POSTO DE ESCUTA 09.01.2015

EskapiDois mil e quinze promete ser um ano de grande (preencher com adjectivo que se aplique) e, por isso, nada melhor do que uma playlist que reflicta precisamente esse estado de espírito. Se a vossa cena é apocalíptica/suicida, os suecos Eskapi estão na ordem do dia. Para os undergrounders há coisas como Witchrist, Morbosidad, Derrame, Ingurgitating Oblivion e Ascension. Depois, há a melancolia que escorre do EP dos Slowgold, o doom/death metal desesperado dos Aphonic Threnody e a maluqueira (mais) controlada dos 6:33. Muitas e boas propostas para voltar à rotina.

6-33_DeadlyScenes6:33 «Deadly Scenes»
Kaotoxin Records
Verdadeiros herdeiros do espírito libertino e louco dos Carnival In Coal (o vocalista Arno Strobl chegou a participar no álbum anterior), os franceses 6:33 estão de volta com o terceiro álbum de originais e, na medida do possível, uma abordagem um pouco mais madura à sua receita musical. Onde antes havia pura esquizofrenia estilística, os gauleses unem agora as pontas com um lado muito cinematográfico da sua música, cuja ocasional narração ajuda a manter coeso, e que lhes permite depois dar algum sentido aos saltos entre rock/soul à Faith No More, metal progressivo e vislumbres de inúmeros outros géneros. Eles chamam-lhe uma mistura de Devin Townsend, Mike Patton e Tim Burton e, em boa verdade, com as devidas distâncias, não andam muito longe da verdade. (7/10)

AphonicThrenody_FirstFuneralAPHONIC THRENODY «When Death Comes»
Doomentia Records
Projecto internacional de músicos de países como Inglaterra, Itália, Hungria ou Bélgica, os Aphonic Threnody têm evoluído a cada um dos lançamentos que fizeram desde 2013 e chegam a este primeiro longa-duração transformados numa sólida entidade de doom/death metal funerário. É sobretudo nos ambientes envolventes, quase cinematográficos (há violoncelo para adensar a melancolia) que «When Death Comes» se destaca, mas os Aphonic Threnody são também capazes de invocar trevas, peso e desolação à altura dos mais extremos mestres do género que, por falar nisso, também reconhecem a qualidade do projecto, ou não fossem Jarno (Shape Of Despair) e Greg (Esoteric) colaboradores habituais da banda. Por isso, para começar o ano em beleza, nada como um banho de imersão de tristeza melancólica e negridão sem esperança, em temas que podem chegar a 18 minutos e um desespero que pode chegar até ao fim da vida. (8/10)

Ascension_TheDeadOfASCENSION «The Dead Of The World»
W.T.C. Productions
Numa altura em que é cada vez mais difícil acompanhar tudo o que a cena black metal manda cá para fora, os alemães Ascension destacam-se por uma maturidade e qualidade na sua música que não condiz com os meros sete anos de actividade que levam. «The Dead Of The World» sucede à estreia de 2010 «Consolamentum» e solidifica a abordagem madura e inteligente do projecto ao black metal mais ortodoxo, com padrões rítmicos intrincados e variados (alerta fãs de Blut Aus Nord e Deathspell Omega!) e uma atmosfera carregada. Ou seja, não saindo muito do espectro do black metal, os alemães são competentes, convincentes e detêm uma aura de seriedade e qualidade que não está ao alcance de todos. É obra. (8/10)

Bretus_TheShadowOverBRETUS «The Shadow Over Innsmouth»
BloodRock Records
Depois de lançarem o seu disco de estreia em 2013, os italianos Bretus cozinharam finalmente um novo longa-duração com o seu doom/stoner metal descomprometido e de influências psicadélicas. Se, musicalmente, a música do quarteto da Calábria não compromete em nada a sua intenção de soar tão fumacentos, clássicos e doom como os Black Sabbath, é nas letras, inspiradas pela temática de horror de H.P. Lovecraft e de filmes de Mario Bava, que o grupo tem o seu elemento diferenciador e grande parte do charme que anima «The Shadow Over Innsmouth». Não esperem grande originalidade, mas se a vossa cena é doom/stoner clássico tocado como se a década de 70 tivesse acabado o ano passado, os Bretus podem ter alguma coisa para vocês (7/10)

Derrame_CrawlToDieDERRAME «Crawl To Die»
Auto-financiado
É inspirador que, em 2014, duas décadas e meia depois do disco de estreia dos Morbid Angel, continuem a aparecer jovens bandas a praticar death metal bruto e extremo na sua sonoridade mais “clássica”. Os Derrame têm o bónus de serem portugueses, de Lisboa, e de o fazerem com bons índices de intensidade neste EP de estreia de cinco faixas, que perfazem 15 minutos. A lista de influências será certamente extensa e não escapará aos nomes incontornáveis do género, mas o quinteto consegue aliá-los de forma tecnicamente desenvolta, com uma produção muito decente e composição competente. Por isso, “Bom death metal” descreve perfeitamente os Derrame. “Da velha guarda” e “Com apontamentos thrash e bruto como o raio” também servem, mas concentremo-nos no essencial: death metal do bom. (7/10)

Eskapi_ValkommenESKAPI «Välkommen till (O)verklinghten»
Art Of Propaganda
Este é o EP de estreia do duo sueco Eskapi, constituído por C.L. e Johan Gabrielson (conhecido como 1853 em Vanhelga e nos Lifelover). Praticamente sem guitarras, os sete temas baseiam-se em ritmos simples e vincados, teclados ambientais e num spoken word (em sueco), que constitui a principal atracção da música dos Eskapi. As linhas vocais têm um largo espectro de emoções, das mais frias e narrativas à fronteira da distorção black metal, sempre ali entre a spoken word e o hip-hop e a constituir um excelente contraponto coma abordagem instrumental minimalista e as melodias simplistas. O ambiente criado pelos 28 minutos de «Välkommen till (O)verklinghten» é frio, desolado, invocativo, depressivo e provocador como poucos discos conseguem ser. (8/10)

IngurgitatingOblivion_ContinuumOfAbsenceINGURGITANTING OBLIVION «Continuum Of Absence»
Willowtip Records
Depois de uma primeira encarnação (em que se chamaram Of Trees And Orchids), os Ingurgitating Oblivion dedicaram-se a um estilo mais bruto e técnico de death metal no início dos anos 00 e lançaram um álbum de estreia promissor («Voyage Towards Abhorrence) em 2005. Infelizmente, desde aí, foram poucos os sinais de vida da banda alemã (um split com três outros grupos em 2007 e uma maqueta três anos depois), mas agora o projecto parece querer recuperar o tempo perdido com um novo álbum de originais. «Continuum Of Absence» é tudo o que um fã de Immolation e dos primeiros discos dos Morbid Angel pode pedir: tecnicamente impecável, orgânico e sem grandes invenções, com especial ênfase na variação rítmica. Um mimo de brutalidade. (8/10)

Morbosidad_TorturaMORBOSIDAD «Tortura»
Nuclear War Now! Productions
Há mais de duas décadas a espalhar o mais rápido e caótico death/black metal feito do outro lado do Atlântico, os Morbosidad dispensam grandes apresentações e despejam quatro novos temas neste novo EP, editado em vinil. Todas as imagens de marca da banda estão presentes: técnica precisa (embora disfarçada por baixo de uma capa de produção crua e directa), rapidez à flor da pele, um sentido de ambiente muito mórbido (pois…) presente em passagens de puro doom e letras cantadas em mexicano. Como bónus, Chris Reifert, dos Autopsy, dá uma “perninha” numa das faixas. Puro underground sul-americano feito nos Estados Unidos, no mais trve cvlt dos formatos. Imperdível, portanto. (8/10)

Slowgold_EPSLOWGOLD «EP»
Gaphals
Imaginem a paisagem rústica e salgada de uma das mais pequenas ilhas do arquipélago de Estocolmo. Vocês estão sentados, virados para o mar, enquanto a pessoa que amam se vai embora de uma vez por todas. Qual é a música que está a tocar? O rock psicadélico lento e sonhador, fortemente inspirado por Neil Young, Hope Sandoval e Gene Clark, dos Slowgold, pois claro. A voz de Amanda Werne, a senhora por detrás do projecto, é profundamente evocativa e transborda de sentimentos, contando ainda com o lado sensual da língua sueca para torná-la mais misteriosa e apelativa. A música das quatro faixas de «EP», é essencialmente acústica, acompanhada à guitarra, ocasional concertina e ritmos suaves e hipnóticos. Apesar de pouco ambicioso e original, é um daqueles projectos cuja música nos envolve com tanta facilidade, que é fácil deixarmo-nos ir. (7/10)

IBP220_Jacket_3mmSpine.inddWITCHRIST «Vritra»
Iron Bonehead Productions
Depois de dois álbuns de originais e outro tantos splits (com Morbosidad e Antedilluvian), os neo-zelandeses Witchrist despedem-se da sua curta mas intensa carreira com este MLP de 12″ e três faixas do mais puro death/black metal underground que é possível ouvir actualmente. Mantendo sempre os níveis de caos sob um rigoroso controlo, os dez minutos de «Vritra» vão buscar inspiração ao mais cavernoso e blasfemo death metal (pensem em Immolation em meio de carreira), que usam depois com parcimoniosas partes de black metal, ocasionais referências doom e uma abordagem lírica ritualista e ocultista, com o bónus de ser KzR, dos Bölzer, o cantor do projecto neste registo. O death/black metal do outro lado do mundo está bem e recomenda-se e, pese embora o estandarte fique agora entregue a nomes como Diocletian (que têm elementos dos Witchrist) e Heresiarch, não será fácil esquecer o legado deste magnífico colectivo. (8/10)

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