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ARES – LOBO SOLITÁRIO

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João Pedro, aka Ares

João Pedro, mais conhecido no mundo da música como Ares, é um dos pilares da cena extrema portuguesa como a conhecemos. Foi co-fundador dos Moonspell em 1992 (juntamente com Fernando Ribeiro, Pedro Paixão e Mike Gaspar, que permanecem na banda, e com os guitarristas Mantus e Malah) e gravou registos essenciais da banda como «Under The Moonspell», «Wolfheart» ou «Irreligious». Antes disso já tinha gravado a maqueta «Os Métodos do Pentagrama» com os Filii Nigrantium Infernalium. Depois dos Moonspell, o baixista fundou projectos como Witchbreed e Deepskin, tendo também emprestado os seus talentos à segunda maqueta dos Monx Lvnae. Agora, o lobo solitário tem um novo projecto em mãos – Babel – e aproveitámos para interpelá-lo e fazer uma espécie de balanço de carreira.


Desde a morte do Quorthon e depois do Peter Steele que algo mudou na minha perspectiva pessoal. Parte do encanto e do mundo a que eu pertenci acabou.


Quais são os teus projectos – musicais e extra-musicais – actuais e para o futuro mais próximo?
Projectos musicais estão sempre a acontecer, primeiro na minha cogitação criativa, o que pode levar algum tempo até a ideia e a motivação ideal se concretizarem, depois no plano prático da gravação e montagem do projecto, que demora sempre outro tanto tempo. Neste momento, em fase de acabamento, tenho um projecto em formato de duo que verá a luz do dia este ano. Já está gravado e estamos na fase do vídeo, que vai ser filmado nas próximas semanas. Projectos extra-musicais consistem “apenas” em aproveitar a vida o melhor possível, usufruir da companhia dos amigos, da família, prestar atenção e auxílio a quem me é querido, comer bem e beber ainda melhor. Tudo o que não é criar música resume-se a lazer e tentar ignorar o máximo possível o ruído da “vida real”.

Como encaras a cena underground nacional actual? Como a classificarias?
Classifico-a como sendo constituída por bons músicos, projectos e bandas muito interessantes e bons meios técnicos de estúdios mas, principalmente, bons produtores. Faltam pessoas interessadas em management e booking agencies que permitam às bandas entrar no circuito das tours internacionais com regularidade e outros componentes desta natureza. A matéria prima criativa está cá, o know how musical também, a força de vontade tão característica dos portugueses também, faltam apenas colmatar algumas falhas crónicas para podermos ter uma cena underground ao nível da Grécia, Itália ou França.

Como recordas a tua saída dos Moonspell no final dos anos 90? Guardas alguma mágoa?
Foi um período conturbado da minha vida, não há como esconder, e tudo o que se passou a seguir não foi menos difícil. No entanto, o que conta são os grandes discos que escrevi e gravei naquele período, as tours com Morbid Angel, Type O Negative, Tiamat, Samael, Rotting Christ, The Gathering, etc. Por essa razão, não acho que hajam motivos para mágoas, apenas motivos de orgulho por ter criado uma banda que fez história. A nível pessoal, não tenho nada a lamentar e acho que posso dizer que num curto espaço temporal realizei muitos dos meus sonhos ao conhecer e tocar com grande parte das minhas bandas preferidas.

Como encaras a carreira da banda desde aí?
Não tenho muito a dizer pois só conheço algumas músicas e vídeos, com as quais me vou cruzando a espaços, principalmente na internet. Nunca assisti a nenhum concerto da banda após a minha saída e não estou ao corrente do percurso após a minha saída ou presente da banda. MoonSpell é um nome e conceito que eu criei e que me é muito precioso do ponto de vista pessoal, como tal prefiro mantê-lo onde o deixei, intacto e preservado no passado.


Foi um período conturbado da minha vida, não há como esconder, e tudo o que se passou a seguir não foi menos difícil. No entanto, o que conta são os grandes discos que escrevi e gravei naquele período.


Considerando a tua visão para os Moonspell na altura da sua formação, como imaginas a banda actualmente se tivesses permanecido na formação?
Não consigo fazer esse exercício de projecção. No entanto, seja qual for a visão da banda neste momento, acredito que a minha continuidade na banda apresentasse elementos distintos, obrigatoriamente. O mundo mudou muito desde 1992 – altura dos Morbid God – as pessoas também, as aspirações e ambições pessoais estão sujeitas a pressões muito mais exigentes e é comum as bandas comprometerem as suas origens e cederem a fórmulas fáceis no que toca às opções artísticas. No entanto, quer-me parecer que o público não está igualmente preocupado com conteúdos e substância; por norma as pessoas respeitam as manifestações de força e admiram tudo o que brilha. É tudo uma questão de percepção, presumo eu.

Nos últimos anos, uma série de ícones do metal têm desaparecido para sempre. Preocupa-te o facto de não existiram ainda substitutos à altura no “panteão” da música extrema?
Não me preocupa porque é algo natural, tem de acontecer. Desde a morte do Quorthon e depois do Peter Steele que algo mudou na minha perspectiva pessoal. Parte do encanto e do mundo a que eu pertenci acabou. Conheci esses dois músicos pessoalmente em situações distintas, e foi algo que me mudou, juntamente com o [desaparecimento] do Dimebag, Dio, Jeff Hanneman e agora recentemente do Lemmy. Não vejo nem procuro substitutos, acho apenas que o mundo que eu conheci e em que eu cresci acabou, há que aceitar e saber viver com esse facto.

Que artistas e álbuns te têm surpreendido nos últimos tempos?
Mantar, Watain, Scour, Midnight, Triptykon, Ghost, Inquisition, SepticFlesh, Shinning, Rotting Christ, Primordial, Gojira, Godflesh, NIN…

Que balanço fazes da tua carreira artística até ao momento?
Não creio que possa apelidar de carreira o meu percurso musical, acho que o termo é mesmo este: percurso. Tenho um percurso algo errático em que sempre lutei contra monstros externos e fantasmas interiores e isso teve um custo enorme na minha exposição. Felizmente não me afectou em termos criativos, que foi algo sempre preservei, e para além das bandas em que participei esporadicamente consegui erguer Deepskin e Witchbreed, que me ajudaram a escoar muitas das ideias e conceitos que fui alimentando. Para além do trabalho em estúdio e de produção de bandas nacionais, tenho dezenas de músicas e ideias gravadas e arquivadas. Gosto de estar no meu espaço a tocar, experimentar e gravar… Aceito que sou eu que faço parte de outro tempo e de outro mundo e que o tempo presente move-se por valores e necessidades nos quais tenho dificuldade em encaixar.

NIGHTRAGE: PURISTAS E BRUTALMENTE HONESTOS

Nightrage_logoQuando os In Flames já são considerados uma banda de “rock alternativo” e os Soilwork navegam entre o groove metal e o metalcore, o que resta ao death metal melódico tradicional sueco? A resposta está no som dos Nightrage que, apesar da evolução e crescimento que apresenta a cada novo disco, “defende” o estilo há década e meia e há seis álbuns de originais. O mais recente chama-se precisamente «The Puritan» e foi um óptimo motivo para falarmos ao telefone com o guitarrista grego radicado na Suécia Marios Iliopoulos, fundador e líder do projecto.

Nightrage_Band_2015_1Quanto deste disco é resultado da parceria com o novo vocalista Ronnie [Nyman]? O que acrescentou ele à banda?
Foi uma óptima colaboração. Escrevemos o disco todos juntos e foi uma inspiração para mim poder partilhar a mesma paixão por esta música. Não posso ficar com todo o crédito por tudo. Escrevo apenas as minhas partes e é por isso que gosto de partilhar a responsabilidade da composição com as outras pessoas. Esse é o sentido de estarmos numa banda.

Quando olhas para trás, para o fundo de catálogo dos Nightrage, consegues “ver” quem eras nessas alturas ou os discos são mais do tipo fotos instantâneas das equipa com com trabalhavas nessa altura?
Acho que fazemos aquilo que sempre fizemos. Só que, quando escrevemos um disco novo, é sempre um pouco mais refrescante e actualizamos um pouco a nossa sonoridade. A composição, assim como os compositores, são sempre um pouco mais maduros. Por exemplo, neste disco sabíamos exactamente o que queríamos e se, nas gravações, não obtínhamos exactamente as interpretações perfeitas, repetíamos até termos o resultado pretendido. Mas ao longo do tempo esta banda foi sempre uma irmandade musical, fosse quem fosse que pertencesse ao grupo.

Sofreram algumas alterações na formação em 2013. O que aconteceu exatamente ao Johan [Nunez, baterista], ao Olof [Mörck, guitarrista] e ao Antony [Hämäläinen, vocalista]?
As pessoas enveredam por diferentes caminhos e são livres de fazê-lo. Não levo ninguém a mal por isso, mas aquilo de que estamos a falar aqui é de um caminho musical bastante definido que compreendo que acabe por cansar algumas pessoas. Também é uma actividade muito exigente e um estilo de música que não dá grande dinheiro. Por isso as pessoas acabam por cansar-se ou mudar de vida. Foi isso que aconteceu com o Johan, ao Antony e ao Olof. As pessoas mudam e não podemos prever como uma pessoa vai sentir-se daqui a alguns anos. Claro, podemos trabalhar com uma equipa que parece composta pelas pessoas certas durante algum tempo, mas quando tem tudo a ver com música, criatividade e criar laços uns com os outros, não podemos forçar as coisas. Se deixasse de me sentir inspirado, pararia de tocar nesse mesmo dia.

Nessa fase chegaram a tocar com o Jesper Strömblad, ex-In Flames, como segundo guitarrista. Como foi essa experiência?
Foi óptima. Acredito que o Jesper foi um dos criadores do death metal melódico sueco. Ele é fã dos Nightrage e um bom amigo nosso, por isso quando precisávamos de um guitarrista na altura para dar alguns concertos, ele ofereceu-se. Foi uma óptima experiência. Tocar com pessoas com o tipo de experiência dele é sempre divertido e inspirador. É uma óptima sensação poder partilhar o palco com um músico assim. Senti-me muito bem lá em cima.

Nightrage_Band_2015_3Não tentaste recrutá-lo definitivamente para a banda?
Claro que pensei que seria uma boa ideia, mas por outro lado ele é uma pessoa muito ocupada e nós temos a nossa agenda. Sei que será difícil e nunca se sabe o que pode acontecer, mas nesse período, nessa digressão, tivemos uma das formações mais fortes da nossa história. Tudo o que podemos fazer é certificar-nos que as pessoas que vêm ver-nos têm direito a isso – um dos grupos de músicos mais fortes que podemos dar-lhes – e é isso que acredito que temos agora também. Acho que temos os tipos certos. Mas também teremos a equipa certa se voltarmos a ter o Jesper como segundo guitarrista para mais alguns concertos.

Buscas conscientemente alguma originalidade quando compões música para os Nightrage ou, desde que a música funcione, não te importas muito em escrever riffs, solos e arranjos que nunca foram ouvidos antes?
Não planeio muito aquilo que vou escrever. Nunca planeamos um álbum e dizemos “Vamos fazer um disco mais isto ou aquilo”. Componho aquilo que me vai no coração e tento fazer as melhores músicas possíveis. Conheço bandas que seguem ondas, ou modas, para fugirem à rotina ou à previsibilidade ou o que seja. Mas a minha visão da música é que ela deve ser tão honesta quanto possível. Se escrevermos a música de que gostamos, nunca nos desiludimos a nós próprios ou aos nossos fãs. É essa a base da filosofia dos Nightrage, na minha opinião.

Quando estão lançados a escrever uma canção, nunca se apanham a tocar um riff ou um arranjo de uma das vossas músicas antigas ou de outra banda?
Não posso dizer que nunca tenha acontecido, embora não seja intencional. Por vezes damos por nós a repetir ideias, mas como disse há pouco temos de ver-nos a nós próprios essencialmente como fãs e escrever as músicas que gostamos de ouvir enquanto fãs. E é perfeitamente natural que de vez em quando a nossa escrita “escorregue” para coisas que já foram feitas antes, porque as achamos realmente boas e ficaram gravadas no nosso subconsciente. O que fazemos quando isso acontece é pensar “Será que podemos melhorar este riff?”. Mas é uma coisa normal, quando a nossa inspiração está precisamente ali.

Tens então o mesmo tipo de influências musicais que tinhas quando começaste a banda?
Sim, basicamente. Ainda somos o mesmo tipo de pessoas old school a tentar escrever bons riffs e a divertirem-se tanto quanto possível. O que se passa com as influências é que a maior parte das bandas evita falar delas para poder esconder-se por detrás de uma suposta originalidade, mas desde que sejamos nós próprios não existe qualquer problema em assumir as influências que temos. Desde que sejamos sinceros, a música será boa de qualquer modo, na minha opinião.

nightrage2015band_638Deste ao Ronnie liberdade total para escrever as letras ou compuseste algumas também?
Escrevemos a maior parte em conjunto. O Ronnie é uma pessoa muito capaz mas que também sabe aceitar sugestões e trabalhar em parceria. Passou-se o mesmo também com o [produtor] Daniel Bergstrand, com quem trabalhámos de forma muito próxima nos arranjos das letras e nas vocalizações. Desde que estejam dentro do espectro dos Nightrage, apreciamos todos a criatividade e a originalidade, de onde quer que venha. Isso permite-nos criar algumas coisas muito boas.

O Ronnie trouxe então alguns tópicos novos para as letras?
Sim, totalmente. Trabalhámos essencialmente juntos como te disse, mas existiram umas partes escritas por ele e outras que ele modificou. Ele abordou as temáticas que achou relevantes e, em conjunto, transformámos a abordagem em algo que espelha a personalidade dos Nightrage.

A canção «When Gold Turns To Rust» foi escrita em parceria com o Gus G. [guitarrista de Ozzy Osbourne e Firewind]. Como aconteceu isso?
Não foi planeado. O Gus disse-me um dia que tinha alguns riffs que não encaixavam na banda dele, os Firewind. Então ele enviou-mos e começámos a colaborar naturalmente, enviando ideias para a frente e para trás. Foi assim que acabámos por escrever essa faixa em conjunto. Não foi nada muito planeado. Mas, como sabes, nós começámos esta banda juntos e para mim é muito gratificante que ainda escrevamos coisas em conjunto como nos velhos tempos.

Ainda manténs então uma relação pessoal com ele?
Claro, ele continua a ser o meu melhor amigo, falamos frequentemente e vamos continuar a compor em conjunto no futuro. Vejo-o como um amigo, um grande músico e estou muito orgulhoso de tudo o que ele conseguiu na sua carreira.

nightrage_album-cover_the-puritanManténs contacto com a realidade político-social grega? Qual a tua visão sobre as mudanças que têm acontecido por lá?
Tivemos sérios problemas com a crise económica, mas acho que se trata de uma crise europeia e não exclusivamente grega. Estas recentes mudanças revelam uma real vontade de mudar; é a primeira vez que tentamos resolver os nossos problemas com uma real mudança política. E acho que isso nos dá uma luz ao final do túnel e que vamos sair desta crise mais cedo ou mais tarde. E, se o fizermos, acabamos por passar uma mensagem para o resto da Europa também.

Uma mensagem que diz “Temos o nosso próprio caminho”, certo?
Sim. A Grécia tem estado sob uma enorme pressão da Alemanha e de outros países europeus. Tivemos problemas graves mas acho que, depois de uma crise como esta, apenas podemos crescer. Temos de crescer a sentir-nos orgulhosos do nosso país, temos de crescer à nossa própria maneira. Se continuarmos com o tipo de abordagem que temos tido ultimamente, acho que estaremos no bom caminho.

Não é um pouco ofensivo para um país com a história e o legado da Grécia quando países como a Alemanha lhe tentam dizer o que fazer?
O que sentimos é que isto é uma guerra. Não uma guerra no sentido literal, mas uma guerra económica. Não odeio a Alemanha, é um país simpático… Apenas acho que o seu sistema político está minado por uma série de “tubarões” que tentam predar os países do sul da Europa. Não acho que as nossas centenas de anos de história e o facto de sermos o berço da civilização ocidental nos dê direitos especiais, porque afinal é o que fazemos agora que conta e não o que fizemos no passado. Gosto de saber a história, mas não interessa para o que podemos fazer hoje. Não acho que a Europa em si esteja cheia de gente que queira que o novo governo grego se dê mal; acho apenas que os políticos estão mais focados nos seus próprios interesses do que propriamente em que a Grécia saia desta crise de uma forma sustentada e eficaz. Mas continuo a achar que há esperança e que a tal luz ao fim do túnel está efectivamente lá para toda a Europa. Porque é um enorme erro pensar que este é um problema exclusivamente grego. E um problema também alemão e de toda a Europa. Não é um país que está em jogo… É uma solução para toda a União Europeia.

Sim, tens razão. É toda a dinâmica da União Europeia que está em jogo e não apenas um país “lá em baixo”.
As pessoas têm tendência para olhar para a Grécia como o mau aluno da União Europeia. Mas os nossos problemas são os mesmos de inúmeros outros países europeus. Para além disso, somos credores de uma enorme dívida da Alemanha do tempo da Segunda Guerra Mundial. Por isso temos todos de empenhar-nos em encontrar uma boa solução.

Sim, a Alemanha tem de sair do papel de professora e tem de encarnar o papel de parceira.
Sim, todos os países são parceiros. Todo o projecto europeu foi construído no pressuposto da igualdade, julgo eu. Não de uma liderança, ou de um regime ditatorial. [risos]

Com a indústria musical em constante mudança, alguma vez foste capaz de ganhar a vida apenas com a banda?
Por vezes. Não vou mentir… Por vezes ganha-se algum dinheiro, mas não o suficiente para ganhar a vida apenas com isto. Temos de trabalhar noutras coisas. Não quero ser repetitivo, mas não estamos nisto por causa do dinheiro. O que interessa é a música, a integridade, as canções e os sentimentos que temos. Esse tipo de coisas nunca vai mudar por mais que a “indústria” mude e por mais que as pessoas lá forem comprem ou não os nossos discos, vão ou não aos nossos concertos. Sei perfeitamente que muitas bandas andam nisto apenas à procura de fama e dinheiro, mas esse é um estilo de vida muito falso. Eu só quero tocar a música de que gosto… Se for preciso ir pela estrada mais difícil para chegar lá, claro, vamos a isso. Porque é mesmo isto que quero fazer na minha vida.

Tens então de procurar por vezes alguns trabalhos fora da música que te ajudem a sobreviver.
Sim, não estou nisto para ficar rico, mas o trabalho serve apenas para sobreviver. Por causa da música já desperdicei algumas boas oportunidades profissionais, porque tinha de ir em digressão, de compor ou de gravar. Não me importo com isso. Desde que tenha comida em cima da mesa e possa pagar as contas, estarei satisfeito. Sei de pessoas que querem poupar ou acumular uma pequena fortuna… Não me importo nada com esse tipo de coisas. Sinto-me rico nos Nightrage. Apesar de ser literalmente pobre, os Nightrage são uma satisfação pessoal tão grande que me sinto a pessoa mais rica do mundo.

Esse tipo de atitude retira a pressão de terem de fazer dinheiro com as digressões e com as vendas de discos, certo?
Exacto. Não me importo mesmo nada com isso. [risos] Tento sempre fazer o melhor possível, mas quando se fala de vida de rock’n’roll, sei bem o que significa. Sou paciente e estou disposto a trabalhar sempre mais e a nunca ser rico. E isso não significa que nunca tenha sucesso, porque enquanto compositor sinto que já cheguei ao sucesso. E claro que quero chegar à fama, mas quero chegar lá nos meus próprios termos. Não quero chegar lá a vender-me, a fazer música de merda que odeio. Prefiro fazê-lo pouco a pouco, com os conhecimentos que vou obtendo e as pequenas vitórias que vamos contabilizando. E se o sucesso global nunca chegar, bem, pelo menos divertimo-nos a tentar.

Sim porque quando acabar – e um dia vai tudo acabar – é o legado musical que fica, certo?
Exactamente. Quando eu estiver morto, talvez ainda existam algumas pessoas que descubram a nossa banda e os nossos discos e os apreciem. É uma espécie de marca que deixamos para sempre e que sobreviverá muito para além de nós. É por isso que o sucesso comercial não me diz muito… Para mim esta actividade tem tudo a ver com fazer aquilo que nos parece certo. E acho que estamos a fazer isso com os Nightrage.

Estás sempre assim tão motivado ou por vezes, quando estás à espera quatro horas num aeroporto por exemplo, existem períodos em que não estás tão contente com esta actividade?
Existem sempre alturas em que as coisas não correm bem e em que temos algumas dúvidas. Colocar este álbum cá fora teve alguns períodos desses, porque cada novo disco é como se fosse um filho e sempre que as coisas não correm tão bem quanto o previsto, bate-nos mesmo no mais fundo dos sentimentos. O processo de criar um disco é globalmente bom, mas há sempre a incerteza se vamos fazer um bom álbum, o certificar-nos de que temos o material certo, as canções certas… Foi também por isso que demorámos um pouco mais do que o habitual a editá-lo. Tivemos alguns problemas na formação, eu tive de mudar-me de novo para a Suécia… Todas estas coisas são factores de incerteza que nos perturbam. Mas senti-me muito bem durante a composição e, quando tenho esse tipo de sentimentos na fase criativa, ando sempre muito feliz.

Tens de lutar conscientemente contra a tentação de escrever apenas canções em “piloto automático” ou este tipo de abordagem musical sempre refrescante é algo natural em ti?
Não quero definitivamente entrar em piloto automático e é por isso que sinto que tenho de estar constantemente a desafiar-me a mim próprio. Não quero apenas lançar outro disco dos Nightrage… Quero que seja uma coisa excitante, refrescante e desafiadora. Sempre que fazemos um novo álbum sentimos isto enquanto grupo, enquanto banda. Esta foi a primeira vez que gravámos todos juntos, ao vivo em estúdio, e foi óptimo. A música flui ali, com uma energia e uma espontaneidade incríveis.

É talvez por isso que não tens uma série de projectos paralelos como muitos músicos têm. Porque tudo o que tens aplicas nos Nightrage, certo?
Sim, não quero saber de projectos paralelos. Porque se gastamos a nossa energia – mesmo que seja apenas parte dela – noutras coisas, ela não vai para o nosso foco principal, faltará ali. É por isso que tudo o que tenho, tanto em termos de inspiração como de tempo, quero dar aos Nightrage. Porque me sinto genuinamente bem nesta banda e sinto que é definitivamente uma banda e não um projecto a solo meu. Sempre tive problemas na formação, com pessoas que escolhem seguir por outro caminho, mas não posso fazer nada em relação a isso. [risos]

«The Puritan» foi editado em Abril pela Despotz Records.
Site oficial

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