PARZIVAL

PARZIVAL_logoA menos de uma semana do início da edição deste ano do Festival Entremuralhas, em Leiria, falámos com um dos mais interessantes e antigos projectos musicais a marcar presença no certame: os Parzival. O vocalista, fundador e líder da banda, Dimitrij Bablevskij, revelou-nos as raízes da abordagem étnica ao neofolk gótico marcial e altamente cinematográfico que o novo disco «Casta» contém e de uma relação muito especial e pessoal que mantém com Portugal.

Parzival-fotoQuando decidiram encetar a colaboração com os músicos folk sikh indianos que aparecem no álbum como convidados? Foi uma ideia que surgiu na composição ou já sabiam que queriam fazê-lo mesmo antes de iniciarem a escrita do disco?
O «Casta» é a continuação do conceito do «Die Kulturnacht». Foi por pura sorte que encontrei estes músicos. Depois do «Die Kulturnacht» íamos fazer uma remistura do tema «Jerusalem» do álbum «Blut Und Jordan» e decidimos acrescentar-lhe um toque indiano usando dois músicos que já conhecia. Depois, um dia, ia a andar na rua e ouvi uma música indiana excelente através de uma janela. Abordei os três tipos e eles concordaram em participar no álbum. Muitas das canções já estavam compostas na sua primeira versão, mas obtiveram um toque muito mais asiático e indiano depois da contribuição deles. O «Die Kulturnacht» era uma reflexão sobre a nossa cultura europeia e as nossas linguagens indo-europeias, enquanto que o «Casta» é mais uma reflexão sobre a cultura indiana, mas ainda assim misturada com alguma cultura europeia.

Queres elaborar e aprofundar a temática do disco?
Na cultura vedi há diferentes castas e músicos, poetas e artistas pertencem a uma casta específica. O «Casta» é dedicado a essa casta especial. O álbum reflecte também sobre o conceito da “herzland” (“terra-berço”) e as suas implicações geopolíticas.

Desta vez optaram por ter algum sânscrito nas canções também. Tiveste de ter uma grande fase de estudos para fazê-lo? Fizeste muita investigação?
Sim, fiz muita investigação. Sempre fui muito curioso sobre o sânscrito. Neste álbum também criámos a nossa própria linguagem. Um amigo meu, o Maxim Borozenec, e eu decidimos criar a nossa própria língua – um idioma pré-sânscrito a que chamámos “Jawaschtra”. Criámos essa linguagem com base em todas as línguas indo-europeias incluindo o sânscrito, o latim, o eslavo e as linguagens germânicas. Basicamente foi uma experiência e um dicionário do Jawaschtra vai em breve ser disponibilizado na nossa página na internet e na Wikipedia.

Tiveram alguma dificuldade em fundir a “típica” sonoridade de Parzival com esta abordagem mais étnica? Surgiram muitas dúvidas e ideias extraordinárias no processo de escrita, que não cabiam exactamente na “personalidade musical” do projecto?
A maior dificuldade foram os diferentes entendimentos dos acordes e das notas entre nós e os músicos indianos. Foi muito difícil em termos técnicos e foi também muito complicado aprender a tocar as músicas ao vivo, especialmente a parte da percussão. Não tivemos quaisquer dúvidas – tínhamos uma visão clara e um conceito com uma natureza mais étnica para o álbum. E não deitámos fora quaisquer ideias. Foi a primeira vez que fizemos 11 canções e as usámos todas. Normalmente deixamos algumas faixas de fora, mas isso não aconteceu nem no «Casta» nem no «Die Kulturnacht». Se o Wagner trabalhasse com uma orquestra indiana, sentir-se-ia exactamente como nós no processo de composição. [risos]

És o único elemento original da banda agora, acumulando esse papel com o de líder. Como funciona essa liderança no processo de escrita? Tens todas as ideias sozinho e depois levas o resultado final ao resto do grupo ou os Parzival são uma democracia no que diz respeito à composição?
Para dizer a verdade, o baterista e percussionista Oleg já me acompanha há 20 anos, desde o início do projecto, por isso somos dois os elementos originais. Não temos qualquer democracia musical nos Parzival; apenas uma ditadura musical com variação. [risos] Sim, sou eu que componho a maior parte do primeiro material e depois arranjamo-lo juntos. Varia de álbum para álbum e de canção para canção. Se algum dos outros elementos tem uma ideia que possa tornar a música melhor, então é óbvio que usamos essa ideia.

Casta-coverEstão prestes a vir a Portugal para tocar no Festival Entremuralhas. Sabe-se que o nosso país é muito especial para vocês, por isso estão a preparar alguma coisa especial para esse concerto?
A nossa presença no Entremuralhas vai ser muito especial e tocante para nós, uma vez que é o nosso primeiro concerto em Portugal. Vai ser a primeira vez que apresentamos as canções do «Casta» fora da Dinamarca. Já visitei o castelo de Leiria muitas vezes, por isso vai ser tremendo actuar lá com os Parzival. Vamos interpretar temas do «Casta» e do «Die Kulturnacht», bem como um par de temas antigos e clássicos dos Parzival.

A maior parte das pessoas desconhece essa tua ligação a Portugal, criada principalmente em muitas férias passadas aqui. Quais são os teus sítios preferidos e o que conheces do país, em geral?
Lisboa é uma das minhas cidades preferidas, a qual já visitei muitas, muitas vezes. Já dei tantas voltas de carro por Portugal que conheço o país como a palma das mãos. A minha cidade preferida é definitivamente Tomar. Outro dos locais que adoro é o Cabo Espichel. As pessoas portuguesas que conheci durante todas estas viagens são algumas das mais amigáveis e calorosas com que alguma vez tive oportunidade de conviver no sul da Europa. Também tenho uma relação muito pessoal com o país, uma vez que um dos meus melhores amigos infelizmente afogou-se numa praia que frequentamos, o ano passado. Portugal será sempre um local muito especial para mim.

Os Parzival estiveram sempre rodeados de controvérsia política devido à tua visão clara e sem preconceitos de realidade e história, aliada a uma tremenda falta de receio de falar sobre isso. Achas que isso alguma vez prejudicou e criou um preconceito em relação ao projecto e vos impediu de terem o sucesso comercial mais mainstream que a música por si só merecia?
Somos tradicionalistas, sim – isso significa que os valores tradicionais são muito mais importantes que as questões políticas. Somos cinco indivíduos muito diferentes com cinco opiniões diferentes sobre a maior parte das coisas, incluindo política. Por isso os Parzival não podem ser associados de forma nenhuma a uma banda política. Temos uma mensagem filosófica e espiritual clara para todas as pessoas – é isso que os Parzival são – e não um plano político. As políticas são como o tempo: estão sempre a mudar. Mas o espírito das pessoas é sempre o mesmo. Tirando isso, a nossa música está muito longe de obter qualquer tipo de exposição mainstream, por isso não estamos preocupados.

Posto isso, qual a tua opinião sobre a situação política ucraniana actual e a subsequente abordagem russa, europeia e americana ao conflito?
Vou responder apenas com a minha opinião pessoal, e não dos Parzival: sou russo e isso é tudo o que é preciso saber. [risos] Podia falar durante horas sobre este assunto, mas isso não pertence a um site sobre música e não tem qualquer relação com os Parzival.

Esta banda é o teu projecto de vida, mas é suficiente para expressares tudo aquilo que precisas de expressar através da música e letras? Alguma vez consideraste a hipótese de criares um projecto paralelo para usares todas as ideias que não “cabem” nos Parzival?
Os Parzival, os amigos e a família são tudo o que preciso. Não necesito de expressar mais nada. Mas uso, como é óbvio, algumas das minhas outras ideias musicais quando co-produzo projectos de outras pessoas. Por exemplo, escrevi a maior parte da música do primeiro álbum dos Private Pact e tenho também feito algumas coisas com os Die Weisse Rose, mas essa é apenas uma ajuda motivada pela amizade. Se alguma vez explorasse outro tipo de ideias musicais, tentaria usá-las nos Parzival.

«Casta» foi editado em Junho.
Página Facebook

Um pensamento sobre “PARZIVAL

  1. Pingback: PARZIVAL: ENTREVISTA | Misantropia Extrema

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s