DEADLOCK

Deadlock logo2014As últimas semanas têm sido uma montanha-russa emocional para os alemães Deadlock. A meio de Agosto, a banda bávara lançou a compilação dupla «The Re-Arrival», que apresenta os seus grandes temas re-arranjados, em parte regravados, remisturados e algumas faixas novas, bem como versões alternativas e demo. Desde aí, tem sido sempre a subir, com gente como Alex Krull (Atrocity), Niklas Sundin (Dark Tranquillity) ou Richard Sjunesson (The Unguided) a mostrarem o seu apreço pelo lançamento e o anúncio da gravidez do primeiro filho da vocalista Sabine Scherer. Até que, esta terça-feira, o estado de graça se transformou em calamidade: Tobias Graf, o ex-baterista e fundador da banda, morreu repentinamente aos 35 anos. Esta entrevista com o guitarrista Sebastian Reichl foi feita antes da trágica notícia e mostra bem o nível familiar de uma das mais interessantes bandas de death metal melódico e moderno da actualidade.

DL-band-highresEste disco foi feito para cumprir o resto de acordo que ainda tinham com a Lifeforce Records quando assinaram pela Napalm ou é um novo contrato?
Tínhamos de fazer, contratualmente, mais um disco para a Lifeforce… Falámos com eles e decidimos fazer uma espécie de best-of depois de termos editado o nosso primeiro lançamento pela Napalm Records. Por isso foi uma coisa prevista no anterior contrato sim, mas também queríamos ter um bom último disco na Lifeforce.

Este tipo de lançamento, com faixas raras, inéditas e algumas partes regravadas e remisturadas é algo que ouvias nas tuas bandas favoritas, quando eras novo?
Não. Para nós sempre foi muito claro que, quando fizéssemos um best-of ou alguma coisa deste género, teria de ser muito mais do que uma simples compilação. Queríamos criar um lançamento para os fãs, a baixo preço, em formato duplo, com canções raras e faixas inéditas. Queríamos fazer uma coisa em grande. Acho que é melhor fazer este tipo de best-of do que aquelas compilações de 15 faixas retiradas dos álbuns que saem todos os dias, sem surpresas nem canções novas.

Que alterações fizeram nas canções antigas?
Regravámos as partes de bateria e de baixo. Todas as pistas de bateria e baixo no CD 1 são regravadas e, por vezes, rearranjadas. A maior parte das guitarras, dos teclados e algumas partes vocais do nosso cantor anterior Joe [Prem] e da Sabine [Scherer] permaneceram iguais. Tenho o meu próprio estúdio – o Slaughter’s Palace – na cidade onde vivo, e é aqui que gravamos tudo sozinhos desde 2006. Por isso, tinha todas as pistas de todos os discos no meu computador. Deste modo, não tivemos de regravar nada de raiz, do material antigo. Substituímos apenas algumas partes vocais do Joe pelas do nosso novo vocalista [John Gahlert], porque queríamos que os novos elementos pudessem estar também nas faixas mais antigas. Tudo o resto é basicamente o mesmo. Fizemos uma nova mistura e remasterizámos o material, mas a maior parte das partes foram as mesmas que já tínhamos.

DL-highresFoi uma decisão consciente da vossa parte respeitar as músicas antigas e não mudar os arranjos ou alguma passagem específica que, hoje em dia, achassem que podia ter sido feita de maneira diferente?
Podíamos ter feito muitos rearranjos, mas também sei que, quando há uma música de outra banda que adoro e mudam o fraseamento do vocalista, o solo de guitarra ou alguma outra coisa, o meu subconsciente queixa-se sempre. É complicado entrar em grandes mudanças, porque os fãs não gostam assim tanto e mesmo eu próprio… Pode ser agradável ouvir algo com novas partes gravadas e a soar bem, mas deixa de ser a música que era. Por isso era importante para mim deixar as canções antigas bem vivas com as novas misturas.

A banda atravessou algumas mudanças de formação nos últimos anos. O Johannes, o [guitarrista anterior] Gert Rymen e o [baterista anterior] Tobias Graf saíram pelo mesmo motivo?
Foram motivos diferentes. Por exemplo, o Johannes Prem aceitou uma excelente proposta de trabalho na Áustria, num clube de hóquei de lá. Também começou a sua própria família, é casado e tem um filho e, por isso, deixou de ser possível para ele manter a actividade na banda. O Gert é de Berlim, e fica a cinco horas de nós – que vivemos na Baviera – e também tem a sua própria família com duas crianças e não tem qualquer tempo disponível neste momento. O Tobias tem a sua própria empresa de comida vegan; é um negócio muito grande, no qual ele trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana. Ele disse-nos “Adoro-vos, fundei esta banda, mas já não consigo aqui estar”. São sempre mudanças na vida, mas o que é certo é que agora eu sou o único elemento fundador que resta e tenho de lidar com estas situações. É a vida.

O facto de seres o mais antigo membro da banda – e o único fundador que resta – é uma responsabilidade acrescida para ti?
Não. Pelo menos não agora. Sempre fui eu que escrevi todas as canções que gravámos e, por isso, já seria o responsável pelo background musical da banda de qualquer modo. Talvez isso sim seja uma pressão, porque sei que sou o responsável por todos os outputs musicais que fazemos. Mas não sinto qualquer tipo de responsabilidade acrescida só porque sou o elemento mais antigo da formação, isso não.

As ideias musicais surgem-te naturalmente ou tens de sentar-te e trabalhar no duro para elas aparecerem?
Acontecem-me os dois tipos de situação. Tenho sempre muitas ideias melódicas e harmónicas na cabeça. Penso, por exemplo, que vou fazer um coro que mude de tom menor para tom maior, e trabalho a partir daí. Tenho formação musical e, por isso, alguma facilidade em transpor o que tenho na cabeça para a minha guitarra, mas tenho sempre de trabalhar com a guitarra. Mas também tenho muitas situações de pura inspiração. A maior parte das vezes acontece quando me engano na nota e penso “Fixe!” e trabalho a partir desse erro. Uso a cabeça e os sentimentos.

LFR144As canções novas no «The Re-Arrival» podem ser uma pista de como o próximo álbum dos Deadlock pode vir a soar?
Talvez, mas nunca sei o que vamos fazer no futuro, e mesmo eu próprio. Não sei que ideias e que tipo de coisas musicais me vão surgir na cabeça. Está sempre em aberto. O que sempre quis foi escrever música emocional, com impacto e groove. E isso manter-se-á sempre no futuro. Mas existirão também sempre algumas coisas inesperadas para as pessoas, coisas que me desafiem sobretudo ao nível dos solos. Isso é Deadlock típico e é assim que vai continuar no futuro, creio eu.

Tens consciência, quando compões, que as vossas canções devem ser apelativas para o público e ter também uma parte mais técnica que te desafie ou isso é uma coisa natural no processo e tudo o que escreves sai com essa estrutura?
É muito importante para mim ter, efectivamente, uma parte harmónica e melódica nos coros, quase pop, mas é igualmente importante ter uma passagem mais pesada e tento também fazer sempre alguma coisa mais técnica, porque quero também agradar aos ouvintes que são mais “maluquinhos da guitarra”. É um processo bastante natural, mas também requer uma boa fase de planeamento.

Recusas por completo a ideia de um dia gravarem um disco acústico para explorarem o lado mais melódico da vossa música e a voz da Sabine?
É engraçado teres falado nisso, porque sempre pensámos como seria gravar esse tipo de álbum ou fazer um espectáculo com essas características. Não sei se alguma vez o faremos, mas seria porreiro. A Sabine é uma cantora extraordinária. Gravo as partes vocais dela desde 2006; ela tem ideias que lhe vêm à cabeça, abre a boca e sai tudo de forma tão clara e espectacular. Está sempre no tom e é incrível estar presente nas gravações dela. É espantoso e, principalmente nesse ambiente acústico, ela poderia brilhar de forma intensa. Mas não sei se alguma vez o faremos. [risos] Talvez.

Vocês têm também evitado a exploração da imagem da Sabine, enquanto outras bandas têm fotografias sexy das vocalistas femininas nas capas das grandes revistas. Isto é uma decisão consciente da banda?
Acho que é uma coisa natural. A Sabine é uma pessoa muito decente, longe das pretensões de pop star que normalmente estão associadas à posição que ocupa. Não quer fazer grandes poses nem usar o corpo para promover a música que fazemos. É uma rapariga muito simpática e não pretende ser qualquer tipo de sex symbol. Fazemos música e nunca nos passou pela cabeça explorar a imagem dela.

Deixaram a temática de defesa dos direitos dos animais há já um par de lançamentos. Existe alguma possibilidade de voltarem a esse tema num disco no futuro, uma vez que o vegetarianismo e o veganismo são agora mais populares que nunca?
Sim, essas coisas são mais populares agora, mas quando fizemos o [quarto álbum] «Manifesto», em que todas as 11 faixas falavam sobre os direitos dos animais, a ideia era deixar ali precisamente o nosso manifesto sobre esse assunto e depois explorar outros tópicos. Existem tantas outras temáticas importantes e interessantes e, por isso, deixámos esse tipo de letras ali, no «Manifesto». Talvez façamos ainda algumas letras à volta dos direitos dos animais no futuro, mas não vai haver mais nenhum álbum inteiro com esse conceito. Mas tens razão quando dizes que o veganismo e o vegetarianismo estão a ficar enormes. Sinto isso aqui na Alemanha. Estima-se que tenhamos dez milhões de vegetarianos e um milhão de veganos. O fenómeno está a ficar mesmo muito grande aqui.

Qual o conceito do vídeo do tema «Waking The Sirens», que lançaram recentemente? É sobre os direitos dos animais?
As letras foram escritas pelo Jonas e não tenho a certeza se, no sentido figurativo, falam sobre os direitos dos animais. Não sei, talvez. [risos] A ideia de criar uma imagem mais arrepiante e metálica para o vídeo foi do novo vocalista, para jogar um pouco com as expectativas das pessoas. Muita gente acha que não somos uma verdadeira banda de death metal e a ideia era criarmos um vídeo muito forte, não para chocar os nossos fãs mas para brincarmos um pouco com esse tipo de expectativas.

E em relação ao vídeo do «I’m Gone», que tem uma imagem bastante pós-apocalíptica? Qual foi a inspiração aí?
É bastante óbvio que as pessoas exploram o planeta em que vivemos para além das potencialidades que ele tem, para atingirem coisas que não são importantes. Existem muitas pessoas a morrer porque os países a Oeste se habituaram a gastar demasiado… É uma coisa muito óbvia, que toda a gente sabe. O vídeo tem uma imagem pós-apocalíptica para mostrar como será o mundo se o explorarmos até já não haver nada.

Estás a fazer esta entrevista depois de saíres directo de um turno da noite no teu emprego. Por isso os Deadlock não te pagam as contas.
Não. Tenho família, tenho uma casa para pagar… E não somos a banda que mais digressões faz nem a que tem um maior cachet, por isso não podemos pagar as contas com o dinheiro da música. Não é possível hoje em dia, com a indústria musical que existe. Todos nós temos empregos fixos.

Ainda assim a banda tem-se tornado cada vez mais popular, certo?
Sim. Mas sabes, por exemplo os Caliban, aqui da Alemanha, dedicam-se só à música mas não podem pagar apartamentos e talvez consigam juntar algum dinheiro, mas não vão ficar ricos nem nada que se pareça. Mesmo uma banda com o nível de popularidade deles não faz os seus elementos ricos… Toda a gente tem de trabalhar, a indústria musical está fodida.

Isso também vos dá uma certa liberdade artística, certo? Saberem que, façam o que fizerem, os resultados das vendas ou das assistências nos concertos não vos afectarão a estabilidade financeira.
Sim, certo. Mas as editoras continuam a ter planeamentos e prazos e seria bom que o novo álbum saísse no início de 2015 e tudo isso. Existe sempre alguma pressão das editoras, mas não temos de fazê-lo porque estamos aflitos de dinheiro ou algo desse género.

«The Re-Arrival» foi editado em Agosto.
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