Arquivo da categoria: Críticas

SKINLESS

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}SKINLESS
«Only The Ruthless Remain»
Relapse Records
8/10
Depois de atirarem a toalha ao chão em 2011, não foi preciso mais do que um par de anos para que os norte-americanos Skinless regressassem à actividade e, depois, mais outro par até os termos de volta aos discos. «Only The Ruthless Remain» recupera a formação “clássica” da banda, completa com um segundo guitarrista (Dave Matthews, dos Incontinence) e traz de volta o death metal igualmente “clássico” que é a imagem de marca do projecto. Que é como quem diz, aquela mistura sábia e visceral do lado mais técnico do estilo e de uma consciência de groove ao nível dos Suffocation ou Cannibal Corpse. A banda concentra os seus esforços em 35 minutos, divididos por sete faixas, e remove qualquer tipo de “gordura” desnecessária da música, terminando o processo com um death metal algo batido, mas infalivelmente pesado, tecnicamente evoluído e com um bom balanço. Nestas contas não entram as parcelas da criatividade, que neste tipo de death metal valem o que valem, mas em termos de competência, capacidade de acelerarem, fazerem breaks, dispararem riffs contundentes e enfiarem pormenores de guitarra deliciosos em poucos décimos de segundo, os Skinless estão tão em forma como se não estivessem em “silêncio” há oito anos. E mantêm-se bem relevantes. Quantas bandas de death metal brutal podem orgulhar-se disso?

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ARMORED SAINT

ArmoredSaint_WinHandsDownARMORED SAINT
«Win Hands Down»
Metal Blade
7/10
Os Armored Saint estão, para o metal, como aquela tia solteirona e simpática está para a família. Toda a gente gosta deles, dão presentes simpáticos mas nunca chegaram realmente a lado nenhum e não são levados realmente a sério. Mas a verdade é que o grupo tem a combinação certa para ser a banda preferida de qualquer um de nós: John Bush (ex-Anthrax) na voz, Phil Sandoval (ex-Life After Death) e Jeff Duncan (ex-Bird Of Prey) nas guitarras, Joey Vera (Fates Warning) no baixo e Gonzo Sandoval (ex-Life After Death) na bateria, com uma boa mistura de heavy metal e power thrash. Em mais de três décadas de carreira (interrompida um par de vezes) o projecto editou meia-dúzia de álbuns de originais que oscilam entre o excelente e o vagamente dispensável mas, chegados a esta fase da sua vida, qualquer coisa que lançassem ia ser sempre interessante. «Win Hands Down» parece, no entanto, reflectir uma banda que se está a borrifar para o que é esperado e parte para uma série de canções feitas a pensar em si própria. É por isso que há baladas sentidas, temas uptempo com secções musicais maiores do que o habitual e outras bizarrias que, não interrompendo o ritmo ou a atmosfera de um bom álbum dos Armored Saint, lhe dão um pouco de sobre-variedade. «Win Hands Down» não é, por isso, a desarmante obra prima que foi «Symbol Of Salvation», mas também nem isto são os anos 90 e nem a banda parece estar para aí virada. Ao invés, temos um disco mais honesto, mais profundo e mais adulto. Lidem com isso à vossa maneira.

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MARUTA

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}MARUTA
«Remain Dystopian»
Relapse Records
7/10
O grindcore é uma espécie de novo doom metal e parece ser, actualmente, um crime de lesa-pátria não se gostar ou ser-se indiferente a tudo o que tenha um bom blastbeat, vocalizações graves e som abrasivo. Os Maruta apanharam uma boa boleia desta onda nos dois primeiros álbuns de originais (editados pela Wilowtip) e chegam agora em brasa à Relapse para um mais que provável recolher de louros. E «Remain Dystopian», o seu novo trabalho discográfico, presta-se a isso com uma generosa dose de 17 faixas em que o grindcore se submete a uma camada de noise (providenciada por Jay Randall dos Agoraphobic Nosebleed) e ocasionais incursões pelos ritmos mais lentos do doom. Tomas Lindberg (At The Gates) e J.R. Hayes (Pig Destroyer) ainda dão uma “perninha” nas vocalizações a ver se a coisa fica mais convincente e distinta, mas os Maruta não conseguem ainda ultrapassar a barreira do “mero” grindcore competente e bem feito para aquele ataque imparável e desumano que bandas como Noisear (paradoxalmente, a outra banda do vocalista dos Maruta) ou Murder Construct conseguem montar. Ficam 27 minutos de uma mistura de death metal e grind técnico, pesado e com aspirações noise e doom que, no papel, resulta às mil maravilhas mas que ainda soa um pouco genérico em disco. Nada que um pouco mais de experiência e um pouco menos de concorrência não resolvam. Dizemos nós.

PARADISE LOST

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«The Plague Within»
Century Media
9/10
Todos os fãs de metal gostam de criticar bandas que mudam, que evoluem. É possivelmente uma das características mais irritantes dos metaleiros. Os Paradise Lost descobriram-no quando, numa primeira fase, cambiaram o seu doom/death metal para um metal de contornos mais góticos e, mais tarde, para um estilo de contornos electrónicos e sinfónicos. No entanto, e devido a uma impressionante qualidade musical presente em todos os discos que editaram, nunca puseram em risco o respeito da cena global, perdendo alguns fãs mais radicais pelo caminho mas ganhando muitos mais com o seu crescimento e evolução musical. E agora, numa altura em que regressam, em parte, ao doom/death metal do primeiro terço da sua carreira, os Paradise Lost continuam a cheirar a evolução e a caminho para a frente. Certamente porque «The Plague Within», não é um disco igual a «Lost Paradise» e é claramente feito aqui-e-agora, por uma banda que percebe um bocado de dinâmicas, arranjos e de equilibrar melodias, atmosfera e peso de uma densidade quase impenetrável. Depois, porque existem pedaços das “fases” gótica e sinfónica, a espreitarem em temas como «Victims Of The Past», para tornarem a música mais rica e completarem esta espécie de círculo que parece um decidido passo em frente por parte dos Paradise Lost. E, no meio disto tudo, os ingleses voltaram a lançar um álbum de peso, melodia e atmosfera sem paralelo, não repetindo a receita mas também não traindo as suas raízes e o seu próprio caminho musical. Seria um feito assinalável para qualquer outra banda, mas é apenas o business as usual dos Paradise Lost, pelos vistos.

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MY SLEEPING KARMA

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«Moksha»
Napalm Records
7/10
É impossível dissociar o pós-rock instrumental, de influências stoner, dos alemães My Sleeping Karma daquele que é apresentado pelos norte-americanos Karma To Burn, mas ao fim de nove anos e cinco álbuns de originais, o quarteto de Aschaffenburg começa finalmente a ter um pouco de alma musical própria. «Moksha», o quinto longa-duração do projecto, apresenta indeléveis influências étnicas orientais que, pese embora se diluam por vezes na força do pós-rock da banda, lhe dão um aroma e uma personalidade que tem efectivamente alguma originalidade. Partindo dessa base, os My Sleeping Karma fazem, em «Moksha» um álbum competente e sem erros, de pós-rock/stoner instrumental que toca em todas as teclas do estilo – da mais crua e visceral à mais ambiental e melódica – e, pese embora não atinja a genialidade em nenhum momento, possui uma coesão e nível de qualidade que chegam para convencer, e até entusiasmar, os mais acérrimos fãs do género. Quem, no entanto, procura mais do que “mero” pós-rock instrumental competente e bem feito, nesta altura de vacas gordas, terá de procurar noutro sítio.

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DIABOLICUM

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«Ia Pazuzu (The Abyss Of The Shadows)»
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8/10
Os DiabolicuM foram uma das primeiras bandas a explorar todo o potencial do black metal industrial, nomeadamente com o seu segundo álbum «The Dark Blood Rising», editado em 2001. No entanto, depois disso o projecto eclipsou-se e, apesar de ter editado o split «Hail Terror» com os Angst em 2005 (que continha apenas um tema seu), nunca mais deu sinal de vida. «Ia Pazuzu (The Abyss Of The Shadows)» surge pois, agora, com a enorme responsabilidade de cobrir praticamente 14 anos de silêncio e renovar o estatuto de reis do black metal industrial para os suecos. E a colecção de nove faixas acaba por mostrar-se à altura, com uma mistura inteligente de distorção visceral e de ritmos maquinais, com o convidado Niklas Kvarforth (esse mesmo, o dos Shining) a fazer a sua voz funcionar como o joker dos temas. No entanto, nem tudo é drama e excelente interpretação vocal; os DiabolicuM fazem um óptimo trabalho a aliar momentos mais melódicos, atmosféricos e mesmo ligeiramente sinfónicos ao lado desumano, frio e incrivelmente intenso que o seu black metal chega a atingir, num disco pleno de surpresas, criatividade e densidade. É o trabalho que se esperava e, tendo em conta as expectativas acumuladas em cerca de década e meia, já não é nada mau.

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HARDCORE SUPERSTAR

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«HCSS»
Gain Music
8/10
Como é sobejamente conhecido, a Suécia é a capital mundial do rock. De coisas mais clássicas como The Poddles ao novo rock de garagem escandinavo despelotado pelos Blackyard Babies, passando pelo punk/metal podre dos Nihilist e pelo death’n’roll dos Entombed até acabar no crossover de heavy metal clássico com doom ocultista dos Ghost, o país tem de tudo em grande qualidade e quantidade. E depois tem também uma banda como os Hardcore Superstar, que consegue misturar grande parte dos géneros mencionados num “bolo” praticamente irresistível. Sobretudo num disco como «HCSS», em que a banda pega em vários temas da sua maqueta de estreia, os espana, regrava e depois completa o disco com uma série de canções inspiradas neles. O resultado é um hard/sleaze rock renovado, cheio de trejeitos punk, piscadelas de olho ao heavy metal e mesmo um claro gamanço vocal aos Janes Addiction no tema «Growing Old». O que mais desarma na dezena de temas de «HCSS» é a naturalidade e espontaneidade com que os Harcore Superstar conseguem criar temas com melodias memoráveis, força e simplicidade rock’n’roll, cada um deles um autêntico study case do que é o caldeirão de influências sueco dos anos 10.

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BIG BUSINESS

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«Battlefields Forever»
Solar Flare Records
8/10
Quando o baixista e vocalista Jared Warren e o baterista Coady Willis começaram os Big Business em 2004, o objectivo era “apenas” fazer bom sludge/stoner com raízes no heavy metal clássico, não longe do que os compatriotas Mastodon andavam a fazer (na altura com «Leviathan»), mas com uma assinatura muito própria. Entretanto a vida trocou-lhes um pouco as voltas e o grupo chega a «Battlefields Forever», o seu quarto álbum de originais, em formato de quarteto e com a etiqueta de Warren e Willis serem metade dos Melvins, que integraram em 2006. No entanto, Big Business mantém-se o projecto que foi criado para ser e o novo álbum contém uma série de canções invulgarmente ear friendly para os níveis de low end e e riffs sludge gravalhões que lá estão enfiados. A coisa começa logo com um call to arms definidor, em que a sonoridade da banda se mistura com percussão tribal, para depois partir para um rock’n’roll dos infernos, em que o sludge, o stoner e o heavy metal clássico procriam de todas as formas possíveis e imaginárias, criando uma espécie de linhagem que os fãs de Mastodon e Baroness saberão apreciar em todo o seu alcance de melodia, experimentalismo sónico e força.

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BONG

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«We Are, We Were And We Will Have Been»
Ritual Productions
8/10
Existem – agora mais que nunca – muitas bandas de doom e estilos adjacentes, nomeadamente drone. Mas poucas conseguem submerger-nos como os ingleses Bong fazem. Em «We Are, We Were And We Will Have Been», a sua quinta proposta de estúdio, o quarteto apresenta dois temas, num total de 35 minutos, com duas abordagens ligeiramente diferentes. «Time Regained» é puro doom/drone ritualista na melhor tradição dos Bong: distorcido até à hipnose, formal e denso, numa intensidade com que a maioria das bandas doom pode apenas sonhar. «Find Your Own Gods» resvala mais para o universo psicadélico e atmosférico, induzindo a um diferente tipo de transe com sintetizadores e melodias que se ouvem ao longe, na paisagem distorcida por um calor sobrenatural. O grupo oriundo de Newcastle consegue manter os níveis máximos de experimentalismo a que habituou os seus fãs e, ao mesmo tempo, criar dois momentos monolíticos de doom/drone, com personalidades bem distintas e vincadas, mas que se complementam e funcionam de forma irrepreensível. Pode ser o hype, podem andar ao colinho da imprensa internacional (e mesmo nacional), mas de uma coisa não podemos acusar os Bong: de não fazerem discos em piloto automático ou com qualidade duvidosa. E se «We Are, We Were And We Will Have Been» não é uma obra-prima, anda lá perto.

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LEPROUS

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«The Congregation»
InsideOut Music
8/10
O modus operandi dos noruegueses Leprous pode estar a tornar-se um pouco repetitivo passados cinco álbuns de originais mas, como «The Congregation» mostra tão bem, a banda consegue compensar essa habituação dos seus fãs com competência, talento e pura inspiração. Por isso, não se admirem se este quinto álbum do colectivo oriundo de Telemark vos soar estranhamente familiar em termos estilísticos; afinal, estamos a falar da mesma abordagem de metal técnico, progressivo mas incrivelmente melódico ao nível das vocalizações que os Leprous já vinham apresentando nas propostas anteriores. O resultado, esse, não é radicalmente diferente mas mostra uma banda mais crescida, mais experiente e mais coesa e isso nota-se nas músicas. Porque são mais eclécticas e, ao mesmo tempo, misturam todos os componentes da receita da banda de forma mais homogénea e coesa. «The Congregation», em resultado disso, pode muito bem ser o disco menos imediato dos Leprous, no sentido em que as canções demoram mais tempo a serem assimiladas em todo o seu espectro sonoro, mas é o mais completo e maduro disco do projecto, que compensará mais o ouvinte depois de algumas audições atentas. Porque nem tudo é juventude, progressão selvática e experimentalismo, as bandas têm de saber evoluir e chegar à idade adulta com uma dose de charme e sofisticação que compense a falta de “sangue na guelra” de outros tempos. Os Leprous, definitivamente, souberam fazê-lo.

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NIGHTRAGE

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«The Puritan»
Despotz Records
8/10
É perfeitamente audível na música e visível nas actuações ao vivo que os Nightrage amam a música que fazem. A constante motivação e o aperfeiçoar da sua receita de death metal melódico a cada novo disco que editam é, assim, uma consequência perfeitamente natural da evolução e crescimento da banda. Mesmo que a formação sofra frequentemente remodelações que fazem com que o guitarrista Marios Iliopoulos seja, por esta altura, o único elemento fundador que resta. Não que ele se importe porque, como «The Puritan» mostra, o músico ainda tem canções que cheguem dentro dele para fazer grandes discos de death metal melódico de contornos clássicos. E é isso que esta sexta proposta do grupo greco-sueco é: um álbum do som de Gotemburgo como ele era por altura de «The Jester Race», embora devidamente polido e actualizado para níveis de produção, dinâmica e musicalidade verdadeiramente contemporâneos. Ainda assim, não esperem dos Nightrage nada que os In Flames não fizessem por essa altura, mas também não esperem uma qualidade inferior. Ou seja, se querem o vosso death metal melódico como se 2015 fosse 1995, não vão mais longe: «The Puritan» é o álbum perfeito para vocês, com os riffs, as passagens acústicas, as vocalizações, as melodias e os solos de guitarra necessários para fazerem um conjunto de canções deste género funcionarem na perfeição.

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ADRAMELCH

Adramelch_OpusADRAMELCH
«Opus»
Pure Prog Records
7/10
É fácil perceber, por um lado, porque são os Adramelch uma banda com estatuto de culto entre os fãs de metal progressivo. A sua abordagem mistura de forma perfeita o “art rock” de nomes como Marillion com um lado mais metálico e épico, mantendo sempre tudo sob um inteligente manto de atmosfera. Por outro lado, não é propriamente a receita com um tipo de público-alvo bem definido (sobretudo em termos de grandes massas) e, após quase três décadas (embora com uma interrupção pelo meio) a fazer bons discos e a encher o metal progressivo de qualidade, os italianos não encontram motivação para irem para além de «Opus» e este quarto álbum de originais é mesmo o seu último. Ainda assim, não faltam pontos de interesse às 12 músicas que contém. A imagem de marca melódica, suave e sempre intrincada da composição da banda está lá toda, assim como um renovado sentido épico que os faz estenderem quase sempre as canções para além dos cinco minutos de duração e apresentar três duetos vocais. Mas é a atmosfera que dá coesão, originalidade e poder aos Adramelch e se, à falta de melhor, virem em algum lado «Opus» descrito como uma mistura de Iron Maiden, Marillion e Psychotic Waltz não pensem que é por acaso. Esta banda é mesmo especial e, pese embora os padrões do metal ou do rock progressivo internacional pareçam algo longe quando ouvimos um álbum como este, a culpa não é deles. É essencialmente de duas coisas; uma chamada “personalidade” e outra chamada “originalidade”.

WE BUTTER THE BREAD WITH BUTTER

WeButterTheBreadWithButter_WiederGeinWE BUTTER THE BREAD WITH BUTTER
«Wieder Geil!»
AFM Records
7/10
Aparentemente, não correu bem aos alemães We Butter The Bread With Butter a incursão por uma editora multinacional e a ascensão ao super-estrelato. Apesar da intensa exposição, o seu álbum de 2013 «Goldkinder» não fez o crossover para o grande público, não passou do 27.º posto na tabela de vendas caseira e, pior, enfureceu os fãs da banda com uma abordagem mais claramente pop ao metalcore electrónico que era a sua imagem de marca. Agora «Wieder Geil!» dá um claro passo atrás e volta a colocar mais peso na música do projecto, mas procura também variedade e soluções sónicas renovadas para a receita musical do colectivo. Em consequência, «Wieder Geil!» é um trabalho bem mais dinâmico e excitante do que o seu antecessor, e também aquele em que o cantor Paul Bartzsch dá mais uso a toda a versatilidade da sua voz, socorrendo-se para isso do alemão mas também ocasionalmente, de letras em inglês. Para quem precisa disto traduzido por miúdos, imaginem uma banda a ir da sonoridade dos Sonic Syndicate à dos Milking The Goatmachine, com paragens em Rammstein e em Mindless Self Indulgence, numa questão de segundos. Com a coerência possível, a energia da juventude e a honestidade reencontrada de quem tentou chegar demasiado depressa ao último degrau da escada e se esbardalhou dali a baixo. É a isso que soa.

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KAMCHATKA

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«Long Road Made Of Gold»
Despotz Records
7/10
Quem segue este blog já conhece os suecos Kamchatka e a sua capacidade intrínseca para enfiarem prog rock no blues rock. Quem nunca ouviu falar no projecto tem em «Long Road Made Of Gold», o seu sexto álbum de originais, uma boa oportunidade de tomar contacto com a música descontraída, poderosa e visceral da banda. Porque, não revolucionando em nada a sua sonoridade, os Kamchatka cresceram, evoluíram e demoraram tempo para compor e gravar o álbum. E isso nota-se, através de um punhado de canções mais maduras, mais concisas, mais variadas e que gozam de uma modernidade old school que já levou a revista inglesa Classic Rock a descrevê-la como “1973 em 2015”. A “culpa” é, não apenas, de uma banda que conhece todos os recantos do blues rock clássico e o funde muito bem com trejeitos progressivos, mas também de uma inesperada parceria com Russ Russell, produtor de bandas como Napalm Death, na mistura e masterização do álbum. O resultado é uma dúzia de canções de hard rock clássico, cheio de blues nas veias e sangue na guelra, que pode não convencer quem acha que o movimento retro sueco terminou nos Graveyard, mas que constitui um belo cardápio para quem ouve a sua música sem pensar muito em movimentos, estéticas ou originalidade.

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COAL CHAMBER

CoalChamber_RivalsCOAL CHAMBER
«Rivals»
Napalm Records
7/10
Não há muitos segredos guardados sobre os Coal Chamber. Foram uma das mais famosas bandas do movimento nu-metal no final dos anos 90, editando três álbuns de originais que lhes valeram entradas na tabela de vendas norte-americana, largos milhares de unidades vendidas e uma popularidade universal. Com a morte do movimento, o projecto eclipsou-se e o vocalista Dez Fafara passou os 13 anos seguintes a deixar assentar o pó do nu-metal nos DevilDriver, onde enveredou por um groove/death metal melódico. Agora os Coal Chamber estão de volta ao activo e aos álbuns com «Rivals» e, se não é a ressurreição do nu-metal (os Korn podem ter o copyright disso), pelo menos é uma evolução do género. A forte componente rítmica está lá, a variedade de vocalizações também, mas os “novos” Coal Chamber são uma banda mais extrema em termos de peso, com um foco (quase) sempre apontado para o groove e para riffs de guitarra grandes, gordos e acutilantes. Ao longo dos 13 temas de «Rivals», a banda encosta-se um pouco mais ao metal industrial e, num momento muito específico, dispara uma influência electrónica, mas os 41 minutos do disco são, essencialmente, nu-metal adulto a descobrir como se transformar em groove metal como o conhecemos de bandas como Soulfly. Não é nada que deixe os fãs de queixo caído, mas é suficientemente coeso e bem feito para convencer.

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WHITESNAKE

WHITESNAKE
«The Purple Album»
Frontiers Music
7/10
Existem várias formas possíveis de encarar este álbum dos Whitesnake em que David Coverdale “recupera” os melhores temas dos três álbuns que gravou com os Deep Purple entre 1974 e 1975. A primeira é assumir que se trata de um cash in vergonhoso do veterano cantor e não dar qualquer importância ao disco. Outra é reconhecer que o senhor tem legitimidade para reinterpretar temas que, afinal, ajudou a compôr e a imortalizar. A terceira, que é a que escolhemos aqui, é ouvir «The Purple Album» por aquilo que ele é: um disco de versões de temas de Deep Purple feito por alguém que tem, mais ou menos, legitimidade para fazê-lo. E estas versões dos Whitesnake de clássicos dos Deep Purple como «The Gypsy», «Mistreated», «Soldier Of Fortune» ou «Stormbringer» não soam nada mal, são bem executadas e contam com um Coverdale motivado e ainda senhor de uma poderosa voz hard rock. Vale por aquilo que vale: Whitesnake a tocar Deep Purple, sem surpresas mas com a dose de coerência e qualidade que se espera de um binómio com esses dois nomes. A voz quente está lá, os acordes também, os arranjos “melhorados” não estragam os temas e a legitimidade é o que é. Decidam vocês próprios se vale a pena.

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VALKYRIE

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«Shadows»
Relapse Records
9/10
Ficou claro desde muito cedo na carreira dos Valkyrie que o projecto seria muito mais do que apenas a “outra banda” do guitarrista e vocalista Peter Adams, dos Baroness. Quer a nível de estilo, porque os Valkyrie se concentram num lado mais clássico e heavy metal do doom, quer em termos de individualidade, porque o quarteto (onde também pontifica o irmão de Peter, Jake Adams) funciona como uma verdadeira banda e já vai em três discos editados desde 2006, mostrando ter vida para além dos tempos mortos dos Baroness. Em «Shadows» o lado intemporal dos Valkyrie é polido e posto num pedestal e notam-se claras influências de sonoridades de bandas como Thin Lizzy ou Wishbone Ash, que encaixam de forma perfeita no doom rock/heavy metal à Black Sabbath, The Sword e Spirit Caravan que os irmãos Adams e companhia vinham fazendo. O resultado é um trabalho mais luminoso, de heavy rock clássico com influências específicas mais esbatidas, composição mais esclarecida e uma química quase orgânica entre as duas guitarras. É o hino intemporal que faltava ao ressurgimento do doom/heavy metal, feito com a simplicidade dos génios e a serenidade dos verdadeiramene tocados pelo deus do talento.

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ENTRAILS

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«Obliteration»
Metal Blade
8/10
Sim, já sabemos: o revivalismo do som death metal de Estocolmo dos anos 90 atingiu proporções quase insuportáveis. Mas há que apreciar uma banda que traça um objectivo – tocar death metal sueco old school – e o cumpre até ao mais ínfimo pormenor. Ainda por cima, os Entrails têm autenticidade, uma vez que as raízes da banda estão mesmo nos anos 90, década durante a qual se mantiveram activos mas que não lhes rendeu nenhum lançamento. Agora, desde que voltaram (em 2009) estão apostados em recuperar o tempo perdido e «Obliteration» é já o quarto trabalho longa-duração do projecto. E volta a resumir o que o estilo tem de melhor – riffs contundentes, leads inteligentes, uma distorção parva, letras mórbidas e uma melodia latente – de forma coesa, cuidada e com som perfeito. Dan Swäno voltou a estar por detrás da mesa de mistura, o que explica esta última parte. Ainda assim, «Obliteration» tem algo que difícil de explicar, mas que é inegável: a sua relevância num mundo com demasiado death metal old school e a recuperação de uma inocência perdida, que se julgava ter ficado na década de 90 mas que, afinal, está bem viva no underground sueco.

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NOCTURNAL DEPRESSION

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«Spleen Black Metal»
Avantgarde Music
7/10
Numa altura em que atingem uma década de actividades e em que chegam ao quinto álbum de originais, os franceses Nocturnal Depression deparam-se com um problema existencial: continuam a crescer musicalmente ou agarram-se à sonoridade mais crua, underground e, de alguma forma, inocente dos seus primeiros discos? A primeira resposta é dada logo com a qualidade de produção de «Spleen Black Metal» que, tal como no último «Near To The Stars», é mais límpida, profissional e poderosa do que qualquer outro trabalho do duo. Depois, há a tentativa de dar uma tridimensionalidade às letras, usando como inspiração os poetas clássicos franceses como Baudelaire, Cros, Laforgue ou Brusset. Mas é na abordagem musical que os Nocturnal Depression mais fazem notar a sua maturidade, misturando o lado melancólico (incluindo o som de um violino!), quase doom, do último registo com o black metal rápido, directo, cru mas sempre atmosférico e suicida dos seus primeiros tempos. A mistura acaba por resultar bem, sobretudo porque «Spleen Black Metal» não é uma proposta estanque: os momentos mais frios e violentos estão nos primeiros dois terços do disco, enquanto que as duas últimas canções nos reservam 15 minutos mais melódicos e cadenciados. É um obra interessante de black metal suicida que, não revolucionando nada, enquadra bem os elementos típicos do estilo e usa-os com um bom gosto e uma sofisticação que as jovens bandas pura e simplesmente não possuem.

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SEREMONIA

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«Kristalliarkki»
Svart Records
8/10
Se o objectivo da música psicadélica é ser o mais obscura e densa possível, então os finlandeses Seremonia estão no topo do estilo. O quarteto pratica uma mistura de hard rock, doom, jazz e space rock, com letras em finlandês, vocalizações femininas e um sentido psicadélico omnipresente, que os transforma numa espécie de heróis das esferas underground mais viradas para este género musical. «Kristalliarkki» é o terceiro álbum de originais do projecto, tem uma gravação muito directa e orgânica – quase que arriscaríamos dizer que é analógica – e uma série de canções que variam entre o doom rock simples, de riffs efectivos e pejado de teclados, e longos momentos de puro devaneio spacey, apontamentos jazzísticos e narração quase esotérica de Noora Federley. Todos os pormenores são cuidadosa e meticulosamente revistos para que «Kristalliarkki» funcione como uma banho de imersão psicadélico e hipnótico, com o encantamento que apenas os mais exclusivos e obscuros projectos conseguem ter.

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KAMELOT

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«Haven»
Napalm Records
8/10
É conhecido o processo traumático de perder um vocalista que é, literalmente, a cara de uma banda, mas se há grupos que conseguem contornar essa adversidade com uma dose extra de motivação e inspiração nos discos seguintes, esse grupo são os Kamelot. Sem Roy Khan, a banda editou em 2012 um seus dos melhores discos dos últimos anos – «Silverthorn» – e volta agora com outra dose maciça de qualidade. «Haven» contém todos os elementos musicais que fazem dos Kamelot um dos nomes de referência do power metal melódico progressivo (peso, variedade, melodias agridoces e emocionais, bons e grandiosos arranjos sinfónicos e partes técnicas), exponenciadas por um momento de clara inspiração que lhes dá ma boa mão-cheia de singles ao nível dos seus melhores discos («Epica» ou «Karma», por exemplo). Basta ouvir a abertura «Falling Star» para perceber que o colectivo liderado pelo guitarrista Thomas Youngblood está bem longe daquele projecto em piloto automático e meio sorumbático que editou coisas como «Ghost Opera» ou «Poetry For The Poisoned» no final da década passada. A variedade chega pela “mão” de convidados especiais como Troy Donockley (Nightwish), Charlotte Wessells (Delain) que faz um magnífico dueto com Tommy Karevik e Alissa White-Gluz (Arch Enemy) que, com a sua voz gutural, leva «Revolution» a picos de agressividade que os Kamelot nunca tiveram. Ao fim de 24 anos de carreira e uma dezena de álbuns de originais, continuar a evoluir assim é obra.

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SHINING

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«IX – Everyone, Everything, Everywhere, Ends»
Season of Mist
8/10
Não existe uma definição fácil para os Shining ou para o seu mentor e vocalista, Niklas Kvarforth. Cada disco, cada entrevista, cada concerto da banda parece cuidadosamente pensado para contradizer o anterior, desafiar os fãs e confundir uma cena que se apressou a considerá-los os reis do “black metal suicida”. Por isso, não se sabia bem o que esperar do sucessor de «Redefining Darkness» que tinha, em 2012, voltado os Shining para uma sonoridade um pouco menos extrema e que procurava novas soluções sónicas para expressar a desolação que lhes vai na alma. «IX – Everyone, Everything, Everywhere, Ends» é, ao mesmo tempo, a continuação lógica desse disco e um regresso ao lado mais conservador do black metal. Vamos por partes. Existem passagens nas seis faixas do álbum de guitarras acústicas, “cantadas” com voz limpa e melódica por Kvarforth, seguidas de solos muito prog. Coisas deste género, que se misturam, alternam e fundem com a abordagem black metal suicida que tornou os Shining famosos e que, aproveitando mais este salto em frente, voltam na sua forma mais pura à sonoridade da banda. No fundo, trata-se de uma proposta mais multifacetada e com diferentes camadas, tornada perfeita pela interpretação vocal quase esquizofrénica – do mais intimista ao mais desesperante guincho – e por uma experiência de composição e talento inato que perfazem uma das mais brilhantes conjunturas no black metal actual.

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SATAN’S WRATH

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«Die Evil»
Metal Blade
8/10
Depois de dois magníficos discos disparados entre 2012 e 2013, os gregos Satan’s Wrath respiraram fundo durante um pouco e regressam agora com um aperfeiçoamento da sua receita musical, chamado «Die Evil». Não que a fórmula do quinteto seja minimamente preparada ou calculada: a mistura de black metal, thrash e speed metal é tão genuína e sincera que faz os Satan’s Wrath sobressaírem entre as dezenas de bandas a tentar recuperar este género musical. Só que os nove temas do novo trabalho são tão despidos de pormenores desnecessários, funcionam tão bem como cavalgadas black/thrash em que o ouvinte mal tem tempo de respirar ou pensar, que é perfeitamente natural assumirmos que, acima disto, não haverá nada. E, se já tinham provado que Slayer + Possessed + Venom pode não ser uma conta com um resultado assim tão previsível, os Satan’s Wrath conseguem a proeza de, com estes 30 minutos de música, acrescentarem a sua própria parcela à soma, apresentando um resultado esperado, mas incrivelmente refrescante e entusiasmante. O metal extremo está bem e recomenda-se.

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FORGOTTEN TOMB

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«Hurt Yourself And The Ones You Love»
Agonia Records
8/10
Depois da fase melancólica que se seguiu ao início de carreira em que se estabeleceram como uma das mais promissoras bandas de black metal italianas, os Forgotten Tomb chegam ao seu oitavo álbum de originais sob o signo do equilíbrio. Na prática, o quarteto recupera boa parte da crueza e aspereza do som black metal das suas raízes, sob supervisão do produtor Terje Refsnes (cujo trabalho com bandas como Carpathian Forest, Deströyer 666 ou Gehenna fala por si) e mistura-as com a visão estética mais melancólica e doom dos últimos lançamentos. O resultado, patente em «Hurt Yourself And The Ones You Love», não é radicalmente diferente do que os Forgotten Tomb têm vindo a fazer nos últimos anos, mas a tal derivação para riffs e para um som mais directo acaba por ser uma evolução que lhes faz bem sobretudo porque, actualmente, a banda sabe como compor e estruturar temas de modo a tomar partido das diferentes facetas musicais da sua abordagem. Os 52 minutos do novo disco são, por isso, um multifacetado exercício de black/doom metal de uma banda adulta que, de alguma forma, soube preservar o desespero dos seus tempos de underground e juntar-lhe, por camadas, toda a evolução e experiência que foi acumulando desde aí.

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ARCTURUS

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«Arcturian»
Prophecy Productions
7/10
É um pouco redundante e estranho afirmar que, quase 20 anos e dois álbuns depois, «Arcturian» é o verdadeiro sucessor da obra-prima dos Arcturus «La Masquerade Infernale», mas é a mais pura das verdades. Por uma qualquer combinação de motivação, músicos certos, inspiração e timing, «The Sham Mirrors» em 2002 e «Sideshow Symphonies» em 2005 foram pálidas demonstrações do talento e genialidade que sabemos que os noruegueses têm e foi necessário um hiato de cinco anos na carreira e mais um bom período de composição e gravação para termos os Arcturus verdadeiramente de volta. «Arcturian» abre o espectro de «La Masquerade Infernale» dos dois lados: é mais pesado e extremo e, também, mais melódico e harmónico, mantendo sempre a sensação de imprevisibilidade e um lado de loucura sinfónica lasciva que, no fundo, ajudou o projecto a definir aquilo a que hoje chamamos “metal vanguardista”. O verdadeiro metal vanguardista está, pois, de volta, com a mesma formação que tinha gravado o último disco mas com uma abordagem e inspiração totalmente renovados, com um som orgânico e limpo e com uma dezena de canções que recuperam a excitação exaltada de 1997. Vem a tempo? Vocês decidem.

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SIGH

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«Graveward»
Candlelight Records
8/10
Esta é uma boa época para os Sigh. Depois de uma primeira década a liderarem a vanguarda do black metal, os japoneses perderam algum gás – e, admitamo-lo, criatividade e relevância – e quase caíram no esquecimento nos anos 00. E, pese embora «Scenes From Hell» em 2010 e «In Somniphobia» em 2012 recuperassem algum do carisma da banda, não foram suficientes para reavivar o entusiasmo que Mirai Kawashima e companhia chegaram a gerar nos primeiros tempos da sua carreira. Agora chega «Graveward» que, ao décimo álbum de originais, volta a alinhar as estrelas para os Sigh. Talvez porque o novo guitarrista You Oshima tenha trazido novas ideias, possivelmente porque detém artes de mistura e, com ele, a banda conseguiu a proeza de ter mais de 100 pistas em cada uma das dez faixas do disco, envolvendo instrumentos de sopro, abordagem metálica, diversos sintetizadores e a dinâmica das vocalizações. Para aumentar ainda mais o espectro de variedade, há gente como Matt Heafy (Trivium), Fred Leclercq (Dragonforce), Niklas Kvarforth (Shining), Sakis Tolis (Rotting Christ) e Metatron (The Meads Of Asphodel) a entrar e a sair das canções. O resultado é um disco de black metal que volta a ser vanguardista à conta de uma abordagem épica, ecléctica, inesperada e inspirada nas bandas sonoras dos filmes clássicos italianos de zombies. Um festim para os sentidos dos mais esclarecidos apreciadores de música desafiadora.

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THE TANGENT

0216tem_en_de.pdfTHE TANGENT
«A Spark In The Aether – The Music That Died Alone Volume Two»
InsideOut Music
8/10
Os The Tangent são possivelmente a banda que melhor personifica a terceira vaga de rock progressivo e é engraçado como um projecto formado em 2003 para editar um único disco esteja aqui agora, 12 anos depois, a lançar o oitavo álbum de originais e cada um deles tenha um sabor e uma personalidade próprios. «A Spark In The Aether» tem como sub-título «The Music That Died Alone Volume Two», numa clara alusão ao tal disco de estreia de 2003 (que se chamava «The Music That Died Alone») e regressa a uma receita mais “conservadora” de rock progressivo, tirando da música dos The Tangent as influências electrónicas e sinfónicas do último «Le Sacre Du Travail». Ainda assim, há evolução. Existem secções inteiras de instrumentos de sopro, um sabor declaradamente jazz na faixa «A Spark In The Aether (Part 2)» e, por vezes, uma abordagem mais simplista e directa à composição, que o mentor, teclista e vocalista Andy Tillison descreve como “Influência do prog americano”. E, no entanto, todas estas novidades encaixam perfeitamente na receita musical “típica” dos The Tangent, que é basicamene prog-rock lascivamente arranjado, com temas que podem ultrapassar os 20 minutos, partes furiosamente instrumentais que parecem jams e um sentido estético e de arranjos sem mácula. Nesse particular, uma das imagens de marca da banda – a flauta e o saxofone de Theo Travis (colaborador habitual de Steven Wilson e Robert Fripp) – tem um dos melhores desempenhos dos oito discos que os The Tangent editaram até ao momento. O que, juntamente com a permanente inspiração de Andy Tillison e com a inteligente evolução musical do projecto, coloca «A Spark In The Aether» não apenas no topo dos trabalhos do grupo como na lista de melhores discos de rock progressivo editados este ano.

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DRUDKH

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«A Furrow Cut Short»
Underground Activists
8/10
Os Drudkh são uma daquelas entidades com genialidade e coerência transmitida por um mentor – no caso, o guitarrista Roman Saenko – cuja visão e evolução artística se acabam por confundir com as do próprio projecto. Em «A Furrow Cut Short» os ucranianos chegam ao décimo álbum de originais e voltam a propor um conjunto de canções mais directas e pesadas, agora que Saenko canaliza as suas influências mais melancólicas, ambientais e pós-rock para o projecto Old Silver Key, que mantém com Neige dos Alcest. Ainda assim, isso não significa que os 58 minutos de «A Furrow Cut Short» sejam simplistas ou desprovidos de interesse. Os Drudkh continuam a compor e a gravar o seu black metal em diferentes camadas, com uma mais óbvia e directa de som distorcido, pesado e cru, depois complementada com um lado atmosférico, de repetição de riffs até à quase hipnose, bem como um ligeiro piscar de olhos à tradição eslava, seja nas letras em ucraniano (inspiradas na poesia local do Século XX), seja em pequenas referências às melodias folk daquela região. A evolução, no caso deste disco, surge por via da coesão com que os Drudkh apresentam todos estes elementos musicais, que faz do disco uma bela colecção de canções black metal que equilibram extremismo, melodia, emoção e profundidade como poucas bandas conseguem fazer actualmente.

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IMPELLITTERI

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«Venom»
Frontiers Records
8/10
Chris Impellitteri continua a liderar de forma brilhante um projecto que, apesar de ter ficado seis anos sem editar nada (o período mais longo de uma carreira que iniciou em 1987), mantém a relevância e a frescura musical. É óbvio que o speed/power metal apresentado em «Venom» arrisca muito pouco em termos de receita e volta a ter nos solos do guitarrista os seus pontos altos, mas analisando os dez temas por aquilo que são – canções de heavy metal norte-americano tocado com melodia, poder, velocidade e solos à velocidade da luz – a verdade é que não existe forma muito melhor de fazê-lo. Imaginem os Jack Frost e os Iced Earth envolvidos numa jam session com um guitar hero a entrar quando chega a altura dos solos. É isso que «Venom» vos oferece, com a vantagem de Impellitteri dominar como poucos a arte da escrita de speed/power metal melódico e, ao mesmo tempo, tecnicamente exigente e de contar na sua banda com músicos dotados como o vocalista Rob Rock (ex-Axel Rudi Pell) e com o baterista Jon Dette (ex-Testament, Killing Machine). Eis, pois, o primeiro grande momento de metal tradicional americano do ano, que perdurará pelo menos até os Jack Frost editarem o seu novo álbum, no segundo semestre.

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ACID KING

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«Middle Of Nowhere, Center Of Everywhere»
Svart Records
8/10
O doom/stoner metal mais psicadélico deve, para fazer o efeito desejado, existir numa semi-obscuridade para que a sua descoberta possa consistir uma experiência verdadeiramente avassaladora. Os norte-americanos Acid King existem nessa espécie de limbo, influentes para toda uma geração de novos músicos de stoner/sludge mas uns ilustres desconhecidos para o mainstream que se fica pelos discos de Eyehategod, Electric Wizard e Sleep. E, no entanto, aqui estão eles, a emergir de um silêncio editorial de uma década com «Middle Of Nowhere, Center Of Everywhere», o seu quarto álbum de originais. E, se a distorção exagerada do baixo e dos riffs do doom/stoner da banda não é novidade para quem já os conhece (ou algum dos seus sucedâneos com um mínimo de qualidade, diga-se), há uma dose extra de ambientes psicadélicos nas seis canções do álbum que catapultam os Acid King para a estratosfera da música que é extrema, experimental e transcendente, tudo ao mesmo tempo. E depois, claro, as vocalizações hipnóticas de Lori S., mãe de todas as vocalizações hipnóticas no doom/stoner/sludge, emprestam aos Acid King uma imagem de marca muito própria e reconhecível, que os transforma num dos maiores tesouros por revelar da música norte-americana actual. Com vibrações psicadélicas, oscilações tectónicas e low end quase fisicamente doloroso, «Middle Of Nowhere, Center Of Everywhere» pode ser, para o bem e para o mal, o disco que retira de uma vez por todas os Acid King do relativo canto obscuro onde ainda se encontram. A confirmar ao vivo no RCA Club, em Lisboa, no próximo dia 25.

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