à procura da migalha de pão que lhes falta. A música contemporânea/tribal do novo projecto de Mike Patton, o folk medieval dos brasileiros Olam Ein Sof ou o delírio experimental-electro-drone de Nelson P. Ferreira e Rui P. Andrade são apenas três exemplos, mas também há o hardcore/metal energético dos Enabler, o US power/thrash dos Wretch e muito – e bom – metal português. É só escolher a viagem.

CrossedFire_LifesAGambleCROSSED FIRE «Life’s A Gamble»
Hellxis Records
É um sinal dos tempos que uma jovem banda como os Crossed Fire, apesar de conter elementos e ex-elementos de projectos como Dawnrider, Revtend ou Confront Hate, se tenha estreado com um EP com tanta qualidade como «It’s All About Chaos». A um groove imenso, os algarvios aliavam riffs de inspiração southern e queda para a composição de canções que ficam na cabeça de quem as ouve. Agora, dois anos depois, o quinteto confirma os predicados com uma colecção de 12 faixas que contam com um renovado push na produção, que torna ainda mais intensa a sonoridade groove/stoner dos Crossed Fire e que os coloca em pé de igualdade com as (melhores) propostas internacionais do estilo. O metal nacional está garantido, com uma nova geração assim. (8/10)

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}ENABLER «La Fin Absolue Du Monde»
Century Media
Gostaríamos de endereçar, antes de mais, um pedido de desculpa formal à Earsplit Compound por não termos criticado, por falta de tempo, este segundo disco dos norte-americanos Enabler em Outubro do ano passado quando a promo nos foi originalmente enviada. Como dois erros nunca dão uma coisa acertada, aproveitamos agora a edição europeia, pela mão da Century Media, para destacar o hardcore/metal absolutamente energético e inteligente do trio. Na sua essência, «La Fin Absolue Du Monde» está entre a libertinagem quase-math dos Every Time I Die e a atracção da juventude de uns Architects, mas há ideias, maneirismos e personalidade musical suficientes neste longa-duração para que os Enabler possam ser considerados mais do que apenas “mais uma” banda no renovado movimento metalcore. Se as designações estilísticas vos fizerem confusão, encarem isto como “thrash/punk/death/hardcore”, mas por amor dos deuses, não deixem passar «La Fin Absolue Du Monde» sem lhe darem uma oportunidade. (7/10)

Fleshworld_Gazers_VisceraFLESHWORLD/GAZERS/VISCERA/// «Split»
Unquiet Records/Sell Your Soul
Mais um lançamento muito válido para quem procura novas propostas na área do pós-metal. Os polacos Fleshworld são já uns velhos conhecidos nossos (escrevemos sobre o seu disco de 2013 «Like We’re All Equal Again») e revelam, nos três temas deste split alguma evolução no seu sludge/pós-metal à Cult Of Luna, numa direcção mais orgânica, rítmica e própria. Os franceses Gazers estão presentes com outras três faixas onde a palavra-chave é “equilíbrio”. Um equilíbrio por vezes precário entre pós-black metal, noise rock, pós-hardcore e algum screamo, mas a coisa acaba por funcionar, sobretudo para quem gosta de emergência crua e energia juvenil na sua música. Os italianos Viscera/// são uma besta um pouco mais madura, mas isso não significa que o seu pós-hardcore, injectado de sludge, algum drone e psychedelia, não contenha largas doses de energia e qualidade. Como foi referido anteriormente, uma boa porta de entrada para três universos paralelos que valem a pena explorar. (7/10)

Monolyth_OriginMONOLYTH «Origin»
Auto-financiado
Com um par de elementos a vir dos Colosso e dos Munchies e os outros sem qualquer experiência musical relevante anterior, os Monolyth são daquelas bandas que não deveriam soar assim com tão pouco tempo de actividade. Não é, de todo, natural que uma banda, mesmo que activa há cinco anos, edite um disco de estreia com a coesão técnica, a qualidade de produção e a competência de composição que os aveirenses revelam em «Origin». Movendo-se num groove metal com inspiração death metal, progressiva e de algum djent, o quinteto dispara uma dezena de canções a que não faltam argumentos para convencer fãs de Lamb Of God, Machine Head, Meshuggah ou Crushing Sun, cheios de riffs demolidores, com uma secção rítmica monstruosa e de ataque vocal robusto. É a nova geração do metal português, no seu melhor, a dar cartas que poderiam – deveriam – perfeitamente pertencer a um baralho qualquer internacional. (8/10)

NelsonPFerreiraRuiPAndreade_MiklosNELSON P. FERREIRA/RUI P. ANDRADE «Miklós»
Haze
Novo capítulo da colaboração entre os produtores Nelson P. Ferreira (Ecos) e Rui P. Andrade (Avoidant), depois de uma experiência em 2011. E, como em «White Mother», o terreno musical de «Miklós» é a música experimental, electrónica, com laivos de distorção industrial e ocasionais piscadelas de olho ao drone. Só que, em «Miklós», o duo vai mais longe na exploração de texturas sonoras, deixando para trás todo e qualquer resquício melódico, tornando a proposta uma paleta de experimentalismos vanguardistas feitos apenas para quem aprecia este timo de manipulações sónicas. É interessante e ambientalmente envolvente, embora caia por vezes numa espécie de flatline emocional, provavelmente propositado, que não ajuda à dinâmica da coisa. (7/10)

OlamEinSof_ReinoDeCramferOLAM EIN SOF «Reino De Cramfer»
Auto-financiado
Houve quem os visse este Verão na digressão por feiras medievais portuguesas que fizeram, mas quem não conhece os brasileiros Olam Ein Sof tem em «Reino De Cramfer», o mais recente de uma série de álbuns de originais que editaram nos seus 13 anos de carreira, uma boa oportunidade de mergulhar no folk medieval do duo. A abordagem é acústica, de instrumentos tradicionais como mandolim, charango, cuadro venezuelano e cítara (para citar apenas alguns), o que dá uma aura de autenticidade à música dos Olam Ein Sof, que é depois bem enquadrada pelos vocalizações suaves (em português!) de Fernanda Feretti. Os arranjos recorrem a harmonias medievais e, pese embora não sejam particularmente evocativos, cumprem na perfeição a função de tornarem o projecto como o mais interessante dentro do spectro folk/medieval do Brasil. (7/10)

Tetema_Geocidaltētēma «Geocidal»
Ipecac
Mike Patton, dos Faith No More, fundador da Ipecac Recordings, é conhecido por se meter nas mais estranhas e experimentais colaborações musicais de que há memória. Em tētēma, fá-lo com o compositor e pianista australiano Anthony Pateras, numa colecção de temas algures entre o contemporâneo e o tribal, extremamente rítmicas e quase improvisadas (sobretudo ao nível das vocalizações). Como em tudo o que Patton mete o dedo, «Geocidal» tem um lado de loucura descontrolada que requer algum tipo de habituação e a mente muito aberta para que se aprecie condignamente a música, mas tētēma tem orgânica e pormenores suficientes para que a sua descoberta seja cheia de prazer auditivo e espanto sónico. (7/10)

TheAutist_EntangledTHE AUTIST «Entangled»
Music In My Soul/Arcadia
Pode acusar-se os lisboetas The Autist de muita coisa: de serem demasiado jovens, enquanto banda, para lançarem um primeiro EP (o projecto nasceu este Verão), das melodias da voz de Edna Gutierrez (e Diana Rosa, dos 11th Dimension, em duas faixas) não encaixarem ainda perfeitamente na intensidade do groove metal da banda e da gravação poder ter um pouco mais de push e dinâmica. Mas há uma coisa de que não podemos acusar o sexteto: de falta de ambição. Porque misturar djent, groove metal e uma abordagem vocal dual masculina/feminina não é tarefa fácil, mas isso não os desanima e «Entangled» são sete faixas que funcionam com uma energia muito própria, pese embora com o peso da inexperiência e de alguma inconsequência na composição a toldar-lhes os movimentos. Mas, saibam eles vencer as adversidades muito próprias de uma jovem banda de metal português e a experiência dar-lhes-á o esclarecimento e o “calo” que falta a «Entangled». A ambição e uma genuína génese de talento parecem estar lá. (6/10)

Witherscape_TheNewTomorowWITHERSCAPE «The New Tomorrow»
Century Media
Depois da excelente surpresa que foi o disco de estreia de Witherscape, o projecto composto por Dan Swäno (Edge Of Sanity, Nightingale, Bloodbath) e pelo multi-instrumentista Ragnar Widerberg está de volta com um EP especial que visa fazer a “ponte” entre o primeiro e o próximo álbum do duo. «The New Tomorrow» contém o tema-título, uma “continuação” de uma canção do disco de estreia, chamado «Dead For Another Day» (o original chamava-se «Dead For A Day») e versões de canções de Kiss («A World Without Heroes»), Judas Priest (Out In The Cold») e Warrior («Defenders Of Creation»). É, sem dúvida, material especial para os fãs do death metal progressivo, old school e atmosférico que o duo assume de forma sublime. Existem diversas edições limitadas em vinil, mas a versão em CD vale também a pena (contém a mistura sonora feita especialmente para vinil como bónus), bem como a edição digital, que tem covers adicionais («A Cry For Everyone» de Gentle Giant e «Last Rose Of Summer» de Judas Priest). (8/10)

Wretch_WarriorsWRETCH «Warriors»
Pure Steel Records
Os Wretch são daquelas bandas que nos apetece apreciar só de olharmos para a sua história. Activos desde 1983, enfrentaram uma série de dificuldades de financiamento e formação, lançando a primeira maqueta apenas em 1989 e uma segunda em 2004, até chegarem ao álbum de estreia dois anos depois. Agora, volvida uma década, com uma compilação (2007) e um EP (2013) pelo meio, regressam aos longa-duração com uma nova colecção de canções do US power/thrash metal honesto que caracteriza a sua sonoridade. As vocalizações são melódicas, os riffs são robustos e os solos recorrem frequentemente às duas guitarras na melhor tradição americana do heavy metal, mas «Warriors» raramente consegue passar de um exercício de power/thrash ligeiramente genérico, feito por bons tipos com uma paixão verdadeira. Vale o que vale, mas apenas os mais especializados fãs encontrarão aqui algum interesse. (6/10)

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