MYRKUR

Myrkur LogoPraticamente do nada, surge no panorama black metal um projecto revolucionário e misterioso. Myrkur, engendrado e levado a cabo pela multi-instrumentista do mesmo nome, mistura música coral, clássica e black metal escandinavo de uma forma que a própria considera “desconfortável”. Junte-se a isso uma capa de anonimato e um brilhante EP de estreia editado pela influente Relapse e temos uma das revelações do ano. Myrkur levantou-nos um pouco da ponta do véu de trevas que cobre o seu projecto.

AmalieBruunTinhas algum passado musical antes de iniciares este projecto?
Sim. Cresci a tocar música clássica, nomeadamente violino numa orquestra sinfónica na cidade onde nasci. Tive formação nesse campo, por isso o meu background está na música clássica e coral. Depois descobri a música folk escandinava, principalmente sueca, e apaixonei-me pela tradição da composição tradicional, pela música feita em tempos arcaicos.

E como acabaste a praticar e a gostar do estilo de música que tens no disco?
Foi uma transição natural entre a música clássica e o estilo que hoje pratico, porque existem muitas similaridades entre os dois géneros. Não existe uma diferença assim tão grande como ao princípio possa parecer.

Pelo menos em termos conceptuais, não parecem existir quaisquer diferenças.
Pois não. Muitas vezes podemos pegar numa peça clássica e, se a interpretarmos com uma instrumentação mais agressiva, pode definitivamente soar como uma canção black metal.

Como chegaste ao estilo que tens? Imaginaste a “receita” antes de iniciares qualquer tipo de composição ou experimentaste muito antes de lá chegares?
É algo que já faço há alguns anos, só que ao princípio não planeava mostrar a minha música a ninguém. Mas a combinação de estilos diferentes é apenas a combinação das várias facetas musicais que tenho dentro de mim. É a dualidade entre os géneros diferentes de que falei há pouco: a música clássica e coral e a brutalidade do black metal.

RasmusMalmstrøm7Disseste “combinação” e não “mistura”. Tens então perfeita consciência de que o teu estilo é uma combinação heterogénea de ambas as abordagens e não uma mistura homogénea, certo?
Exactamente. Gosto de combinar ambas as abordagens da forma mais desconfortável possível, como se pode ouvir na canção [do EP] «Latvian fegurð», em que as partes corais surgem muito altas, a meio das partes de metal mais épico que estão no início e no final. Quis mesmo que as partes corais estivessem desconfortavelmente altas e não niveladas com o resto dos elementos musicais.

É uma abordagem original, que advém provavelmente do facto de não vires exactamente do mundo do metal e de teres processos de criação não formatados para este género de música, não achas?
Nasci na Dinamarca e cresci no meio da natureza escandinava, a ouvir histórias de mitologia nórdica. E não falo apenas de ler as sagas e andar no meio da natureza; ouvi música que foi escrita para ilustrar ou era directamente inspirada por toda esta história nórdica. E o black metal não é assim tão diferente. Por isso não considero que venha de um passado assim tão diferente do metal; só que a minha abordagem a esta música é sob uma perspectiva muito black metal clássico. É por isso que digo que o género não é assim tão diferente da música clássica. Mas claro, a sonoridade acaba por ser muito diferente da de muitas bandas de metal mais tradicional.

Este é o teu primeiro lançamento e acabou por estabelecer o estilo de Myrkur. Achas que as tuas próximas composições vão respeitar as mesmas regras estilísticas ou não te importarias de seguir uma direcção musical completamente diferente?
Estou a compor o próximo disco agora e acho que é um pouco mais agressivo do que este EP. Mas em termos gerais trata-se do mesmo universo musical

Gravaste as faixas do EP sozinha ou tiveste ajuda de alguns convidados?
Gravei tudo sozinha, na minha casa aqui na Dinamarca. Depois, quando terminei todas as demos – que são as que estão no EP, nunca as regravei, como provavelmente dá para perceber – houve um amigo meu que me ajudou com as partes de bateria, que está devidamente creditado no EP. O nome dele é Rex Myrnur e é sueco.

RasmusMalmstrøm8Essa forma de trabalho solitária fez com que tivesses a sensação de que estavas a fazer um disco para ti própria, sem opiniões exteriores, ou tiveste sempre o sentimento de que estavas a fazer música para ser apreciada por outros?
Ao princípio nem sequer tinha planos de mostrar esta música a ninguém e muito menos lançá-la numa editora a sério. Por isso não houve qualquer tipo de ponderação envolvida no processo criativo. Foi como se estivesse a ensaiar uma peça clássica ao piano. Não digo que, quando fiz estas canções, estivesse a fazê-las para mim própria, porque tenho tendência para sair do meu próprio corpo quando gravo este tipo de música e acabo por perder o sentido de persona. É por isso que tenciono permanecer anónima enquanto a internet o permitir. [risos] Mas, apesar de não sentir que fiz a música para mim própria, nunca pensei que outras pessoas fossem ouvi-la, por isso o simples facto de editá-la tem sido uma espécie de furacão para mim. Surpreendentemente, encontrei através deste lançamento uma ligação com muitas pessoas, que posso apenas comparar ao período em que tocava na orquestra sinfónica, em que não interessa se conhecemos a pessoa que está a tocar ao nosso lado ou que emprego ela tem. Temos uma ligação fundamental porque tocamos numa orquestra, partilhamos um amor genuíno pelo compositor, seguimos o maestro e tentamos todos chegar ao mesmo “local”, de forma figurativa. Não sentia este tipo de ligação há muitos anos, mas sinto-a agora, o que é surpreendentemente bom.

Tens algum tipo de disciplina que te permita equilibrar a abordagem técnica de tentares corrigir todas as imperfeições na produção e a espontaneidade do estado de transe em que ficas quando gravas a música?
De facto, grande parte desta música foi composta ao mesmo tempo que a gravava, excepto as partes vocais, que oiço claramente na minha cabeça antes de começar a gravá-las. Mas muitas das partes de guitarra e melodias são escritas à medida que as gravo, e é por isso que me alieno um pouco também; não me recordo necessariamente de gravá-las, ou do que estava a pensar quando as registei. É um processo que me deixa feliz e não sofro de qualquer tipo de síndrome de perfeccionista que as pessoas que gravam em casa normalmente têm. Sinto uma grande liberdade e espontaneidade quando componho e gravo. Torna as coisas muito mais fáceis.

Provavelmente não terias essa sensação de liberdade se gravasses num estúdio que não fosse o teu.
Espero gravar o próximo álbum num estúdio a sério, por isso vamos ver como corre.

RasmusMalmstrøm10Como acabaste numa editora grande como a Relapse logo no teu EP de estreia?
É engraçado, porque é o que toda a gente me pergunta nas entrevistas e eu digo-lhes que nem sequer sabia que isto era uma editora grande. [risos] Suponho que é interessante para os jornalistas, porque o catálogo deles não tem nada sequer remotamente parecido comigo. Por isso acho que essas pessoas sentem que a editora foi numa direcção surpreendente ao editar Myrkur, mas gosto deles; acho que são pessoas muito inteligentes ao deixar-me lançar esta música da forma que quero. E claro, eles não se importam com esta capa de anonimato. Eles compreendem a minha visão e porque o faço. Estou-lhes muito agradecida.

Como foi feito o contacto entre ambas as partes?
Eles ouviram falar de mim.

Mas pediram-te demos ou como foi?
Sim, pediram-me para enviar música.

Isso é uma espécie de conto de fadas para qualquer banda de metal que existe no planeta. Ainda para mais, por parte de uma pessoa que nem sequer sabia que era uma editora grande.
[risos] Eu não só não sabia que era grande como nem sequer sabia que existia. E não foi fácil deixar-me convencer a editar o EP, porque sinto que infelizmente o mundo actual está cheio de ignorância, que resulta num tom muito duro quando se fala de músicos. Por isso não tinha um grande desejo de partilhar esta música com outras pessoas. É por isso que tento manter-me proactiva – e não reactiva – às reacções das pessoas. Não deixo que elas tinjam a minha auto-consciência. Por isso foi uma decisão importante, e muito ponderada, o simples facto de editar a música.

A natureza tem uma forte influência em ti, na tua música e nas tuas letras. Consideras que se trata de uma inesgotável fonte de inspiração ou, se o projecto continuar e editares mais uns quantos discos, podes fazer este tipo de música com outro tipo de temática?
Também escrevo sobre ódio e raiva, por isso também tenho dentro de mim uma fonte inesgotável de inspiração nesses campos, que infelizmente não creio que alguma vez tenha fim. Mas respondendo mais concretamente à questão, não sou capaz de escrever este tipo de música quando estou afastada da natureza onde cresci. Infelizmente, sou incapaz de criar alguma coisa longe dela. Preciso de estar rodeada pela natureza – é a única coisa de que realmente necessito.

myrkur_1500Precisas mesmo de estar inspirada para compor música e letras ou consegues fazê-lo apenas numa base diária de puro trabalho?
Não tenho de criar coisas. Ninguém me diz para criar alguma coisa. Por isso nunca me vou sentar para escrever música a não ser que queira mesmo fazê-lo.

Mas este contrato com a Relapse é válido também para futuros lançamentos?
Sim, eles também vão lançar o meu disco longa-duração.

Imagina então que nunca mais te apetece fazer música de novo depois de escreveres a próxima canção.
[Risos] Porque haveria de querer fazer isso?

Não sei, quando temos essa abordagem mais inspiracional nunca sabemos o que pode acontecer a seguir, certo?
Mas quem não tem uma abordagem inspiracional à música? Alguém escreve música quando não está inspirado para fazê-lo?

Quando entrevistamos uma banda com 30 anos de carreira, o que normalmente nos dizem é que têm de ir para a sala de ensaios como se fossem para o trabalho. Podem não estar inspirados, mas se continuarem a trabalhar a faísca acaba por acontecer.
Mas a faísca acaba por aparecer, certo? Tem de haver alguma coisa, senão não acredito que conseguissem fazer alguma coisa que valesse a pena ser ouvida.

Sim, mas todo o processo de chegar lá acaba por ser rotineiro e parece um emprego “normal”.
Talvez sejam apenas demasiado velhos. [risos]

Já consideraste a hipótese de dar concertos com este projecto? Como farias com todo o conceito do anonimato?
Sim, gostaria de tocar ao vivo. Ainda não pensei bem como vou fazer quando der concertos, mas posso sempre esconder a minha face, se quiser. Não acredito que alguém no público suba ao palco e me toque na cara. Se o fizer, tenho de matá-lo.

Então terás de matar os promotores dos concertos também, porque eles vão ver a tua cara no backstage.
Não digo que mato quem me vir a cara. Mas mato quem me tocar.

Quando esta capa de anonimato cair, vais continuar a fazer música com este projecto?
Não posso dizer o que vai acontecer, porque apenas agora estou nesta situação concreta. Não sei como me vou sentir dentro de dois meses, quanto mais se uma coisa ou outra acontecerem. Por isso não posso dar uma boa resposta a essa questão.

Em que altura do ano escreveste as faixas deste EP – mais no Verão ou mais no Inverno?
Creio que foram principalmente compostas durante o Inverno. Não tenho bem a certeza, porque algumas das músicas são muito antigas. Varia muito.

Disseste que já estás a compor o próximo disco. Como estamos no Verão e a natureza muda muito do Inverno para o Verão, achas que a tua música pode reflectir isso também?
Vivo na negação do Verão, simplesmente não o aceito. Por isso não entra no meu sangue. Neste momento está um calor infernal em todo o lado, mas estive há pouco tempo em Bergen, na Noruega, onde estava um pouco mais fresco porque é uma cidade na montanha. Foi agradável, mas estou efectivamente a contar os segundos para que o Verão acabe. Não sei se isso afecta a minha música, porque deixei de viver na realidade que me rodeia e não aceito tudo o que vejo e oiço. Na maior parte do tempo sonho em viver numa época e universo diferentes, por isso quando escrevo a música de Myrkur isso não reflecte o mundo que me rodeia nesse momento ou sequer as minhas próprias batalhas. É um processo de canalização de pensamentos diferentes e mais abstractos.

Ajuda-te, na tua vida quotidiana, teres essa espécie de realidade paralela e expressá-la através da música?
Tento viver uma vida verdadeira e pura e tento viver em ligação com a natureza. Sempre foi importante para mim, por exemplo, embrenhar-me na floresta e gritar tão alto quanto posso. É uma espécie de grito primordial e foi aí que descobri que consigo gritar da forma que grito no EP e até escrever letras para esses gritos. Esse foi um momento muito poderoso da minha vida, porque me apercebi que este tipo de grito não vem da garganta, mas mais debaixo, do estômago e do peito. É uma experiência muito física e é uma mistura de libertação de raiva e de um sentimento de poder que acaba por acender ainda mais a nossa fúria. Por isso não te sei explicar se ajuda ou não.

«Myrkur» foi editado em Setembro.
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