EMPYRIUM

empyrium_logo_grossO ano editorial vai ficar marcado pelo regresso aos discos dos alemães Empyrium, um dos grupos que marcou o boom de música melancólica, atmosférica e neo-folk do final da década de 90. Depois de criar, fomentar e levar à fama um outro projecto – os The Vision Bleak – o multi-instrumentista Ulf Theodor Schwadorf chamou Thomas Helm e, juntos, engendraram «The Turn Of The Tides», novo álbum dos Empyrium que promete recolocar a boa e velha melancolia alemã no mapa. Schwadorf explicou-nos o móbil e o processo de trabalho.

_MG_0195Quais foram os motivos iniciais que te levaram a encerrar a carreira dos Empyrium e qual foi a motivação para voltares ao projecto agora?
Quando encerrámos actividades em 2002 nunca pensei que voltássemos aos Empyrium. Para mim os Empyrium estavam terminados nessa altura, por várias razões. A primeira era não conseguir imaginar continuar o projecto sendo sincero comigo próprio, porque nessa altura eu queria fazer alguma coisa diferente – que fiz, com o projecto The Vision Bleak, com os quais acabei por lançar alguns álbuns – para sair da temática naturista e mística, que tinha explorado bastante a fundo com os Empyrium. Por isso, quando fizemos uma pausa em 2002 pensei mesmo que era ali o final do projecto, mas depois começaram a acontecer uma série de coisas que me fizeram reconsiderar essa decisão. A primeira foi, em 2006, a editora nos pedir para fazer uma espécie de “best-of” chamado «A Retrospective…», para o qual gravámos algum material novo e regravámos temas antigos… Isso fez-nos regressar um pouco à atmosfera de Empyrium. A última coisa que aconteceu foi a editora pedir-nos para gravarmos uma canção para uma compilação que eles lançaram, chamada «Whom The Moon A Nightsong Sings», que continha muitas bandas, algumas delas inspiradas pelos Empyrium e outras que faziam música similar à que fazíamos. Gravámos o tema «The Days Before The Fall» e, quando estávamos em estúdio a produzi-lo, apercebemo-nos de que podíamos manter os Empyrium em 2010 sendo fiéis a nós próprios e, ao mesmo tempo, sendo fiéis ao nome do projecto e àquilo que ele representa. Foi assim que começou o «The Turn Of The Tides».

Sentiste, em 2002, que o teu interesse e inspiração por este estilo de música estava um pouco esgotado ou foi um caso de pura falta de motivação e vontade de fazer algo diferente?
Estava esgotado. Comecei os Empyrium quando ainda era adolescente e, durante seis ou sete anos, estive sempre 100% focado no projecto e dedicava-lhe 24 horas por dia. Precisava mesmo de uma pausa naquela altura e os The Vision Bleak eram uma coisa muito mais livre, rock e fácil. Isso fez com que fosse óptimo para mim tocar esse tipo de música, actuar ao vivo e estar cheio de energia em palco. Pela primeira vez estava a fazer música que era muito fácil de gravar e precisava mesmo desse tipo de pausa, porque Empyrium é emocionalmente muito pesado. Precisava de um descanso disso.

Como decorreu a composição deste novo álbum? Foi inspiração repentina ou a escrita demorou algum tempo?
Demorámos algum tempo. Ainda bem que perguntaste isso, porque todo o processo de composição deste disco foi muito especial. Juntávamo-nos sempre durante cerca de uma semana no meu estúdio e gravávamos uma canção de cada vez. Começámos praticamente do zero… É claro que tínhamos algumas ideias para algumas faixas e havia músicas mais completas que outras, mas estava tudo muito no ar. E acabámos por gravar as canções à medida que as íamos compondo, o que fez com que ficassem muito emotivas. Porque gravámos o material quando o sentimos, em vez de compor uma música e depois gravá-la mais tarde tentando recriar a emoção em estúdio. Desta vez gravámos as canções à medida que as íamos fazendo e foi óptimo; o conceito do álbum evoluiu à medida que íamos gravando as faixas. Por isso acabámos por demorar algum tempo para terminar este disco tão especial.

_MG_0054Não tinham então uma ideia muito clara, antes de iniciarem o processo de escrita, de como um novo álbum dos Empyrium iria soar.
Neste disco seguimos o nosso instinto. A faixa «The Days Before The Fall» tornou-se uma espécie de fio condutor para o álbum, mas depois fizemos a «Dead Winter Ways», que era diferente, e foi essa que se tornou a linha condutora. E depois fizemos a música seguinte e foi essa que se tornou a linha condutora e por aí fora. Foi evoluindo cada vez mais. A última faixa que fizemos foi o tema-título, o «The Turn Of The Tides», que é também o último do disco, e era totalmente diferente do resto do material também. A única coisa de que tive medo durante todo o processo foi que o trabalho acabasse por soar como uma compilação de faixas diferentes, mas não soa nada, uma vez que trabalhámos num conceito geral em que as canções deviam mais ou menos encaixar e isso acabou por dar ao álbum um sentimento de coerência. Foi magnífico, quando fiz a masterização e terminei o disco, perceber que funciona muito bem em sequência.

A lista de faixas está na mesma ordem pela qual compuseram as músicas?
Não totalmente, mas quase. A «Saviour» não foi a primeira música que compusemos, mas sim a «The Days Before The Fall», mas por exemplo a «With The Current Into Grey», que é a penúltima do disco, foi a penúltima em que trabalhámos, assim como o tema-título que encerra o álbum, que foi o último que fizemos. A «Dead Winter Ways», que foi o segundo tema em que trabalhámos, também é a segunda faixa do disco.

A banda que vos acompanha ao vivo é uma espécie de guia de músicos importantes da música atmosférica e emocional. Como reuniram um grupo tão fantástico de pessoas? Imagino que o teu trabalho de produtor tenha ajudado um pouco aqui.
Ajudou muito, porque trabalhei com todos estes músicos em estúdio. E isso permitiu-me saber que são grandes músicos, grandes pessoas e que gostam de Empyrium. É muito satisfatório contar com o Neige dos Alcest, com o Eviga dos Dornenreich ou com o Fursy [Teyssier] dos Les Discrets porque já os conhecia a todos muito bem – produzi dois discos dos Alcest, quatro ou cinco dos Dornenreich e também o álbum dos Amesoeurs, em que o Fursy esteve envolvido – e sabia que eram fãs de Empyrium. O Fursy e o Neige disseram-me, quando trabalhámos juntos no disco dos Amesoeurs – acho que por volta de 2008 – que tinham crescido a ouvir Empyrium e que se eu alguma vez ressuscitasse o projecto e precisasse de ajuda, devia ligar-lhes. E foi o que fiz. [risos] E eles também ficaram satisfeitos por participar, porque para eles tocar ao vivo com os Empyrium é como se fossem férias. Não têm qualquer pressão; são apenas o guitarrista ou o baixista. É óptimo para eles e muito bom para mim ter esta formação com músicos tão talentosos e pessoas tão especiais.

_MG_0206Mesmo assim, reuni-los todos no mesmo palco na mesma noite deve ser um pesadelo em termos de marcações e agenda. Imagino que queiram fazer poucos concertos mas especiais, certo?
Sim. Vamos dar muito poucos concertos e torná-los especiais. É esse o conceito que temos para tocar ao vivo: não queremos tornar-nos uma banda de digressões; queremos espectáculos especiais em ocasiões especiais, com esta formação especial e setlists especiais. Porque o concerto normal num clube podemos vê-lo todos os dias em todos os cantos. Mas com os Empyrium queremos mesmo tornar a experiência especial e exclusiva; ajuda a música e tornará a experiência mais marcante para o público também. A prova de que temos razão nesta abordagem é que todos os concertos até agora têm sido espantosos, muito emotivos e atmosféricos.

Apercebeste-te, durante o tempo que os Empyrium estiveram extintos, do estatuto de culto que foram acumulando?
Nunca me tinha apercebido bem de quanto os Empyrium eram importantes para as pessoas. É claro que sabia que a banda tinha sucesso porque conhecia os números de vendas e tudo isso, mas apenas percebi do que significava para as pessoas quando desisti do projecto. Quando tocava ao vivo com a minha outra banda, os The Vision Bleak, em cada um dos concertos – e não estou a brincar, foi mesmo em todos – em qualquer parte do mundo, as pessoas perguntavam-me por Empyrium. Ao princípio ficava um pouco chateado e pensava “Meu, mas agora tenho este novo projecto, não vês? Os Empyrium acabaram e agora dedico-me aos The Vision Bleak”. Mas aos poucos fui-me apercebendo que as pessoas não o faziam por maldade ou apenas porque era um projecto extinto; é que os Empyrium significavam muito para muitas pessoas. Foi isso que fui percebendo gradualmente ao longo dos anos. É um milagre para mim, neste tempo em que é tudo esquecido mais rapidamente do que o tempo que demora a ser conhecido, que uma banda possa estar extinta há dez anos e não estar esquecida. Na altura tive algum ressentimento por causa dos The Vision Bleak, mas depois apercebi-me daquilo que os Empyrium significavam realmente para as pessoas.

O vosso último disco tinha sido cantado em alemão, mas neste novo decidiram voltar ao inglês. Foi uma decisão tomada conscientemente ou o inglês é a linguagem por excelência dos Empyrium?
Nem pensámos nem falámos nisso. A primeira canção que fizemos, «The Days Before The Fall», era em inglês e assim continuámos. Tinha o título do disco, «The Turn Of The Tides», na cabeça há algum tempo, desde o tempo em que tínhamos decidido fazer um novo álbum de Empyrium. Por isso encaixou tudo no devido lugar. Não discutimos se iríamos cantar em alemão ou em inglês: surgiu de forma tão natural quanto as canções. Limitámo-nos a seguir os nossos instintos. Para além disso, sinto-me perfeitamente confortável a escrever em inglês. É como se pusesse um filtro nas letras; o facto de me expressar em inglês ajuda-me muito.

Empyrium_2014O próprio fraseamento é muito mais fácil.
Sim, muito mais fácil. As letras em alemão podem muito facilmente descarrilar e deixarem de soar bem. É muito fácil isso acontecer; basta sairmos apenas um pouco da linha. É muito complicado não sermos lamechas em alemão, quando estamos a escrever letras emotivas.

Fala-nos um pouco do título do disco. Disseste há pouco que já o tinhas na cabeça mesmo antes do processo de composição começar.
Tem dois grandes significados para mim. Primeiro, é obviamente sobre ciclos: os ciclos da natureza e os ciclos da vida. Está tudo num grande movimento constante e começa tudo de novo todos os dias, ou em cada ciclo, e depois tudo acaba. Mas não há fim e não há início… O álbum fala muito destes ciclos. Isso é um dos significados. O outro é, claro, que os Empyrium estão de volta. É um título muito catchy para “Olhem para nós, aqui estamos de novo”. E como o disco também fala dos ciclos da natureza e da vida, achei que era um título perfeito.

Estás constantemente muito ocupado com uma série de projectos musicais e trabalho de produção. Ainda ouves música em casa, nos teus tempos livres e de lazer?
Quando trabalho oito ou nove horas por dia com uma banda que estou a produzir ou quando estou muito envolvido a fazer um álbum eu próprio, não escuto mais música nenhuma. Mas existem sempre períodos em que estou mais relaxado e não tão ocupado; nessas alturas adoro ouvir música. Estranhamente, oiço principalmente coisas que conheço, por puro divertimento. Os discos que já conheço bem dão-me satisfação instantânea. E claro, no carro também escuto música. Mas nem sempre… Quando estou a produzir uma banda de black metal dificilmente colocarei a tocar em casa um disco dos Darkthrone. Talvez escute qualquer coisa como Dead Can Dance, Brendan Perry ou This Empty Flow… Coisas antigas desse género, que sejam muito calmas e relaxantes.

empyrium_TToTT_JEWELcoverart_HDMas quando escutas um disco dos This Empty Flow que conheces bem e gostas muito, usas os teus “ouvidos de produtor” e pensas no que poderia ter sido feito de outra maneira nesse álbum?
É engraçado, porque as coisas mais antigas, que cresci a ouvir, nunca me despertam o “ouvido de produtor”, porque quando as ouvi pela primeira vez não tinha ouvido de produtor. Mas quando escuto alguma coisa nova, não consigo desligar essa forma de ouvir, mais crítica e analítica. Outras vezes, escuto coisas apenas porque são muito bem produzidas. Nem sequer gosto da música; apenas aprecio a produção. [risos]

O trabalho e o prazer não são coisas assim tão distintas para ti.
Certo. Por vezes consigo separá-los bastante bem, mas outras vezes é uma grande confusão. O ano passado fui de férias, mas antes tive uma altura muito stressante no estúdio com o lançamento dos The Vision Bleak. E quando fui de férias estive uma semana inteira sem ouvir qualquer música e apenas me apercebi disso quando regressei a casa. Nem uma nota. Não ouvi rádio nem nada. E foi muito, muito relaxante.

O que se segue para ti, em termos de composição e lançamentos?
Segue-se uma pequena digressão dos The Vision Bleak e depois vamos fazer um relançamento do nosso álbum de estreia numa edição muito especial, com faixas bónus, notas e um trabalho gráfico expandido. Vamos aproveitar o facto do disco fazer dez anos este ano para disponibilizar isso. Depois disso, já estamos a trabalhar em novas composições para os Empyrium também. Estamos a usar o mesmo método que usámos para o «The Turn Of The Tides»: diferentes sessões e trabalhar com tempo. Mas já temos algumas canções novas. E no próximo ano vou tentar fazer um novo disco dos The Vision Bleak. Vou também ressuscitar um velho projecto meu, chamado The Sun Of The Sleepless. Retirei-o do “caixão” e estou a compor algumas músicas nesse âmbito. Tenho também algumas produções marcadas para o estúdio, por isso vou estar bastante ocupado.

Empyrium-3The Sun Of The Sleepless vai ter a mesma abordagem musical que tinha no início dos anos 00?
Vai ter a mesma abordagem e isso significa que pode ser qualquer coisa. Pode ser black metal, pode ser música ambiental, pode ser qualquer coisa. Sempre usei The Sun Of The Sleepless como uma espécie de veículo… Sempre que me sinto inspirado, preciso de expressar essa inspiração imediatamente e fazer o que quer que me venha à cabeça. É esse o conceito de The Sun Of The Sleepless. Se sentir vontade de fazer uma canção agressiva faço-a, e se sentir que quero fazer uma música ambiental e que quero fazê-la agora e até tenho tempo para isso, faço-a. É paradoxal, mas a verdade é que uso o tempo livre que tenho da música para fazer mais música. [risos] Não consigo livrar-me disto.

Conheço a sensação. Temos um pouco de tempo, fazemos um novo projecto e, de repente, temos uma série de coisas a acontecerem ao mesmo tempo.
Exactamente. Acontece tudo ao mesmo tempo. E, há cerca de dez anos, o trabalho de um álbum acabava quando terminávamos o álbum. Hoje em dia o trabalho começa quando terminamos o álbum e é disso que me estou sempre a esquecer. Temos de fazer o trabalho gráfico, temos de fazer as entrevistas, temos de fazer os concertos, temos de fazer o planeamento para as digressões, tudo isso. Depois temos três projectos, é demais e só pensamos “Nunca mais faço um disco na vida!”. Mas passado um mês estamos de volta à composição porque sentimos falta desse sentimento.

É completamente claro para ti, quando tens uma ideia musical, em que projecto vais usá-la e desenvolvê-la?
Não. Mas depois acaba por encaixar de forma natural. Tenho diferentes estados de espírito. Quando estou num estado de espírito The Vision Bleak escuto outro tipo de música e sinto-me diferente… Torna-se então óbvio para mim o que vou fazer. Escrevo sempre música em blocos e nunca trabalho de forma muito caótica. Se estou a compor para The Vision Bleak faço-o durante duas ou três semanas ou então durante dois ou três meses e o mesmo se passa com Empyrium. Ou estou num estado de espírito The Vision Bleak ou num estado de espírito Empyrium. Não os misturo. Mas por acaso o tema «With The Current Into Grey», do novo álbum de Empyrium, era uma ideia que tive originalmente para The Vision Bleak em 2002, mas arranjado de uma forma completamente diferente. Soa de forma completamente distinta. Sabia que a progressão de acordes funcionaria muito bem numa canção melancólica; usámos a ideia original ao contrário e fizemos uma canção com ela. Mas acontece muito raramente eu poder usar uma ideia para ambas as bandas.

«The Turn Of The Tides» foi editado em Julho.
Site oficial

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