VERTIGO STEPS

Vertigo Steps logoÉ cíclico e inevitável. As boas bandas e projectos vão desaparecer mais cedo ou mais tarde. Se juntarmos a essa verdade uma carreira a roçar o genial, em boa medida incompreendida e um músico com uma visão e postura bem verticais, temos os Vertigo Steps a dizerem adeus com a compilação «Disappear Here In The Reel World | A VS Coda». Cada um dos 12 temas recuperados aos três álbuns de originais, assim como a nova «Sunflowers/Remission», é uma chapada nas trombas de quem tomou o projecto como garantido nos seus seis anos de vida e agora se apressa a dizer que partiu “cedo demais”. Bruno Saramágico, o arquiteto da melancolia por detrás dos Vertigo Steps, fez-nos um balanço de carreira à volta desta oportunidade de celebrar o legado de um projecto que ficará, cíclica e inevitavelmente, ligado à história do rock/metal atmosférico e alternativo nacional.

Bdock1Quais foram os motivos que te levaram a colocar os Vertigo Steps em hiato?
Falta de motivação em geral e relativo sentimento de injustiça e subvalorização. Dificuldade em fazer passar a mensagem de modo mais abrangente. Sem esquecer algum défice de meios para continuar a sustentar a logística da coisa.

Sentiste, de alguma forma, que o simples acto de terminares a actividade artística do projecto aumentou o interesse do público em geral e da imprensa nos Vertigo Steps?
Não tenho a certeza de ter aumentado o interesse, mas certamente motivou alguns dos fãs – que já o eram ou sempre o foram – a sairem um pouco mais das suas tocas silenciosas. E talvez tenha feito os néons dos media recaírem novamente com maior brilho sobre o nosso nome, despertando eventual curiosidade de quem até aí nunca a tinha tido em quantidade suficiente. É um pouco difícil de avaliar, até porque sempre tivemos boa imprensa e ouvintes dedicados – o problema está sobretudo na quantidade de feedback e mesmo exposição mediática que poderia e deveria ser muito maior, tendo em conta as características e potencial da sonoridade. Não é simplesmente um projeto para subsistir na relativa obscuridade por tanto tempo, como já foi repetidamente observado.

Esse renovado interesse, aumentado pelas reacções ao lançamento do «VS Coda», chegou já a fazer-te equacionar o retorno – ou pelo menos dar vontade de fazê-lo – à composição em sede dos Vertigo Steps?
Bom, num primeiro momento fiquei algo sensibilizado, embora também não seja um novato nestas andanças e, sobretudo, jamais me ter deixado deslumbrar. Mas claro que foi positivo testemunhar as reações emotivas à pausa na banda, assim como ao novo tema, «Sunflowers/Remission», e ao próprio lançamento da compilação que encerra a trilogia – e aqui penso que as pessoas perceberam que a intenção foi muito mais profunda e além do típico cash-in, umbilicalmente associado a edições deste género. Até porque nunca fomos banda para cash-ins e o retorno real de uma edição é pouco mais que residual. Ao mesmo tempo, acartou uma certa tristeza e nostalgia, por mirar o possível e irrevogável terminus de um projeto ao qual dediquei tanto de mim e o qual podia – e isto não sou eu que reconheço – ter ido tão mais longe. Mas ainda não foi suficiente para me fazer repensar esta paragem, pelo menos nos tempos próximos.

BspreeO que andas a fazer, em termos artísticos, para ocupar o “espaço” que até aqui era ocupado por Vertigo Steps? Não é só música, pois não?
Música não tenho feito muita. O normal tocar de guitarra semi-acústica, que por vezes traz ideias válidas ao ponto de serem apontadas. Umas vezes coisas muito dinâmicas e vivas, outras de neurose pura. Mas não tenho tido cabeça para muito mais que isso, até por não ter o desafio ou o objetivo de um álbum para compor ou coisa que o valha. No que toca à produção de outras paixões artísticas – pois o consumo, esse, é variado, permanente, compulsivo – tenho aproveitado a experiência berlinense, e já lá vão praticamente dois anos só nesta segunda estadia, para capturar e editar diversos momentos visuais, alguns dos quais depois aglomero num fotoblog que batizei de Ü-Berlin. As fotos utilizadas no livreto do «VS Coda» são daí retiradas, por sugestão do designer da editora. Continua a ser uma cidade fascinante, de ângulos e perspetivas diversos, e com muito a descobrir.

Consideras que um projecto com as características dos Vertigo Steps era demasiado grande ou ambicioso para o panorama musical português e que, por outro lado, sofreu lá fora por ser baseado em Portugal?
Questão polémica e pertinente essa… Eventualmente, estarão aí duas verdades. Em Portugal, se por um lado houve apoio considerável dos media mais underground, poderia ter havido maior exposição a nível mainstream. Mesmo a nível de outros músicos de renome que apreciavam em privado mas pouco divulgavam em público. Um exemplo claro é um projecto “desconhecido” como VS ter contado com participações ilustres como a do Jan Transit dos In The Woods (e ficaria a questão, quantas bandas nacionais o conseguiriam, por exemplo…), um nome absolutamente de culto e referência, num tema muito especial («Railroads Of Life»), e isso ter passado mais ou menos ao lado. São coisas algo intrigantes, difíceis de entender; idealmente seria um ponto de orgulho para o nosso meio musical e não merecia ser praticamente ignorado ou até mirado com desconfiança ou sobranceria. Teria sem dúvida todo o destaque caso a banda tivesse um outro nome. Ou a pré-nomeação para os MTV EMA, logo com o álbum de estreia. Enfim, admito que tenha algo a ver com o facto de eu me manter bastante na periferia da “cena” – para não dizer noutra galáxia mesmo – e porquanto longe da região da palmadinha nas costas. E num país ainda de muitas invejas e vistas curtas, é mais fácil torcer o nariz e abafar do que receber abertamente e apoiar. Mas enfim, são suposições com as quais não perco tempo, gosto pouco da via do queixume e polémica, prefiro seguir o meu caminho e que a música assuma sempre a primazia. São desabafos honestos que procuram responder à tua questão – mas que de outra forma ninguém de mim escuta. Já lá fora, todos sabemos que a etiqueta “PT” não é o melhor dos selling points: é simplesmente um mercado sem peso.

Alguma vez te passou pela cabeça abrir um apartado na Noruega e dizer que a banda era nórdica?
[Risos] Nem por isso. Seria mais simples furar com proveniência escandinava, concordo. Mas mais uma vez, e se calhar sou um bocado idealista utópico, preferi deixar a música fazer o seu papel do que andar a acenar demasiado com nacionalidades – até porque entre membros e convidados, ainda era uma Babel considerável!

VS promo pic IIA melancolia era um dos sentimentos mais presentes nas tuas composições. És, por natureza, uma pessoa melancólica ou o facto de “libertares” essa energia nas músicas deixava-te uma pessoa mais “feliz”?
Essa é uma questão que já me coloquei. Julgo ser alguém que aprecia profundidade, reflexão, introspeção e com um grande apreço por arte melancólica/nostálgica (música, cinema, literatura, etc.). Mas de forma alguma depressivo, até pelo contrário. Há que contrabalançar a natural melancolia da vida com muito humor, sarcasmo e água na fervura, senão não funciona. E, se é verdade que mergulho tendencialmente em sonoridades de tons menos garridos, também não posso com coisas lamechas ou intencionalmente tristes. Não me identifico com esse tipo de manipulação sentimental. Vertigo Steps atinge a melancolia pela atmosfera e letras, mas não ando a encher a coisa de acordes menores e violinos bonitos em nome de uma falsa emotividade ou identificação afetiva com a pré-adolescência… Não nego que o processo de composição, pela imersão que provoca, pode revelar-se emocionalmente extenuante. Mas isso são ossos do ofício… Não querendo soar pretensioso, mas não escolhi ser músico, é a música que escolhe revelar-se através dos nosso invólucros térreos. E a honestidade emocional é também ela um compromisso com o ouvinte, e uma parte importante daquilo que torna o som tão especial.

Feitas bem as contas, que quantidade de dinheiro gastaste em colocar cá fora três álbuns de originais e que tipo de retorno financeiro tiveste?
Quaisquer que sejam os valores envolvidos, que nunca contabilizei, torna-se evidente que gastámos bem mais do que recebemos. Foi também importante aparecer a editora, na altura do «Surface/Light», pois seria criminoso continuar com os dois primeiros álbuns apenas em edições digitais. Mas não podendo tocar ao vivo e com o estado necrótico das vendas de álbuns, torna-se muito difícil a um projeto de estúdio subsistir. Tivemos todos de nos prostituir durante vários meses em hotéis de luxo, além de assaltar um par de farmácias e um circo, para conseguir juntar o suficiente a uma empreitada destas. Não foi pera doce.

Os Arcane Wisdom ainda estão activos? Em que formato e com que formação? Podemos esperar algum lançamento do projecto para o futuro?
Inativo pelo menos desde 2004. Sem qualquer hipótese de lançamento futuro, é um capítulo bem encerrado. Outro projeto condenado a ter tanto de culto como de subvalorizado, deve ser karma. [Risos]

O que andas a ouvir? Que novas bandas descobriste ultimamente, que te encheram as medidas?
Ui, tanta coisa sempre! Deixa ver assim alguns nomes mais assíduos em playlists recentes… 65daysofstatic, por exemplo – grande concerto e álbum e vou revê-los já em Abril. Sempre muito Caspian, This Will Destroy You e Sigur Rós; Hammock, M83, Xploding Plastix, Moby, A Winged Victory For The Sullen, bandas sonoras (última que gostei: “Prisoners”), por aí fora… E algum metal, claro; por exemplo o último dos Soilwork é excelente, ou o do [James] LaBrie. Também tenho revisitado muitos clássicos, seja grunge e 90s em geral, ou rock das décadas anteriores. E o ocasional electrónico minimal – o inescapável som da cidade. Agora, bandas realmente novas e excecionais… Acho que zero. Porventura a última dessas que descobri foram os Fair To Midland – e mesmo assim já lá vão alguns anitos. De qualquer modo, ainda se consegue desenterrar umas coisas interessantes, como me aconteceu há dias com We Stood Like Kings, banda de pós-rock belga, que musicou o histórico filme mudo “Berlin: Sinfonia de uma Metrópole”, de 1927. Um belo serão…

«Disappear Here In The Reel World | A VS Coda» foi editado eeste mês.
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