IMPALED NAZARENE

IMPALED-NAZARENE-LOGOSe olharmos para a cena europeia como um todo, dificilmente encontramos uma banda mais zangada, energética e defensora dos princípios do metal extremo que os finlandeses Impaled Nazarene. O colectivo liderada pelo vocalista Mika Luttinen espalha veneno em todas as direcções, em forma de black metal cruzado com punk e hardcore, há mais de duas décadas e não mostra sinais de cansaço ou abrandamento no mais recente trabalho «Vigorous And Liberating Death», acabado de editar, que recupera boa parte do legado punk da banda. Conversas com Luttinen dão sempre boas entrevistas, por isso perguntámos-lhe sobre a composição do álbum, a cena finlandesa, a morte e os avanços russos.

344_photoO «Vigorous And Liberating Death» é mais zangado disco de punk/black metal que fizeram nos últimos anos. Era vossa intenção explícita escrever um conjunto de canções mais punk ou as coisas desenrolaram-se assim naturalmente?
Foi uma coisa muito natural. As pessoas têm dito que é um álbum que regressa um pouco às nossas raízes, que é a sonoridade mais black metal desde blá blá blá. É muito difícil para mim aferir sobre isso, porque estou demasiado próximo das músicas. Acho que uma das coisas que contribui para isso é a produção do disco, que tem uma gravação mais próxima do som analógico, quando comparado com alguns dos nossos últimos trabalhos. Mas se comparar este disco com o «Road To The Octagon», que foi o nosso lançamento anterior, não vejo assim tantas diferenças. Mas é verdade que há um par de canções que são muito mais punk do que o último disco, mas também haviam algumas faixas meio punk no «Road To The Octagon». Acho que compete a cada um dos ouvintes decidir se é um disco que remete para as nossas raízes ou não.

São agora um quarteto. Isso mudou, de alguma forma, o modo como compõem a música?
Não, trabalhamos da exacta mesma forma que fazemos desde 1996, quando lançámos o álbum «Latex Cult»: toda a gente na banda escreve música. Não funcionamos como banda no sentido em que não vamos para a sala de ensaios e tentamos “montar” as canções. O que fazemos é: toda a gente escreve em casa, depois encontramo-nos no local de ensaio, pegamos numa nova canção de alguém e começamos a tentar perceber se é boa ou não. E, porque funcionamos desta maneira há já tanto tempo, é tudo muito fácil para nós. Por exemplo, se alguém traz alguma coisa nova para os ensaios, está normalmente 99% pronta. Podemos mudar um pouco um verso ou outro da música, talvez retirar um riff ou assim, mas normalmente a música está praticamente terminada quando chega aos ensaios. Desde 2010 que funcionamos como quarteto, porque perdemos o nosso segundo guitarrista e regressámos ao formato de quarteto, mas agora as coisas são mais fáceis com apenas um guitarrista, na minha opinião. Porque já tocamos juntos há tanto tempo, que sabemos exactamente que tipo de música escrever para Impaled Nazarene. Por isso ninguém aparece na sala de ensaio com slide guitar ou merdas desse género nas novas músicas. [risos] Quando compomos para Impaled Nazarene é Impaled Nazarene que sai. Nesse sentido, é fácil escrever para esta banda, porque nunca sentimos que temos de acrescentar alguma coisa extra ou mostrar quão excelente é aquele riff técnico. Basicamente é metal rápido e directo, aquilo que fazemos.

Então nunca é proferida na vossa sala de ensaio a célebre frase “Isto é giro, mas não encaixa na sonoridade de Impaled Nazarene”?
[risos] No passado existiram talvez um par de situações dessas. Mas normalmente o maior problema que temos é quando aparece alguém com mais de três riffs por faixa. [risos] O erro mais comum é alguém tentar escrever uma música com mais do que apenas um riff para o verso, outro para a secção do meio e outro para o refrão. Se alguém aparecer com cinco riffs eu digo logo “Nããão… É demasiado grande”.

backdrop2És conhecido por teres uma invulgar abertura para novas bandas e estilos no teu gosto pessoal, mas como mencionaste tudo o que escreves sai com a sonoridade de Impaled Nazarene. Fazes um esforço consciente para não misturar o que ouves com aquilo que compões para esta banda?
Na verdade, raramente escuto música nova. Prefiro os meus álbuns mais antigos. Não ando à procura de novas bandas na internet porque basicamente não tenho interesse nenhum nisso. Não tenho novas influências; as minhas influências continuam a ser a porra dos Motörhead, Venom, The Exploited, Extreme Noise Terror e bandas desse género. É claro que, por vezes, existem determinados riffs que soam um pouco como as bandas que nos influenciam [risos] mas se alguém nos acusar de estarmos a fazer uma cópia chapada podemos sempre responder “Não não, isto foi feito como uma homenagem”.

Isso aconteceu com vocês no passado com um riff dos Helloween. Lembras-te disso?
Sim. Essa foi, por acaso, um coisa feita de propósito. Era uma canção composta pelo nosso baixista. Ele estava na sala de ensaios a tocar aquele riff e eu disse-lhe “Que raio, isso é o «Ride The Sky» dos Helloween!” e ele respondeu “Por acaso sei disso, mas estou-me a cagar”. E encaixava na música, por isso não encontrei qualquer motivo para não usarmos o riff. O que fiz depois foi ler as letras do «Ride The Sky» e fiz uma espécie de versão Impaled Nazarene, mas é óbvio que ficou muito pior do que a versão deles. Foi a nossa pequena homenagem aos Helloween.

Quando começamos a pensar muito no que fazemos e como o fazemos, estragamos um pouco o divertimento de tocar este tipo de música, certo?
Sim, já há muitos anos que ando a dizer que a música é entretenimento. Não suporto o tipo de pessoas que chamam “arte” à sua música e são todos filosóficas sobre qualquer tipo de merda que acontece na banda delas. É o pior pesadelo que tenho… Não suporto esse tipo de pessoas. Se alguém me vem com a conversa “Toco numa banda e a minha arte blá blá blá” digo-lhes logo “Vai-te foder; não estou para ouvir esta merda”. É entretenimento. É óbvio que mesmo bandas como nós têm uma mensagem séria, mas ao mesmo tempo temos de perceber que isto é entretenimento, tal como o cinema. Quando tocamos ao vivo estamos ali para entreter as pessoas e não para mostrar o nosso lado “artístico” ao público. Nunca vou fazer isso porque não acredito nesse tipo de coisas. Para mim é puro entretenimento, absolutamente.

I.N with backdrop Ei logoaProduziram vocês mesmos o disco ou trabalharam com um produtor externo?
Produzimos sempre os nossos próprios álbuns. O que fizemos desta vez foi o mesmo que já tínhamos feito com o «Road To The Octagon», foi termos ajuda do nosso técnico de som ao vivo Max Kostermaa para a mistura e captações. Ele já mistura os nossos discos desde 2008 e é obviamente muito fácil trabalhar com ele, porque nos conhece pessoalmente. E neste álbum, de novo, gravámos um de cada vez. Primeiro esteve lá o baterista, depois o guitarrista, depois o baixista e depois eu. E não estava lá mais ninguém para ver ou ouvir o que estávamos a fazer no estúdio. É um processo muito consistente quando estamos a interagir apenas com o engenheiro de som. E ele é muito inteligente e sabe como retirar aqueles 10% extra da nossa performance.

Este tipo de sonoridade mais directa e quase analógica foi uma decisão consciente que tomaram?
Para ser sincero não tínhamos tomado qualquer decisão e foi por isso que dissemos ao técnico de som que ele podia fazer aquilo que quisesse. Não lhe demos qualquer tipo de indicação sobre o que pretendíamos e ele nem sequer perguntou. Disse-lhe apenas “Envia-me uns ficheiros mp3 quando tiveres alguma coisa pronta”, porque não fazia a mínima ideia de como este álbum iria soar. Ele mandou-me a primeira música que ficou pronta, que foi a «Flaming Sword Of Satan», ouvi-a em casa e pensei “Que raio, isto soa mesmo ao som analógico dos anos 90”. E agradou-me. É claro que foi tudo gravado digitalmente, mas ele fez com que pareça uma gravação analógica, o que é muito porreiro.

De que falam as letras de canções como «Martial Law» e «Vigorous And Liberating Death»?
Todo o álbum é uma espécie de conceito sobre a morte. É a morte sob perspetivas diferentes, por isso uma canção como a «Martial Law» é sobre… Não sei se isto apareceu nas notícias em Portugal, mas no final do ano passado houveram uns membros da Greenpeace que foram ao Árctico. Provavelmente conheces a história… Os russos tomaram o barco deles e levaram-nos presos. Um desses elementos da Greenpeace era uma mulher finlandesa e cada um dos cabrões dos jornais aqui na Finlândia celebrou-a como se ela fosse uma heroína e blá blá blá. Que raio, ela é uma terrorista! Por isso, é uma canção basicamente sobre matar todas as pessoas que são membros da organização Greenpeace. Também tem a ver com morte, claro. Uma das frases mais fortes da canção é “O verde é o novo vermelho” e é verdade; estes eco-terroristas são os novos comunistas, na minha opinião. O tema «Vigorous And Liberating Death» é sobre o próprio Ceifeiro, é a própria Morte a dizer coisas como “Sou a portadora da sombra negra”, blá blá blá. Mas todas as canções no álbum estão de alguma forma ligadas à morte. Mesmo a faixa muito curta com letras em finlandês, cujo título traduzido é “Liberdade de expressão”, e que pode levar as pessoas a dizerem “Como raio é que um tema com esse título está ligado à morte!?”, mas está, porque na minha opinião toda a liberdade de expressão está morta na Europa. Se não está morta pelo menos está a morrer. Por isso tudo neste disco está ligado à morte.

ImpaledNazarene_VigorousAndLiberatingDeath_COVERNo passado foste muito crítico em relação à cena finlandesa. Como vês actualmente o metal no mainstream e underground local?
Como disse há pouco, raramente escuto música nova, mas existem algumas bandas excelentes actualmente aqui na Finlândia. Um dos grupos que descobri recentemente, porque tocaram na primeira parte do nosso concerto de apresentação do último disco, foram os Lost Society, que estão na Nuclear Blast e que estão a editar o segundo álbum. Trata-se de uma excelente banda de thrash da Finlândia. Nem queria acreditar quando eles fizeram a primeira parte do nosso concerto há um par de anos… E nessa altura eles tinham entre 16 e 17 anos. Foi basicamente uma vergonha para nós termos de subir ao palco depois deles [risos] porque eles deram totalmente cabo de nós. A primeira coisa que disse ao microfone quando subi ao palco foi “Estou com vergonha de tocar aqui depois destes tipos. Esta banda é tão boa!”. E o público gritou todo “Yeahhh!”. [risos] Foi engraçado. Por isso, os Lost Society são uma excelente banda finlandesa, e da cena black metal tenho de mencionar os Satanic Warmaster, os Horna claro e os Baptism. São boas bandas. Existe uma certa tradição no black metal… Às outras cenas não presto qualquer atenção, à excepção dos Battle Beast, que adoro. Diria que, neste momento, a cena finlandesa produz melhores bandas de metal do que há muito tempo. As coisas melhoraram porque os miúdos descobriram as suas próprias sonoridades e fazem coisas muito próprias.

As vagas e modas são menos importantes neste momento, certo?
Sim, absolutamente.

És uma das pessoas que se pode considerar um lifer. Sentes-te um veterano?
Por vezes, especialmente quando toco com bandas como os Lost Society. [risos] Não sei bem se me sinto um veterano, mas o que é certo é que me sinto velho como o raio! [risos] Estou consciente que tivemos o nosso pequeno impacto na cena desde o início da nossa carreira. Talvez possamos ser considerados uma banda veterana, mas não sei bem que o que implica ter esse estatuto. É algo em que nunca sequer pensei. A única coisa que já me passou pela cabeça foi “Foda-se! Estamos demasiado velhos para esta merda”.

IN Bottle MuthaFuCKAZ1Achas que, no metal, a idade e experiência também trazem um pouco de sabedoria ou nem por isso?
Sim, absolutamente. Foi algo que já abordámos em conversas na banda, durante digressões… Toda a gente no nosso grupo diz que gostaria de voltar a ter 30 anos porque, pelo menos para mim, foi o melhor período da minha vida – estava numa óptima forma e condição física. Gostaria de ter 25 ou 30 anos, mas ter a cabeça que tenho agora, toda a experiência que acumulei. Quando tinha 25 anos pensava que as pessoas que tinham 42 ou 43 anos eram uns cadáveres, mais para lá do que para cá. [risos] Agora que eu próprio tenho 43, a perspectiva é completamente diferente em montes de coisas.

O dinheiro que fazem com a banda é suficiente para viverem apenas da música, nesta época de grande crise na indústria musical?
Para dizer a verdade, todos os elementos da banda têm empregos normais e já os têm desde 2000. Nunca fomos capazes de viver apenas com o dinheiro dos Impaled Nazarene, porque nunca fomos uma daquelas bandas de black metal que fizeram verdadeiro sucesso, como os Emperor e assim. As nossas vendas não foram nada quando comparadas com as deles. E não fazemos assim tantas digressões; se queremos fazer dinheiro temos de estar sempre em digressão. Escolhemos um tipo de caminho diferente, mas funciona para nós. Não me estou a queixar… É claro que é uma chatice não sermos capazes de viver da música. Preferia fazer apenas música do que ter de ir para o emprego todos os dias, mas por outro lado existe uma grande vantagem nesta fórmula e esse é um dos motivos que nos manteve juntos, pelo qual somos uma banda com um sentido de união cada vez mais forte, pelo qual nunca nos separámos e depois reunimos dois anos depois como a maioria dos grupos parece fazer actualmente. Temos tido uma carreira muito consistente; nunca tivemos um álbum que vendesse como o raio e depois o disco seguinte que não vendesse nada. Sempre vendemos decentemente. Prefiro muito mais ter uma carreira como a nossa, com vendas consistentes, que nos permite viajar pelo mundo e ver as coisas malucas que já vimos.

Também não precisam de comprometer a vossa música só para serem capazes de vender a mesma quantidade de discos que venderam anteriormente.
Exactamente. Tenho, obviamente, montes de amigos que tocam em bandas e algumas delas venderam mesmo muito no passado, mas como sabemos o mercado musical deixou de funcionar bem, por isso esses grupos encontram-se numa posição muito estranha; eles estavam habituados a receber dinheiro das vendas de CDs e das digressões, mas de repente encontram-se presos numa realidade em que o único dinheiro que recebem é nas digressões. Acho que esse é um dos motivos pelo qual vemos actualmente tantas bandas a tocarem o álbum x ou y na íntegra em digressões feitas especialmente para isso. Tocam o primeiro álbum numa tour, depois o segundo noutra tour, depois o terceiro e por aí fora. [risos] Toda a gente parece ter desatado a fazer isso e acho um bocado triste, tipo “Mas que raio?!”. Muitos grupos vão a cada país três vezes por ano, apenas para tocar álbuns que fizeram há 15 ou 16 anos. Esse tipo de coisas não me agrada.

impalednazarene2011band_638Como encaras a situação política actual na Europa, com a Rússia a tentar apoderar-se da Ucrânia e a repetir toda a história da Jugoslávia, enquanto a Comunidade Europeia assiste serenamente e os Estados Unidos ameaçam mas não fazem realmente nada?
[risos] Colocaste a coisa de forma exacta. A Europa assiste e os E.U.A. ameaçam, mas nada acontece. Acho que toda a gente foi apanhada de surpresa com isto; ninguém esperava que uma coisa destas acontecesse em 2014. O que me deixa mais triste é que era suposto tocarmos na Ucrânia, num festival que têm lá chamado Carpathian Alliance, que acontece no final de Julho… E todas as bandas que estavam marcadas para tocar lá estão neste momento a colocar as mesmas questões: o que vai acontecer? Os russos serão estúpidos ao ponto de invadirem toda a Ucrânia ou vão ficar-se pela Crimeia ou como raio se chama o sítio de que se apoderaram? Não sei, mas parece-me uma coisa muito merdosa. Se invadirem a Ucrânia o que vão fazer a seguir, porque de certeza que não se ficam por aí. Isso é claro.

E a Finlândia tem uma história de rivalidade fronteiriça com a Rússia, certo?
Sim, claro. Temos uma enorme linha de fronteira com a Rússia, mas acho que o que os russos realmente querem é recuperar os países que tinham quando se chamava União Soviética. Países como a Estónia, Letónia, Lituânia, em parte a República Checa… Não me parece que a Finlândia seja exactamente o alvo número um, mas se eles começarem mesmo a invadir tudo é possível.

«Vigorous And Liberating Death» foi editado a 14 de Abril.
Página oficial

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