AMORAL

Amoral Logo Black_whitelayer copyOs Amoral são uma das mais famosas bandas na Finlândia, tendo começado por praticar death metal técnico (na altura os seus elementos tinham entre 15 e 18 anos) para mudarem drasticamente, após três álbuns para um power metal melódico com fortes influências hard rock. Pelo caminho, posições de topo na tabela de vendas oficial local, prémios de imprensa e uma crescente comunidade de fãs nacional e internacional podia tê-los feito “assentar”, mas agora, com a edição do sexto álbum de originais «Fallen Leaves & Dead Sparrows», o estilo grupo evolui radicalmente de novo. O guitarrista e fundador Ben Varon falou-nos de um recentemente descoberto amor pelo metal progressivo, de crescimento, de evolução e de regressos ao passado.

Amoral2014_1_Photo_Valtteri_HirvonenAbordaram a composição deste disco com algum objectivo específico em mente?
Para dizer a verdade, desta vez abordámos. E foi algo que nunca tínhamos feito antes. Em todos os nossos álbuns anteriores os compositores escreviam ao longo do tempo sem ideias pré-concebidas, objectivos ou parâmetros… Apenas músicas que apareciam de forma natural até termos uma série delas de que gostávamos todos. Esse era o álbum seguinte dos Amoral. É por isso que todos os nossos discos anteriores, especialmente o «Show Your Colors» e o «Beneath», tinham tantos estilos diferentes: havia a canção prog rock, havia a música progressiva épica, baladas, hard rock, “cock” rock dos anos 80… Todos os tipos de elementos musicais misturados. Isso tornou-se um bocado a nossa imagem de marca, o facto de estarmos musicalmente um pouco em todo o lado. Mas pouco depois de termos lançado o «Beneath», há alguns anos, reparámos que não apenas nós na banda gostávamos mais das músicas longas de prog rock, com muitas mudanças de ambiente e uma atmosfera mais negra, mas também o público reagia melhor a essas canções específicas, em vez das faixas mais hard rock radiofónicas, ou como lhe queiras chamar. Por isso tomámos uma decisão muito consciente, pela primeira vez, de nos focarmos nesse tipo de composição para o álbum seguinte. Decidimos fazer canções de prog rock mais longas, um pouco mais emotivas e deixar o material hard rock de fora. Toda a gente do grupo adorou a ideia e foi isso mesmo que fizemos. Era esse o objectivo em que nos concentrámos, e escrever nessa direcção específica foi muito fácil para nós, porque como disse era uma coisa que já estava no disco anterior. Queríamos fazer uma álbum muito mais prog metal/prog dos anos 70 do que anteriormente.

Amoral2014_2_Photo_Valtteri_HirvonenDepois de escreverem as primeiras faixas tiveram algum problema em inspirar-vos ou não sentiram quaisquer dificuldades em compor um disco inteiro desse género?
A inspiração esteve sempre lá durante todo o processo de escrita. Especialmente se pensarmos que não decidimos algo do género “Ei, vamos escrever 15 músicas punk de três minutos”. Aí provavelmente estaríamos a perguntar-nos “OK, o que fazemos a seguir?” ao fim de seis canções. Mas mesmo definindo o estilo de música que queríamos praticar, há tantas coisas que podemos fazer dentro dos limites que nos auto-impusemos. Por isso, quando ouvimos o novo álbum encontramos blastbeats, elementos black metal, baladas à Guns N’ Roses, momentos acústicos à Led Zeppelin… Até há alguns riffs de jazz metal mais moderno. Há tanta coisa a passar-se, que não nos sentimos limitados de forma alguma. Pode parecer que nos limitámos quando estabelecemos fronteiras para a composição, mas não. Foi, de facto, muito inspirador ter essas linhas condutoras. A nossa criatividade nunca bateu numa parede… Para dizer a verdade criámos mais material do que aquele de que precisávamos. Ficaram muitas coisas de fora, que não tivemos tempo de terminar ou que pensámos que não encaixavam exactamente no conceito ou no estilo de música. Talvez usemos algumas no próximo disco ou assim… Veremos. Mas estivemos sempre muito inspirados; esse nunca foi um problema.

Dentro desses limites que estabeleceram, chegaram a existir discussões no grupo sobre se uma determinada parte caberia dentro desse estilo ou não?
Sim, desta vez por acaso existiram. Tínhamos uma música que estava completamente pronta e que tinha sido composta muito antes de termos decidido seguir esta nova direcção mais prog. Era uma canção muito mais hard rock, com um refrão enorme. Já tínhamos feito uma maqueta dela antes, eu adoro-a, os outros tipos também gostavam muito e ainda achamos que é uma óptima música; só que não encaixava de modo nenhum no «Fallen Leaves & Dead Sparrows». Seria demasiado diferente, demasiado hard rock e não tem nada de metal ou prog. Por isso tivemos de deixá-la de fora. Existiram esse tipo de decisões. Por isso pela primeira vez assumimos que, mesmo que gostássemos de uma coisa, isso não significava que devesse fazer parte do álbum. E isso nunca se tinha passado antes; até agora, se gostássemos mesmo muito de uma canção, conseguíamos sempre encaixá-la no disco de alguma forma. Acho que foi uma decisão sensata, esta de por assim dizer “sacrificar a nossa amada”. É uma excelente música, mas não era a melhor para este álbum, desta vez. Teve de ser feito.

amoralmoralcdSer assim tão objectivo também fez com que ouvisses música de forma diferente e não te deixasses influenciar tanto sempre que ouves alguma coisa nova de que gostas mesmo muito?
Sempre que as pessoas me perguntam sobre as minhas influências, não sei dizer muito bem quais as bandas oiço que aparecem na música dos Amoral ou sequer se retiro influências muito directas daquilo que escuto. Claro que algumas coisas acabam por transparecer… Se nos envolvermos num novo género, num novo estilo de música ou apenas numa banda específica, consciente ou inconscientemente vamos trazer pedaços disso para a nossa própria música. Mas para ser sincero não sei quantificar, até porque estou sempre a ouvir as mesmas bandas que sempre ouvi nos últimos 20 anos. Não tenho certeza se novas bandas que tenho descoberto podem ser ouvidas na música que escrevo… Estou a tentar pensar… Não sei mesmo. Talvez algumas coisas. Eu e o Masi [Hukari], o outro guitarrista, gostamos de prog e temos mergulhado cada vez mais nisso, especialmente no prog mais antigo, sobretudo os Camel, de que gosto mesmo muito. As partes acústicas e as vocalizações… É uma banda que tem definitivamente influência em nós. Estou aqui a olhar para a minha colecção de discos e a tentar pensar… É uma questão complicada. Não sei se existe algum grupo novo específico que seja uma influência. Por exemplo, o ano passado o meu disco favorito foi o novo dos Alice In Chains e eles não são, de modo nenhum, uma nova influência, porque já os oiço desde o início dos anos 90. Mas ainda os adoro, são uma das minhas bandas preferidas.

Quando escutas uma coisa nova de que gostas mesmo muito e só te apetece escrever música como aquela, fazes o exercício mental de pensar “Isto não é a sonoridade de Amoral e vou resistir a este impulso”?
Não é quando oiço uma banda nova que penso “Quero compor algo deste género”. As coisas não acontecem assim. Não tenho o problema de escrever algo assim e depois ter de decidir se é Amoral ou não, porque como disse há pouco são pequenas partes que acabam por transparecer na nossa música, tipo algumas harmonias vocais, arranjos pontuais, uma forma específica de tocar um riff ou a sonoridade do baixo, por exemplo. Mas já não acontece muito eu ouvir uma nova banda e pensar “Oh, eu quero escrever este tipo de música”. O nosso estilo sempre foi uma mistura de muitas bandas, sonoridades e géneros diferentes. Gosto de pensar que é isso que faz com que tenhamos a nossa própria sonoridade, em vez de nos limitarmos a copiar uma banda específica.

Existe algum tipo de conceito que liga todas as músicas do disco, a capa e o título «Fallen Leaves & Dead Sparrows»?
Sim, o conceito da capa do disco surgiu depois de completar todas as letras, os títulos das canções e a música. O desenho foi feito especificamente para este álbum pelo meu amigo Aki Siltala. Sentámo-nos uma noite, depois de lhe ter ligado e dito “Meu, precisas de fazer a capa deste álbum”, porque ele é um artista espantoso e eu sabia que ele conseguiria fazê-la sem problemas. Por isso disse-lhe que estilo de traço queria, com muitas cores e tal, e depois expliquei-lhe os elementos que se encontram nas letras e nos títulos dos temas, tipo “Podemos ter este tipo de pessoa ou de pessoas na capa e talvez envolver os pássaros”, etc e tal. Começámos a trocar ideias e basicamente numa hora ou duas tínhamos o conceito que pode ser visto na capa do disco. Veio definitivamente das letras e é indissociável de todo o conceito

Amoral2014_3_Photo_Valtteri_HirvonenParece-me uma capa, tal como o título do álbum, sobre o acto de envelhecer e perder algumas coisas.
Em parte é, sim. Há muito disso nas canções. Tenho dito em algumas entrevistas que, quer goste ou não, consigo ver nos textos e conceito das letras que há uma espécie de crise de meia-idade que enfrentei quando estava a escrevê-la. Fiz 30 anos o ano passado e, quando estava a escrever as letras olhei para trás um pouco e pensei se não seria demasiado tarde para fazer algumas coisas acontecerem, o que pensava, quando era mais novo, que teria feito quando chegasse aos 30 anos de idade e se atingi ou não esses objectivos. Coisas que acho que muitas pessoas pensam quando chegam aos 30 anos e depois aos 40 ou 50. Para mim foi um marco, tipo “Oh meu deus, 30 anos!” e bateu-me que não ficaria aqui para sempre. Este tipo de coisas ocorre mais a umas pessoas do que a outras, mas eu tenho tendência para ser um tipo nostálgico. E, quando se olha para trás, a tendência é pensarmos “Era tudo muito melhor naqueles tempos; a música soava melhor, o tempo era melhor, a comida sabia melhor, blá blá blá”. É claro que isso nem sempre corresponde à verdade. Se voltarmos mesmo para esse tempo percebemos que nos lembramos das coisas de uma forma um pouco diferente daquilo que realmente eram. Pensamos que eram muito mais bonitas e coloridas do que realmente eram. Grande parte das letras fala disso… Envelhecer e mergulhar na nostalgia; pensar que as coisas costumavam ser melhores, quando de facto talvez não fossem. Nas letras temos uma personagem que atravessa todas as canções. Começa com essa personagem a querer muito voltar, seja ao seu passado ou a uma relação que acabou… Isso não é realmente dito nas letras e pode ser interpretado da forma que as pessoas quiserem. Mas essa pessoa não quer viver no presente e atravessa conscientemente a porta para o passado, dá o salto, deixa o presente para trás e vai para a sua vida passada, que sente que era tão melhor e que, por isso, é a coisa certa a fazer. E quando chega lá, durante uma boa parte do início, tudo corre bem e ele pensa “Tomei a decisão certa. É exactamente como me lembrava”, mas de repente começa a notar algumas pequenas diferenças aqui e ali, tipo “Isto é estranho”. Na canção «No Familiar Faces» ele repara que as ruas são as mesmas, tal como os locais e os edifícios, mas não há ninguém de que ele se lembre dessa altura e começa a questionar-se onde estarão todas as pessoas, todos os amigos e família. E repara que há algo diferente, algo que não está certo. E à medida que avançamos na história do álbum ele começa a tirar algumas conclusões, como o facto de voltar ao passado não ser a decisão certa. Inicialmente ele ignora esses sinais e avisos, mas acaba por aperceber-se que fez um erro enorme e que não pode desfazê-lo. Mas para responder à questão que me foi feita há quase meia-hora, existem muitas reflexões sobre o envelhecimento no disco, com toda a certeza.

Amoral2014_4_Photo_Valtteri_HirvonenQuando pensamos na escola primária em que andámos visualizamos algo, mas se por acaso visitamos agora essa escola, apercebemo-nos de que todas as cadeiras, todas as mesas e os quadros são muito mais pequenos do que aquilo que sempre imaginámos.
É isso que o cérebro humano faz. Muda as coisas em 20 anos e as nossas memórias não são uma cópia exacta da realidade de então. E quando temos 20 anos vemos o mundo de forma muito diferente de quando temos 30 anos. Aquilo que nos lembramos é o modo como víamos as coisas quando éramos miúdos de dez anos; é óbvio que não vai ser a mesma coisa se as virmos quando temos 30 anos. Toda a gente passa por isso… Acontece quando encontramos um DVD de um filme que adorámos quando éramos miúdos. E vemo-lo agora e pensamos “Isto é um terrível. Os efeitos especiais são maus, não é engraçado e é mau. Porque vi isto outra vez?”.

Foste tu que produziste este álbum, certo?
Sim. Desta vez todo o processo de composição e produção demorou um pouco mais de tempo e foi mais stressante. Antes íamos sempre aos Sound Supreme Studios e trabalhávamos com o Janne Saksa a funcionar como co-produtor e engenheiro de som. Essa é a forma mais confortável de fazer um álbum, porque guiávamos cerca de uma hora para fora de Helsínquia, e ali não havia distrações, não havia amigos, família ou as merdas quotidianas com que temos de lidar. Era apenas estar em estúdio com o Janne, trabalhar dia e noite durante umas quatro semanas e estava feito. Era produtivo, era bonito e era divertido. Mas desta vez, também por motivos de orçamento, quisemos experimentar outra coisa, especialmente porque o Marco Hietala dos Nightwish arranjou finalmente tempo para co-produzir as vocalizações, coisa que andávamos a falar com ele há muitos anos. Por isso decidimos gravar a bateria no Sound Supreme, voltar para casa, para o nosso estúdio caseiro, para gravar as guitarras, o baixo e alguns teclados que estão no álbum, e depois ir até Kuopio, que fica a cinco horas de Helsínquia, para o estúdio caseiro do Marco, onde gravámos as vozes durante uma semana. Foram muitos saltos entre locais, cidades e estúdios e demorou três a quatro meses até completarmos tudo. Foi, portanto, um processo muito mais longo do que aquilo a que estávamos habituados. Ainda assim não foi nenhum «Chinese Democracy», que levou 15 anos a ser feito. Mas trabalhar todos os dias num álbum durante três ou quatro meses pareceu-nos uma eternidade. Foi um período longo e difícil para trabalharmos em apenas oito canções, mas valeu a pena porque o som, a produção e o resultado final são os melhores que obtivemos até agora. Por isso acho que tomámos a decisão certa.

Amoral2014_7_Photo_Valtteri_HirvonenEstás então a tornar-te o produtor residente da banda?
Não pensei muito nisso em termos de futuro. Não fazemos ideia como vamos gravar o próximo álbum. É muito menos stressante irmos apenas até ao estúdio do Janne, mesmo que seja eu o co-produtor de tudo, o facto de o termos lá para nos ajudar com toda a panóplia técnica, com as gravações, com a edição, com a preparação dos microfones e tudo isso é muito mais fácil. Posso concentrar-me apenas em tocar guitarra e ouvir o desempenho dos outros tipos. Por isso podemos voltar lá ou voltar a fazer as coisas como fizemos desta vez. Não sei. Ainda há pouco falava com o nosso outro guitarrista e chegámos à conclusão que seria divertido gravar a bateria num sítio qualquer como fizemos agora e depois ir de carro até ao campo, a uma casa de família que tenho lá, e passar lá algumas semanas, literalmente no meio do nada, a gozar o tempo, a natureza no meio da floresta, ir nadar depois do trabalho e tal. Seria divertido experimentarmos… Nunca fizemos isso.

Essa é que seria uma forma totalmente prog-anos-70 de trabalhar na produção.
Sim… Gravar as guitarras na praia com os pés na água.

Amoral2014_9_Photo_Valtteri_HirvonenEste já é o vosso segundo lançamento para a editora Imperial Cassette. Que tipo de editora é esta e que diferenças existem entre trabalharem a este nível e com uma editora grande como a Spinefarm?
É a nossa própria editora, fundada por alguns dos elementos dos Amoral. É a nossa pequena empresa que até agora lançou apenas estes dois discos de Amoral, nada mais. É óbvio que é muito diferente, porque fazemos todo o trabalho nós próprios e pagamos tudo do nosso bolso. Mas ao mesmo tempo é também muito compensador, porque temos todas as decisões nas nossas mãos, ninguém nos diz o que fazer, não dependemos de ninguém para obtermos críticas, entrevistas, artigos na imprensa ou fabricar os CDs. Implica muito trabalho, mas também tem o seu lado positivo. A Spinefarm era uma corporação maior, com algumas pessoas a controlarem a promoção, label managers e por aí fora. Foi divertido por uns tempos e quem sabe um dia voltemos a lançar álbuns da forma old school, com um acordo normal com uma editora. Mas tem de ser uma editora que goste mesmo e acredite na banda, e tenha vontade de investir tempo e dinheiro nos nossos discos. Foi isso que nos deixou chateados no passado… Passamos um ano a trabalhar num disco, a escrever, a ensaiar, a gravar, a fazer a capa, tudo, e depois entregamos o trabalho à editora e sentimos que eles não estão a fazer muito por ele. E isso é o pior sentimento que podemos ter, porque não podemos fazer nada nós próprios, uma vez que a editora é deles e a edição é deles. Tudo o que podemos fazer é sentarmo-nos e ver o nosso próprio álbum a entrar numa espécie de limbo. É o pior sentimento que tive nesta indústria. Trabalhar na nossa própria editora é diferente, desde que estejamos dispostos a trabalhar muito, mas acho que… Especialmente hoje em dia, em que os discos vendem mal de qualquer modo e as grandes editoras não dão adiantamentos de jeito ou apoio para as digressões, que costumava ser muito importante para as bandas. Acho que os contratos com editoras como existiam há uns anos deixaram de existir. E todos os grupos deviam pelo menos considerar a hipótese de lançarem os seus próprios discos no futuro.

Estás, no entanto, a afastares-te cada vez mais de seres “apenas” um músico. Isso não retira um pouco a magia ao acto de escrever e tocar?
Sim, definitivamente. Não vou mentir, se tivesse oito horas por dia para fazer qualquer coisa, preferia tocar guitarra e escrever canções e letras do que fazê-lo apenas por três ou quatro horas e o resto do tempo a ir levar CDs e caixas aos correios, a responder a e-mails de trabalho e coisas desse género. O lado do negócio não é algo que me dê especial prazer, mas é necessário. É mesmo. E temos de saber o que se está a passar dentro da nossa banda e dentro da nossa organização para nos mantermos em contacto com a realidade. Se quisermos tocar apenas guitarra e sermos a rockstar que não quer saber nada de nada, temos boas hipóteses de que nunca ninguém escute o nosso álbum. Pura e simplesmente as coisas já não funcionam assim. Pode funcionar para um número muito limitado de bandas que se transformaram em super-estrelas gigantes, mas a maioria das pessoas precisam de conhecer o negócio também e precisam de estar em contacto com as suas decisões negociais e com outras coisas que não apenas a música. É assim que funciona.

A velha fórmula de pensar e de chegar ao sucesso apenas funciona actualmente em documentários antigos dos Slayer e dos Metallica.
[risos] Exactamente.

Amoral2014_8_Photo_Valtteri_HirvonenJá andas nesta indústria há 15 anos, desde que eras miúdo. Tens algum tipo de problemas em manteres-te motivado, quando já passaste várias vezes por tudo o que este estilo de música tem para oferecer?
Até agora não. Falei há pouco tempo sobre isso com o nosso baterista Juhana [Karlsson], que está comigo na banda desde o início, quando tínhamos 14 ou 15 anos de idade. É espantoso como, em ponto algum da carreira da banda até agora, nos deixámos de sentir genuinamente excitados por escrever um álbum, um novo conjunto de músicas ou embarcar na próxima digressão. Aconteceu a alguns elementos, mas já não fazem parte do grupo por causa disso. Por exemplo, o nosso vocalista antigo ficou cansado do ritmo de constantes digressões. O nosso guitarrista anterior também se fartou de entrar numa carrinha de digressões. Foi por isso que saíram. Ao mesmo tempo, os tipos que ainda se mantêm na banda permanecem porque nunca se fartaram disso… Ainda adoro fazer digressões, tanto quanto sempre adorei. Para dizer a verdade, acho que gostei mais destas duas últimas digressões que fizemos do que alguma antes. As coisas estão cada vez melhores nesse departamento. Adoro todos os aspectos de pertencer a uma banda, se tirarmos a tal parte de negócio que que falei há pouco. Mas tudo o resto, começando no acto de escrever uma canção sozinho em casa, apresentá-la ao grupo, gravá-la, ouvir o resultado final na fase de mistura, criar a capa com o artista gráfico, lançar o disco, tocar ao vivo… Especialmente digressões, conhecer novos sítios, novos continentes, novas pessoas. Adoro-o. Não há nada que não seja excitante em todo o ciclo de um álbum. Se isto fosse tudo o que eu fizesse enquanto tiver capacidade para tocar guitarra, fá-lo-ia de bom grado.

Isso é sinal de que gostas genuinamente da música que escreves e gravas.
Sim. Mas também temos sido muito criticados por mudar demasiado o nosso estilo, de death metal técnico para um género mais hard rock e depois, agora, para “águas” mais progressivas. Mas ao mesmo tempo temos de nos lembrar que, se existisse uma altura em que nos tivéssemos de cansar e fartar disto tudo, seria se no terceiro álbum tivéssemos continuado apenas com vocalizações gritadas e com death metal técnico. Foi aí que disse “OK, já fizemos três álbuns no mesmo género; é altura de tentar uma coisa diferente”. Era algo que precisava de ser feito… E manteve as coisas tão frescas e interessantes para os elementos originais da banda que parecíamos de novo miúdos. Dizíamos “Oh meu deus, podemos fazer melodias vocais, podemos fazer grandes refrões hard rock, podemos fazer isto, podemos fazer aquilo”. Era como todo um novo mundo a abrir-se para nós. É por isso, na minha opinião, que toda a gente neste grupo sabe que é tão importante evoluirmos, nem que seja apenas para mantermos a nossa sanidade e o nosso interesse na banda. Porque nos podemos fartar se fizermos três ou quatro álbuns com apenas um tipo de riff e sonoridade. Qual é o objectivo disso? É isso que acaba por fartar e fazer desaparecer a motivação.

amoralbeneathband_638Se é normal uma pessoa ter uma colecção de discos com vários estilos e géneros, porque se critica tanto uma banda que muda de estilo?
As pessoas costumam dizer que os Metallica costumavam tocar speed metal, mas com álbuns como o «Load» tentaram tocar blues. Sim, mas eles eram miúdos quando tocavam speed metal e agora são pais com 40 anos de idade numa banda que vende milhões. [risos] São pessoas diferentes e é óbvio que a música vai reflectir isso. Toda a gente muda, especialmente se compararmos a altura em que temos 15 anos com a altura em que temos 30 ou 40 anos. Como é que alguém pode esperar que eu goste exactamente do mesmo tipo de música de que gostava quando tinha 15 ou 18 anos? Os nossos gostos mudam, o nosso estilo música, a forma como tocamos muda, o modo como pensamos muda e a forma como vemos o mundo muda. Então como raio seria sequer possível soar da mesma maneira? Algumas bandas, como os AC/DC ou os Slayer, fazem isso: soam da mesma maneira há 30 e tal anos. Mas acho que isso é apenas uma decisão sensata a nível profissional, porque sabem o que os seus fãs querem ouvir e como escrever esse tipo de música. E é isso que fazem, porque é essa a “marca” que representam. Compreendo perfeitamente isso e tenho a certeza de que o Angus Young e talvez o Jeff Hanneman escreveram outro tipo de material apenas para eles próprios ou para gravar no CD do projecto paralelo deles de que nunca ouvimos falar. Porque aposto que essas pessoas não estão realizadas a escrever sempre o mesmo tipo de canção há 40 anos. Eu pelo menos estaria fartinho até à raiz dos cabelos.

Eles devem ser tão felizes a compor como qualquer pessoa a ir para o emprego todos os dias.
É claro que para mim, que pertenço a uma banda pequena, é fácil dizer “Ah, não faria aquilo”, mas a verdade é que, se eu estivesse nos AC/DC, faria provavelmente a mesma coisa. Quando temos milhões de fãs e fazemos tanto dinheiro a tocar – deve ser divertido tocar para 50 mil pessoas todas as noites. Se é isso que é preciso para estar nos Bon Jovi, nos Metallica ou nos AC/DC… Fazer o tipo de coisas que as pessoas esperam que façamos, que raio, porque não? Podemos sempre fazer um projecto paralelo mais artístico onde tentemos alguma coisa nova e mais estranha. Mas a partir do momento em que não recebemos praticamente dinheiro nenhum para tocar, a única coisa que podemos fazer é certificarmo-nos de que escrevemos exactamente o tipo de música que queremos ouvir.

«Fallen Leaves & Dead Sparrows» foi editado a 1 de Março.
Página oficial

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