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POSTO DE ESCUTA 13.03.2015

Santa Cruz copyHá já algum tempo que não analisávamos um punhado de novos lançamentos no Posto de Escuta por isso estas propostas, feitas assim antes do fim-de-semana, têm uma espécie de sentimento de compensação à sua volta. Mais ainda para os fãs de black metal, que têm aqui muito e bom material para fincar o dente. Mas, numa semana em que Karyn Crisis regressa aos discos e em que Scot Ian, dos Anthrax, apresenta um novo projecto musical, o destaque vai para o vanguardismo drone de duas senhoras – Jarboe e Helen Money – e para o hard rock moderno e dinâmico dos jovens finlandeses Santa Cruz. Bom fim-de-semana!

Frosttide_AwakeningFROSTTIDE «Blood Oath»
NoiseArt Records
Novo capítulo da saga folk/death metal melódico que os finlandeses Frosttide iniciaram em 2013 com o disco de estreia «Awakening». «Blood Oath» segue o mesmo caminho com as devidas actualizações e evolução ao nível da composição, entrosamento musical e produção. Ou seja, trata-se de uma mistura altamente energética e épica dos universos de Keep Of Kalessin, Ensiferum e Wintersun, feito com o típico sangue na guelra da juventude e a inspiração de quem ainda só vai no segundo álbum. Apesar de não acrescentar nada a uma cena cada vez mais sobrepovoada, «Blood Oath» tem índices de qualidade, melodia, arranjos e produção suficientemente altos para convencer os fãs do género que querem ouvir coisas novas. (7/10)


 

ImperialTriumphant_AbyssalGodsIMPERIAL TRIUMPHANT «Abyssal Gods»
Code666
É super-excitante ter uma banda de black metal com dois bateristas, sendo um deles (tal como o baixista) dos ultra-técnicos Pyrrhon, o outro dos Secret Chiefs 3, e citarem-se influências que vão dos vanguardistas franceses Deathspell Omega ao compositor contemporâneo polaco Krzysztof Penderecki. O problema é que, em «Abyssal Gods» tal como na estreia de 2012 «Abominamentvm», os Imperial Triumphant perdem frequentemente o norte a qualquer tipo de melodia ou musicalidade, cegos como estão em experimentar ondas pulsantes de ritmos, riffs e dissonâncias diferentes. Mais ainda neste segundo álbum de originais do que no trabalho anterior. Quem acha que os Deathspell Omega não vão suficientemente longe na sua busca pela originalidade vanguardista ultra-técnica, poderá achar alguma piada aos 41 impressionantes minutos de «Abyssal Gods». Todos os outros terão sérias dificuldades em perceber o que raio se está a passar ali. (7/10)


 

JarboeAndHelenMoney_JarboeAndHelenJARBOE AND HELEN MONEY «Jarboe And Helen Money»
Aurora Borealis
A colaboração de uma das mais visionárias e influentes vocalistas da música vanguardista com uma brilhante jovem que explora o violoncelo até aos limites do drone só podia dar nisto. Jarboe e Helen Money (cujo nome verdadeiro é Alison Chesley) criam um disco cheio de diferentes texturas, ambientes e melodias, em que se destaca a capacidade da ex-cantora dos Swans para ir do incrivelmente frágil e angélico tom vocal (acompanhado de piano) ao mais perturbante guincho, sempre (bem) apoiada pelas soluções sonoras nada convencionais de Helen Money. É um daqueles projectos colaborativos que ultrapassa as expectativas com um bom pedaço de música orgânica, etérea e profunda, que vai espalhando sensações cada vez mais urgentes no ouvinte à medida que se vai entranhando mais na sua consciência. (8/10)


 

KarynCrisisGospelOfTheWitches_SalemsWoundsKARYN CRISIS’ GOSPEL OF THE WITCHES «Salem’s Wounds»
Century Media
Depois de ensaiar um regresso à cena no último registo do Ephel Duath, Karyn Crisis, a influente vocalista dos extintos Crisis, está efectivamente de volta com este novo projecto. «Salem’s Wounds», composto e gravado em conjunto com o marido Davide Tiso (dos Ephel Duath) é uma espécie de rock/metal alternativo com a imagem de marca da banda de Tiso e todo o potencial – de voz agressiva e inocente – de Crisis, fortemente inspirado pela bruxaria e pela tradições pagãs antigas que guiam espiritualmente a vocalista. Pensem nuns Ephel Duath mais negros e atmosféricos (há coros de Mike Hill dos Tombs e Ross Dolan dos Immolation para tornar tudo mais excêntrico), com uma prestação vocal de Karyn Crisis que, por vezes, parece encarar a intensidade e esquizofrenia de Diamanda Galás. O material não é todo excelente, mas «Salem’s Wounds» contém uma atmosfera que torna o álbum um daqueles artefactos cada vez melhores cada vez que se pega neles outra vez. (7/10)


 

Kjeld_SkymKJELD «Skym»
Hammerheart Records
Os holandeses Kjeld recuperam de forma muito decente, no seu disco de estreia «Skym», a barbaridade melódica do black metal escandinavo. O blastbeat é a arma de eleição, os riffs cortantes, tipicamente gélidos, são usados a esmo e as vocalizações estão naquele tom algures entre os Gorgoroth e os Troll. A banda nunca foge muito do imaginário comum do género, mas consegue inserir umas camadas de atmosfera e melodia no meio da brutalidade maldosa que dão à sua música uma dimensão extra. Por outro lado, a temática letrista sobre a província e a história da Frísia (região no norte da Holanda e Alamanha), assim como as faixas serem cantadas no dialecto local, dão aos Kjeld um lado original e pessoal. Tudo isto faz de «Skym» uma boa hora de black metal tradicional, com um twist moderno e uma personalidade de banda bastante vincada. (7/10)


 

MacabreOmen_GodsOfWarMACABRE OMEN «Gods Of War – At War»
Ván Records
Liderado pelo grego radicado em Inglaterra Alexandros (ex-Razor Of Occam e Lvcifyre), Macabre Omen é um projecto de black metal épico que cumpre sem grandes dificuldades os requisitos mínimos do estilo. Apesar de editarem splits com alguma frequência, «Gods Of War – At War» é apenas o segundo álbum de originais do duo (completo com o baterista dos Omega Centauri, T.J.F. Vallely) desde que se formou em 1994. Ainda assim, revela alguma experiência e talento na arte de misturar black metal bruto e rápido com riffs um pouco mais melódicos, intensos, grandiosos e épicos, frequentemente acompanhados de coros a condizer. É o típico álbum de banda de fãs de Bathory, mas bem feito e com as ideias no sítio. (7/10)


 

MotorSister_RideMOTOR SISTER «Ride»
Metal Blade
Uma banda composta pelo guitarrista Scott Ian (Anthrax), pelo baixista Joey Vera (Fates Warning), pelo baterista John Tempesta (White Zombie, The Cult) e pelo guitarrista e vocalista Jim Wilson, dos Mother Superior, a tocar clássicos destes últimos. É esta a essência de «Ride», um álbum de grandes canções de blues/hard rock com um renovado push de groove que, para quem conhece os originais, não será necessariamente uma melhoria. Ainda assim, pode ser uma boa porta de entrada de toda uma nova geração para a música dos Mother Superior que, nos anos 70 e 80, lançaram uma série de bons álbuns (até aqui totalmente menosprezados, excepto por uma minoria esclarecida) antes de se transformarem na banda de apoio de Henry Rollins para concertos. Nesse sentido, «Ride» pode ser uma boa opção. De resto, é apenas a “modernização”, com uma série de nomes de cartaz, de bons temas de uma boa banda obscura. (7/10)


 

Night_SoldiersOfTimeNIGHT «Soldiers Of Time»
Gaphals
Seguindo de perto as pisadas dos compatriotas e mentores Ghost, os Night editam o seu segundo álbum de originais e pegam no doom/hard rock dos anos 70/80 para lhe darem uma boa espanadela. «Soldiers Of Time» procura mais recuperar o espírito original do género do que propriamente fazer novas coisas com ele, por isso não esperem grandes surpresas, com os 11 temas e imularem, em estética, som e composição, a sonoridade dos Judas Priest, Accept e, em termos de comparação mais contemporâneos, a dos holandeses Vanderbuyst. É, no entanto, bem feito, com boas canções e um sentido de proporção que torna fácil deixarmo-nos levar pelo entusiasmo da banda. (7/10)


 

BOOK-CD-8PORTA NIGRA «Kaiserschnitt»
Debemur Morti Productions
Depois da brilhante estreia «Fin De Siècle», editada em 2012, era necessário aos alemães Porta Nigra estarem à altura das expectativas criadas no seu segundo registo. E é mais ou menos isso que fazem em «Kaiserschnitt», trabalho de black metal com aspirações a vanguardista que anda, tematicamente, à volta das histórias mais macabras e icónicas da Primeira Guerra Mundial. Entre temas que cumprem os requisitos mínimos de um black metal sempre com um olho no progressivo (embora frequentemente sem alma) e outros, concentrados na parte final do disco, de verdadeiro talento em que o lado mais extremo da abordagem da banda se cruza com atmosferas decadentes e melancólicas, os Porta Nigra conseguem manter a roda a andar e acrescentar um punhado de boas canções ao seu legado. Chega para os mínimos olímpicos, mas há quem não vá esconder um certo desconforto pré-desilusão. (7/10)


 

SantaCruz_SantaCruzSANTA CRUZ «Santa Cruz»
Spinefarm Records
Peguem no hard rock clássico e cheio de ganchos dos Skid Row, acrescentem-lhe o virtuosismo dos Children Of Bodom e a dinâmica moderna dos Bullet For My Valentine e o que obtêm será mais ou menos o que os finlandeses Santa Cruz fazem. A jovem banda finlandesa causou furor com o seu disco de estreia no país-natal e agora, com esta segunda proposta, promete explodir internacionalmente, à conta do dinamite em forma de hard rock moderno, com uma pitada de glam clássico e outra de metal melódico. «Santa Cruz» é o equivalente, no hard rock, ao que os compatriotas Lost Society fizeram com o thrash: pega no estilo, foge com ele e torna-o uma coisa mais moderna e apelativa, sem desvirtuar qualquer um dos seus princípios. É o som do género a evoluir. E é irresistível como o raio. (8/10)

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POSTO DE ESCUTA 20.02.2015

Fogh Depot copyMais um Posto de Escuta com propostas para todos os tipos de gostos, do hard rock melódico ao black metal cru e feio. Os destaques vão direitinhos para a estreia dos portugueses Terror Empire, para a melancolia nada convencional dos finlandeses At The Hollow e para o turbilhão de dark ambient e drone do projecto russo Fogh Depot. Bom fim-de-semana!

AtTheHollow_WhatIHoldAT THE HOLLOW «What I Hold Most Dear»
Spinefarm Records
Mais uma surpresa chegada da efervescente cena finlandesa. Os At The Hollow praticam pós-rock melancólico com uma guitarra, percussão e um contra-baixo tocado com um arco. Assim mesmo. Acrescente-se a «What I Hold Most Dear», disco de estreia do duo, a seminal melancolia nórdica, sensibilidade indie rock e uma liberdade estilística que os torna literalmente um híbrido entre géneros. Como se os Sammal, os Tenhi, os Apocalyptica e os Sólstafir fizessem uma festa e convidassem alguém para gravar as “conversas” musicais. Uma das grandes surpresas não-metálicas deste início de ano que, devido ao carácter emocional, negro e artístico da proposta, pode perfeitamente agradar a quem gosta de música extrema. (8/10)


 

FoghDepot_StFOGH DEPOT «Fogh Depot»
Denovali Records
Impressionante estreia deste trio instrumental russo, que mistura jazz downtempo com música electrónica, sampling, ambientes melancólicos e ocasionais distorções drone. Sempre com um olho no experimental, «Fogh Depot» leva o ouvinte até à mais doce das melodias, empurra-o para corredores escuros de dark ambient e salva-o em vagas repetidas de jazz subtilmente electrónico. A música do projecto é tão sofisticada, tão deliberadamente nocturna que é impossível não nos deixarmos levar nesta montanha russa de texturas, ambientes e sentimentos díspares e tão bem misturados. Mesmo para os padrões de qualidade a que a Denovali Records nos habituou, este é um lançamento soberbo. Aconselhamos o seu consumo na luxuosa edição em vinil. (9/10)


 

Johansson&Speckmann_MaskOfTheJOHANSSON & SPECKMANN «Mask Of The Treacherous»
Vic Records
Segundo longa-duração do projecto conjunto de dois nomes incontornáveis do death metal old school: Paul Speckmann dos Master e Rogga Johansson, dos Paganizer e The Grotesquery, entre muitas outras bandas. Em «Mask Of The Treacherous» nada muda na postura e música do trio (completo com o baterista norueguês dos The Grotesquery, Brynjar Helgetun). Ou seja, o ouvinte é brindado com uma generosa dose de death metal retro, com as típicas vocalizações de Speckmann (os fãs de Master e Obituary já sabem do que estamos a falar) e aquela estirpe sueca do género, ali a bater à porta do punk, crust e thrash. São nove canções inspiradas, competentes e feitas com a mentalidade e as razões certas. Puro death metal clássico e mórbido. (8/10)


 

LonelyRobot_PleaseComeHomeLONELY ROBOT «Please Come Home»
InsideOut Music
John Mitchell, dos Arena, é mais um daquele maluquinho dos projectos que, qualquer coisa nova que faça – e faz muitas – edita-a com um novo nome. Fê-lo com os *Frost, Kino, It Bites e With The Urbane. Lonely Robot é, supostamente, o seu projecto mais “livre” e, por isso, «Please Come Home» é aquele que mais se assemelha a um disco a solo, ou em nome próprio. O problema é que, por mais convidados especiais que Mitchell chame para duetos, solos, partes narradas ou vozes de coro (e são muitos), o estilo, as canções e as melodias dos 11 temas do álbum de estreia deste disco são em tudo semelhantes aos dos outros projectos do senhor, com alguma variedade aqui e ali. Isso não significa, no entanto, que «Please Come Home» seja um mau disco de rock progressivo atmosférico. Só que podia perfeitamente ser o novo trabalho de qualquer um dos outros projectos de John Mitchell, com o grau de (não) novidade que (não) tem. (7/10)


 

Muck_YourJoyousFutureMUCK «Your Joyous Future»
Prosthetic Records
São islandeses e chamam “punk” à sua música. Isto, pelos níveis de hype actual, deveria chegar aos Muck para serem notados mas, de alguma forma, os vários EPs e o disco de estreia que editaram até agora passaram despercebidos ao grande público. Nada que «Your Joyous Future», agora lançado pela Prosthetic, não resolva, com uma altamente energética e crua mistura de hardcore, punk e indie-noise. É imediato, cheira a suor e mijo e pode agradar aos intelectuais que se dizem amantes de crossover (seja o que for que achem que isso é) mas, na verdade, o verdadeiro público dos Muck está nas ruas, com uma garrafa de vinho numa mão e um cão amarrado com uma corda na outra. É pena que, mesmo com um certo deficit de frescura, «Your Joyous Future» não chegue lá, porque é a esse tipo de punk que verdadeiramente pertence. (7/10)


 

Grunge rust metal surface with vignette.REVOLUTION SAINTS «Revolution Saints»
Frontiers Music
Os Revolution Saints são mais um daqueles típicos projectos levados a cabo por Serafino Perugino, presidente da Frontiers, que gosta de juntar alguns dos seus artistas preferidos de hard rock. No caso, temos o baterista e vocalista Dean Castronovo (Journey), o baixista e vocalista Jack Blades (Night Ranger) e o ex-guitarrista dos Whitesnake, Doug Aldricht. Juntos, fazem um hard rock/AOR melódico, tradicional e com produção actualizada. Está bem feito e tem qualidade, mas não se desvia um milímetro do que é esperado de uma banda de AOR conservadora hoje em dia e não acumula o talento, na composição, dos três importantes nomes envolvidos. É “apenas” mais um projecto com a chancela da Frontiers. (6/10)


 

RubyTheHatchet_ValleyOfTheRUBY THE HATCHET «Valley Of The Snake»
Tee Pee Records
Depois de dois EPs e um álbum de originais que os colocaram nas bocas do hype do doom rock psicadélico retro, os norte-americanos Ruby The Hatchet chegam à Tee Pee e preparam-se para o domínio global. E vêm armados com um bom disquinho de seis faixas (e 40 minutos) de pura subtileza doom rock adornada com teclados psicadélicos e suavemente ornamentada com as vocalizações melódicas e obscuras de Jillian Taylor. É apenas mais um capítulo na era dourada do doom de segunda geração, mas um capítulo feito de canções muito decentes, uma boa sonoridade e várias camadas de ambientes psicadélicos, especialmente “feitos” para serem consumidos na edição em vinil do disco. (7/10)


 

TerrorEmpire_TheEmpireStrikesTERROR EMPIRE «The Empire Strikes Black»
Nordavind Records
Era preciso um grande disco para certificar os Terror Empire como a banda que prometeram ser com o EP de estreia «Face The Terror», de 2012. E é um grande disco que a banda de Coimbra edita com «The Empire Strikes Black». Thrash mais ou menos tradicional levado a extremos de groove, rapidez e dinâmica, com rápidas e cortantes piscadelas de olho ao southern rock e/ou ao death metal escandinavo. Tudo feito com assertividade, contundência e uma produção tão directa e pujante que, à primeira audição, é bem capaz de mandar uns quantos fãs de Pantera da cadeira abaixo. Mais uma prova – não que ela fosse necessária, como vos dirá qualquer fã de Switchtense, Revolution Within ou Echidna – que o thrash moderno português está bem e recomenda-se. (8/10)


 

TheWhorehouseMassacre_AltarOfTheTHE WHOREHOUSE MASSACRE «Altar Of The Goat Skull/VI»
Transcending Obscurity
Depois de lançarem o disco de estreia em 2008, os canadianos The Whorehouse Massacre dedicaram-se a lançamentos mais pequenos e underground, adequados ao tipo de doom/sludge absolutamente mórbido, ensopado em distorção e misantropo que praticam. Este disco reúne os dois EPs editados em 2013, num total de 13 faixas e 45 minutos de doom funerário, drone e sludge feio capaz de gelar o entusiasmo do mais excitado dos hipsters. O som é saturado e a produção é directa, mas a gravação tem qualidade e o duo que opera a partir da Columbia Britânica entretém-se a montar uma série de temas, camada de morbidez por cima de camada de morbidez, que não defraudam os fãs de Hooded Menace e outras coisas (ainda) mais subterrâneas. (8/10)


 

Wende_TheThirdAndWENDE «The Third And The Noble»
Moribund Records
Depois de espantar os fãs de Burzum com a estreia de 2011, o norte-americano Zamiel volta à carga com o seu projecto Wende e lança «The Third And The Noble» que, basicamente, é uma regravação da sua maqueta de 2009 com uma versão de «Towards Ragnarok», de Burzum, acrescentada. Quem aprecia black metal atmosférico, fortemente inspirado na natureza (Zamiel reside na zona rural de Washington), fantasia e trevas, tem em «The Third And The Noble» motivos para apreciar o trabalho de Wende. Não é especialmente evocativo ou original, mas é suficientemente bem feito para convencer os mais fanáticos amantes da primeira fase de carreira de Burzum. (6/10)

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POSTO DE ESCUTA 11.02.2015

Wells Valley_Bem a meio da semana, propomos mais uma série de discos para vos animar os MP3. Do prog/djent ao pós-black metal, do death metal ao electro/industrial e ao pós-hardcore. Mas é o sludge que está verdadeiramente em destaque esta semana. Seja ele misturado com doom e ideias vanguardistas como os portugueses Wells Valley o fazem, fundido com black metal como os Dead In The Manger professam ou na sopa sludge/hardcore/crust/grind cozinhada pelos Call Of The Void. Há de tudo para todos, à distância de uma audição. Por isso, toca a pegar nos headphones.

Aenemica_EmptyInsideAENEMICA «Empty Inside»
Phonector
Já entrevistados por aqui no decorrer do ano passado, os alemães Aenemica não deverão ser estranhos para os nossos leitores. No entanto, no caso de terem deixado passar a excelente mistura de metal progressivo, dark rock, djent e metal alternativo que a banda pratica, a estreia «Empty Inside» está agora disponível fisicamente, em CD. Tanto a edição digital como o disco custam uns meros Eur 5,00 por isso não há mesmo desculpa para não conhecer este surpreendente cruzamento de Periphery, Tesseract e Threshold, feito com um assinalável sentido melódico, riffs contundentes e uma secção rítmica incrivelmente coesa. Pode ser “apenas” uma estreia, mas «Empty Inside» deve mesmo ser um dos momentos de peso mais emocional de 2014. (8/10)


 

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}CALL OF THE VOID «Ageless»
Relapse Records
Depois de mudarem, por volta de 2008, de nome, de sonoridade e de atitude, ninguém mais parou os norte-americanos Call Of The Void, que assinaram pela Relapse e levaram a sua escaldante mistura de hardcore, sludge crust e grind aos cantos mais recônditos do planeta. «Ageless» vem confirmar a furiosa boa forma do quinteto, com um conjunto de temas que parece os Napalm Death a chocarem de frente com os Converge, enquanto levam o groove dos Mastodon ao colo. A naturalidade com que os Call Of The Void aceleram a sua música até limites de velocidade grind, para depois desacelerarem para um groove gigantesco engordado por guitarras sludge, torna «Ageless» uma experiência intensa e avassaladora. (8/10)


 

DeadInTheManger_CessationDEAD IN THE MANGER «Cessation»
20 Buck Spin
Os Dead In The Manger já tinham dado sinais de ser um projecto muito válido com a edição do EP «Transience» o ano passado mas agora, com «Cessation», confirmam as boas indicações com um disco completo cheio da mistura de black metal agressivo, sludge, pós-metal e grindcore que compõe o seu estilo. Apenas um enorme esclarecimento pode fazer com que influências tão díspares se articulem bem e é precisamente isso que o projecto anónimo apresenta, juntamente com uma ferocidade a toda a prova no black metal de inspiração nórdica que constitui a espinha dorsal dos 26 minutos do álbum, um lado experimental que torna tudo mais interessante e uma queda para os pormenores que revela uma subtileza pouco habitual. Não sendo uma abordagem inteiramente nova, espalha uma luz diferente e interessante sobre o black/sludge metal. (8/10)


 

DeclineOfTheI_RebellionDECLINE OF THE I «Rebellion»
Agonia Records
Segundo disco do projecto de pós-black metal liderado pelo francês A.K., dos Merrimack, Vorkreist e Malhkebre. Enquanto, por um lado, «Rebellion» mantém o espírito libertino e experimental da estreia, flirtando com black metal industrial, doom, sampling, abordagem vocal diversificada e alguns momentos mais experimentais, por outro não consegue escapar do espectro de projecto paralelo que vai acumulando partes sem grande coesão ou sentido. E, como noutros discos de projectos paralelos, apesar se a espaços «Rebellion» ter momentos bem interessantes, enquanto álbum deixa algo a desejar e esvazia-se após as primeiras audições. (6/10)


 

HeavingEarth_DenouningTheHolyHEAVING EARTH «Denouncing The Holy Throne»
Lavadome Productions
Apesar de cumprirem os trâmites estilísticos do death metal à risca, os checos Heaving Earth apresentam, com «Denouncing The Holy Throne», um belo exemplo de como o género pode continuar a funcionar sem precisar de olhar para fora de si mesmo. Precisão técnica, brutalidade ao nível do legado deixado pelos Krabathor ou Hypnos e, mais para o final do disco, uma série de solos com uma componente atmosférica e ambiental que não é muito habitual ouvirmos numa banda que quer “apenas” tocar death metal bruto, técnico e blasfemo. Ao segundo álbum de originais esta banda, que se inspirou numa música dos Morbid Angel para nome do projecto, está pronta a ser descoberta pelos mais ávidos fãs de música verdadeiramente extrema. (7/10)


 

InZekt_IndustrialScaleMurderIN_ZEKT «Industrial-Scale Murder»
Auto-financiado
Peter Vindel e Kjetil Ottersen aventuram-se pelos mundos da música industrial, electrónica e noise/experimental com este novo disco do seu projecto In_Zekt. Para além de revelarem boas ideias ao nível das texturas orgânicas e dos ambientes densos que se vão sucedendo na longa – e única – faixa do trabalho, que perfaz 20 minutos, os dois noruegueses conseguem atingir bons níveis de intensidade e uma fusão entre electrónica e industrial quem nem sempre é fácil de conseguir. Por isso, fãs de dark ambient, do universo industrial de Front Line Assembly e todos os que achem que as melodias dos Deathstars estão ali a mais, podem ter uma boa surpresa com «Industrial-Scale Murder». (7/10)


 

WellsValley_MatterAsRegentWELLS VALLEY «Matter As Regent»
Bleak Recordings/Chaosphere/Raging Planet
Saídos do “nada” (não desconsiderando a cabeça de músicos como Filipe Correia dos Concealment, Pedro Lopes e Pedro Mau dos Kneel), os Wells Valley estreiam-se com um superior álbum de originais que mistura de forma original e imprevisível sludge, doom, metal progresssivo e atmosferas carregadas. A coisa pode ser descrita como um cruzamento de Cult Of Luna, Triptykon e Voivod, mas a verdade é que os Wells Valley vão muito mais além do que apenas cruzar sonoridades diferentes: criam a sua própria personalidade musical e fazem um disco cheio de profundidade e qualidade com ela. Pronto a ser descoberta lenta e prazenteiramente, como uma das melhores obras de estreia do metal português dos últimos tempos, a par com o primeiro lançamentos dos Sullen. (8/10)


 

WithAllTheRage_ChainedWITH ALL THE RAGE «Chained»
Auto-financiado
Nascidos em 2010 na província italiana de Sicília, os With All The Rage praticam uma mistura muito decente de death metal melódico e groove metal. A intensidade e dinâmica da banda não ficam nada atrás dos lançamentos mais influentes dos Machine Head – certamente uma das referência musicais do quinteto – mas depois há muito death metal melódico europeu, nomeadamente sueco, atirado para a mistura sonora da banda, com resultados francamente entusiasmantes. A composição poderia, no entanto, ser um pouco mais simplificada em favor de uma maior clareza de ideias por faixa e «Chained», o segundo disco de originais do projecto, merecia definitivamente uma produção mais explosiva. Mas em termos meramente artísticos há muito material bom no álbum em que fincar o dente. (7/10)


 

Wolfheart_WinterbornWOLFHEART «Winterborn»
Spinefarm Records
Tuomas Saukkonen já provou o que tinha a provar em projectos como Before The Dawn, Black Sun Aeon ou Dawn Of Solace, por isso quando o senhor decidiu suspender todas as suas bandas e dedicar-se apenas a Wolfheart, inicialmente um projecto a solo, os amantes de death metal melódico/melancólico ficaram em pulgas. Em 2013 saía «Winterborn», o álbum de estreia de Wolfheart, que cumpria todas as expectativas: death metal pesado e melódico, com os leads tipicamente finlandeses que fazem os fãs de Amorphis felizes e ocasionais acelerações death/black metal. Afinal, todas as influências de Tuomas Saukkonen cabiam mesmo num só projecto e a coesão, inspiração e envolvência de «Winterborn» provavam-no para além de qualquer sobra de dúvida. O disco, agora a ser reeditado para o mercado global pela Spinefarm, chega numa altura em que os Wolfheart – actualmente uma banda completa – se preparam para lançar o segundo trabalho de estúdio. Que, certamente, será outra obra-prima de death metal melódico gelado. (8/10)


 

Zoax_IsEverybodyListeningZOAX «Is Everybody Listening»
Century Media
Os jovens ingleses Zoax fazem parte daquela geração que interiorizou que não existem barreiras estilísticas e que não faz mal nenhum misturar hardcore, pop/rock de sensibilidade melancólica e hard rock moderno. E não faz mesmo, a julgar pelo resultado das seis faixas deste seu segundo EP, agora editado em formato digital. «Is Everybody Lisnening» não é particularmente inspirado ou original, mas imprime uma força às canções que apenas as bandas que misturam juventude e talento genuíno conseguem congregar. Se não conhecem, esta é uma boa oportunidade. (7/10)

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POSTO DE ESCUTA 31.01.2015

Sullen copyBem a tempo do fim-de-semana, o nosso Posto de Escuta mergulha directamente na piscina do metal mais tradicional, com os registos dos Visigoth e Serious Black, mas também de coisas mais brutas como Extinctionist ou The Kill. E, para quem fica melancólico com o tempo, temos o folk nórdico dos Tervahäät, o incrível metal progressivo e melancólico dos Sullen e o pós-hardcore/metal dos A Swarm Of The Sun. Descubram estas e outras propostas no Posto de Escuta desta semana.

AdrenalineMob_DearlyDepartedADRENALINE MOB «Dearly Departed»
Century Media
Não é certo que as pessoas já se tenham apercebido devidamente de quão bons os Adrenaline Mob são, por isso eles não se poupam a oportunidades de mostrá-lo de novo. «Dearly Departed» é um novo EP desta banda que junta na sua formação o vocalista Russell Allen (Symphony X), o guitarrista Mike Orlando e o baterista A.J. Pero (Twisted Sister) e reúne o tema-título, retirado do segundo álbum de originais «Men Of Honor» editado o ano passado, várias versões acústicas de canções desse disco e da estreia «Omertá», um tema novo e exclusivo, versões de «Snortin Whiskey» de Pat Travers, «The Devil Went Down To Georgia» da Charlie Daniels Band e «Tie Your Mother Down» de Queen e ainda um medley de canções dos Black Sabbath. É o típico EP para facturar mais uns cobres, com a diferença que é feito por uma banda de hard rock/groove metal como há muito não se aparecia. (7/10)


 

ASwarmOfTheSun_TheRiftsA SWARM OF THE SUN «The Rifts»
Version Studio Records
É difícil reportar, em meras palavras, tudo o que se passa na música dos A Swarm Of The Sun. A tendência é disparar uma daquelas frases lapidares tipo “Um cruzamento dos universos de Cult Of Luna, Sólstafir e Tenhi”, mas a verdade é que «The Rifts», o segundo álbum de originais do duo sueco, é tão multifacetado e tem tantas camadas diferentes, que as descrições se tornam supérfluas. Como linha condutora das nove faixas do disco está, no entanto, bem identificado, um sentido de atmosfera muito cinematográfico e invocativo, assim como uma melancolia que se entranha nos ossos. Tudo o resto – o pós-hardcore, a música contemporânea, os momentos intimistas tocados com piano, o órgão de tubos e as contribuições da vocalista Anna Carlsson – são meros adereços que os A Swarm Of The Sun usam para chegar à estética e ao sentimento que envolve o disco. (7/10)


 

Extinctionist_PortalsOfExtraterrestrialEXTINCTIONIST «Portals Of Extraterrestrial Invasions»
Rising Nemesis Records
Apesar de ser um projecto relativamente recente – foram formados em 2007 – os alemães Extinctionist têm-se mostrado um colectivo particularmente activo, com dois álbuns, um EP e um split editados desde aí. O entusiasmo parece estender-se à forma como compõem e executam o death metal bruto, técnico e de contornos gore que é a sua imagem de marca. Infelizmente, «Portals Of Extraterrestrial Invasions» também permite perceber que os Extinctionist se contentam em soar de forma tecnicamente intrincada e bruta à imagem das suas influências – Deeds Of Flesh, Disgorge, Dying Fetus, etc – e não procuram nada mais. E, nesse campeonato, terão poucas hipóteses de concorrer com os mestres a não ser que lancem mais uns discos apenas notados pelos mais ávidos coleccionadores antes de chegarem à experiência, classe e talento dos seus ídolos. (6/10)


 

LordDying_PoisonedAltarsLORD DYING «Poisoned Altars»
Relapse Records
Se a estreia de 2013 dos norte-americanos Lord Dying, «Summon The Faithless», já cheirava a Crowbar e High On Fire por todos os lados, o ano que se seguiu, em que a banda dividiu digressões e palcos com nomes como Red Fang, Black Tusk e coisas desse género, não augurava grandes mudanças. «Poisoned Altars», no entanto, conta com produção de Joel Grind (dos Toxic Holocaust), que dá uma crosta verdadeiramente impressionante aos temas dos Lord Dying que, por seu lado, apresentam uma evolução notável ao nível dos riffs e dos arranjos. A consequência é um disco que foge ao estigma do “sludge-hype-metal” para se colocar, lado a lado com os heróis Crowbar, naquele patamar de propostas com um pingo de personalidade e canções que, em boa verdade, são decentes muito para além do acumular de riffs, peso e distorção. (8/10)


 

NearGrey_YageNEAR GREY «Yage»
Auto-financiado
São passos largos que os canadianos Near Grey dão a cada novo lançamento que editam. «Yage» é o terceiro, e apresenta-se mais abrangente, mais coerente e mais coeso na mistura de pós-rock, drone e ocasionais incursões pelo black metal lo-fi. Como é fácil de adivinhar, a aposta do quarteto está nos contrastes e na variedade e os três temas de «Yage» – cada um com cerca de 20 minutos – exploram-nos como os Near Grey haviam feito no EP homónimo e em «The Herschel Central Peak», mas com um mais apurado sentido de dinâmica e pormenor. O resultado continuar a estar apenas ao alcance dos mais iluminados que gostam de se envolver nas mais doces melodias e depois serem arrebatados por turbilhões sónicos abjectos, mas é sem dúvida um decisivo passo em frente para os Near Grey. (8/10)


 

SeriousBlack_AsDaylightBreaksSERIOUS BLACK «As Daylight Breaks»
AFM Records
Roland Grapow (Masterplan), Thomen Stauch (ex-Blind Guardian), Mario Lochert (ex-Visions Of Atlantis), Dominik Sebastian (Edenbridge), Jan Vacik (ex-Dreamscape) e o vocalista Urban Breed (ex-Tad Morose) juntos para tocar power metal melódico – o que pode correr mal? Nada, segundo «As Daylight Breaks», o disco de estreia dos Serious Black. Se levarmos em consideração que o bom power metal melódico europeu já foi todo feito, nomeadamente por bandas como Avantasia, Stratovarius ou Masterplan, os Serious Black não têm como errar: recuperam essa sonoridade na perfeição, com 11 faixas de produção bombástica, melodias contagiantes e coesão irrepreensível. Urban Breed ainda consegue puxar algumas das influências sinfónicas e meio étnicas dos Kamelot para a sonoridade da banda, por isso a coisa é mesmo, passe a redundância… Séria. (8/10)


 

Sullen_PostHumanSULLEN «Post Human»
Auto-financiado
Nascidos a partir da cisão da melhor banda de metal progressivo a surgir a norte do Rio Tejo nos últimos anos (também conhecida como “Oblique Rain”), os Sullen são os verdadeiro herdeiros do legado negro, virtuoso e tridimensional da música do autores de «Isohyet» e «October Dawn». No entanto, como este disco de estreia prova de forma inequívoca, o projecto está longe de poder ser apenas uma espécie de “Oblique Rain, parte dois” e opta por caminhos mais diversos, com partes acústicas mais intimistas, peso mais carregado, abordagem mais técnica e mesmo uma surpreendente versão de «Redondo Vocábulo», de Zeca Afonso. É impossível dizer se seria assim que os Oblique Rain soariam se continuassem o seu processo de amadurecimento artístico, mas não é nada difícil afirmar que os Sullen são, já, um dos mais excitantes projectos de metal progressivo em Portugal. (9/10)


 

Tervahaat_TervahhatTERVAHÄÄT «Tervahäät»
Nordvis Produktion
O folk nórdico do projecto finlandês Tervahäät é daquelas coisas que precisa de ser experimentada, mais do que propriamente ouvida. Incrivelmente atmosférico e desolado, consegue instalar na cabeça do ouvinte a sensação de desespero da isolação e melancolia raivosa do rigoroso Inverno nórdico, através de um conjunto de faixas em que o experimentalismo, ocasional shamanismo e percussão inteligente formam a espinha dorsal de um folk tão negro e introspectivo que mesmo os próprios Tenhi teriam dificuldade em lidar com ele. Esta reedição do disco de estreia do projecto, agora feita pela Nordvis em vinil, vale bem a pena para as longas noites frias e chuvosas que o ano ainda nos reserva. (8/10)


 

TheKill_KillThemAllTHE KILL «Kill Them… All»
Blastafuk Grindcore
Dizem que a Austrália é a nova Suécia do grindcore e, a julgar pela qualidade e quantidade que tem saído do país dos antípodas, é bem capaz de ser, sim. Os The Kill chegam, com «Kill Them… All», ao segundo longa-duração e despacham 19 faixas em 26 minutos de grind rápido e raivoso, na onda de Nasum e Insect Warfare, com um lado thrash a tornar tudo um pouco mais metálico e o habitual sentido de humor do género. Não têm nada que verdadeiramente os separe das (boas) bandas de grindcore, mas com esta abordagem sem grandes desacelarações ou invenções, os The Kill são bem capazes de agradar aos fãs de música grind directa e pura que gostam de castanhada à antiga. (7/10)


 

Visigoth_TheRevenantKingVISIGOTH «The Revenant King»
Metal Blade
Armam-se em salvadores do heavy metal clássico mas, na verdade, os norte-americanos Visigoth não são mais do que uma daquelas bandas de tributo ao período em que heavy metal significava “doom/NWOBHM”. Só que o fazem, nesta estreia, surpreendentemente bem, ao ponto de poderem ser comparados, sem desprimor, com nomes como Twisted Tower Dire ou Grand Magus. Guitarras duais, vocalizações de tom baixo, secção rítmica sólida e temática heavy metal até ao tutano podem não ser uma proposta incrivelmente refrescante e original nos dias que correm, mas «The Revenant King» compensa com entusiasmo, qualidade e uma aura de autenticidade e inocência que, certamente, não acompanhará os Visigoth por muito tempo. (7/10)


 

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POSTO DE ESCUTA 21.01.2015

Chapel Of Disease copyNuma altura em que começa mais uma semana, temos uma renovada mão-cheia de propostas musicais para serem descobertas. Há classicismo, hard rock, dinamismo e melodia, mas também há discos de escuridão abjecta e todo o tipo de desvios que traçam caminhos nada agradáveis entre os mais extremos estilos de metal, com natural destaque para a a obra-prima dos Chapel Of Disease. Seja qual for a vossa onda, há novidades e os vossos ouvidos merecem-nas. Boa semana.

booklet_23acez_RW_p8n123 ACEZ «Redemption Waves»
Mighty Music
«Redemption Waves», o segundo álbum dos hard rockers belgas 23 Acez, nem começa mal. Uma mistura de melodias clássicas no refrão e pré-refrão com um som de guitarra mais pesado do que no hard rock da velha guarda, bons solos e uma dinâmica acima da média. A produção, a que falta o brilho que os temas de abertura do disco merecem, é suficientemente clara e consistente para não estragar o esforço do grupo. O problema é que, a partir de pouco antes de meio do álbum, acabam-se as boas ideias ou a energia (ou ambas as coisas) e «Redemption Waves» transforma-se num disco de hard rock medíocre, que parece composto e tocado em piloto automático. Um típico clássico de disco longa-duração que devia ser um EP. (6/10)


 

ChaliceOfBlood_HeligHeligHeligCHALICE OF BLOOD «Helig, Helig, Helig»
Daemon Worship Productions
Poderoso EP deste misterioso trio sueco de black metal que, numa década de actividades, tinha apenas lançado até agora uma maqueta e três splits. Em «Helig, Helig, Helig», agora disponibilizado pela Daemon Worship, os Chalice Of Blood pegam no legado sueco de black metal – rápido, violento, mas sempre harmónico – e acrescentam-lhe várias camadas sónicas de atmosfera claustrofóbica, resultando em 19 minutos da mais apetecível abordagem conservadora ao estilo de que há memória nos últimos tempos. A produção revela um igual cuidado em manter o som o mais profissional e claro possível, sem sacrificar no processo toda a agressividade, peso e ocasional dissonância das cinco faixas. A edição é em vinil (MLP de 12”), mantendo a tradição do trio de não lançar nada em CD. (8/10)


 

ChapelOfDisease_TheMysteriousWaysCHAPEL OF DISEASE «The Mysterious Ways Of Repetitive Arts»
F.D.A. Rekotz
Os alemães Chapel Of Disease não enganam ninguém. O seu death metal é velho, obscuro e clássico e, no entanto, é impossível confundi-los com a maré de bandas todas iguais que integram a “nova vaga” de death metal old school. Porque, como o segundo álbum de originais do quarteto mostra de forma tão categórica, a atenção ao pormenor, a produção cristalina e equilibrada, o sentido de proporção entre riffs da velha guarda, morbidez e solos épicos e as influências de literatura clássica fazem toda a diferença quando se trata de injectar qualidade num estilo de música tantas vezes repetido. E «The Mysterious Ways Of Repetitive Arts» brilha, sim senhores, como um farol na noite fria, longa e escura do death metal underground europeu. (8/10)
https://soundcloud.com/fda-rekotz/chapel-of-disease-the-dreaming-of-the-flame/s-Ox1t7


 

Dwail_TheHumanConcernDWAIL «The Human Concern»
Klonosphère
Os franceses Dwail calcorreiam as andanças do groove/thrash metal há cerca de uma década (a maqueta de estreia «Monstro» saiu em 2006) por isso, ao chegarem ao segundo álbum de originais, não são propriamente tenrinhos. A sua música contém as doses certas de ritmos demolidores e riffs balançantes, com uma dinâmica interessante entre vocalizações agressivas e momentos narrados/melódicos. A coisa também “foge” ocasionalmente para o hardcore mais puro ou para malabarismos técnicos mathcore. Infelizmente, o quarteto ainda cai algumas vezes num generalismo meio aflitivo, mas assim que acertem na composição e tornem as suas músicas mais assertivas, têm aqui uma receita musical que pode ser explosiva, intensa e poderosa. (6/10)


 

Ghoulgotha_PropheticOrationGHOULGOTHA «The Deathmass Cloak»
Dark Descent Records
Quem acha que o doom/death metal se deve chamar “metal of death” tem nesta estreia dos Ghoulgotha uma boa proposta. O estilo praticado pelo trio californiano cruza o mais mórbido estilo de doom/death metal com death metal realmente velho e o resultado é um conjunto de uma dezena de faixas que soa como se os Usurper, os Immolation e os Hooded Menace fossem a mesma banda. Com uma produção que parece sugar toda a luz que a rodeia, «The Deathmass Cloak» é um exercício de pura maldade épica, pormenores técnicos interessantes e grande dinâmica rítmica. Esta pode ser “apenas” uma estreia, mas oferece mais do que muitas bandas com décadas no underground. (8/10)


 

Hopelezz_TheRisingHOPELEZZ «The Rising»
Sonicscars Records
Death metal melódico é a proposta dos alemães Hopelezz que, depois de um disco de estreia muito decente em 2012, se preparam para voltar aos álbuns de originais este ano. Antes disso, «The Rising» apresenta três novos temas em formato de EP, renovando a força da mistura que o quarteto pratica, de death metal melódico, groove metal e alguns breakdowns. Não é especialmente dinâmico, mas é sólido como uma viga de betão e atinge, ocasionalmente, uma velocidade entusiasmante. Haverá por aí coisas melhores, mais originais ou excitantes, mas «The Rising» não contém erros, está bem gravado e cumpre todos os requisitos que o death metal melódico moderno necessita. (6/10)


 

Dracula_SwingOfDeathJORN LANDE & TROND HOLTER PRESENT DRACULA «Swing Of Death»
Frontiers Music
Trond Holder (guitarrista dos noruegueses Wig Wam) junta-se ao compatriota Jorn Lande, lenda da voz quente de hard rock e heavy metal e, juntos, criam uma ópera rock baseada na história do Conde Vlad III e, em parte, no romance “Drácula” de Bram Stoker. O resultado é um disco que mistura com mestria hard rock adulto, heavy/power metal, alguns truques dos musicais rock e ainda ocasionais influências tradicionais, numa dezena de temas coesos, bem feitos e a transbordar qualidade. O conceito faz com que vocalista Lena Fløitmoen Børresen interprete quatro canções em dueto com Lande, estendendo ainda mais o espectro estilístico de «Swing Of Death» que, não revolucionando o mundo do hard rock/heavy metal nem das óperas rock, apresenta coesão e qualidade em doses suficientes para convencer os fãs dos respectivos estilos e, sobretudo, da poderosa voz de Lande. (7/10)


 

NightDemon_CurseOfTheNIGHT DEMON «Curse Of The Damned»
Steamhammer
Mais uma versão californiana do heavy metal clássico segundo putos em brasa com os discos clássicos de Iron Maiden, Metallica, Diamon Head, Angel Witch e por aí fora. Os Night Demon distinguem-se, no entanto, por uma abordagem um pouco mais variada do que o habitual, o que os leva a ter uma música plena do ambiente dos Misfits («The Howling Man») logo a seguir a outra – «Full Speed Ahead» – que parece do álbum nunca gravado pelos Motörhead. Riffs interessantes, canções decentes e a tal reserva de influências musicais variadas fazem de «Curse Of The Damned» um dos mais interessantes disquinhos de heavy metal tradicional que a “nova geração” apresentou nos últimos tempos. (8/10)


 

PerditionTemple _SovereignPERDITION TEMPLE «Sovereign Of The Desolate»
Hells Headbangers
Quem aprecia black/death metal rápido, caótico e cortante, vindo do mais profundo underground, não tem muito que pensar aqui. Em antecipação ao seu segundo álbum de originais (a editar este ano), este projecto liderado pelo ex-guitarrista de Angelcorpse Gene Palubicki dispara uma faixa inédita e uma versão de «Weltering In Blood», dos Blasphemy, num vinil de 7” splatter. A abordagem é extrema, a velocidade é extrema, as letras são extremas e a banda que rodeia Palubicki, que inclui o guitarrista dos Immolation Bill Taylor e o vocalista Impurath, dos Black Witchery, não faz prisioneiros. Haverá mesmo alguma ponderação a fazer antes de darem 7.77 dólares por isto? (7/10)


 

12 Jacket (Gatefold - Two Pocket) [GD30OB2-N]VOLAHN «Aq’ab’al»
Iron Bonehead/The Ajna Offensive/Crepusculo Negro
O black metal é fértil em sonoridades transcendentes e mágicas, som cru e projectos que irradiam a genialidade de membros solitários, por isso quando todas estas características se juntam numa só entidade, não é admiração; é uma convergência de factores que fará os fãs do estilo felizes. «Aq’ab’al» é a segunda proposta longa-duração de Volahn (nome artístico do americano Eduardo Ramírez) e propõe-nos uma hora de black metal selvagem e cósmico, envolto em roupagens indígenas, ritualistas e esotéricas, muito por via do conceito maia que é explorado no disco. É uma viagem plena de emoções fortes, surpresas e estados de espírito contrastantes. E, em última análise, um tremendo exemplo de onde pode chegar o black metal underground em 2015. As edições são em CD, LP duplo e cassete – escolham o vosso “veneno” mas, por amor dos deuses (jaguar), não deixem passar «Aq’ab’al» ao lado. (8/10)

 

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POSTO DE ESCUTA 09.01.2015

EskapiDois mil e quinze promete ser um ano de grande (preencher com adjectivo que se aplique) e, por isso, nada melhor do que uma playlist que reflicta precisamente esse estado de espírito. Se a vossa cena é apocalíptica/suicida, os suecos Eskapi estão na ordem do dia. Para os undergrounders há coisas como Witchrist, Morbosidad, Derrame, Ingurgitating Oblivion e Ascension. Depois, há a melancolia que escorre do EP dos Slowgold, o doom/death metal desesperado dos Aphonic Threnody e a maluqueira (mais) controlada dos 6:33. Muitas e boas propostas para voltar à rotina.

6-33_DeadlyScenes6:33 «Deadly Scenes»
Kaotoxin Records
Verdadeiros herdeiros do espírito libertino e louco dos Carnival In Coal (o vocalista Arno Strobl chegou a participar no álbum anterior), os franceses 6:33 estão de volta com o terceiro álbum de originais e, na medida do possível, uma abordagem um pouco mais madura à sua receita musical. Onde antes havia pura esquizofrenia estilística, os gauleses unem agora as pontas com um lado muito cinematográfico da sua música, cuja ocasional narração ajuda a manter coeso, e que lhes permite depois dar algum sentido aos saltos entre rock/soul à Faith No More, metal progressivo e vislumbres de inúmeros outros géneros. Eles chamam-lhe uma mistura de Devin Townsend, Mike Patton e Tim Burton e, em boa verdade, com as devidas distâncias, não andam muito longe da verdade. (7/10)

AphonicThrenody_FirstFuneralAPHONIC THRENODY «When Death Comes»
Doomentia Records
Projecto internacional de músicos de países como Inglaterra, Itália, Hungria ou Bélgica, os Aphonic Threnody têm evoluído a cada um dos lançamentos que fizeram desde 2013 e chegam a este primeiro longa-duração transformados numa sólida entidade de doom/death metal funerário. É sobretudo nos ambientes envolventes, quase cinematográficos (há violoncelo para adensar a melancolia) que «When Death Comes» se destaca, mas os Aphonic Threnody são também capazes de invocar trevas, peso e desolação à altura dos mais extremos mestres do género que, por falar nisso, também reconhecem a qualidade do projecto, ou não fossem Jarno (Shape Of Despair) e Greg (Esoteric) colaboradores habituais da banda. Por isso, para começar o ano em beleza, nada como um banho de imersão de tristeza melancólica e negridão sem esperança, em temas que podem chegar a 18 minutos e um desespero que pode chegar até ao fim da vida. (8/10)

Ascension_TheDeadOfASCENSION «The Dead Of The World»
W.T.C. Productions
Numa altura em que é cada vez mais difícil acompanhar tudo o que a cena black metal manda cá para fora, os alemães Ascension destacam-se por uma maturidade e qualidade na sua música que não condiz com os meros sete anos de actividade que levam. «The Dead Of The World» sucede à estreia de 2010 «Consolamentum» e solidifica a abordagem madura e inteligente do projecto ao black metal mais ortodoxo, com padrões rítmicos intrincados e variados (alerta fãs de Blut Aus Nord e Deathspell Omega!) e uma atmosfera carregada. Ou seja, não saindo muito do espectro do black metal, os alemães são competentes, convincentes e detêm uma aura de seriedade e qualidade que não está ao alcance de todos. É obra. (8/10)

Bretus_TheShadowOverBRETUS «The Shadow Over Innsmouth»
BloodRock Records
Depois de lançarem o seu disco de estreia em 2013, os italianos Bretus cozinharam finalmente um novo longa-duração com o seu doom/stoner metal descomprometido e de influências psicadélicas. Se, musicalmente, a música do quarteto da Calábria não compromete em nada a sua intenção de soar tão fumacentos, clássicos e doom como os Black Sabbath, é nas letras, inspiradas pela temática de horror de H.P. Lovecraft e de filmes de Mario Bava, que o grupo tem o seu elemento diferenciador e grande parte do charme que anima «The Shadow Over Innsmouth». Não esperem grande originalidade, mas se a vossa cena é doom/stoner clássico tocado como se a década de 70 tivesse acabado o ano passado, os Bretus podem ter alguma coisa para vocês (7/10)

Derrame_CrawlToDieDERRAME «Crawl To Die»
Auto-financiado
É inspirador que, em 2014, duas décadas e meia depois do disco de estreia dos Morbid Angel, continuem a aparecer jovens bandas a praticar death metal bruto e extremo na sua sonoridade mais “clássica”. Os Derrame têm o bónus de serem portugueses, de Lisboa, e de o fazerem com bons índices de intensidade neste EP de estreia de cinco faixas, que perfazem 15 minutos. A lista de influências será certamente extensa e não escapará aos nomes incontornáveis do género, mas o quinteto consegue aliá-los de forma tecnicamente desenvolta, com uma produção muito decente e composição competente. Por isso, “Bom death metal” descreve perfeitamente os Derrame. “Da velha guarda” e “Com apontamentos thrash e bruto como o raio” também servem, mas concentremo-nos no essencial: death metal do bom. (7/10)

Eskapi_ValkommenESKAPI «Välkommen till (O)verklinghten»
Art Of Propaganda
Este é o EP de estreia do duo sueco Eskapi, constituído por C.L. e Johan Gabrielson (conhecido como 1853 em Vanhelga e nos Lifelover). Praticamente sem guitarras, os sete temas baseiam-se em ritmos simples e vincados, teclados ambientais e num spoken word (em sueco), que constitui a principal atracção da música dos Eskapi. As linhas vocais têm um largo espectro de emoções, das mais frias e narrativas à fronteira da distorção black metal, sempre ali entre a spoken word e o hip-hop e a constituir um excelente contraponto coma abordagem instrumental minimalista e as melodias simplistas. O ambiente criado pelos 28 minutos de «Välkommen till (O)verklinghten» é frio, desolado, invocativo, depressivo e provocador como poucos discos conseguem ser. (8/10)

IngurgitatingOblivion_ContinuumOfAbsenceINGURGITANTING OBLIVION «Continuum Of Absence»
Willowtip Records
Depois de uma primeira encarnação (em que se chamaram Of Trees And Orchids), os Ingurgitating Oblivion dedicaram-se a um estilo mais bruto e técnico de death metal no início dos anos 00 e lançaram um álbum de estreia promissor («Voyage Towards Abhorrence) em 2005. Infelizmente, desde aí, foram poucos os sinais de vida da banda alemã (um split com três outros grupos em 2007 e uma maqueta três anos depois), mas agora o projecto parece querer recuperar o tempo perdido com um novo álbum de originais. «Continuum Of Absence» é tudo o que um fã de Immolation e dos primeiros discos dos Morbid Angel pode pedir: tecnicamente impecável, orgânico e sem grandes invenções, com especial ênfase na variação rítmica. Um mimo de brutalidade. (8/10)

Morbosidad_TorturaMORBOSIDAD «Tortura»
Nuclear War Now! Productions
Há mais de duas décadas a espalhar o mais rápido e caótico death/black metal feito do outro lado do Atlântico, os Morbosidad dispensam grandes apresentações e despejam quatro novos temas neste novo EP, editado em vinil. Todas as imagens de marca da banda estão presentes: técnica precisa (embora disfarçada por baixo de uma capa de produção crua e directa), rapidez à flor da pele, um sentido de ambiente muito mórbido (pois…) presente em passagens de puro doom e letras cantadas em mexicano. Como bónus, Chris Reifert, dos Autopsy, dá uma “perninha” numa das faixas. Puro underground sul-americano feito nos Estados Unidos, no mais trve cvlt dos formatos. Imperdível, portanto. (8/10)

Slowgold_EPSLOWGOLD «EP»
Gaphals
Imaginem a paisagem rústica e salgada de uma das mais pequenas ilhas do arquipélago de Estocolmo. Vocês estão sentados, virados para o mar, enquanto a pessoa que amam se vai embora de uma vez por todas. Qual é a música que está a tocar? O rock psicadélico lento e sonhador, fortemente inspirado por Neil Young, Hope Sandoval e Gene Clark, dos Slowgold, pois claro. A voz de Amanda Werne, a senhora por detrás do projecto, é profundamente evocativa e transborda de sentimentos, contando ainda com o lado sensual da língua sueca para torná-la mais misteriosa e apelativa. A música das quatro faixas de «EP», é essencialmente acústica, acompanhada à guitarra, ocasional concertina e ritmos suaves e hipnóticos. Apesar de pouco ambicioso e original, é um daqueles projectos cuja música nos envolve com tanta facilidade, que é fácil deixarmo-nos ir. (7/10)

IBP220_Jacket_3mmSpine.inddWITCHRIST «Vritra»
Iron Bonehead Productions
Depois de dois álbuns de originais e outro tantos splits (com Morbosidad e Antedilluvian), os neo-zelandeses Witchrist despedem-se da sua curta mas intensa carreira com este MLP de 12″ e três faixas do mais puro death/black metal underground que é possível ouvir actualmente. Mantendo sempre os níveis de caos sob um rigoroso controlo, os dez minutos de «Vritra» vão buscar inspiração ao mais cavernoso e blasfemo death metal (pensem em Immolation em meio de carreira), que usam depois com parcimoniosas partes de black metal, ocasionais referências doom e uma abordagem lírica ritualista e ocultista, com o bónus de ser KzR, dos Bölzer, o cantor do projecto neste registo. O death/black metal do outro lado do mundo está bem e recomenda-se e, pese embora o estandarte fique agora entregue a nomes como Diocletian (que têm elementos dos Witchrist) e Heresiarch, não será fácil esquecer o legado deste magnífico colectivo. (8/10)

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POSTO DE ESCUTA 17.12.2014

Crossed Fire copyComo diz o outro, o Inverno está a chegar e, com ele, uma altura festiva que requer, frequentemente, uma capacidade de alheamento apreciável. Por isso neste Posto de Escuta damos-vos uma série de alternativas para colocarem os headphones e esquecerem que estão naquela fila interminável ou num centro comercial qualquer cheio de formigas à procura da migalha de pão que lhes falta. A música contemporânea/tribal do novo projecto de Mike Patton, o folk medieval dos brasileiros Olam Ein Sof ou o delírio experimental-electro-drone de Nelson P. Ferreira e Rui P. Andrade são apenas três exemplos, mas também há o hardcore/metal energético dos Enabler, o US power/thrash dos Wretch e muito – e bom – metal português. É só escolher a viagem.

CrossedFire_LifesAGambleCROSSED FIRE «Life’s A Gamble»
Hellxis Records
É um sinal dos tempos que uma jovem banda como os Crossed Fire, apesar de conter elementos e ex-elementos de projectos como Dawnrider, Revtend ou Confront Hate, se tenha estreado com um EP com tanta qualidade como «It’s All About Chaos». A um groove imenso, os algarvios aliavam riffs de inspiração southern e queda para a composição de canções que ficam na cabeça de quem as ouve. Agora, dois anos depois, o quinteto confirma os predicados com uma colecção de 12 faixas que contam com um renovado push na produção, que torna ainda mais intensa a sonoridade groove/stoner dos Crossed Fire e que os coloca em pé de igualdade com as (melhores) propostas internacionais do estilo. O metal nacional está garantido, com uma nova geração assim. (8/10)

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}ENABLER «La Fin Absolue Du Monde»
Century Media
Gostaríamos de endereçar, antes de mais, um pedido de desculpa formal à Earsplit Compound por não termos criticado, por falta de tempo, este segundo disco dos norte-americanos Enabler em Outubro do ano passado quando a promo nos foi originalmente enviada. Como dois erros nunca dão uma coisa acertada, aproveitamos agora a edição europeia, pela mão da Century Media, para destacar o hardcore/metal absolutamente energético e inteligente do trio. Na sua essência, «La Fin Absolue Du Monde» está entre a libertinagem quase-math dos Every Time I Die e a atracção da juventude de uns Architects, mas há ideias, maneirismos e personalidade musical suficientes neste longa-duração para que os Enabler possam ser considerados mais do que apenas “mais uma” banda no renovado movimento metalcore. Se as designações estilísticas vos fizerem confusão, encarem isto como “thrash/punk/death/hardcore”, mas por amor dos deuses, não deixem passar «La Fin Absolue Du Monde» sem lhe darem uma oportunidade. (7/10)

Fleshworld_Gazers_VisceraFLESHWORLD/GAZERS/VISCERA/// «Split»
Unquiet Records/Sell Your Soul
Mais um lançamento muito válido para quem procura novas propostas na área do pós-metal. Os polacos Fleshworld são já uns velhos conhecidos nossos (escrevemos sobre o seu disco de 2013 «Like We’re All Equal Again») e revelam, nos três temas deste split alguma evolução no seu sludge/pós-metal à Cult Of Luna, numa direcção mais orgânica, rítmica e própria. Os franceses Gazers estão presentes com outras três faixas onde a palavra-chave é “equilíbrio”. Um equilíbrio por vezes precário entre pós-black metal, noise rock, pós-hardcore e algum screamo, mas a coisa acaba por funcionar, sobretudo para quem gosta de emergência crua e energia juvenil na sua música. Os italianos Viscera/// são uma besta um pouco mais madura, mas isso não significa que o seu pós-hardcore, injectado de sludge, algum drone e psychedelia, não contenha largas doses de energia e qualidade. Como foi referido anteriormente, uma boa porta de entrada para três universos paralelos que valem a pena explorar. (7/10)

Monolyth_OriginMONOLYTH «Origin»
Auto-financiado
Com um par de elementos a vir dos Colosso e dos Munchies e os outros sem qualquer experiência musical relevante anterior, os Monolyth são daquelas bandas que não deveriam soar assim com tão pouco tempo de actividade. Não é, de todo, natural que uma banda, mesmo que activa há cinco anos, edite um disco de estreia com a coesão técnica, a qualidade de produção e a competência de composição que os aveirenses revelam em «Origin». Movendo-se num groove metal com inspiração death metal, progressiva e de algum djent, o quinteto dispara uma dezena de canções a que não faltam argumentos para convencer fãs de Lamb Of God, Machine Head, Meshuggah ou Crushing Sun, cheios de riffs demolidores, com uma secção rítmica monstruosa e de ataque vocal robusto. É a nova geração do metal português, no seu melhor, a dar cartas que poderiam – deveriam – perfeitamente pertencer a um baralho qualquer internacional. (8/10)

NelsonPFerreiraRuiPAndreade_MiklosNELSON P. FERREIRA/RUI P. ANDRADE «Miklós»
Haze
Novo capítulo da colaboração entre os produtores Nelson P. Ferreira (Ecos) e Rui P. Andrade (Avoidant), depois de uma experiência em 2011. E, como em «White Mother», o terreno musical de «Miklós» é a música experimental, electrónica, com laivos de distorção industrial e ocasionais piscadelas de olho ao drone. Só que, em «Miklós», o duo vai mais longe na exploração de texturas sonoras, deixando para trás todo e qualquer resquício melódico, tornando a proposta uma paleta de experimentalismos vanguardistas feitos apenas para quem aprecia este timo de manipulações sónicas. É interessante e ambientalmente envolvente, embora caia por vezes numa espécie de flatline emocional, provavelmente propositado, que não ajuda à dinâmica da coisa. (7/10)

OlamEinSof_ReinoDeCramferOLAM EIN SOF «Reino De Cramfer»
Auto-financiado
Houve quem os visse este Verão na digressão por feiras medievais portuguesas que fizeram, mas quem não conhece os brasileiros Olam Ein Sof tem em «Reino De Cramfer», o mais recente de uma série de álbuns de originais que editaram nos seus 13 anos de carreira, uma boa oportunidade de mergulhar no folk medieval do duo. A abordagem é acústica, de instrumentos tradicionais como mandolim, charango, cuadro venezuelano e cítara (para citar apenas alguns), o que dá uma aura de autenticidade à música dos Olam Ein Sof, que é depois bem enquadrada pelos vocalizações suaves (em português!) de Fernanda Feretti. Os arranjos recorrem a harmonias medievais e, pese embora não sejam particularmente evocativos, cumprem na perfeição a função de tornarem o projecto como o mais interessante dentro do spectro folk/medieval do Brasil. (7/10)

Tetema_Geocidaltētēma «Geocidal»
Ipecac
Mike Patton, dos Faith No More, fundador da Ipecac Recordings, é conhecido por se meter nas mais estranhas e experimentais colaborações musicais de que há memória. Em tētēma, fá-lo com o compositor e pianista australiano Anthony Pateras, numa colecção de temas algures entre o contemporâneo e o tribal, extremamente rítmicas e quase improvisadas (sobretudo ao nível das vocalizações). Como em tudo o que Patton mete o dedo, «Geocidal» tem um lado de loucura descontrolada que requer algum tipo de habituação e a mente muito aberta para que se aprecie condignamente a música, mas tētēma tem orgânica e pormenores suficientes para que a sua descoberta seja cheia de prazer auditivo e espanto sónico. (7/10)

TheAutist_EntangledTHE AUTIST «Entangled»
Music In My Soul/Arcadia
Pode acusar-se os lisboetas The Autist de muita coisa: de serem demasiado jovens, enquanto banda, para lançarem um primeiro EP (o projecto nasceu este Verão), das melodias da voz de Edna Gutierrez (e Diana Rosa, dos 11th Dimension, em duas faixas) não encaixarem ainda perfeitamente na intensidade do groove metal da banda e da gravação poder ter um pouco mais de push e dinâmica. Mas há uma coisa de que não podemos acusar o sexteto: de falta de ambição. Porque misturar djent, groove metal e uma abordagem vocal dual masculina/feminina não é tarefa fácil, mas isso não os desanima e «Entangled» são sete faixas que funcionam com uma energia muito própria, pese embora com o peso da inexperiência e de alguma inconsequência na composição a toldar-lhes os movimentos. Mas, saibam eles vencer as adversidades muito próprias de uma jovem banda de metal português e a experiência dar-lhes-á o esclarecimento e o “calo” que falta a «Entangled». A ambição e uma genuína génese de talento parecem estar lá. (6/10)

Witherscape_TheNewTomorowWITHERSCAPE «The New Tomorrow»
Century Media
Depois da excelente surpresa que foi o disco de estreia de Witherscape, o projecto composto por Dan Swäno (Edge Of Sanity, Nightingale, Bloodbath) e pelo multi-instrumentista Ragnar Widerberg está de volta com um EP especial que visa fazer a “ponte” entre o primeiro e o próximo álbum do duo. «The New Tomorrow» contém o tema-título, uma “continuação” de uma canção do disco de estreia, chamado «Dead For Another Day» (o original chamava-se «Dead For A Day») e versões de canções de Kiss («A World Without Heroes»), Judas Priest (Out In The Cold») e Warrior («Defenders Of Creation»). É, sem dúvida, material especial para os fãs do death metal progressivo, old school e atmosférico que o duo assume de forma sublime. Existem diversas edições limitadas em vinil, mas a versão em CD vale também a pena (contém a mistura sonora feita especialmente para vinil como bónus), bem como a edição digital, que tem covers adicionais («A Cry For Everyone» de Gentle Giant e «Last Rose Of Summer» de Judas Priest). (8/10)

Wretch_WarriorsWRETCH «Warriors»
Pure Steel Records
Os Wretch são daquelas bandas que nos apetece apreciar só de olharmos para a sua história. Activos desde 1983, enfrentaram uma série de dificuldades de financiamento e formação, lançando a primeira maqueta apenas em 1989 e uma segunda em 2004, até chegarem ao álbum de estreia dois anos depois. Agora, volvida uma década, com uma compilação (2007) e um EP (2013) pelo meio, regressam aos longa-duração com uma nova colecção de canções do US power/thrash metal honesto que caracteriza a sua sonoridade. As vocalizações são melódicas, os riffs são robustos e os solos recorrem frequentemente às duas guitarras na melhor tradição americana do heavy metal, mas «Warriors» raramente consegue passar de um exercício de power/thrash ligeiramente genérico, feito por bons tipos com uma paixão verdadeira. Vale o que vale, mas apenas os mais especializados fãs encontrarão aqui algum interesse. (6/10)

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