POSTO DE ESCUTA 13.03.2015

Santa Cruz copyHá já algum tempo que não analisávamos um punhado de novos lançamentos no Posto de Escuta por isso estas propostas, feitas assim antes do fim-de-semana, têm uma espécie de sentimento de compensação à sua volta. Mais ainda para os fãs de black metal, que têm aqui muito e bom material para fincar o dente. Mas, numa semana em que Karyn Crisis regressa aos discos e em que Scot Ian, dos Anthrax, apresenta um novo projecto musical, o destaque vai para o vanguardismo drone de duas senhoras – Jarboe e Helen Money – e para o hard rock moderno e dinâmico dos jovens finlandeses Santa Cruz. Bom fim-de-semana!

Frosttide_AwakeningFROSTTIDE «Blood Oath»
NoiseArt Records
Novo capítulo da saga folk/death metal melódico que os finlandeses Frosttide iniciaram em 2013 com o disco de estreia «Awakening». «Blood Oath» segue o mesmo caminho com as devidas actualizações e evolução ao nível da composição, entrosamento musical e produção. Ou seja, trata-se de uma mistura altamente energética e épica dos universos de Keep Of Kalessin, Ensiferum e Wintersun, feito com o típico sangue na guelra da juventude e a inspiração de quem ainda só vai no segundo álbum. Apesar de não acrescentar nada a uma cena cada vez mais sobrepovoada, «Blood Oath» tem índices de qualidade, melodia, arranjos e produção suficientemente altos para convencer os fãs do género que querem ouvir coisas novas. (7/10)


 

ImperialTriumphant_AbyssalGodsIMPERIAL TRIUMPHANT «Abyssal Gods»
Code666
É super-excitante ter uma banda de black metal com dois bateristas, sendo um deles (tal como o baixista) dos ultra-técnicos Pyrrhon, o outro dos Secret Chiefs 3, e citarem-se influências que vão dos vanguardistas franceses Deathspell Omega ao compositor contemporâneo polaco Krzysztof Penderecki. O problema é que, em «Abyssal Gods» tal como na estreia de 2012 «Abominamentvm», os Imperial Triumphant perdem frequentemente o norte a qualquer tipo de melodia ou musicalidade, cegos como estão em experimentar ondas pulsantes de ritmos, riffs e dissonâncias diferentes. Mais ainda neste segundo álbum de originais do que no trabalho anterior. Quem acha que os Deathspell Omega não vão suficientemente longe na sua busca pela originalidade vanguardista ultra-técnica, poderá achar alguma piada aos 41 impressionantes minutos de «Abyssal Gods». Todos os outros terão sérias dificuldades em perceber o que raio se está a passar ali. (7/10)


 

JarboeAndHelenMoney_JarboeAndHelenJARBOE AND HELEN MONEY «Jarboe And Helen Money»
Aurora Borealis
A colaboração de uma das mais visionárias e influentes vocalistas da música vanguardista com uma brilhante jovem que explora o violoncelo até aos limites do drone só podia dar nisto. Jarboe e Helen Money (cujo nome verdadeiro é Alison Chesley) criam um disco cheio de diferentes texturas, ambientes e melodias, em que se destaca a capacidade da ex-cantora dos Swans para ir do incrivelmente frágil e angélico tom vocal (acompanhado de piano) ao mais perturbante guincho, sempre (bem) apoiada pelas soluções sonoras nada convencionais de Helen Money. É um daqueles projectos colaborativos que ultrapassa as expectativas com um bom pedaço de música orgânica, etérea e profunda, que vai espalhando sensações cada vez mais urgentes no ouvinte à medida que se vai entranhando mais na sua consciência. (8/10)


 

KarynCrisisGospelOfTheWitches_SalemsWoundsKARYN CRISIS’ GOSPEL OF THE WITCHES «Salem’s Wounds»
Century Media
Depois de ensaiar um regresso à cena no último registo do Ephel Duath, Karyn Crisis, a influente vocalista dos extintos Crisis, está efectivamente de volta com este novo projecto. «Salem’s Wounds», composto e gravado em conjunto com o marido Davide Tiso (dos Ephel Duath) é uma espécie de rock/metal alternativo com a imagem de marca da banda de Tiso e todo o potencial – de voz agressiva e inocente – de Crisis, fortemente inspirado pela bruxaria e pela tradições pagãs antigas que guiam espiritualmente a vocalista. Pensem nuns Ephel Duath mais negros e atmosféricos (há coros de Mike Hill dos Tombs e Ross Dolan dos Immolation para tornar tudo mais excêntrico), com uma prestação vocal de Karyn Crisis que, por vezes, parece encarar a intensidade e esquizofrenia de Diamanda Galás. O material não é todo excelente, mas «Salem’s Wounds» contém uma atmosfera que torna o álbum um daqueles artefactos cada vez melhores cada vez que se pega neles outra vez. (7/10)


 

Kjeld_SkymKJELD «Skym»
Hammerheart Records
Os holandeses Kjeld recuperam de forma muito decente, no seu disco de estreia «Skym», a barbaridade melódica do black metal escandinavo. O blastbeat é a arma de eleição, os riffs cortantes, tipicamente gélidos, são usados a esmo e as vocalizações estão naquele tom algures entre os Gorgoroth e os Troll. A banda nunca foge muito do imaginário comum do género, mas consegue inserir umas camadas de atmosfera e melodia no meio da brutalidade maldosa que dão à sua música uma dimensão extra. Por outro lado, a temática letrista sobre a província e a história da Frísia (região no norte da Holanda e Alamanha), assim como as faixas serem cantadas no dialecto local, dão aos Kjeld um lado original e pessoal. Tudo isto faz de «Skym» uma boa hora de black metal tradicional, com um twist moderno e uma personalidade de banda bastante vincada. (7/10)


 

MacabreOmen_GodsOfWarMACABRE OMEN «Gods Of War – At War»
Ván Records
Liderado pelo grego radicado em Inglaterra Alexandros (ex-Razor Of Occam e Lvcifyre), Macabre Omen é um projecto de black metal épico que cumpre sem grandes dificuldades os requisitos mínimos do estilo. Apesar de editarem splits com alguma frequência, «Gods Of War – At War» é apenas o segundo álbum de originais do duo (completo com o baterista dos Omega Centauri, T.J.F. Vallely) desde que se formou em 1994. Ainda assim, revela alguma experiência e talento na arte de misturar black metal bruto e rápido com riffs um pouco mais melódicos, intensos, grandiosos e épicos, frequentemente acompanhados de coros a condizer. É o típico álbum de banda de fãs de Bathory, mas bem feito e com as ideias no sítio. (7/10)


 

MotorSister_RideMOTOR SISTER «Ride»
Metal Blade
Uma banda composta pelo guitarrista Scott Ian (Anthrax), pelo baixista Joey Vera (Fates Warning), pelo baterista John Tempesta (White Zombie, The Cult) e pelo guitarrista e vocalista Jim Wilson, dos Mother Superior, a tocar clássicos destes últimos. É esta a essência de «Ride», um álbum de grandes canções de blues/hard rock com um renovado push de groove que, para quem conhece os originais, não será necessariamente uma melhoria. Ainda assim, pode ser uma boa porta de entrada de toda uma nova geração para a música dos Mother Superior que, nos anos 70 e 80, lançaram uma série de bons álbuns (até aqui totalmente menosprezados, excepto por uma minoria esclarecida) antes de se transformarem na banda de apoio de Henry Rollins para concertos. Nesse sentido, «Ride» pode ser uma boa opção. De resto, é apenas a “modernização”, com uma série de nomes de cartaz, de bons temas de uma boa banda obscura. (7/10)


 

Night_SoldiersOfTimeNIGHT «Soldiers Of Time»
Gaphals
Seguindo de perto as pisadas dos compatriotas e mentores Ghost, os Night editam o seu segundo álbum de originais e pegam no doom/hard rock dos anos 70/80 para lhe darem uma boa espanadela. «Soldiers Of Time» procura mais recuperar o espírito original do género do que propriamente fazer novas coisas com ele, por isso não esperem grandes surpresas, com os 11 temas e imularem, em estética, som e composição, a sonoridade dos Judas Priest, Accept e, em termos de comparação mais contemporâneos, a dos holandeses Vanderbuyst. É, no entanto, bem feito, com boas canções e um sentido de proporção que torna fácil deixarmo-nos levar pelo entusiasmo da banda. (7/10)


 

BOOK-CD-8PORTA NIGRA «Kaiserschnitt»
Debemur Morti Productions
Depois da brilhante estreia «Fin De Siècle», editada em 2012, era necessário aos alemães Porta Nigra estarem à altura das expectativas criadas no seu segundo registo. E é mais ou menos isso que fazem em «Kaiserschnitt», trabalho de black metal com aspirações a vanguardista que anda, tematicamente, à volta das histórias mais macabras e icónicas da Primeira Guerra Mundial. Entre temas que cumprem os requisitos mínimos de um black metal sempre com um olho no progressivo (embora frequentemente sem alma) e outros, concentrados na parte final do disco, de verdadeiro talento em que o lado mais extremo da abordagem da banda se cruza com atmosferas decadentes e melancólicas, os Porta Nigra conseguem manter a roda a andar e acrescentar um punhado de boas canções ao seu legado. Chega para os mínimos olímpicos, mas há quem não vá esconder um certo desconforto pré-desilusão. (7/10)


 

SantaCruz_SantaCruzSANTA CRUZ «Santa Cruz»
Spinefarm Records
Peguem no hard rock clássico e cheio de ganchos dos Skid Row, acrescentem-lhe o virtuosismo dos Children Of Bodom e a dinâmica moderna dos Bullet For My Valentine e o que obtêm será mais ou menos o que os finlandeses Santa Cruz fazem. A jovem banda finlandesa causou furor com o seu disco de estreia no país-natal e agora, com esta segunda proposta, promete explodir internacionalmente, à conta do dinamite em forma de hard rock moderno, com uma pitada de glam clássico e outra de metal melódico. «Santa Cruz» é o equivalente, no hard rock, ao que os compatriotas Lost Society fizeram com o thrash: pega no estilo, foge com ele e torna-o uma coisa mais moderna e apelativa, sem desvirtuar qualquer um dos seus princípios. É o som do género a evoluir. E é irresistível como o raio. (8/10)

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