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POSTO DE ESCUTA 13.05.2014

Hannes GrossmannNova semana, novo Posto de Escuta, desta vez com ênfase no black metal nos seus mais variados sub-formatos: do screamo/pós-black metal dos russos Toluca ao black/folk metal arábico dos Al-Namrod, passando pelos israelitas Dim Aura, pelos espanhóis female fronted Bloodhunter e pelos sinfónicos Retribution. Depois, há propostas de hard rock clássico para fãs de Ten, stoner metal progressivo (!), thrash’n’roll e duas novidades de death metal técnico, progressivo e de fusão que encherão as medidas aos fãs do género. Boa semana.

AlNamrood_HeenYadharAlAL-NAMROOD «Heen Yadhar Al Ghasq»
Shaytan Productions
Enquanto as bandas europeias de folk metal se andam todas a copiar umas às outras para obterem parcelas do sucesso de quem copiam, na Arábia Saudita um projecto como os Al-Namrood já vai no terceiro álbum de originais sem que, praticamente, o mundo tenha dado por ele. Certo, o black metal oriental do trio é exótico, estranho até, quando comparado com os padrões musicais a que estamos habituados. Mas a verdadeira originalidade tem destas coisas; «Heen Yaadhar Al Ghasq» é autêntico black/folk metal arábico, capaz nos seus melhores momentos de envergonhar até mestres na arte de misturar ambos os mundos como os Melechesh. Escalas pentatónicas, instrumentação acústica tradicional, black metal feroz e uma vocalização verdadeiramente original. Vão continuar a deixar passar um tesouro destes? (4/5)

Bloodhunter_BloodhunterBLOODHUNTER «Bloodhunter»
Suspiria Records
Longe vai o tempo em que a cena espanhola nos dava “apenas” bom hard’n’heavy cantado em castelhano. Iniciados pelo ex-guitarrista dos Yidorah e Shroud Of Tears, Fenris, os galegos praticam uma mistura de death e black metal melódicos que cumpre cada um dos padrões internacionais do género. A voz e presença de Diva Satanica torna os Arch Enemy num ponto de comparação fulcral para os Bloodhunter, mas o quarteto é, por enquanto, um pouco menos articulado musicalmente e, pese embora a produção “arrancada” nos Ultrasound Studios seja muito decente, ainda não é de topo. Ainda assim, os 11 temas do disco podem proporcionar uma boa mistura de black e death metal melódico a quem não se deixa convencer facilmente pelo mainstream sueco. (3/5)

DeliriumTremens_ReadMyFistDELIRIUM TREMENS «Read My Fist»
Iron Shield Records
Os alemães Delirium Tremens são uma daquelas bandas que levam as coisas com muita calma e descontracção. Por isso, a sua carreira de quase duas décadas ainda só “produziu” dois álbuns de originais, um EP e uma maqueta, entre inúmeras alterações de formação, substituições, regressos e mudanças de “posto”. «Read My Fist», a terceira proposta longa-duração vem, no entanto, confirmar que os Delirium Tremens são também uma bem-oleada máquina de thrash’n’roll com bastas influências punk. Os 11 temas do disco são rápidos, pulsantes de riffs contundentes e com um espírito rock’n’roll/punk a que fãs de AC/DC e Motörhead não conseguirão resistir. Se levassem a carreira a sério, estes cinco bávaros seriam um caso sério de popularidade nos dias que correm. Assim, são “apenas” um segredo bem guardado para nós, que ninguém nos ouve. (4/5)

DimAura_TheNegationOfDIM AURA «The Negation Of Existence»
Auto-financiado
Com este disco de estreia, os Dim Aura começam a sua contribuição para a crescente cena black metal israelita, que mantém um saudável desenvolvimento nos últimos anos. «The Negation Of Existence» é bem engendrado, bem executado e propõe uma bem equilibrada mistura de conservadorismo nórdico com um lado atmosférico mais presente. Continua a ser black metal norueguês dos anos 90 requentado no calor das antigas dunas de Tel Aviv, mas a forma entusiasta com que os Dim Aura o escrevem e o debitam dão aos oito temas uma aura de romanticismo que apenas o underground possui e que os seus fãs saberão reconhecer imediatamente. (3/5)

HannesGrossman_TheRadialCovenantHANNES GROSSMANN «The Radial Covenant»
Auto-financiado
É conhecida a capacidade técnica de Hannes Grossmann, cujo trabalho em bandas como os Obscura (onde actualmente milita) e Necrophagist o colocou entre os melhores bateristas europeus da actualidade. Agora, com «The Radical Covenant», fica comprovado também o valor artístico do músico, que compôs e gravou sete faixas de death metal técnico e progressivo, praticamente sem pontos fracos, ideal para quem não pode esperar pelo próximo disco dos Obscura ou gosta de coisas como Spawn Of Possession. A lista de convidados do disco é igualmente extensa e impressionante: Jeff Loomis (ex-Nevermore) Per Nilsson (Scar Symmetry), Christian Muenzner (Obscura, Spawn Of Posession) e Ron Jarzombek (Watchtower) são alguns dos guitarristas envolvidos, enquanto V. Santura (Triptykon, Dark Fortress) e Morean (Dark Fortress) fornecem as vocalizações. Auspicioso. (4/5)

Retribution_CorpusAntichristiY3yRETRIBUTION «Corpus Antichristi Y3K»
Pitch Black Records
Anteriormente conhecidos como Y3K (nome sob o qual editaram o álbum «Retribution» em 2007), os espanhóis Retribution regressam agora aos longa-duração com «Corpus Antichristi Y3K e um maior esclarecimento no seu black metal sinfónico. A produção é melhor, os arranjos orquestrais são mais épicos e envolventes e existe uma dinâmica mais vincada entre a voz da soprano Itea Benedicto Colás e do demoníaco Loquacious Shihan. Não é nada que não tenha sido feito antes pelos Cradle Of Filth de forma consideravelmente mais comercial, mas a atmosfera Therion-em-início-de-carreira empresta a «Corpus Antichristi Y3K» uma aura de paixão, honestidade e inocência que vai bem com a recente capacidade da banda para tocar e compor de forma coesa e competente. (3/5)

SuperMassiveBlackHoles_CalculationsOfTheSUPER MASSIVE BLACK HOLES «Calculations Of The Ancients»
Minotauro Records
São jovens, são canadianos, são experientes (vindos de bandas como Skulldozer, Inspected By 40, Statue Of Demur ou Anakronis) e são ambiciosos. Os Super Massive Black Holes ziguezagueiam entre death metal técnico, fusão com jazz, rock, metal progressivo e blues com uma técnica e um sentido de melodia apuradíssimos, neste disco de estreia. Cynic (sobretudo devido à consciência harmónica presente no quarteto), Watchtower ou Death são, obviamente, pontos de referência para «Calculations Of The Ancients», mas há uma forte personalidade própria a moldar a abordagem dos nove temas do disco. O que, para uma banda com quatro anos de carreira e apenas dois EPs editados antes, é obra. Por outro lado, é ainda notória alguma falta de clarividência natural quando se tem tantos ingredientes para a mesma “sopa”. Ainda assim, o resultado final é satisfatório e nutritivo. (3/5)

TheWitch_BlackFlowerFieldTHE WITCH «Black Flower Field»
Auto-financiado
Formados em 2011, os franceses The Witch praticam stoner metal progressivo. Por “stoner metal” entenda-se uma base sonora que anda ali entre os Queens Of The Stone Age e os Mastodon e, por “progressivo”, entenda-se uma apetência especial da banda para mijar fora do penico do stoner, seja em passagens thrash, em momentos de fúria death metal, em apontamentos mais técnicos ou em atmosferas inesperadas. A seu favor, o quarteto tem uma certa crueza sonora que lhes dá um mínimo de originalidade e alma musical própria. Contra si, alguma inexperiência – perfeitamente natural – que os leva a sobrecomplicar por vezes estruturas de canções que resultariam melhor se fossem despidas de pormenores desnecessários. É, no entanto, ainda o segundo EP dos The Witch e, pese embora o futuro não pareça muito brilhante com a concorrência e o camandro, «Black Flower Field» tem um certo je ne sais quoi que apela. (3/5)

ThreeLions_ThreeLionsTHREE LIONS «Three Lions»
Frontiers Records
Mais um novo projecto a provar a vitalidade da cena hard rock mais clássico. Os Three Lions são britânicos, contam com o vocalista/baixista Nigel Bailey, com o guitarrista Vinny Burns (Dare, Ten, Asia) e com o baterista Greg Morgan (Dare, Ten). Nesta mistura de entusiasmo, talento e experiência, a estreia homónima equilibra-se quase sempre ali no muro entre o hard rock/AOR melódico e alguma variedade com liberdade para solos que deixa o disco “respirar” bem. Ainda assim, é nos fãs de Ten, Foreigner e Asia que os Three Lions encontrarão, invariavelmente, o “seu” público. E ele ficará bem servido, com um conjunto de temas que, apesar de não arriscar muito, respira confiança e qualidade. (3/5)

Toluca_MemoriaTOLUCA «Memoria»
Auto-financiado
Os russos Toluca movem-se com agilidade e graciosidade, no seu disco de estreia «Memoria», entre territórios de pós-metal, screamo e pós-black metal. A orientá-los, parece estar um proporcionado sentido de melodia e melancolia, mas o quinteto sabe bem como dinamizar e adensar os temas, sobretudo através das vocalizações desesperadas mas também de paredes de riffs que vão engrossando até se transformarem em explosões que libertam uma energia assinalável. Não é extremamente original, mas pela depressão que emana, «Memoria» pode agradar e/ou surpreender mesmo os fãs mais experientes de screamo/pós-(black) metal. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 02.05.2014

ExistanceApesar do par de lançamentos de black metal, do par de lançamentos de stoner rock, de um disco colaborativo de dois monstros em potência do doom/sludge/noise e da energia thrashcore dos Dis.agree, o Posto de Escuta desta semana está tomado de heavy metal clássico. Destacamos os Existance, mas há também a veia teutónica dos Edgedown, o NWOBHM dos Deep Machine e o heavy/doom dos Exorcism. Propostas muito válidas para quem se prepara para um fim-de-semana de temperaturas mais altas e procura a música certa para recebê-las em grande.

AHillToDieUpon_HolyDespairA HILL TO DIE UPON «Holy Despair»
Bombworks Records
Praticamente desconhecidos do lado de cá do oceano, os norte-americanos A Hill To Die Upon têm desenvolvido o seu black metal fortemente atmosférico e influenciado pelo death metal ao longo dos últimos dez anos, que lhes valeram dois álbuns de originais antes deste «Holy Despair». Na nova proposta, a música do duo composto pelos irmãos Cook (Michael na voz e bateria e Adam na guitarra, voz e baixo) adensa um pouco mais as coisas, com algumas partes acústicas e uma canção mais folkish, que têm como condão tornar ainda mais intensa a componente agressiva e pesada do black/death metal atmosférico que é a espinha dorsal da sonoridade dos A Hill To Die Upon. É interessante, é profundo e, não saindo muito do espectro do vosso black metal habitual, é uma boa proposta de meio de tabela. (3/5)

DeepMachine_RiseOfTheDEEP MACHINE «Rise Of The Machine»
High Roller Records
Depois de lançarem uma mão cheia de maquetas na primeira metade dos anos 80, os Deep Machine não tiveram a mesma sorte dos seus parceiros de cena NWOBHM Iron Maiden, Samson, Angel Witch ou Praying Mantis e nunca conseguiram o tão almejado contrato discográfico. Como resultado, o grupo perdeu motivação e cessou actividades, regressando em 2009 com o renascimento do género. Agora, dois EPs depois, lançam finalmente o seu álbum de estreia e mostram que o seu talento apenas precisava de uma montra. Porque não tentam soar como nos anos 80 – está-lhes nas veias – e o seu heavy metal de pendor NWOBHM é tão tradicional que parece retirado directamente da década dourada do estilo. Inocente e entusiasmante, mas também convincente e com uma vontade férrea de recuperar o tempo perdido, cumpre todas as premissas e lugares comuns do NWOBHM, mas fá-lo bem e com uma honestidade a toda a prova. Os fãs não precisam de saber mais nada. (3/5)

Disagree_BreakTheChainsDIS.AGREE «Break The Chains»
SAOL
Os alemães Dis.agree são uma jovem banda com uma enorme tragédia na sua curta história: o falecimento do cantor Denis Tiedz num acidente de viação em 2011, que faz com que este segundo álbum estreie Sebastian Linder na voz. Não é certo que o acontecimento incendeie ainda mais a fúria do thrashcore do quinteto, mas «Break The Chains» consegue chegar com alguma facilidade a padrões internacionais, inserindo no estilo da banda os inevitáveis breakdowns, particularmente pesados, e um lado death metal melódico que é tão previsível quanto funcional. Infelizmente, os Dis.agree contentam-se em chegar à receita-tipo e nunca tentam fazer alguma coisa própria com ela. Por conseguinte, «Break The Chains» é um disco de thrashcore bem feito, bem produzido mas estéril de ideias inovadoras, onde a alma musical própria parece ter tirado um dia de folga. (3/5)

Edgedown_StatuesFallEDGEDOWN «Statues Fall»
Massacre Records
Como banda relativamente jovem (foram formados em 2008) de heavy metal, os alemães Edgedown não escapam às influências “clássicas” do estilo, nomeadamente de Dio, Iron Maiden ou Savatage. E isso acaba por fazer com que a sua sonoridade seja mais ou menos igual a cada uma das outras novas propostas deste género que aparecem um pouco por toda a Europa. Certo, «Statues Fall» tem uma qualidade de produção apenas ao alcance de uma banda que vive na Alemanha e as ambições dos Edgedown incluem “modernizar” a sua abordagem com influências mais contemporâneas que, na prática, se traduzem num pouco mais de groove na composição e push na produção da secção rítmica. Mas continua a ser necessário mais alguma experiência e personalidade musical mais vincada. (3/5)

Existance_SteelAliveEXISTANCE «Steel Alive»
Mausoleum Records
Se a primeira coisa que chama a atenção nos Existance é o apelido do seu vocalista e guitarrista Julian Izard (filho de Didier Izard, da influente banda francesa de speed metal dos anos 80 H-Bomb), a verdade é que a música corresponde com qualidade à pressão que um nome como esse acarreta. «Steel Alive» é o primeiro disco “a sério” dos Existance, depois de duas maquetas (a última das quais de oito faixas, reeditada pela Pure Steel em CD e vinil) e mostra como o heavy metal “clássico” ainda pode ser feito de forma contemporânea, sem andar a copiar exactamente bandas do passado. Os 11 temas de «Steel Alive» são melódicos, blindados em termos de estruturas, de secção rítmica bem sólida e um dos melhores trabalhos de solos feitos nos últimos tempos. Soberbo e excitante. (4/5)

Exorcism_IAmGodEXORCISM «I Am God»
GoldenCore Records/ZYX Music
Três músicos dos Raven Lord e um baterista que faz parte das bandas que acompanham Jeff Beck e Joe Lynn Turner não fazem um “super-grupo”, como o comunicado de imprensa que acompanha «I Am God» quer fazer acreditar, mas os Exorcism têm experiência suficiente para fazerem as coisas minimamente bem. E é isso que este seu disco de estreia mostra, numa espécie de mistura de Black Sabbath da era mais heavy metal, de doom rock moderno e dos riffs de Zakk Wylde. Os dez temas cumprem escrupulosamente as regras do estilo, são bem compostos e bem tocados, mas nunca saem da zona do previsível e apresentam uma falta de alma que acaba por impedir «I Am God» de ser um disco realmente bom. É só mais ou menos bom. (3/5)

Intercostal_IntercostalINTERCOSTAL «Intercostal»
GPS Prod.
Os suíços Intercostal não resolvem o problema de como transformar o stoner metal em algo novo ou original, mas também não o ajudam a afundar fazendo apenas uma mera cópia de Torche. A abordagem do quarteto, instrumental, é especialmente afinada em baixo, dando uma intensidade extra aos riffs e à parede sonora criada por duas guitarras e por uma poderosa secção rítmica. Os 12 temas deste álbum de estreia homónimo revelam uma banda mais concentrada em soar intensa do que em procurar soluções complicadas para uma música que se quer simples, mas nem sempre directa. Algures entre o pós-rock instrumental e o stoner metal verdadeiramente pesado o mundo dos Intercostal aguarda visitas de fãs de Black Cobra, High On Fire e afins… (4/5)

Malhkebre_RevelationMALHKEBRE «Revelation»
I, Voidhanger Records
Adeptos confessos do black metal satânico “feio” e “nuclear”, os franceses Malhkebre editam aqui o seu primeiro longa-duração. Não esperem qualquer tipo de melodia de «Revelation». Os quatro elementos (três deles provenientes dos Melekhamoves e dos Kektarism e outro, o baixista, dos Merrimack e Vorkreist) destilam puro veneno em forma de black metal lo-fi, de altos e baixos rítmicos e vocalizações gritadas em desespero, à laia de ordens militares (se Satanás tivesse um exército disciplinado). Ainda algo confuso ao nível das ideias, nota-se em «Revelation» vontade dos Malhkebre assumirem o turbilhão black/death metal ultra-grave da escola francesa mas, ao mesmo tempo, respeitarem o lado mais tradicional, porco e niilista escandinavo de uns Carpathian Forest. Fica ali a meio. (3/5)

PetThePreacher_TheCaveAndPET THE PREACHER «The Cave & The Sunlight»
Napalm Records
Não há nada a fazer… As bandas de stoner rock/metal saem de todos os buracos e não há como parar a sangria. Os Pet The Preacher são dinamarqueses, «The Cave & The Sunlight» é o seu segundo álbum de originais e, se estivermos virados para ouvir stoner, a sua música propõe uma boa mistura de peso, refrões melódicos e solos psicadélicos. Se já ouvimos tudo o que o stoner tem para nos oferecer, não vão ser estes três nórdicos que nos vão surpreender, com a sua falta de ambição em fazerem algo mais do que apenas stoner rock/metal pela cartilha e com um pé na velha guarda. O que os safa é que o fazem bem, de forma eficiente e com uma dose generosa de talento na composição e arranjos. Não magoa, mas também não vos mudará a vida. (3/5)

TheBody_ThouTHE BODY/THOU «Released From Love»
Vinyl Rites
Não nos cansamos de dizer… Os álbuns colaborativos são os verdadeiros splits, aqueles em que é realmente acrescentada alguma coisa às ofertas dos grupos envolvidos. Por isso, não há forma de não gostar de «Released From Love», um conjunto de três temas originais e mais uma versão de «Coward» (um original de Vic Chesnutt), em que os norte-americanos The Body e Thou se juntaram para escrever e gravar juntos. E, mesmo levando em linha de conta o noise/metal dos primeiros e doom/sludge ensopado de noise dos segundos, a experiência destes 22 minutos é invulgarmente intensa, lamacenta, cheia de distorção, riffs monolíticos e vocalizações loucas. É preciso ouvir para acreditar. Edição exclusiva em vinil de 180 gramas. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 23.04.2014

BelowMais uma semana, mais um Posto de Escuta. Os amantes de doom estão especialmente em voga esta semana, quer na sua versão mais tradicional, quer nas vertentes mais sludge, em que chegamos a apresentar um projecto com via aberta para o… pop. Depois, destaque para o crust/grind dos Loath, para mais uma lição atmosférica de noise/industrial dos Petrels, para o industrialismo do black metal dos Invertia, para o modernismo female fronted dos Temperance e para o equilíbrio entre hard rock e metal aqui-e-agora dos Fake Idols. E, de volta ao bom e velho heavy metal, conheçam os Death Dealer e o death metal melódico de uma das bandas do cartaz deste ano do SWR: os Eternal Storm. Muitas e boas propostas para enfiar pelos ouvidos a dentro esta semana.

Below_AcrossTheDarkBELOW «Across The Dark River»
Metal Blade
Como que a provar que o bom e intemporal doom épico não é uma ciência exacta, os suecos Below não precisam de uma biografia extensa e nem de muitos lançamentos para chegarem ao âmago do estilo. De facto, «Across The Dark River», o disco de estreia do quinteto, foi precedido apenas de um EP, não editado, e de um split com os compatriotas Anguish. E, no entanto, os seus oito temas captam na perfeição a essência do doom mais tradicional – pensem em Black Sabbath da era de «Headless Cross», em King Diamond e no incontornável «Nightfall» dos Candlemass – não tentando soar retro nem imitar ninguém. As melodias são (bem) assumidas, os riffs são pesados até ao tutano, as vocalizações têm aquele carácter narrativo que o estilo pede e a composição é cuidada. Não há nada em «Across The Dark River» que os fãs de doom metal épico não possam venerar e, lá está, os Below ainda agora começaram o seu percurso musical. (4/5)

Coltsblood_IntoTheUnfathomableCOLTSBLOOD «Into The Unfathomable Abyss»
Candlelight Records
Misturando sludge e doom tocado a uma velocidade funerária, os Coltsblood colocam-se mesmo debaixo da nuvem que tem feito chover bandas para o hype, com a confiança de quem reuniu boas reacções à maqueta e ao split (com Crypt Lurker) editados até chegaram a «Into The Unfathomable Abyss». Apesar disso, e também de uma solidez de riffs que os leva quase a territórios de drone/doom dos Sunn 0))), os 59 minutos apresentados pelos Coltsblood nesta estreia cifram-se por uma generalidade, na abordagem e na sonoridade, que não os destacará da concorrência. Não há nada de errado em «Into The…». O problema é que este sludge/doom ultra-lento, ultra-baixo e ultra-pesado já foi feito antes. Demasiadas vezes. (3/5)

EternalStorm_FromTheAshesETERNAL STORM «From The Ashes»
Auto-financiado
Quem anda a perguntar-se quem raio são os Eternal Storm e o que fazem no cartaz da edição deste ano do SWR Barroselas Metalfest precisa de ouvir este EP. Apesar de originalmente editado em Abril de 2013, «From The Ashes» mantém a sua relevância como um dos mais dinâmicos, coesos e convincentes conjuntos de músicas de death metal melódico produzidos na Península Ibérica. Os espanhóis são tecnicamente dotados, têm boas soluções para os riffs melódicos e regam tudo com vocalizações guturais e agressivas, mais death metal do que thrash, ao contrário da abordagem instrumental. Ainda assim, o resultado final é acessível e equilibrado, apesar de algo estéril em termos de originalidade. (3/5)

DeathDealer_WarMasterDEATH DEALER «War Master»
Pure Steel Records
Auto-editada originalmente em Junho do ano passado, esta estreia dos Death Dealer passou despercebida a muito boa gente. E não devia. É que a mistura de US power metal e speed metal de «War Master» funciona na perfeição, com a genialidade e a competência técnica fornecida por gente como os guitarristas Ross The Boss (ex-Manowar) e Stu Marshal (Empires Of Eden), o vocalista Sean Peck (Cage), o baixista Mike Davis (Halford) e o baterista Steve Bolognese (Baptized In Blood). Uma autêntica super-formação, que não impede no entanto que os Death Dealer funcionem como uma verdadeira banda e tenham em mãos uma excitante e honesta mistura das sonoridades de Iced Earth, Seven Witches e Cage. Excelentes motivos para não deixar passar agora esta reedição em vinil gatefold, limitada a 500 unidades. (4/5)

FakeIdols_FakeIdolsFAKE IDOLS «Fake Idols»
Lifeforce Records
Nascidos das cinzas de bandas como os Raintime, Slowmotion Apocalypse e Jar Of Bones, os Fake Idols procuram praticar uma mistura de hard rock e metal moderno com ênfase nas melodias. Aquilo que lhes sai no álbum de estreia homónimo é mais ou menos isso, pese embora o lado “moderno” soe um pouco plástico demais para gente com faro por coisas menos honestas. Ainda assim, uma participação especial de Mia Coldheart das Crucified Barbara, uma versão de «My Favorite Game» dos The Cardigans e injecções de melancolia em faixas como «Far From My Window» chegam para dar a «Fake Idols» uma boa dose de variação e interesse, o que safa a estreia do grupo. Mas no próximo disco precisam de fazer mais do que esta mistura requentada de The Poodles, Deathstars e Kovenant. (3/5)

Invertia_AnotherSchemeOfINVERTIA «Another Scheme Of The Wicked»
Ohm Resistance
Pegando no extremismo do black metal e desconstruindo-o à base de ritmos industriais programados e distorção extrema, os Invertia ganharam um lugar especial no coração dos amantes de música perturbante em 2013, com o seu disco de estreia homónimo. «Another Scheme Of The Wicked» tem o mesmo tipo de abordagem, levando a sério a descrição “cruzamento de Skinny Puppy, Suffocation, Gorgoroth e Merzbow” feita pela editora, pese embora a falta de uma verdadeira “alma” black metal, soterrada debaixo de toda a maquinaria pesada nos ritmos, se faça sentir nos cinco temas originais do disco. As outras cinco faixas são remisturas das mesmas canções, feitas por gente como Justin Broadrick (Jesu, Godflesh), End.user (The Blood Of Heroes) e Submerged (Method Of Definance), que tornam ainda mais vertiginosa uma proposta viciosa e mecânica, que tem a vantagem – e a desvantagem – de poder agradar apenas aos mais especializados fãs de black metal industrial. (3/5)

Loath_TotalPeaceLOATH «Total Peace»
Inverse Records
Crust/grind/darkness é uma etiqueta que cai bem aos finlandeses Loath, uma vez que o jovem quarteto não se limita a despejar velocidade, castanhada e d-beat. Boa parte das composições de «Total Peace», o álbum de estreia, são tocadas a uma velocidade quase doom, o que não apenas resulta bem com toda a distorção da guitarra e solidez da secção rítmica, como potencia o caos sempre que os Loath puxam do punk/hardcore e aceleram as coisas. Não é o disco do ano, mas os seus 31 minutos têm uma refrescante aura de inteligência na composição e sofisticação na abordagem ao crust/grind que fará as delícias de quem anda à procura de algo diferente – e bem mais negro – neste género de música. (4/5)

Petrels_TheSilverChimneyClub+WatTylerPETRELS «The Silver Chimney Club/Wat Tyler»
Denovali Records
Composto por duas longas faixas (17 e 22 minutos) que se destinavam originalmente a serem editadas apenas em formato digital como singles, este novo EP de Petrels, transformado numa edição em sede própria em CD, LP e digital, mostra bem o carácter heterogéneo do projecto de Oliver Barrett. «The Silver Chimney Club» é um ensaio de noise/industrial fortemente atmosférico dedicado ao recentemente falecido avô de Barrett, perturbante e experimental como o multi-instrumentista nos habituou em obras como «Mima». «Wat Tyler», inspirado no líder da Revolta dos Camponeses de 1381, remete-nos para o ambiente mais dark ambient/drone pop de «Onkalo» e explora o lado contemplativo do projecto. Apesar de parecerem leftovers dos dois últimos discos de Petrels, são temas suficientemente fortes – e longos – para constituírem um bom seguimento da magnífica carreira de Petrels. (4/5)

SeasonOfArrow_SeasonOfArrowsSEASON OF ARROWS «Season Of Arrows»
The Path Less Traveled Records
Com um doom/sludge suficientemente articulado para ser pesado e melódico, os norte-americanos Season Of Arrows percorrem a ponte para uma espécie de hard rock mais popish devido ao tom hippie da vocalista Stormie Wakefield. Mas «Season Of Arrows» é mais do que apenas uma gaja a cantar e uns tipos a debitar riffs lentos e graves. Há influências pós-rock, atmosfera e zonas cinzentas suficientes para percebermos que o quinteto sabe o que anda a fazer. Espécie de mistura dos universos de Kylesa, ASG e Nashville Pussy, a estreia dos Season Of Arrows é auspiciosa na receita, inteligente na composição e francamente entusiasmante no seu resultado final. (4/5)

Temperance_TemperanceTEMPERANCE «Temperance»
Scarlet Records
Para quem pretende “fazer a diferença” (é o comunicado de imprensa da editora que o diz) no mundo do metal, os italianos Temperance estreiam-se de forma meio morna. Certo, o início do disco homónimo é todo energético, com uma mistura de power metal female fronted à Nightwish, death metal melódico, metalcore e alguma música electrónica. No entanto, as melodias, as estruturas e a composição em geral não apresentam nada de novo e limitam-se a repetir receitas definidas por outros, pese embora com alguns pormenores que revelam a experiência dos elementos da banda em projectos como Secret Sphere. Apesar disso, «Temperance» é mais um ensaio e contagem de armas para o que pode vir a seguir do que, como pretende o grupo, propriamente um grande álbum de metal moderno de voz feminina. (3/5)

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POSTO DE ESCUTA 08.04.2014

PoseidonÉ tempo de mais um Posto de Escuta e de conhecer umas coisas novas, esta semana particularmente extremas. Uma banda underground finlandesa com uma maqueta em cassete, por exemplo. Black/death metal das profundezas da cena australiana. Black metal niilista grego. Depois, para os amantes de coisas menos carregadas, há o rock do deserto dos Valley Of The Sun, o sludge/doom progressivo dos Koloss, o pós-metal original dos Poseidon e o cagaçal dos Taurus. Entre splits limitados, novos projectos e/ou confirmações, muita música nova para conferir esta semana.

CemeteryFog_ShadowsInTheCEMETERY FOG «Shadows From The Cemetery»
Iron Bonehead Productions
É complicado resistir ao encanto do bom e velho black/doom/death metal quando este é editado em maqueta, em formato cassete copiada em casa e de capa fotocopiada. Mesmo quando, como é o caso dos finlandeses Cemetery Fog, se trate de uma versão algo básica e standard do género. Ainda assim, há um encanto muito underground nas três faixas de «Shadows From The Cemetery», materializado numa atmosfera de horror e de entusiasmo em misturar os mais obscuros e extremos estilos do metal tradicional. Esta reedição da Iron Bonehead Productions é também em cassete, pois claro, embora neste caso fabricada profissionalmente. (4/5)

Collision_The RottedCOLLISION/THE ROTTEN «Split»
Hammerheart Records
O familiar conceito do split-7”, de tiragem limitada a 500 unidades (100 delas em vinil splatter), aqui aplicado aos grinders holandeses Collision e aos adoradores ingleses de Napalm Death, The Rotted. Os primeiros disparam duas faixas de velocidade alucinante, plena daquele grindcore tão extremo e dinâmico (dois vocalistas incluídos) que leva tudo à frente, especialmente fãs de Brutal Truth, Nasum e S.O.D. Os The Rotted propõem «Rotted Fucking Earth», um tema bem mais punk do que o death/grind a que nos habituaram, mas com os mesmos valores de brutalidade groovy e inteligência de letras do seu fundo de catálogo. Simples e eficaz. (4/5)

Epistasis_LightThroughDeadEPISTASIS «Light Through Dead Glass»
Crucial Blast
Se o black metal aural, ensopado de noise e progressivo dos norte-americanos Epistasis era algo confuso na estreia, homónima, editada em 2012 pela The Path Less Traveled, neste novo MCD ganha propósito e esclarecimento. Não pensem, no entanto, que a coisa se simplificou: os 26 minutos de «Light Through Dead Glass» são uma viagem ao turbilhão de black metal carregado de ambientes soturnos dos Portal, com ocasionais incursões pelo prog-rock visionário dos King Crimson (o trompete da vocalista Amy Mills dá um excelente contraste ao caos sonoro que o envolve) e um noise experimental e selvático. Não é ainda uma proposta genial e irresistível, mas começa a fazer sentido e, sobretudo, a mostrar que os Epistasis têm um caminho próprio definido. (3/5)

GD17V4.pdfHERESIARCH «Wælwulf»
Iron Bonehead Productions
Black/death metal do mais obscuro que há é a proposta dos neo-zelandeses Heresiarch, que têm neste EP em 7” o seu terceiro lançamento, depois de uma maqueta de estreia e de um outro EP editados em 2011. A receita é complexa e cheia de zonas-sombra: death metal que oscila entre o mórbido/lento/atmosférico e as explosões de blastbeats, de voz cavernosa e letras obscuras. É o expoente máximo do underground death/black metal, com raízes no doom feio e desconfortável de gente como Convulse ou Witchcrist. Como não podia deixar de ser, «Wælwulf» tem edição em vinil de 7”, devidamente limitada. (4/5)

Koloss_EmpowerTheMonsterKOLOSS «Empower The Monster»
Argonauta Records
O bom e (começa a ficar) velho sludge/doom/pós-metal progressivo pelos ensinamentos dos Cult Of Luna, Isis e Neurosis, aqui na versão dos suecos Koloss, que se estreiam nos longa-durações com este «Empower The Monster». É intenso, envolvente a espaços e tem uma boa dinâmica entre riffs verdadeiramente monolíticos e partes melódicas de arranjos melancólicos. Seria espantoso há uma dezena de anos, mas agora os padrões estão demasiado altos, demasiado batidos e os Koloss não são assim tão bons que nos permitam esquecê-los. Isso faz destes 42 minutos um bom trabalho para fanáticos por Cult Of Luna e pouco mais. A edição é em LP de 180 gramas e limitada a 250 unidades. (3/5)

Poseidon_InfinityPOSEIDON «Infinity»
Argonauta Records
Não podemos andar a clamar por originalidade e depois, quando uma banda sai verdadeiramente fora da caixa, condená-la se as coisas não resultam exactamente bem. Os russos Poseidon tiveram a coragem de fazerem evoluir o seu pós-metal/sludge para uma espécie de rock atmosférico altamente evocativo, atmosférico e de vocalizações limpas. As influências pós-metal continuam lá e, mais para o fim do disco de estreia «Infinity», começam a aparecer brechas na receita musical que, na primeira parte do lançamento, se revela verdadeiramente refrescante, original e interessante. Mas isso não é motivo para rebaixarmos a incrível coragem dos Poseidon em enveredarem por algo que faz o crossover entre os universos de The Ocean e Ved Buens Ende. É que afinal, em boa parte dos 53 minutos de «Infinity», o grupo consegue-o com talento e classe. (4/5)

Septuagint_NegativeVoidTrinitySEPTUAGINT «Negative Void Trinity»
Forever Plagued
Sendo a mais nova da última geração de bandas gregas de black metal, os Septuagint marcam logo posição, neste MCD de estreia, no terreno mais ortodoxo e conservador do estilo. O duo sabe como acelerar as coisas, com blastbeats precisos, e salpica a coisa com a reserva de gelo nos riffs. Mas é suficientemente inteligente para apresentar tudo num manto de dinâmica que faz com que os cinco temas desacelerem frequentemente para mostrar o lado mais niilista e mórbido do projecto. «Negative Void Trinity» é, pois, black metal grego em todo o seu esplendor mas, também, uma súmula de tudo o que foi feito até aqui, sem acrescentar absolutamente nada. Vale o que vale. (3/5)

Taurus_NoThingTAURUS «No/Thing»
Auto-financiado
Os Taurus andam ali, no muro entre o vanguardismo tão out there que chega a ser assustador, e a pura esquisitice só pela esquisitice. Essa vontade desenfreada de evoluir e fazer algo de novo leva-os a trabalharem numa base de auto-financiamento, longe de editoras que possam cortar-lhes amarras criativas e colocar-lhes pressões indesejadas devido a resultados de vendas menos conseguidos «No/Thing», a nova proposta, é pois os Taurus a fazerem a sua cena sem qualquer tipo de reserva ou filtros. Ou seja, drone/doom com ocasionais gritos torturados black metal (Wrest, dos Leviathan, canta numa das cinco faixas), riffs death metal, sampling muito bem escolhido e produção (e ocasionais vocalizações) de Billy Anderson. Não se evita, por vezes, a sensação de que estamos, de fora, a ver passar um freak show, mas quem tem uma faixa como «Increase Aloneness», plena de hipnotismo atmosférico e prog-doom, pode dar-se ao luxo de ser freak. (3/5)

Thisquietarmy_SyndromeTHIS QUIET ARMY/SYNDROME «The Lonely Mountain»
ConSouling Sounds
Se thisquietarmy é fantástico e toda a gente mais ou menos o sabe, o projecto belga Syndrome, gerido por Mathieu Vandekerkhove dos Amen-Ra, não tem o mesmo tipo de exposição. É por isso que este álbum em conjunto faz tanto sentido. Mathieu colabora com os Eric Quach em três faixas de estúdio, mais negras, drone e dissonantes do que o material que ambos os projectos têm lançado até aqui, e o resultado é assustador e coeso. Ambientes pesados, noise ao alto e um grande sentido de atmosfera. A quarta e última faixa são 15 minutos de gravação ao vivo na actuação conjunta que ambos os projectos levaram a cabo durante a última digressão comum. Um dos momentos mais interessantes de drone/dark ambient dos últimos tempos. (4/5)

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}VALLEY OF THE SUN «Electric Talons Of The Thunderhawk»
Fuzzorama Records
Três anos e meio depois de terem iniciado a carreira, os norte-americanos Valley Of The Sun estreiam-se nos longa-duração e permitem-nos vislumbrar um pouco mais do stoner rock que agraciou os seus dois EPs. Os dez temas de «Electric Talons Of The Thunderhawk» são certamente algo que os fãs do género saberão apreciar, compostos pelas leis do estilo e gravados com uma qualidade seca – por vezes a roçar o lo-fi – que agudiza o sentido de rock’n’roll do deserto do trio. Por vezes, a coisa escapa um pouco para o pop (ouvir «Maya»), mas no geral os Valley Of The Sun contentam-se com o estatuto de banda de meio de tabela do stoner rock americano e apresentam um álbum condizente com isso. (3/5)

LostSocietyTH728

POSTO DE ESCUTA 01.04.2014

MenaceA palavra-chave desta semana é “Quebeque”. A província canadiana está bem representada neste Posto de Escuta, quer através do split «Légendes», quer com o thrash/doom intemporal dos Beast Within. E, por falar em thrash, conheçam também os argentinos Estampida, os alemães Reactory e os austríacos Triumphant, todos com uma estirpe diferente do género. Depois, temos coisas mais modernas como o sludge/stoner dos Hark, os vapores psicadélicos dos Jupiter Zeus e Messenger, o black metal germânico dos Pestlegion e um projecto muito especial de Mitch Harris, dos Napalm Death. Muita e boa música em que mergulhar esta semana.

BeastWithin_AdversityServitudeBEAST WITHIN «Adversity/Servitude»
Sepulchral Productions
Com uma série de gente saída de bandas da cena do Québec como Akitsa, Thesyre, Blackwind ou Utlagr, os Beast Within estreiam-se com este EP em 7” de duas faixas e mostram o seu amor pelo thrash/doom mórbido e old school de referências como Celtic Frost ou Pentagram. Os riffs de ambos os temas são contundentes, a voz está bem à frente e o ambiente de “rock’n’roll do inferno” quase chega para esquecermos que tudo isto já foi feito antes, com mais originalidade e propriedade, por bandas que entretanto cresceram musicalmente. Ainda assim, quem não cresceu e procura mais thrash oculto com um pé no doom, pode comprar uma das 500 cópias de «Adversity/Servitude» e passar um bom bocado. (3/5)

Estampida_CrowdControlTheESTAMPIDA «Crowd Control: The Jaws Of War»
Nadir Music
Editado em Novembro de 2012, este terceiro álbum dos argentinos Estampida, actualmente radicados em Espanha, mostra que o death/thrash melódico tocado com alguma inocência e ingenuidade também pode ter os seus encantos. O que sobra em «Crowd Control: The Jaws Of War» de lugares-comuns, em termos de composição, do thrash/death mais melódico, é (quase totalmente) compensado com puro entusiasmo, aquela energia crua tão típica das bandas sul-americanas e uma sonoridade tão directa e in your face que acaba por servir de contraponto à típica produção “clínica” a que estamos habituados neste tipo de lançamentos. Não é uma coisa para nos colocar lágrimas nos olhos mas com esta garra, energia e atitude, não há como neglegenciarmos os Estampida. (3/5)

Forteresse_MonarqueFORTERESSE/CHASSE-GALERIE/MONARQUE/CSEJTHE «Légendes»
Sepulchral Productions
Quatro bandas da forte cena black metal quebequiana, com cada uma a ocupar um lado dos dois discos vinil em 7” que perfazem esta magnífica edição limitada a 500 unidades. Os Forteresse apresentam uma versão invulgarmente rápida do seu black metal atmosférico e separatista com «Wendino». Os Chasse-Galerie são mais folky e históricos na abordagem às letras e cantam em francês, mas não menos inspiradores. Os veteranos Monarque mostram como continuam a ser mestres do black metal distorcido e cru local e, por fim, os Csejthe exercitam a sua versão medieval/negra e lenta do estilo. Quatro bandas, quatro temas novos e inéditos que merecem este tipo de lançamento e tratamento. Grande trabalho da Sepulchral Productions. (5/5)

Hark_CrystallineHARK «Crystalline»
Season Of Mist
Os Hark são um nome novo na cena sludge/stoner, mas se vos dissermos que contam com o ex-Taint Jimbob Isaac na guitarra, o caso muda de figura. A clareza de ideias, o talento e o ADN sludge/stoner são perfeitamente audíveis em «Crystalline», o disco de estreia do trio galês, que tem óbvias semelhanças com o espírito progressivo/massivo dos Mastodon e com o lado atmosférico dos Kylesa. A diferença entre os Hark e os outros imitadores é, no entanto, a intensidade do resultado final, bem como a excelência da colecção de 10 faixas que apresentam. Ambas as coisas deverão ser suficientes para fazerem os mais enfadados fãs do estilo quererem ter pelo menos mais um disco nas suas colecções. (4/5)

JupiterZeus_OnEarthJUPITER ZEUS «On Earth»
Magnetic Eye Records
Os australianos Jupiter Zeus apresentam-nos a sua versão de rock espacial psicadélico em formato completo, depois do EP «Green Mosquito». E que bela versão que é. Fortemente melancólico e algo contido nos solos e atmosfera psicadélica, «On Earth» concentra grande parte da sua força nas melodias das canções, que é um misto de composição adulta e rock stoner/psicadélico feito com sofisticação e experiência. O resultado final pode não ser exuberante ou incrivelmente refrescante, mas permite conhecermos uma banda com as ideias no lugar e uma noção muito decente de rock. O que não é de admirar, se pensarmos que esta era a gente por detrás dos Nebula até há uns anos atrás. (3/5)

Menace_ImpactVelocityMENACE «Impact Velocity»
Season Of Mist
Projecto de Mitch Harris, dos Napalm Death, os Menace estreiam-se em grande com «Impact Velocity», um conjunto de uma dúzia de faixas (mais uma bónus, na edição limitada) em que o metal progressivo, a dissonância e a melodia se aliam de forma impressionante. Com vocalizações meio “robóticas” mas sempre harmónicas (“mistura entre Ozzy Osbourne e Cynic” é uma boa maneira de descrevê-las), riffs “tecnológicos” à Voivod e um sentido de atmosfera que parece reminiscente de Nightingale, «Impact Velocity» é uma daquelas propostas tão inovadoras e originais que demora a entrar no sistema de qualquer ouvinte. Mesmo os mais preparados para estas coisas visionárias. Mas quando o faz, não sai tão depressa. Dificilmente se pode aspirar a melhor estreia. (4/5)

Messenger_IllusoryBluesMESSENGER «Illusory Blues»
Svart Records
Formados em 2012, os londrinos Messenger são o típico projecto de músicos com experiência que sabem que têm de experimentar alguma coisa diferente. «Illusory Blues» tem, por isso, partes iguais de folk e de rock psicadélico acústico, com ocasionais apontamentos de violino que tanto inserem influências neo-clássicas como de americana. A coisa é feita com olho no pormenor e jeito para a escrita de canções, misturando os elementos musicais que alimentam a alma dos Messenger de forma homogénea e funcional, com especial ênfase nas vocalizações frágeis e evocativas de Khaled Lowe. Kristoffer Rygg, dos Ulver, já veio publicamente dizer que gosta de «Illusory Blues», o que certamente deixará satisfeitos os autores desta obra intimista e desarmante. (4/5)

Pestlegion_MarchToWarPESTLEGION «March To War»
Bret Hard Records
Black metal alemão no seu estado mais maligno e satânico é a proposta dos Pestlegion, duo formado por C. e B. que, segundo a editora, vêm ambos de um “longo passado” a tocar em outras bandas. A verdade é que «March To War» cumpre o objectivo de ser das coisas mais viciosas que ouvimos nos últimos tempos, com vocalizações à Immortal, ritmos rápidos, riffs cortantes como facas e ocasionais apontamentos melódicos que fazem lembrar os velhos tempos de Troll ou Burzum. Nada de novo, portanto, mas com a atmosfera certa e (quatro) faixas muito decentes. Edição em CD limitada a 500 unidades. (4/5)

Reactory_HighOnRadiationREACTORY «High On Radiation»
Iron Shield Records
Tirando o facto de contarem com um baterista que tem um nome exótico como “Cauê Santos” e a atitude de chamarem “thrash metal” ao thrash, não há muita coisa que separe, neste disco de estreia, os alemães Reactory das outras (boas) bandas de revivalismo do género. Só que «High On Radiation» funciona às mil maravilhas, com um speed/thrash que mistura os sub-géneros europeu e norte-americano, um peso que demonstra as influências certas e o tipo de atitude que se encontra em bandas como os Lost Society. Certo, o mundo está farto do revivalismo thrash, mas não dá para entrar apenas mais um grupo? (4/5)

Triumphant_HeraldTheUnsungTRIUMPHANT «Herald The Unsung»
Cyclone Empire
Novo projecto liderado pelo guitarrista austríaco Persekutor, que serve basicamente de continuação ao que havia feito com os Manic Disease entre 2010 e 2013, mas com um novo baterista e um novo segundo guitarrista. «Herald The Unsung» é, pois, a estreia dos Triumphant num registo black/thrash metal, pese embora com mais influências de black metal e heavy metal clássicos, algum speed metal e um acumular de experiência que os faz misturarem tudo isto de forma coesa e lógica. Não é nada que surpreenda ou que deixe o ouvinte viciado, mas quem procura 40 minutos de puro black/thrash/heavy metal, dificilmente encontrará um conjunto de temas mais despreocupado e furioso do que «Herald The Unsung». Fenriz havia de gostar disto. (3/5)

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A PLAYLIST DE… ÁLVARO FERNANDES

IMG_4886 sampleÁlvaro Fernandes é um dos melhores guitarristas portugueses e, ao mesmo tempo, um veterano na cena nacional com uma espécie de complexo de Rei Midas, que parece transformar em fúria shred todos os projectos em que “toca”. Foi assim com os Withering nos anos 90, é assim com os sublimes thrashers Pitch Black e, agora, com os Dementia 13, banda de death metal old school que partilha com o baixista Zé Pedro (Holocausto Canibal) e com o guitarrista Marco Silva (Pitch Black). Em rescaldo do EP de estreia deste projecto, «Tales For The Carnivorous», falámos com o músico e convidámo-lo a escolher a playlist que passa amanhã, sábado, na METV.

O que vos levou a iniciar um projecto com as características dos Dementia 13 agora?
Sempre tive essa ideia presente desde há muitos anos. Sempre quis fazer algo diferente de Pitch Black. Adoro death metal – principalmente o mais tradicional – e gostava de tentar algo dentro desse género. Há muitos anos que sentia falta de ouvir bandas desse estilo. A certa altura, o death metal tornou-se mais rápido, mais técnico e mais brutal… Então, como fã, sempre quis prestar homenagem a essas bandas com as quais aprendi a ouvir death metal e cresci. Como no início de 2012 ficámos sem guitarrista e baterista nos Pitch Black e decidimos parar um pouco, achei ser a melhor altura para avançar com Dementia 13. Falei com o [guitarrista solo] Marco S. e começámos a trabalhar. Já tinha material composto, depois foi só adiantar esse trabalho e começamos a gravar coisas em casa e ver como tudo soava. Estendi o convite ao Zé Pedro também e foi assim que tudo começou. Basicamente, surgiu da minha necessidade pessoal em transformar todas as ideias que fui desenvolvendo sobre um possível projecto de death metal mais old school.

Este é um projecto paralelo para todos os seus elementos ou uma nova banda “oficial” que se pode tornar a actividade musical principal (pelo menos) para alguns de vocês?
Sim, é um projecto paralelo. Eu tenho a minha banda principal, que são os Pitch Black, e é algo que me ocupa muito tempo. Por outro lado, também não me sinto bem em estar a trabalhar em duas bandas em simultâneo, pois nunca vou conseguir dar o meu melhor em ambas. Tenho de estar 100% dedicado. No entanto, isso não vai terminar Dementia 13… Simplesmente vou ter de dar prioridade a uma e a outra de cada vez. Se estiver envolvido em fases de composição,gravação e/ou concertos, não vou ter tempo para a outra banda mas fora isso, consigo sempre, de uma maneira ou outra, conjugar minimamente o trabalho. E é isso que vamos fazer nos Dementia 13. Haverá alturas em que estarei completamente parado, outras em que vou trabalhando e adiantando naquilo que posso. Gostávamos de editar um longa duração algum dia, uma vez que o nosso EP foi tão bem recebido.

Podes dar-nos uma ideia dos principais vídeos e bandas que escolheste para a tua playlist e porquê?
Por acaso não foi fácil. Eu ouço um pouco de tudo embora esteja mais inclinado para determinados géneros, como o thrash, o death ou o hard rock. Por isso misturei tudo, desde temas mais melódicos como os de Filter ou Steven Wilson, passando pelo rock de uns Orchid ou Danko Jones, o thrash de Sodom, Havok ou Exodus até a coisas mais brutais como Suffocation e Vomitory. Isto sem esquecer bandas nacionais que também ouço sempre que posso e considero terem mais qualidade que muitas que nos chegam de fora. Basicamente, não me incomoda nada ouvir um tema de Scorpions e logo a seguir um de Marduk. Não gosto de todas as bandas do mundo mas posso afirmar que dentro de todos os géneros de rock, metal e hardcore ou qualquer música extrema, consigo ter sempre algumas com as quais me identifico!

«Tales For The Carnivorous» foi editado em 2013 pela Escaravelho Records.
Página Bandcamp
A METV pode ser vista na posição 187164 do MeoKanal

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POSTO DE ESCUTA 19.03.2014

A Tree Of Signs copyUm pouco atrasado esta semana é certo, mas o Posto de Escuta não falha em trazer novidades que valem a pena serem ouvidas. A começar pelo novo EP dos portugueses A Tree Of Signs, que regressam às edições com uma nova vocalista e um renovado sentido estético. Os fãs de doom, no entanto, têm mais novidades de peso: os Dread Sovereign e os Primeval Realm. No lado do metal extremo os Alterbeast e os Vampire cumprem a cota de death metal, enquanto o projecto Funereal Presence activará a Escandinávia que há em vós. Resta falar do rock’n’roll dos Stone Dead, do conservadorismo dos Armageddon Rev. 16:16 e da blasfémia electro/industrial dos Jenx. Por fim, uma bela prenda para fãs de pós-rock experimental e corajoso, em formato split e com muita atitude.

Alterbeast_ImmortalALTERBEAST «Immortal»
Unique Leader
Quando uma banda lança o seu disco de estreia logo pela Unique Leader, normalmente existe um motivo para isso. No caso dos norte-americanos Alterbeast, o motivo é uma chapada de death metal técnico dada em cheio na tromba de quem não estava a vê-los a vir ao longe. Enquanto as dinâmicas e o “jogo” de vocalizações gutural/gritada apontam para a modernidade de uns The Black Dahlia Murder, o intenso poderio técnico demonstrado nos oito temas de «Immortal» tem nos fãs de Necrophagia um alvo certeiro e inevitável. Competente, brutal e clínico. Lindo. (4/5)

ArmageddonRev1616_SundownOnHumanityARMAGEDDON REV. 16:16 «Sundown On Humanity»
Pitch Black Records
Para quem não sabe, os Armageddon Rev. 16:16 são uma das mais antigas bandas cipriotas, com uma carreira que ascende já a 29 (!) anos, pese embora até agora tenham editado apenas maquetas e EPs. «Sundown On Humanity» vem mudar isso, reunindo uma dúzia de novas composições, no estilo heavy/power metal melódico e clássico que vem caracterizando a carreira do grupo de Nicosia. É impossível ficar indiferente à autenticidade e (quase) inocência com que os veteranos se atiram ao género, mas com alguma distância e imparcialidade facilmente percebemos que o heavy metal dos Armageddon Rev. 16:16 parou no tempo há duas décadas e, embora bem executado e energético, é um amontoado de lugares comuns do género. (3/5)

ATreeOfSigns_SaturnA TREE OF SIGNS «Saturn»
Chaosphere Recordings
Ainda meio a ressacar da mudança de vocalista, os lisboetas A Tree Of Signs editam um novo EP em que mostram, na primeira faixa, um lado mais rockeiro e bluesy para o seu doom ocultista. «Red II» é groovy, é atraente e é sexy, tipo Blues Pills em modo mais doom. «Red III» é um interlúdio instrumental em que o baixo de Alexandre Mota assume o drone e os A Tree Of Signs se transformam, por dois minutos e meio, numa besta experimentalista e imprevisível. «Saturn», o tema-título, é tão “lado b” quanto «Red II» é “single”; épico, mais estruturado e com os teclados psicadélicos que o ligam ao EP de estreia e, directamente, ao mais obscuro dos estilos dos anos 70. O caminho continua, pois, a ser de aventura musical e variedade de escrita para os A Tree Of Signs, a tal banda que, sem guitarras ou álbuns completos, se vai solidamente transformando na mais válida proposta de doom rock nacional. (4/5)

LP-Gatefold TemplateDREAD SOVEREIGN «All Hell’s Martyrs»
Ván Records
Quem conhece Alan Nemtheanga sabia que era só uma questão de tempo até o vocalista dos Primordial fazer uma banda de doom/heavy metal. Os Dread Sovereign são essa banda e, nela, Nemtheanga canta e toca baixo, o baterista dos Primordial e dos Geasa, Sol Dubh, também está de serviço e o guitarrista é um tal de Bones, dos Wizards Of The Firetop Mountain. «All Hell’s Martyrs» é uma colecção de dez canções de puro desespero doom/heavy metal, por vezes sem a mínima ponta de luz ou esperança, outras vezes de longas partes instrumentais e psicadélicas, sempre com destaque para a emotiva prestação de Nemtheanga e com um apreciável poder evocativo e grandiosidade épica. Refrescante e original, sem fugir aos mandamentos do estilo. (4/5)

pg04-01coverFUNEREAL PRESENCE «The Archer Takes Aim»
Sepulchral Voice Records
Já há muito tempo que jovens bandas deixaram de tentar recuperar aquela atmosfera de negridão total presente em «A Blaze In The Northern Sky», que valeu a muitas um som francamente ridículo pela falta de espírito empregue. Bestial Devotion, através do seu projecto Funereal Presence, consegue-o agora quase na perfeição, através de quatro faixas perturbantes e caóticas, que devem tanto ao black metal escandinavo mais selvagem dos anos 90 como à maldade contemporânea de Negative Plane, de que Bestial Devotion também faz parte. 80% Darkthrone antigo, 10% King Diamond, 5% Nattefrost e 5% Ominous Resurrection. Quando os 48 minutos de «The Archer Takes Aim» terminam, só apetece ir para a floresta à noite e correr nu. (4/5)

Hemelbestormer_VanessaVanBastenHEMELBESTORMER VS. VANESSA VAN BASTEN «Split»
ConSouling Sounds
Os holandeses Hemelbestormer e os italianos Vanessa Van Basten juntam-se para, mais do que um split, fazerem um disco em colaboração. Como seria de esperar por parte de uma banda que veio do black metal para o sludge passando pelo hardcore e de um duo que se socorre de black metal, shoegaze e rock dos anos 90 para injectar no seu pós-rock fortemente atmosférico, as seis faixas do álbum são belas, assombrosas, assustadoramente ambientais ou avassaladoramente pesadas. À vez ou tudo ao mesmo tempo. São duas faixas de cada projecto e mais duas em que ambos colaboram e a coisa está disponível em CD digifile. Imperdível para quem está numa de pós-rock instrumental, experimental e esquizofrénico, pois claro. (4/5)

Jenx_DriftJENX «Drift»
M-Tronic
Pegando no interessante «Enuma Elish», dos Jenx, o francês Lyynk fez uma laboriosa desconstrução e reconstrução, em formato electro/industrial, capaz de surpreender até os fãs da banda com mais abertura e espírito. A primeira faixa é uma espécie de resumo de todo o álbum «Enuma Elish», feita com uma furiosa cadência de samples, ritmos electrónicos, noise e industrial. Seguem-se versões de «The Flood», «The Loss», «Chains Of Labor», «The Ordeal» (reentitulada «The Element»), bem como uma faixa – «Renewal» – que pega no ambiente de «Enuma Elish» e o transforma numa faixa instrumental e de pura atmosfera electro em duas partes. Demasiado tch-pum-tch-pum para os fãs de djent do quinteto de Bordéus, «Drift» acaba por ser uma proposta electro/industrial em nome próprio, um pouco afastada do disco que lhe deu origem, mas com inegáveis encantos para fãs de Nine Inch Nails, Digitalism ou Aphex Twin. (3/5)

?????????????PRIMEVAL REALM «Primordial Light»
Pure Steel Records
Numa altura em que tudo é doom e em que as bandas sentem necessidade de extremar as coisas para marcar posição na cena, é bom assistir ao aparecimento de uma coisa como os Primeval Realm, que se “limitam” a tocar com doom metal épico como manda a tradição. E, apesar da sua receita de riffs groovy e cheios, teclados psicadélicos, solos épicos e mesmo o uso de flauta na última faixa perfilar «Primordial Light», o disco de estreia da banda, na linha directa de sucessão de nomes como Trouble, Black Sabbath, Candlemass ou Solitude Aeturnus, o quarteto de Nova Jersey segue sempre o seu próprio caminho com convicção e puro talento. (4/5)

StoneDeath_TheStoneJohnSTONE DEAD «The Stone John Experience»
Auto-financiado
Oriundos de Alcobaça, os Stone Dead são um quarteto rock que gosta de enfatizar a música. É por isso que não ouvirão falar muito deles em truques de marketing ou gimmicks nas redes sociais. Mas «The Stone John Experience», o seu segundo EP em pouco mais de dois anos de carreira´é rock puro e duro, com ramificações no stoner mas raízes no blues, no soul e em tudo o que de suado e energético há no ADN musical. As quatro canções do EP não são imunes a lugares-comuns do estilo e nem a um certo requentamento na composição que impede os Stone Dead de “explodirem” verdadeiramente nas melodias. Mas podem proporcionar bons momentos a quem anda nisto pela adrenalina e pura energia. (3/5)

Vampire_VampireVAMPIRE «Vampire»
Century Media
Death/thrash metal de Gotemburgo tocado com uma forte atmosfera old school é a proposta dos Vampire, quatro músicos anónimos que causaram alguma comoção na cena com a sua maqueta de estreia e um EP em 7” editado pouco tempo depois. Agora, com o disco homónimo, provam que são mais do que apenas outra proposta a explorar o filão da velha guarda. Juntam death metal obscuro, thrash de estética Warhammer, uma atmosfera intensa e quase palpável e ocasionais incursões pela melodia e pelo punk num bolo com um ritmo imparável e uma boa sucessão de grandes temas. «Vampire» tem apenas 46 minutos, mas exala aquela aura dos discos com pinta a que poucos grupos conseguem realmente chegar, muito menos na estreia “a sério”. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 11.03.2014

Miracle Master copyInício de semana é altura de Posto de Escuta. Esta semana estamos virados para o sludge/doom (Hull, Loinen, Volume IV), para o black/death metal (Akrotheism, Black Altar, Coprolith, Tortorum), mas também para os industriais finlandeses Diablerie, para os contemporâneos The Unsemble e para o incrível hard rock energético dos Miracle Master. Escutem, apreciem, saquem, comprem e fiquem fãs. Por esta ordem ou por outra qualquer.

Akrotheism_BeholdTheSonAKROTHEISM «Behold The Son Of Plagues»
Odium Records
Logo pela afinação de guitarras na introdução «Sepsis Ex Nihilo», é possível perceber ao que vêm os gregos Akrotheism. Black metal satânico, feito da maneira mais tradicional (há quem lhe chame “obtusa”) possível, extremista por via dos blastbeats, das vocalizações demoníacas e dos riffs “gelados”. No entanto, apesar dos níveis de internacionalização que a execução e a qualidade sonora a que «Behold The Son Of Plagues» consegue chegar, há um vazio de ideias, de atmosfera verdadeiramente niilista e de capacidade para apresentar algo com um pingo de alma própria. Fica o item grego para coleccionadores de black metal que não se importam de deter o mesmo disco vezes sem conta. (3/5)

BlackAltar_SuicidalSalvationBLACK ALTAR «Suicidal Salvation»
Darker Than Black Records
Gravados originalmente para um lançamento a meias com os Shining, os cinco temas de «Suicidal Salvation», o novo EP dos black metallers polacos Black Altar, mostram bem aquilo que o baixista e vocalista Shadow e o guitarrista Horizon conseguem fazer. Ou seja, black metal tecnicamente impecável, quase ao ponto da fusão com o death metal, e atmosferas sinfónicas e épicas que encaixam bem na abordagem extrema, satânica e misantrópica do duo. Uma espécie de mistura da fúria técnica dos (primeiros tempos dos) Behemoth, da pura maldade dos Belphegor e da sinfonia obscura polaca dos Vesania. Seja na versão em digipack, seja no LP em 12”, «Suicidal Salvation» é um EP que os fãs de black metal polaco vão querer ter. (4/5)

Coprolith_DeathMarchCOPROLITH «Death March»
Violent Journey Records
A estirpe de death/black metal dos finlandeses Coprolith é ambiciosa. Juntar o mais agressivo e obscuro black metal a death metal bruto e injectar-lhe elementos de melodia melancólica tem que se lhe diga, mas o trio (composto por gente de Cavus e Antagonist Zero) lá consegue colocar a coisa a funcionar. Em «Death March», o seu segundo álbum de originais, até melhor do que no antecessor «Cold Grif Relief», com uma abordagem mais distinta e uma maior distanciação de referências musicais óbvias. Ainda não conseguem apresentar um disco de coesão a toda a prova nem isento de brechas na composição, mas estão a caminho. (3/5)

Diablerie_Transition_2.0_cover_0DIABLERIE «Transition 2.0»
Primitive Reaction
Os Diablerie são um projecto de metal industrial/electrónico finlandês, formado em 1999 pelo baterista, teclista e programador Henri Villberg, pelo guitarrista Kimmo Tukiainen (ambos pertenceram aos Rapture nos anos 00) e pelo guitarrista Tomi Ullgrén (outro ex-Rapure, actualmente dos Shape Of Despair e Impaled Nazarene). Depois de uma primeira fase de actividade até 2003, (que lhes valeu uma maqueta e um álbum de originais), tiveram um hiato de dois anos e voltaram em 2005 para mais dois EPs e uma maqeta. «Transition 2.0» é uma segunda versão do EP «Transition», de 2012, parcialmente remisturado e regravado para dar uma sonoridade mais coesa e energética ao death metal industrial/electrónico da banda. E energia é o que não falta aos quatro temas do disco, misto de Fear Factory de primeira geração, The Kovenant e The Amenta, pese embora com alguma falta de alma própria e ideias verdadeiramente frescas. (3/5)

Hull_TheLegendOfHULL «The Legend Of Swampgoat»
Iron Orchestra Works/Midnight Collective
Em pouco tempo, os nova-iorquinos Hull transformaram-se num dos nomes a ter em conta quando se fala de sludge/pós-hardcore. O estilo da banda é afinado bem em baixo, tem as influências certas de blues e é certeiro na composição e arranjos. Depois de dois álbuns de originais, a banda decidiu agora lançar o tema «The Legend Of Swampgoat», originalmente gravado em 2007 (provavelmente na mesma sessão do single «Viking Funeral», editado na altura) num EP em 7”. O tema contém todos os argumentos que fazem dos Hull um projecto tão apelativo: riffs contundentes, um sentido de melodia muito decente e o som lamacento que é a imagem de marca da banda. Não é a mais genial e influente canção da banda (por algum motivo esteve escondida todos estes anos), mas com esta capa de Nathan Overstrom e uma edição limitada em vinil rosa, azul, verde ou branco, com gravação do desenho no lado B, é uma tentação sludge a que é difícil resistir. (3/5)

Loinen_LoinenLOINEN «Loinen»
Svart Records
Quem anda atrás de sludge metal verdadeiramente underground, com mais ênfase na palavra “sludge” do que na expressão “metal”, tem aqui uma boa proposta. Os Loinen são finlandeses, compostos por dois baixistas, um baterista e um vocalista – sem guitarras, portanto – e andam nisto desde 2002, editando maquetas mas também trabalhos de estúdio, principalmente em cassete, vinil e edições de CD limitadas a poucas dezenas de unidades. «Loinen» é já o segundo (!) disco homónimo da banda, depois da estreia em 2007. Contém oito faixas de um sludge tão lamacento, obscuro e odioso (em que as letras em finlandês contribuem para a atmosfera fétida), que é impossível ficarmos indiferentes à medida que os minutos e as faixas se desenrolam. Um banho assim que o disco acaba é aconselhável. Edição em vinil (sem cartão para download) limitado a 425 unidades. (3/5)

MiracleMaster_TattooedWomanMIRACLE MASTER «Tattooed Woman»
GoldenCore Records/ZYX Music
Os Miracle Master são a banda alemã anteriormente conhecida como Pump, com o vocalista dinamarquês Oliver Weers, que tinha até aqui uma promissora carreira a solo. A junção de ambos os projectos tem neste primeiro disco, «Tattooed Woman», um bom trabalho de hard rock, algures entre o modernismo todo produzido de Adrenaline Mob e o hard rock clássico de nomes contemporâneos como W.E.T.. Oliver Weers tem, efectivamente, a voz e o carisma dos grandes cantores e a composição revela-se sólida, sóbria e coesa. O resultado é um surpreendente disco de hard rock moderno/clássico de onde menos se esperava que ele apareesse. (4/5)

TheUnsemble_TheUnsembleTHE UNSEMBLE «The Unsemble»
Ipecac
Projecto colaboracional montado entre Duane Denison (Tomahawk, The Jesus Lizard), Alexander Hacke (Einsturzende Neubauten, Crime And The City Solution) e Brian Kotzur (Silver Jews, Harmony Korine), The Unsemble é mesmo o tipo de coisa com a cara da Ipecac. Contém uma série de momentos de improvisação em que a música contemporânea impera, mas também algumas faixas cuidadosamente compostas e gravadas (a melhor é «Cyclone», lá mais para o final do disco), em que se nota a facilidade do trio em abolir, fundir e reconstruir barreiras musicais. Nomeadamente entre o pós-rock, a música electrónica, o jazz, a banda-sonorora e a música contemporânea. «The Unsemble» não é, por isso, uma audição fácil nem muito atraente, mas compensa com sofisticação, inteligência e provocação aural. (3/5)

Tortorum_KatabasisTORTORUM «Katabasis»
W.T.C. Productions
Magnífica evolução apresentada pelos noruegueses Tortorum, um projecto iniciado e liderado pelo guitarrista Skyggen (elemento dos Gorgoroth em concertos), neste segundo álbum de originais. «Katabasis», beneficiando de produção arrancada no estúdio Necromorbus, apresenta um black metal de aura maligna, tecnicamente evoluído e com metásteses no death metal e no rock psicadélico (ouvir a última faixa do disco) que justificam plenamente as comparações com Watain. É coeso, é bem feito e tem a atmosfera dos verdadeiros discos de black metal. (4/5)

VolumeIV_LongInTheVOLUME IV «Long In The Tooth»
Ripple Music
Bem afundados no stoner rock que arrebanha doom, sludge e heavy metal clássico, os norte-americanos Volume IV saem finalmente da zona de conforto de edição de pequenos EPs e lançam «Long In The Tooth», um disco completo. As dez faixas revelam uma falta de vontade para inovar que roça a teimosia típica das gentes de Atlanta, mas no processo que revisitarem o bom e velho stoner/doom rock directo, alto e sem truques, os Volume IV conseguem um bom conjunto de canções, digno da comparação com Black Sabbath, Pentagram, Monster Magnet, Orange Gobline e Down que a editora tão alegremente escreve no comunicado de lançamento. (3/5)

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POSTO DE ESCUTA 08.03.2014

Nervosa copyNo primeiro fim-de-semana verdadeiramente primaveril do ano, presentamos os nossos leitores com algumas sugestões audiófilas para tempo bom. O heavy metal clássico dos Ancillotti, Lucifer’s Hammer ou Sparta é bom para ouvir na areia da praia, o rock alternativo dos portugueses And Then We Fall ou o proto-thrash das brasileiras Nervosa é o ideal para ouvir nos passeios de carro e o extremismo dos Hiss From The Moat e The Committee é excelente para começar uma longa noite. Depois, há o neo-classicismo pleno de imagens de Federico Albanese, que se predispõe a explorações de madrugada, na companhia de uma garrafa de vinho. Quem for mais de pensar a música, tem sempre o offshot dos King Crimson The Crimson ProjecKCt e os mindfuckers Scraps Of Tape para se entreter. Bom fim-de-semana.

BrokenWings-CoverArt(ColorAdd)-DimitarNikolov.psdANCILLOTTI «The Chain Goes On»
Pure Steel Records
Cada vez que uma banda italiana de verdadeiro heavy metal dá uma entrevista, menciona os compatriotas Strana Officina ou Bud Tribe como uma das suas primeiras influências. Por isso, imaginem o entusiasmo entre os fãs do estilo quando o vocalista desses grupos, Daniele “Bud” Ancillotti, regressa ao activo com um novo projecto formado com o seu irmão no baixo e o seu filho na bateria. «The Chain Goes On», o álbum de estreia, é heavy metal old school feito a meio-tempo, com autenticidade, originalidade e os traços de personalidade de um dos pilares do estilo em Itália. Por vezes, a coisa envereda por terrenos de metal teutónico à Accept, mas a linha condutora dos 11 temas é a qualidade nas guitarras, o bom gosto na melodia e uma originalidade vincada. (4/5)

AndThenWeFall_SoulDesertsAND THEN WE FALL «Soul Deserts»
Ethereal Sound Works
Formados por ex-elementos de bandas como Noctívagus ou Phantom Vision, seria de esperar que os And Then We Fall fossem um projecto de rock gótico. Nada mais errado. Os dez temas da estreia «Soul Deserts» mostram um grupo apostado em explorar as várias vertentes do rock alternativo, com ênfase na voz poderosa e versátil de Susana Correia. A “fome” de exploração leva por vezes o quarteto a experimentar coisas um pouco menos conseguidas, como as letras em espanhol em «Tu Eres Mi Mal» (os resultados são bem melhores em «E Mais Um Dia», cantado em português), mas o ponto alto do disco é a bluesy «All the Pain Inside», em que os And Then We Fall parecem libertar verdadeiramente o seu talento. As influências de bandas como Siouxie And The Banshees e do catálogo da 4AD parecem evidentes, mas «Soul Deserts» mostra um grupo que procura ainda o seu próprio caminho musical. (3/5)

FedericoAlbanese_TheHouseBoatAndTheMoonFEDERICO ALBANESE «The Houseboat And The Moon»
Denovali Records
Pianista por natureza e formação, Federico Albanese andou em bandas, experimentou vários instrumentos e chegou a trabalhar na produção de filmes até voltar ao seu instrumento de eleição e lançar agora o seu disco de estreia em nome próprio. «The Houseboat And The Moon» não é, por isso, apenas um disco de piano. O seu poder evocativo e ambiente de banda sonora só é possível devido à compreensão que o italiano trouxe da sua experiência no cinema e as nuances electrónicas, de sampling de gravações de terreno e a própria opção de produção num velho piano de 1969 todos contribuem para que esta colecção de temas seja, apesar de um trabalho instrumental de piano, uma proposta emotiva, colorida e ideal para quem anda a ressacar de discos de Les Fragments De La Nuit e Ashram. (3/5)

HissFromTheMoat_MisanthropyHISS FROM THE MOAT «Misanthropy»
Lacerated Enemy Records
Pensem numa mistura de Fleshgod Apocalypse, Behemoth e The Black Dahlia Murder. Não estarão longe do que os italianos Hiss From The Moat propõem no seu disco de estreia. O trio, formado por gente dos Tasters, Hour Of Penance e Doomsayer, dispara certeiro nas direcções do black e death metal (se por “death metal” entenderem uma estirpe particularmente virulenta de deathcore) e acerta em cheio no alvo em termos de técnica, coesão, peso e força de produção. «Misanthropy» é um vicioso, rápido, técnico e obscuro exercício de blackened deathcore, potenciado por convidados especiais como Tommaso Ricciardi (Fleshgod Apocalypse), Ryan Knight (The Black Dahlia Murder) e Paolo Pieri (Hour Of Penance, Aborym). Valha-nos Satanás! (4/5)

LucifersHammer_DemoMMXIIILUCIFER’S HAMMER «Night Sacrifice (Demo MMXIII)»
Shadow Kingdom Records
Originalmente editada pela banda em Outubro do ano passado (numa prensagem em cassete limitada a 150 cópias) esta maqueta de três temas marca a estreia dos chilenos Lucifer’s Hammer, cujo heavy metal tradicional tem uma sonoridade e produção que reproduzem fielmente o som dos anos 80. Em termos de abordagem estilística, é heavy/speed metal do mais clássico possível, com os toques de melodia NWOBHM que fará os fãs de Salem’s Wytch, Iron Maiden, Heathen’s Rage ou Damien Thorne virarem a cabeça na direcção do grupo com um esgar de surpresa. Depois da reedição em CD-r (limitada a 40 cópias) feita pela The Power Cage Records, eis que «Night Sacrifice (Demo MMXIII) chega agora ao formato digital e a uma nova edição em cassete, limitada a 100 unidades. (4/5)

Nervosa_VictimOfYourselfNERVOSA «Victim Of Yourself»
Napalm Records
Vamos esquecer por momentos o exotismo do facto das Nervosa serem um trio de miúdas brasileiras a praticar thrash. «Victim Of Yourself», o seu disco de estreia, continua a ser uma colecção de temas com a fúria do underground herdada dos Sarcofago, a velocidade ácida do speed/thrash metal alemão e aquele shred crossover que apenas os predestinados são capazes de sacar. Tipo uma mistura de Hirax, Destruction, Sodom e Toxic Holocaust. Agora junte-se de novo o elemento exótico da coisa. «Victim Of Yourself» é um disco de thrash do caraças E sexy. Há como resistir a isto? (4/5)

ScrapsOfTape_SjättevansinnetSCRAPS OF TAPE «Sjätte vansinnet»
A Tenderversion Recording
Depois de ouvir «Sjätte vansinnet», o mais recente de vários trabalhos que os Scraps Of Tape editaram desde 2001, é inevitável considerá-los um dos mais deliciosos segredos musicais da Suécia. O indie rock que praticam tem laivos do pós-rock, hardcore e noise que já praticaram e vai-se metamorfoseando à frente dos nossos olhos, em temas que captam a essência de bandas como Mogwai, Mudlin Of The Well ou Joan Of Arc, retendo ao mesmo tempo uma originalidade e personalidade muito próprias. Vale a pena conhecê-los, seja em CD, download ou na magnífica versão em vinil em que «Sjätte vansinnet» foi editado. (4/5)

Sparta_WelcomeToHellSPARTA «Welcome To Hell»
High Roller Records
Depois de terem sido, no final da década de 70 e primeira metade da de 80, mais um dos grupos “com grande futuro” da NWOBHM que falhou a sua confirmação e desapareceu do radar, os Sparta tiveram de esperar quase três décadas para terem algum reconhecimento de novo. O saudosismo pelo heavy metal clássico fez com que a compilação «Use Your Weapons Well», editada em 2011 pela High Roller, trouxesse a banda para as bocas de uma geração à procura de tudo o que é obscuro no NWOBHM e aqui estão os Sparta de volta, dois anos depois, com um álbum de originais. «Welcome To Hell» rocka como se fosse 1979 e respira NWOBHM clássico, com ocasional crossover para o rock’n’roll clássico. É interessante, tem uma aura de autenticidade, mas também exala um cheiro a mofo e a segunda oportunidade não exactamente merecida. (3/5)

TheCommittee_PowerThroughUnityTHE COMMITTEE «Power Through Unity»
Folter Records
Com a particularidade de serem um projecto verdadeiramente internacional, começado por um francês na Bélgica com o delicioso nome de guerra “Igor Mortis”, a que depois se foram juntando elementos de nacionalidades russa, holandesa e ucraniana, os The Committee foram “construindo” a sua sonoridade na mesma medida. É por isso que «Power Through Unity», o disco de estreia, apresenta evolução em relação ao doom/black metal do EP «Holodomor» editado o ano passado. Os riffs são mais hiperbólicos e com uma ponta de folk/heathen, as atmosferas são mais bárbaras e o peso e extremismo acabam por realçar as partes em que o quarteto explora, com mestria, as suas influências mais funerárias e doom. Tudo com um som poderoso, grave e verdadeiramente negro. Soberbo. (3/5)

TheCrimsonProjeKCT_LiveInTokyoTHE CRIMSON PROJEKCT «Live In Tokyo»
InsideOut Music
Como mais uma banda herdeira do legado dos King Crimson, os The Crimson ProjecKCt são um dos mais excitantes e legítimos offshots da extinta e influente banda. Tony Levin e Pat Mastelotto estão lá, o material (tudo temas dos King Crimson) é escolhido com particular cuidado para representar toda a carreira, exemplarmente executado, o conceito de “trio duplo” devidamente recuperado e o próprio Robert Fripp deu a sua “benção” ao projecto. Por isso, ouvir temas plenos de fusão jazzística/prog como «Frame By Frame», «Dinosaur» ou o excepcional «Indiscipline» ao vivo, tocado por estes tipos, é quase o mesmo que ouvir os King Crimson interpretá-los hoje. Com a diferença de que o “quase” é o mais próximo que podemos chegar neste momento, já que Fripp se reformou da vida de músico ao vivo. (4/5)

TherionAdulruna400

POSTO DE ESCUTA 03.03.2014

Cancerous Womb copyMais uma semana que começa e, uma vez que a Primavera teima em não chegar e ainda temos de levar com uma parvoíce chamada “Carnaval”, propomos-vos uma mão cheia de discos de black metal para ouvir em modo misantropo: Aypheros, Horizon Ablaze, Will Of The Ancients, Woland, Craving e um split de Anal Blasphemy e Forbidden Eye. Se ainda assim sentirem necessidade de matar alguma coisa, o hardcore/punk dos Hopeless Youth ou o death/grind dos Cancerous Womb são a banda sonora ideal para tal. Para fãs de coisas mais melódicas propomos os In Fla…, erm, Eyes Wide Open ou o pop depressivo de Black Mare.

AnalBlasphemy_ForbiddenEyeANAL BLASPHEMY/FORBIDDEN EYE «The Perverse Worship Of Satanic Sins»
Night In Terrors
O black metal cheio de treble dos finlandeses Anal Blasphemy pode ser uma coisa meio óbvia demais para os intelectuais do género que acham que para os Horna já bastam os Horna, mas é impossível, para quem tenha um pingo de gelo a correr-lhe nas veias, ficar indiferente aos três temas exclusivos que a banda apresenta neste split. Distorção, satanismo e black metal fuck off em doses iguais. Os Forbidden Eye, projecto suíço-americano mais cavernoso e com uma estética bem mais definida, respondem com quatro canções de contornos old school (pensem em «For all tid») que complementa e “casa” maravilhosamente com os seus parceiros infernais finlandeses. A edição em digipack, limitada a 100 unidades e vendida exclusivamente na mailorder da N.I.T., é um must. (4/5)

Aypheros_AscendetNovissimaTuaAYPHEROS «Ascendet Novissima TUA»
PRC Music
Oriundos de Santiago, no Chile, os Aypheros praticam black metal sul-americano no seu estado mais puro. A estreia «Ascendet Novissima TUA» recolhe influências do lado gelado do estilo escandinavo, do lado caótico de bandas como Sarcofago, do lado bestial de projectos como Inquisition e do típico sentido de melodia que não se descola das bandas daquele lado do planeta. O resultado pode não ser a mais original e genial proposta de black metal do ano, mas cumpre na perfeição o preceito de combinar de forma homogénea todas as – díspares – influências do quarteto. (3/5)

Adobe Photoshop PDFBLACK MARE «Field Of The Host»
Human Jigsaw Records
Como vocalista dos influentes Ides Of Gemini e dos extintos Black Math Horseman, Sera Timms não é estranha nem ao experimentalismo musical, nem a emoções intensas e extremas. Nesta estreia de Black Mare, o seu projecto a solo, no entanto, a senhora opta por uma abordagem mais hipnótica e repetitiva, por vezes desolada e melancólica. A exploração das nuances da voz, assim como uma valente carga atmosférica, transformam «Field Of The Host» numa espécie de viagem sonora interessante, estranha e difícil de compreender por vezes, mas sempre com um lado ambiental e uma melodia delicada a cada esquina, pronta a encorajar-nos a continuar. (4/5)

CancerousWomb_BornOfACANCEROUS WOMB «Born Of A Cancerous Womb»
Grindscene Records
Quem ficou curioso com o que o vocalista original dos Cerebral Bore foi fazer depois de sair da banda, deu com os Cancerous Womb no EP ou no split com outros quatro grupos que editaram antes de chegarem a esta estreia. Todos os outros – incluindo nós – não terão outro remédio senão renderem-se à velocidade impressionante, precisão técnica ao ponto do maníaco e groove improvável mas irresistível do death/grind de «Born Of A Cancerous Womb». Com limites de velocidade acima da lei, vocalizações duais que incluem um dos gritinhos mais viciosos do lado de cá de Chris Barnes e ocasionais e deliciosas referências ao thrash e ao doom, este é um disco que alia brutalidade, argumentos técnicos e inteligência de composição. Como se os Decapitated, os Deicide e os Desecration desatassem a correr desalmadamente para a gaveta das facas. (4/5)

Craving_AtDawniCRAVING «At Dawn»
Apostasy Records
Não é a mistura vencedora de death metal melódico, black metal e música celta que os Equilibrium apresentam, mas há qualquer coisa na abordagem dos alemães Craving que apela ao fã de folk metal mais underground. As letras são cantadas em três línguas – alemão, russo e inglês – o grupo não tem medo de arriscar em coisas diferentes (como partes em que o baixo assume o papel principal), mas também sabe fazer a cena folk/death/black metal celta melódico como os nomes grandes do estilo. Com frenesim sónico, rapidez, melodias atraentes e atmosfera palpável. E convidados de luxo, como Chris Caffery (Savatage), Agalaz (Obscurity) ou Andreas Müller (Dystopolis). (3/5)

DCIM100GOPROEYES WIDE OPEN «Aftermath»
Auto-financiado
“São jovens, são suecos e gramam In Flames” é a frase que pode, em poucas palavras,definir os Eyes Wide Open. No entanto, há gamar In Flames mal e há o que os Eyes Wide Open fazem. Porque o jovem quinteto de Karlstad o faz com um incrível sentido de dinâmica, melodias gigantescas, riffs muito interessantes e uma variedade na escrita que lhes daria acesso à primeira divisão do death metal melódico se estivéssemos em 1996. «Aftermath», o disco de estreia do projecto, pisca no entanto o olho mais do que apenas o death metal melódico clássico, com temas como «Red» a imularem na (quase) perfeição o metal moderno e quente que os In Flames têm feito nos últimos discos. Até agora, ninguém o tinha feito tão bem e isso é, certamente, um ponto positivo. (4/5)

8_PAGE_BOOKLET.inddHOPELESS YOUTH «Disgust»
Candlelight Records
Não há muita informação disponível sobre os Hopeless Youth, excepto o facto de serem canadianos e de praticarem, segundo a sua página no Facebook, “heavy rock”. Por heavy rock, o quinteto de Montreal quer dizer “mistura de hardcore, thrash e ocasional sludge com passagens atmosféricas expansivas”. Bem, as ocasionais atmosferas expansivas estão reduzidas a rápidas amostras de segundos em temas como «Faithless» e pouco mais, pelo que nos resta ouvir o hardcore/punk moderno de riffs thrash, pouca criatividade e muita força de vontade da banda. (3/5)

HorizonAblaze_DodsverkHORIZON ABLAZE «Dødsverk»
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A segunda proposta dos noruegueses Horizon Ablaze traz algumas novidades. Primeiro, a linguagem agora usada nas letras é o norueguês. Segundo, o grupo (que conta com elementos e ex-elementos de Blood Red Throne, 1349 e Absu) vai mais longe no lado “aural” do seu death metal, até fronteiras do black metal e do absurdo musical, como professado pelos Akercoke. Não é irresistivelmente coeso e nem maravilhosamente vanguardista, mas é intenso como o raio e tem os seus momentos de brilhantismo. (3/5)

WillOfTheAncients_ToOurGloriousWILL OF THE ANCIENTS «To Our Glorious Dead»
PRC Music
Impressionante segundo disco dos canadianos Will Of The Ancients, que misturam black metal épico a la Emperor com tiques de death metal melódico, riffs massivos que fazem lembrar as novas bandas de metal progressivo e alguns toques de viking metal. «To Our Glorious Dead» funciona bem à conta de uma coesão e qualidade técnica acima da média, mas também de uma motivação apenas ao alcance de uma banda que não lançava nada há sete anos. Este pode ser o elo de ligação que faltava entre o black metal épico canadiano e o lado mais esquizofrénico e adulto da carreira de Ihsahn. (4/5)

Woland_HyperionWOLAND «Hyperion»
Indie Recordings
O que ao princípio parecia apenas mais uma banda de black metal a surgir na Finlândia, ganhou uma quantidade apreciável de respeito e admiração com dois singles editados simultaneamente, em 2011. Neles, os Woland mostraram que era ainda possível inovar no conteúdo, não mexendo na fórmula. «Hyperion», o disco de estreia, vem agora confirmar e dar continuidade às boas indicações dadas em «Conquer All & Live Forever», com um conjunto de canções que pega no black metal mais rockeiro dos Satyricon, acrescenta-lhe uma generosa dose de atmosfera, ocasionais spin-offs de flamenco ou fusão e sai do processo com uma proposta coesa, convincente e original, sem ser pretensiosa. (4/5)

TherionAdulruna400

POSTO DE ESCUTA 24.02.2014

N copy copyA semana começa com uma série de discos noise, experimentais e contemporâneos que permitem explorar as noites de Inverno em toda a sua plenitude enquanto elas duram. buttinelli.A, Éva Polgár & Sándor Vály, Petrels e o surpreendente N estão em análise neste Posto de Escuta. Para a vossa dose semanal de thrash temos uma coisa chamada Amok e, depois, propostas para quem gosta de NWOBHM, death metal técnico, hardcore/punk vegan e pós-punk de laivos góticos. Boa semana.

Amok_SomewhereInTheAMOK «Somewhere In The West»
Witches Brew
Os escoceses Amok praticam uma mistura de thrash old school da Bay Area, speed e heavy metal, que respira honestidade e revela alguma genuinidade saudável. Felizmente, «Somewhere In The West», o segundo trabalho da banda, também demonstra competência técnica e um conhecimento perfeito de como deve o thrash clássico soar, porque se é para repetir o mesmo estilo que tem vindo a ser praticado vezes sem conta nos últimos anos, ao menos que os Amok o façam bem, com agressividade e velocidade. É o caso. (3/5)

ButtinelliA_OTA copyBUTTINELLI.A «OTA – On The Air»
zamzamrec.
“Arrepiante” e “evocativo” são apenas dois dos adjectivos que nem começam a descrever este trabalho experimentalista de desconstrução e manipulação sonora da obra radiofónica “Dracula” de Orson Wells. Sampling, drones, gravações de terreno, mas também partes acústicas de bateria e baixo, tudo cuidadosamente manipulado e ordenado para acrescentar ambiente, intensidade e uma aura saturada a uma peça radiofónica histórica já de si sublime. Os butinelli.A, constituídos por Rosa Maria Sarri (Marie e le Rose) e Giuseppe Cordaro (Con_cetta) não podiam aspirar a melhor estreia. Edição digital e em cassete (limitada a 33 unidades), com masterizações diferentes. (4/5)

EvaPolgari&SandorVali_GilgameshÉVA POLGÁR & SÁNDOR VÁLY «Gilgamesh»
Ektro
Segundo projecto musical que une a pianista contemporânea Éva Polgár e o artista plástico/musical/poeta Sándor Vály. «Gilgamesh» é, como o nome indica, uma obra baseada na história épica daquele rei de Uruk (actual Iraque) e serve de “desculpa” para mais uma série de devaneios contemporâneos altamente experimentais feitos com sampling electrónico e piano. O espectro musical vai do hipnótico ao noise, passando pela mais intragável música contemporânea que é possível ouvir. Tudo em nome da “arte” e de um conceito que, apesar de bem engendrado, não serve para justificar tudo. (2/5)

FactorHate_TheWatcherFACTOR HATE «The Watcher»
Auto-financiado
Iniciados em 2011, os franceses Factor Hate editam aqui o seu primeiro registo, num formato EP com quatro faixas. Apesar das óbvias influências de Alice Cooper ao nível das vocalizações, a parte instrumental de «The Watcher» situa-se algures entre o heavy metal clássico de Pretty Maids e o NWOBHM quando ele era mais hard rock do que propriamente heavy metal (primeiros discos de Saxon e Judas Priest). Por esta conversa, depreende-se facilmente que ao quinteto ainda falta uma boa dose de personalidade musical própria, bem como capacidade para fugirem do mais óbvio na composição e arranjos. Quem procura grupos tenrinhos que mais ninguém conhece pode, no entanto, achar alguma piada aos Factor Hate, se esquecer a generalidade do seu heavy metal proto-clássico. (3/5)

Morfin_InoculationMORFIN «Inoculation»
F.D.A. Rekotz
Algures entre a negridão mórbida dos pioneiros do death metal sueco e a abordagem doentiamente técnica dos Death (há uma versão de «Leprosy» no álbum), os californianos Morfin estreiam-se com «Inoculation», um disco de death metal técnico da velha guarda. A falta de originalidade do quarteto (constituído exclusivamente por descendentes de latinos) é largamente compensada com um sentido de estética muito “death metal, anos 80”, reforçado por uma aura de honestidade e genuinidade. Vale a pena ouvir, se forem especialistas do género. (3/5)

N22_GoorN(22) «Goor»
Denovali Records
N, o projecto ambiental, experimental e drone alemão não é fértil em informação, mas compensa com uma estirpe sufocante, intensa e avassaladora de música, pelo menos a julgar pelas duas longas faixas que compõem o primeiro LP do disco duplo «Goor», que é agora editado. O segundo LP acalma as coisas e propõe «Blauort», uma canção etérea e melancólica e «Suedfall», que começa no mesmo registo ambiental e minimalista e se vai lentamente transformando num pedaço de experimentação electrónica que remete para as duas primeiras faixas. Com a vantagem de terem sido testadas ao vivo nas inúmeras passagens de N pelos palcos, as músicas de «Goor» respondem com vigor musical, intensidade acima da média e um extraordinário poder de manipulação sónica a quem diz que este é “apenas” mais um projecto de ambient/drone. (4/5)

PaintedWolves_PaintedWolvesPAINTED WOLVES «Painted Wolves»
Day By Day Records
Hardcore/punk vegan feito com o coração, alma e tripas é a proposta dos Painted Wolves que editam, com este 12” homónimo em vinil, uma espécie de manifesto de 17 minutos em que deixam bem claro que não pretendem inovar em nada. Já em termos de energia e atitude, o quarteto de Gotemburgo fica a dever muito pouco aos melhores, com uma tremenda série de riffs de combate, ritmos rápidos e ocasionais incursões pelo pós-hardcore atmosférico de bandas como Cult Of Luna em faixas como «Serve The Serpent» que, com os seus quase seis minutos, é o contraste perfeito da explosão punk/hardcore dos 55 segundos de «Sea Of Demons». Tudo com o volume no máximo. Boa estreia. (4/5)

Petrels_MimaPETRELS «Mima»
Denovali Records
Oliver Barrett continua a respeitosa carreira de Petrels com um álbum que explora mais a fundo o conceito de “drones analógicos” que tem vindo a desenvolver nos lançamentos anteriores. «Mima» não é nenhuma obra-prima de musicalidade, mas tem o condão de envolver o ouvinte numa sonoridade expansiva e fortemente atmosférica, feita de electrónica, experimentalismo minimal e drones absolutamente frios e desumanos. Perturbador e calmo ao mesmo tempo, não é uma experiência que se queira ter sempre, mas pode proporcionar boas sensações nocturnas ou de experiência auditiva em headphones. (3/5)

TheBellicoseMinds_TheBuzzOrTHE BELLICOSE MINDS «The Buzz Or Howl Sessions»
A389 Recordings
Agora que os Beastmilk parecem ser os salvadores de quem procura salvação para a indústria da música extrema, é bom que as pessoas se apercebam que, do lado de lá da linha cronológica e do pós-punk gótico cuidadosamente distorcido existe uma banda como os The Bellicose Minds. O trio tem o mesmo tipo de sonoridade que os Beastmilk mas é mais directo na abordagem, mas underground nas referências musicais (The Chameleons, The Sound, Red Lorry Yellow Lorry) e tremendamente mais decadente no resultado final. «The Buzz Or Howl Sessionss» foi o EP em cassete (na altura limitado a 500 cópias de tiragem) que a banda lançou em 2009 e chega agora ao formato vinil, com som remasterizado, através da A389. É a isto que o rock gótico dos anos 80 soa agora. (3/5)

VA_GhostShipSwornV/A «Ghost Ship, Sworn Enemy»
Dooweet Records
Existe um motivo para as compilações, no mundo do metal, praticamente terem deixado de existir. É que ninguém quer gastar dinheiro com uma série de faixas avulso de bandas que, muitas vezes, são completamente diferentes entre si, sem nada que as ligue e nem à sua música. E é isso que «Ghost Ship, Sworn Enemy» é… Uma compilação meio genérica de 19 bandas francesas que vão do thrash mais clássico ao metalcore, ao metal progressivo, ao death metal à Carcass ou ao djent. Apesar das boas intenções (todos os lucros revertem para os grupos, possibilidade de conhecer novos nomes), a sobrevariedade estilística e a falta de um conceito mais forte que una todos os momentos do disco acaba por marcar este lançamento. (3/5)

BluesPillsRockpalast728

POSTO DE ESCUTA 18.02.2014

Fuoco Fatuo copyA semana ainda mal vai a meio e já temos uma primeira fornada de novidades para se ouvirem nos auscultadores. Há deliciosas surpresas para fãs de doom/death metal funerário e de rock psicadélico, enquanto que os fãs de death metal brutal, black metal underground, metal progressivo, metalcore, thrash modernaço e até nu-metal também não poderão queixar-se. Encostem-se e carreguem nesse botão aí que diz “play”.

AbortedFetus_PrivateJudgmentDayABORTED FETUS «Private Judgement Day»
Comatose Music
Não há nada de subtil nem no nome nem na sonoridade dos russos Aborted Fetus, que lançam aqui o seu terceiro álbum de originais. Death metal brutal ultra-técnico, ultra-rápido, com aquele som de tarola dos anos 90 e a exacta atitude que se espera de uma banda com as palavras “Aborted” e “Fetus” no nome. Uma explosão de pus sangrento a feder a podridão, feita nos remotos Urais. (3/5)

BlackVulDestruktor_EtVerbiSatanusBLACK VUL DESTRUKTOR/ET VERBI SATHANUS «Apocalypse Towards Apocalypse»
Blood Harvest Records
Na tradição do melhor black metal underground sul-americano, aqui estão duas propostas bem válidas. Os Black Vul Destruktor são um quarteto argentino de black metal ocultista, de sonoridade grave e fortemente influenciada no death metal das trevas de bandas como The Chasm, que apresentam dois longos temas. Os Et Verbu Sathanus são chilenos e a sua abordagem é mais infernal e ácida, com gravação cheia de treble e com o holocausto nuclear como principal fonte de inspiração dos dois curtos temas com que participam no split. «Apocalypse Towards Apocalypse» é lançado em 7” duplo, um por banda, numa edição de luxo. (3/5)

DefConOne_IIDEF-CON-ONE «II»
Scarlet Records
Passados dois álbuns, o desconforto de ouvirmos Antton, ex-baterista dos Venom, a tocar uma mistura “moderna” de thrash e hardcore não passa e volta a assombrar a terceira proposta dos Def-Con-One. A verdade é que a própria abordagem de «II» não é muito convincente, com uma produção pouco espessa, com influências que vão do power thrash dos Pantera e Machine Head ao nu-metal ensopado de hardcore dos Slipknot e ao groove metal dos Soulfly. Tudo feito com demasiada avidez e generalismo. O resultado não convence. (3/5)

DoctorLivingstone_ContemptusSaeculiDOCTOR LIVINGSTONE «Contemptus Saeculi»
Osmose Productions
Com elementos dos Muutilation e um ex-baterista de Arkhon Infaustus, os franceses Doctor Livingstone estreiam-se com um daqueles álbuns que vai a todo o lado dentro da música extrema. Partes de punk/hardcore de rua, passagens de black metal à Darkthrone, sludge bem distorcido e afinado em baixo e porções d-beat à descrição cruzam-se, alternam-se e misturam-se. A composição realça o lado energético e libertino do quinteto, mas tamanha variedade acaba por vezes por fazer o ouvinte perder-se. O que vale é que há sempre um porto abrigo de extremismo simples ou pela cartilha para nos agarrarmos quando parece que perdemos o propósito de «Contemptus Saeculi» de vista. Uma estreia interessante. (3/5)

GD30OBH.pdfFUOCO FATUO «The Viper Slithers In The Ashes Of What Remains»
Iron Tyrant
O funeral doom/death metal, quando é feito com intensidade, nunca falha. Os italianos Fuoco Fatuo já haviam provado, nos dois EPs e um split com os Black Temple Below que editaram em 2012, que intensidade não é problema. E, a julgar pelo resultado do disco de estreia, nem a inspiração para comporem um trabalho completo, de mais de 50 minutos e quatro longas faixas, com uma atmosfera densa e fétida e um tom gutural apenas comparável ao que Hugo Santos, dos Process Of Guilt, consegue fazer. Juntando a isso uma parede de riffs de guitarra que redefine o termo “monolítico” e temos, esteticamente, o funeral doom metal no seu melhor, mais negro e eficiente estado. E os Focuo Fatuo ainda agora começaram o seu percurso. (4/5)

FrailGrounds_TheFieldsOfFRAIL GROUNDS «The Fields Of Trauma»
Hostile Media
Com uma faixa inicial que pode ser descrita como uma mistura de Deadlock e Communic, os noruegueses Frail Grounds surpreendem logo nos primeiros minutos desta sua estreia nos álbuns de originais. Eventualmente, «The Expedition» – a tal música que abre «The Fields Of Trauma» – evolui, ao longo dos seus oito minutos, do death metal melódico/progressivo do início para uma coisa mais melancólica, com violino, numa passagem lá pelo meio, mas o mote fica dado. Nos 45 minutos que se seguem, a viagem conceptual à Sibéria é acompanhada de coesão técnica, longos solos, apontamentos de death metal moderno e a típica sobreposição na estruturação das jovens bandas, que acaba por fazer as boas ideias perderem-se um pouco. Ainda assim, vale a pena. (3/5)

Knowing2Fly_HereOnMyKNOWING2FLY «Here On My Feet»
Bakerteam Records
Quem já teve uma experiência chamada “Linea 77” sabe que, quando uma banda italiana descreve a sua própria música como rock/metal alternativo, a coisa pode estar prestes a descambar à grande. No caso dos Knowing2fly, para além do óbvio mau gosto na escolha de nome para o projecto, há a reportar um generalismo aflitivo em «Here On My Feet», o disco de estreia agora editado. A banda sabe como sacar um bom groove, existe alguma coesão na secção rítmica, mas a mistura de rock e metal “alternativo” não passa de Faith No More, Alice In Chains e Deftones (mal) imitados e (mal) colados uns aos outros. (2/5)

OneMachine_TheDistortionOfONE MACHINE «The Distortion Of Lies And The Overdriven Truth»
Scarlet Records
Liderados pelo guitarrista Steve Smyth, que tem no currículo passagens por bandas como Testament, Nevermore, Forbidden e Vicious Rumors, os One Machine são um projecto de neo-thrash com influências de heavy metal e uma formação toda catita: o vocalista dos Mercenary, o guitarrista dos Biomechanical, o baixista dos Mnemic e o ex-baterista dos Chaoswave. No papel, a coisa tinha tudo para dar certo mas na prática a mistura de Nevermore e Mercenary que «The Distortion Of…» representa aparece por vezes meio confusa, pese embora nos solos, na velocidade e no peso os One Machine mostrem bem o ADN que possuem. (3/5)

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????RISING ANGER «Mindfinder»
Bastardized Recordings
Depois de uma maqueta e dois EPs, os alemães Rising Anger chegam finalmente aos álbuns de originais com uma boa fusão de hardcore melódico e metalcore. Para além dos arranjos maduros, uso variado da secção rítimica e excelente escolha de sampling, «Mindfinder» destaca-se pela inteligência das letras. Uma boa alternativa para fãs de Parkway Drive ou Comeback Kid, cujo uso dos mais batidos lugares comuns no metalcore e no hardcore melódico não prejudica em nada. (3/5)

Sammal_No2SAMMAL «No. 2»
Svart Records
Os fãs de rock progressivo com atmosfera dos anos 70 ainda não se refizeram bem da estreia dos finlandeses Sammal e já têm um novo mini-álbum para se entreterem. «No. 2» repete a frescura da composição e o cuidado na produção vintage do grupo, com aquele toque exótico das vocalizações em finlandês. São cinco faixas: três regravações de canções antigas até aqui apenas presentes em maquetas, um tema novo e uma versão de «Magic Mirror», dos Aphrodite’s Child, candidamente transformada em «Peilin taikaa». Delicioso e assustadoramente intenso. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 14.02.2014

Stilla copy“Dia dos namorados”, dizem. Mais uma invenção do mundo ocidental, industrializado e consumista, para que as pessoas se sintam compelidas a comprar prendas, a ir jantar fora, a ir ao cinema, a acasalar. Aqui no ME damos a receita para um programa ligeiramente diferente. Descobrir a música épica da senhora Darkyra Black, a melancolia dos Embercrow, a coisa estranha que são os Towers, o modernismo thrash dos An Act Of Treachery, o rock’n’roll javardo dos F.T.W. Boogie Machine ou o prog dos The Moganatics e Thoughts Factory. Para os mais misantropos, há a desolação sem esperança dos Descent Into Despair e o frio nórdico dos Astaroth e Stilla. Para ouvir sozinho ou (bem) acompanhado.

AnActOfTreachery_ReflectionsFromAAN ACT OF TREACHERY «Reflections Of A Dying World»
Auto-financiado
Os austríacos An Act Of Treachery bem podem falar do thrash “moderno” que praticam, mas o resultado final de «Reflections Of A Dying World», soa exactamente como qualquer outra banda genérica que por aí apareça. O lado positivo deste disco de estreia é que o quarteto sabe gamar os riffs melódicos dos In Flames e sabe bem como aliar groove e peso, como bons alunos da escola dos Lamb Of God. O resultado é um conjunto de 11 músicas que, apesar de esbarrarem no mesmo muro de mediania que dezenas de ouros trabalhos, o fazem com uma produção muito decente e elementos musicais que podem representar as ferramentas certas para os An Act Of Treachery aprenderem com este primeiro passo e fazerem algo mais próprio no próximo lançamento. (3/5)

Astaroth_ChaosatanasASTAROTH «Chaosathanas»
Polypus Records
Black metal norueguês sem merdas é a proposta dos Astaroth, que se estreiam com «Chaosathanas», um conjunto de oito temas de conservadorismo na forma, mas uma força renovada no conteúdo, que os levou a acrescentar recentemente um terceiro guitarrista para poderem reproduzir isto em palco. Algures entre os primeiros tempos de Marduk e Gorgoroth, com um apurado sentido melódico, coesão técnica e olho para o rock’n’roll dos Satyricon. Com as devidas distâncias, pois claro. Apesar de não ser minimamente original, constitui-se uma boa base para evolução musical que poderá dar aos Astaroth um lugar de maior relevo na cena. (3/5)

4pg or Multi pg Booklet V2.aiDARKYRA BLACK «Dragon Tears»
Darkyra Black
Na ânsia de fugir ao terreno comum das “divas” do metal female fronted, a australiana Darkyra Black acaba por misturar ideias que não funcionam assim tão bem, verdadeira originalidade e uma voz que parece efectivamente poderosa e multifacetada. «Dragon Tears», a estreia da senhora em disco, é um conceito baseado na história fictícia de uma Geisha, com escalas pentatónicas tradicionais metidas em metal sinfónico, gótico, épico e ligeiramente progressivo. Não é fácil de acompanhar e reter em toda a sua variedade, ambição e – temos de dizê-lo – ocasional confusão, mas há certamente em «Dragon Tears» elementos musicais que permitem perceber que, assim que assentar ideias, Darkyra Black será uma artista de mão cheia. Se alguma vez as assentar. (3/5)

DescentIntoDespair_TheBearerOfDESCENT INTO DESPAIR «The Bearer Of All Storms»
Domestic Genocide
Uma visão meio distorcida e doentia do funeral doom metal tem permitido aos romenos Descent Into Despair treparem na hierarquia da cena apenas com lançamentos menores, como uma maqueta, um EP e um single. Agora, chegou a altura dos longa-duração e o sexteto não se faz rogado: canaliza a sua melancolia quase palpável para 74 minutos, divididos por sete faixas. Não fica claro se os Descent Into Despair querem mesmo fazer esta estirpe sufocante, ligeiramente distópica e profundamente perturbadora do mais clássico dos dooms funerários, ou se não conseguem, apesar de tentarem, imular na perfeição os seus ídolos internacionais nesta onda. Seja como for, «The Bearer Of All Storms» constitui-se um exercício de tristeza quase romântica, no meio de toda a desolação invocada pelos romenos. (3/5)

Embercrow_BlacklightWatersEMBERCROW «Blacklight Wanderers»
InnerSun Records
Álbum de estreia dos alemães Embercrow, que praticam uma fusão de rock e metal gótico, com ênfase na melancolia e na atmosfera. Infelizmente, tirando algumas melodias, «Blacklight Wanderers» desenrola os seus 51 minutos com poucos motivos de interesse. À música falta a força que poderia, por exemplo, transformar uma canção como «Isle Of Origins» numa versão gótica de Amorphis. Os Embercrow ficam-se, assim, por uma mistura sem sal das sonoridades de Alice In Chains, Sentenced e Paradise Lost, com pouca emoção nas vozes e pouco fogo nas guitarras. (2/5)

FTWBoogieMachine_RockersOfDestructionF.T.W. BOOGIE MACHINE «Rockers Of Destruction»
Violent Journey Records
O mundo não precisava de outra banda de rock’n’roll a mencionar os Motörhead como influência, mas os finlandeses F.T.W. Boogie Machine não são apenas outra banda. Com pedigree vindo de um passado a tocar a metal extremo, referências musicais a Venom e Ted Nugent (para além da já citada banda de Lemmy), «Rockers Of Destruction» é verdadeiro rock’n’roll dos infernos, cru, directo e ensopado de grandes, grandes solos. Quando vos tentarem “vender” coisas como Chrome Division como rock, contraponham o rock’n’roll intoxicante, de alta cilindrada dos F.T.W. Boogie Machine e reparem na cara da outra pessoa. (4/5)

bookletSTILLA «Ensamhetens Andar»
Nordvis Produktion
Há já algum tempo que o black metal sueco não dava sinais da superioridade que em tempos foi a sua imagem de marca. A segunda proposta dos Stilla, no entanto, vem resolver essa pecha. Ensopado na atmosfera que marcou os anos 90 do género, «Ensamhetens Andar» é um belo exemplo de como o black metal mais atmosférico deve soar hoje em dia: arrepiante, doentio, gelado e belo. Incluindo partes de guitarra acústica, interlúdios fortemente atmosféricos e variedade mas sem nunca abdicar dos princípios de rugosidade e fealdade do género, o quarteto sueco tem aqui um dos mais interessantes exercícios de metal extremo escandinavo neste início de ano. (4/5)

digipack_2_volets_1CDTHE MORGANATICS «Never Be Part Of Your World»
M&O Music
É um bocado puxadote uma banda começar logo a carreira a querer soar como uma mistura de Porcupine Tree, Anathema, Linkin Park e Archive, quando nem os próprios soavam assim quando começaram. Ainda assim, os franceses The Morganatics conseguem, na estreia «Never Be A Part Of Your World», apresentar uma mistura de rock alternativo e metal progressivo cheia de melodias sofisticadas, partes intrincadas e atmosfera apelativa. Tudo com arranjos que não soam forçados, boas vocalizações masculina e feminina e uma atenção ao pormenor que revela know how e talento muito para além do espectro de banda que está apenas a começar. (4/5)

ThoughtsFactory_LostTHOUGHTS FACTORY «Lost»
Melodic Revolution Records
Influências de Symphony X, Dream Theater, Opeth, Transatlantic ou Neal Morse não fazem, por si só, uma boa banda, mas se essa banda tiver a secção rítmica que Paul Gilbert usa ao vivo e um guitarrista frequentemente contratado por gente como Alan Holdsworth, Scott Henderson ou Mike Miller, o caso já muda de figura. A «Lost», o disco de estreia dos alemães Thoughts Factory não falta, por isso, nem coesão técnica nem talento para arranjos que funcionam. O que falta é uma visão clara daquilo que querem fazer, porque não dá para misturar o metal moderno progressivo dos Dream Theater, a abordagem neo-clássica dos Symphony X e o neo-prog dos Transatlantic na mesma música. Pelo menos a julgar pelo carácter sobrevariado, disperso e um pouco megalómano deste disco. (3/5)

Towers_IITOWERS «II»
Eolian Empire
Inicialmente um power trio, os norte-americanos Towers ficaram sem guitarrista depois do álbum de estreia «The Fields» e, enquanto procuravam substituto, descobriram, exploraram e desenvolveram a sonoridade baixo-bateria-voz que é apresentada agora em «II». A editora descreve a coisa como “monólitos de doom sludge, no wave, new wave, industrial e psychedelia” e não anda muito longe da realidade. O baixo é distorcido e pulsante, os padrões rítmicos são surpreendentemente sólidos e imprevisíveis e a voz é experimental e reminiscente do “new wave” de que a editora fala. É uma experiência e peras, por vezes entusiasmante, outras vezes meio vazia entre toda a procura desenfreada de algo novo, mas nunca chata ou previsível. Vale o que vale. (3/5)

BehemothSatan728v2

POSTO DE ESCUTA 10.02.2014

Colosso copyÉ uma autêntica invasão checa que temos no posso Posto de Escuta de hoje. Várias bandas, vários estilos, várias propostas diferentes de um país que parece querer voltar à vanguarda do metal extremo que outrora lhe pertenceu. Os Colosso estão também na mó de cima e não tarda nada que a sua designação seja reflexo do seu estatuto nacional. Depois, há rock medieval alemão e um autêntico vendaval de black metal: progressivo do eixo grego/macedónio, suicida austríaco, psicadélico escandinavo e os novos Motörhead do black metal sueco, chamados Vornth. Boa semana.

Anomalie_BetweenTheLightANOMALIE «Between The Light»
Art Of Propaganda
Disco de estreia de Marrok, guitarrista ao vivo dos austríacos Harakiri For The Sky, que se aventura aqui por terrenos de pós-black metal fortemente influenciados pelo black metal gótico/depressivo. Bons ambientes, bons leads de guitarras e um sólido sentido de melodia e distorção chegam para compensar eventuais exageros na composição, que Marrok provavelmente comete por não ter ninguém consigo que “filtre” as ideias assim-assim. Convidados de Harakiri For The Sky, Bifröst e Ellende ajudam a fazer de «Between The Light» uma proposta promissora que, esperemos, encorajará o multi-instrumentista a continuar a carreira de Anomalie. (4/5)

Colosso_ThalliumCOLOSSO «Thallion»
Auto-financiado
Quem nunca ouviu a música dos portuenses Colosso e apenas ouviu falar deles, fica com a impressão que é um daqueles hypes à portuguesa, fabricado pelo eixo LOUD!/Raging Planet, mas «Thallion», o novo EP, dá uma oportunidade de iluminação a quem deixou passar os dois álbuns de originais editados em 2012. Os primeiros temas são progressivos, os temas do meio são pesados como o raio que os parta e o último – o maior, de seis minutos – tem uma costela fortemente atmosférica. Tudo unido sob a bandeira do death metal, por vezes mais chegado ao sludge, outras vezes mais progressivo e técnico, outras vezes com a velocidade do doom. É um daqueles casos de talento maior do que o país (lembrem-se dos Crushing Sun) em que, por uma vez, o hype é mais do que merecido. (4/5)

Ingrimm_HenktIhnINGRIMM «Henkt Ihn!»
TrollZorn
Os Ingrimm são mais uma da longa linhagem de bandas alemãs de rock/metal medieval, na onda de In Extremo, Subway To Sally ou Ignis Fatuu. «Henkt Ihn!», o seu quarto álbum de originais e cumpre todos os preceitos do género: letras em alemão, gaita-de-foles e violino a darem o toque folk/medieval e um lado mais rock/metaleiro. Como vantagem, os Ingrimm têm uma espécie de dualidade mais vincada entre um metal que chega a ser industrial e as partes melódicas – realmente bastante melódicas, com o violino a assumir um papel preponderante – mas isso não chega para separar a banda bávara da concorrência interna ou destacá-la no plano internacional. (3/5)

Isacaarum_WhorecraftISACAARUM «Whorecraft»
MetalGate Records
Saídos directamente da insuspeita cena extrema checa, onde militam há duas dezenas de anos, os Isacaarum apresentam-nos o seu sétimo álbum de originais, «Whorecraft», e a mais recente versão da mistura de black, death metal e grindcore que têm vindo a fazer sua à conta de muito trabalho e algum talento. A base das nove faixas está no grind – a roçar a pornocore, a julgar pelo conteúdo das letras – mas o quarteto não se coíbe de desacelerar a coisa até ao groove ou até perto do doom/death metal para introduzir uma bem vinda variação e intensificar um pouco a abordagem musical. O resultado é mais esforçado do que propriamente genial, mas providencia 30 minutos de black/death/grind sem reservas de extremismo a quem procura mutilações genitais em formato áudio. (3/5)

KultOfTaurus_DivinationsLabyrinthsKULT OF TAURUS «Divination Labyrinths»
Forever Plagued Records
Apesar das óbvias intenções experimentais e progressivas, «Divination Labyrinths», o disco de estreia dos gregos-macedónios Kult Of Taurus, revela ainda algumas limitações no black metal do quinteto. Essencialmente, as ideias confusas imperam e o som é demasiado in your face para este género musical, embora seja ocasionalmente possível espreitar o modo nada convencional como funcionam as mentes por detrás da composição, o que dá ao disco uma espécie de potencial que é mais sentido do que propriamente palpável. Ainda assim, é suficiente para que gente como Vicotnik, dos Dodheimsgard, se envolva, neste caso na mistura e masterização. Não são nenhuns Ved Buens Ende como pretendem, mas estão a caminho. (3/5)

ReturnToInnocence_RingOfMoonRETURN TO INNOCENCE «The Ring Of Moon»
MetalGate Records
Em 2013, três anos depois de se terem separado, os checos Return To Innocence anunciavam o regresso ao activo e, cerca de seis meses depois, editavam o seu quarto álbum de originais. «The Ring Of Moon» tem como principal característica apresentar o doom/death metal da banda exactamente como se ainda estivéssemos no final dos anos 90, cheio de pormenores étnicos e sinfónicos que nos lembram que o guitarrista, vocalista e líder Ales “Ax”Cipra chegou a ser cantor nos impressionantes Silent Stream Of Godless Elegy. Aconselhado a quem nutra uma saudade especial do ambiente dos primeiros discos dos Amorphis, Therion ou Tristania. Ou seja, datado mas não inteiramente desprovido de um certo romanticismo saudosista. (3/5)

SixDegreesOfSeparation_TheHikeAnd OtherSIX DEGREES OF SEPARATION «The Hike & Other Laments»
MetalGate Records
Quem se lembra da República Checa como uma espécie de enclave de criatividade selvagem no metal europeu de inícios da década passada recordar-se-á certamente dos Six Degrees Of Separation como uma das mais interessantes bandas de doom locais. Pois bem, em Dezembro do ano passado o colectivo editou o seu quinto álbum de originais, «The Hike & Other Laments», e completou um ciclo evolutivo que os transformou numa das mais curiosas entidades de thrash da actualidade. As harmonias vocais, a complexidade rítmica e os arranjos inteligentes abundam nas dez faixas do disco, que se aconselha vivamente a fãs de grupos como Believer, que há anos não encontram nada que não seja uma cópia de alguma coisa feita há décadas atrás. (4/5)

Svarttjern_UltimatumNecrophiliaSVARTTJERN «Ultimatum Necrophilia»
NoiseArt Records
Com uma ética bastante conservadora de black metal escandinavo como ela era feita nos anos 90, os noruegueses Svarttjern propõem-nos o seu terceiro álbum de originais. À abordagem bastante old school dos trabalhos anteriores, junta-se agora uma tomada mais “psicadélica” (a palavra é empregue pelos próprios), de produção mais brutal e de riffs um pouco mais imprevisíveis, respeitando no entanto sempre o livro de estilo do black metal nórdico mais tradicional e satânico. Os Watain ficam à distância de um ferry. (3/5)

Tortharry_FollowTORTHARRY «Follow»
MetalGate Records
É impressionante que «Follow» seja já o oitavo(!) álbum de originais dos checos Tortharry desde que começaram a sua carreira, das cinzas dos Executor, em 1991, mas infelizmente o seu death metal não é tão impressionante assim. Também não é terrivelmente mau, com produção arrancada nos famosos Herz Studios na Polónia e uma espécie de elo de ligação entre o death metal técnico e sem merdas dos Krabathor e o lado mais crunchy de uns Vader. Só que, no processo, os Tortharry não conseguem definir uma personalidade musical verdadeiramente própria e à competência técnica e estilística de «Follow» fica a faltar uma alma. (3/5)

GD30OBH.pdfVORNTH «Vornth»
Iron Tyrant
O refrão, na faixa «Devil”, em que o vocalista e guitarrista Erik Hartmann se grita todo “Spitting black fire!!” basicamente resume o álbum de estreia dos suecos Vornth, editado depois de uma década de actividade intermitente. «Vornth» é o elo perdido entre o thrash abrasivo dos Destruction, o heavy metal primitivo dos Exciter e o thrash/black metal dos Desaster. Dinâmicas, trejeitos old school e outras coisas que possam ser confundidas com ondas do momento são impiedosamente esmagadas por uma mentalidade underground e de pura maldade que permite ao quarteto de Uddevalla misturar speed metal, thrash, heavy metal clássico e proto-black metal num bolo homogéneo, coeso e em última análise absolutamente irresistível. (4/5)

BehemothSatan728v2

POSTO DE ESCUTA 05.02.2014

Youth ForgottenDa Áustria ao Japão, dos bosques finlandeses à cidade da música norte-americana Nashville, aqui estão as propostas desta semana para o Posto de Escuta. Há bombons musicais para todos os gostos: cantautores, death/grind doentio, death metal melódico e heavy metal clássico, não esquecendo as inevitáveis variações modernas e da velha guarda do thrash e ainda uma estranha mistura das sonoridades de Napalm Death e Trap Them. Tirem os auscultadores do descanso e vamos a isso!

Amputated_DissectMolestIngestAMPUTATED «Dissect, Molest, Ingest»
Sevared Records
Quatro anos após «Wading Through Rancid Offal», os Amputated estão de regresso para confirmarem a sua posição cimeira no que ao brutal death/grind inglês diz respeito. «Dissect, Molest, Ingest» são 11 facadas de pura brutalidade doentia, com trejeitos técnicos, breakdowns monumentais, sampling retorcido e carne gorda de death/grind em nos assadores dos riffs e vocalizações duais. Cumpre todos os mandamentos do estilo, mas fá-lo com classe e com requintes de malvadez. Isto vindo da banda que teve a ironia de escrever uma música com o grupo pop feminino Fallen Angelz para o programa da BBC “Singing with the enemy”. Top. (4/5)

HRR_336_Cover_111013BLAZE «The Rock Dinosaur»
High Roller Records
Num mundo do metal (também) cada vez mais global, é impossível a uma banda com a qualidade dos Blaze ficar desterrada no underground, mesmo que seja originária da remota cidade de Osaka, no Japão. A High Roller descobriu-os e reeditou em 2012 o seu álbum de estreia, homónimo, lançado originalmente no Japão em 2007 e lança agora este novo EP de seis faixas que agradará a fãs das sonoridades clássicas de Scorpions e Accept. O que equivale a dizer que «The Rock Dinosaur» é mais heavy metal clássico com uma ponta de hard rock melódico perfeitamente parado no tempo, deliciosamente orientado para a guitarra e orgulhosamente teimoso na abordagem. (3/5)

Conjonctive_UntilTheWholeCONJONCTIVE «Until The Whole World Dies»
Tenacity Music
Depois de uma falsa partida em que praticavam nu-metal/hardcore, os suíços Conjonctive fecharam-se na sala de ensaios por um ano e saíram de lá a praticar o deathcore brutal que agracia este disco de estreia. A coisa é suficientemente bruta (há grindcore de vocalizações de “porco” lá pelo meio) e dinâmica (há momentos mais ambientais), com a vantagem de o grupo contar com uma vocalista feminina de tom gutural que mete respeito e de algumas vocalizações serem em francês. Um bom exercício de deathcore, sobretudo se considerarmos que «Until The Whole World Dies» é ainda a estreia nos longa-duração do projecto. (3/5)

Corpsessed_AbysmalThresholdsCORPSESSED «Abysmal Thresholds»
Dark Descent Records
Depois de dois EPs transformados em culto pelas suas prensagens limitadas e pelo carácter absolutamente Lovecraftiano do death metal dos Corpsessed, os finlandeses lançam finalmente o seu álbum completo. E, pese embora os 48 minutos tornem «Abysmal Thresholds» um pouco massudo sob o peso de todo o seu caos obscuro, não falta nem poder, nem extremismo, nem atitude aos dez temas do disco. Falta talvez um pouco mais de esclarecimento na composição que leve os Corpsessed para outro nível que não apenas o de uma banda que interpreta bem o death metal obscuro pela cartilha. Mas não nos ouvirão queixar quando o que está em causa é este nível de intensidade e maldade. (3/5)

DaysOfLoss_OurFrailExistenceDAYS OF LOSS «Our Frail Existence»
Noisehead Records
Apesar de serem considerados uma das mais promissoras bandas do seu país – a Áustria – e do seu death/thrash metal ter laivos de modernidade à Heaven Shall Burn ou Caliban, a verdade é que os Days Of Loss ainda não estão bem . As influências de In Flames estão bem assimiladas, há algum dark metal que dá variedade aos temas, mas o seu segundo álbum «Our Frail Existence» ainda padece daquele brilhantismo na composição que separa as bandas interessantes das verdadeiramente dotadas. Apesar disso, com uma produção poderosa e eficiência na composição e execução, os Days Of Loss podem agradar a quem não deixa escapar nada neste estilo. (3/5)

FallenFate_IntoTheBlackFALLEN FATE «Into The Black»
Auto-financiado
Thrash moderno com um distinto toque de melodia é a proposta dos britânicos Fallen Fate, que auto-editam o seu segundo álbum de originais «Into The Black», mas mereciam certamente uma “casa” que lhes desse maior exposição. É que a mistura de thrash, death metal melódico e metalcore norte-americano é feita com coesão técnica, atenção ao pormenor e a tal aura de melodia nos solos que pode colocar os Fallen Fate dois passos à frente de todas as outras bandas independentes que praticam este estilo. Fãs de As I Lay Dying, Trivium e Chimaira, arranjem espaço na prateleira de CDs. (3/5)

HeikkiHautala_PyövelinVaatteetHEIKKI HAUTALA «Pyövelin Vaatteet»
Ektro Records/Future Lunch
Heikki Hautala, dos noise/punks Sokea Piste, aventura-se a solo com um disco de nove curtas canções, acompanhadas com guitarra acústica e captadas num gravador de quatro pistas no bosque de Kuru, na Finlândia. Esperem, por isso, o habitual folk/rock despido de truques até ao seu formato mais íntimo, fortemente influenciado por Nick Drake e Scott Kelly, com as não-tão-habituais vocalizações e letras em finlandês. Apenas para quem quer mesmo muito gostar disto. (3/5)

Shrapnel_TheVirusConspiresSHRAPNEL «The Virus Conspires»
Candlelight Records
Thrash à antiga alemã praticado por uma jovem banda inglesa é a proposta dos jovens Shrapnel, a quem bastaram dois EPs, editados respectivamente em 2009 e 2010, para chamar a atenção da Candlelight. Há vestígios, em «The Virus Conspires», da velocidade dos Slayer, mas é na acidez do thrash do triunvirato infernal alemão (Sodom, Destruction, Kreator) que está a principal referência musical dos Shrapnel, que não se preocupam em acrescentar nada ao estilo que recuperam mas que, para compensar, o debitam sem falhas, de forma coesa e nas horas de estalar. (3/5)

Yautja_SongsOfDescentYAUTJA «Songs Of Descent»
Forcefield Recordings
Oriundos de Nashville e com elementos de Coliseum, Gnarwhal e Nameless Cults nas suas fileiras, os Yautja propõem uma espécie orgânica de grindcore, pleno de dissonâncias, riffs graves e complexidade rítmica. É uma espécie de actualização da abordagem dos Napalm Death para a sonoridade dos Trap Them, com paragens para audição de discos de Voivöd, Melvins e The Jesus Lizard. Experimental e perturbador, portanto, mas com um nível de intensidade e vanguardismo sónico que compensa plenamente o tempo investido a barrar «Songs Of Descent» na cavidade auditiva. (3/5)

YouthForgotten_GhostOfAYOUTH FORGOTTEN «Ghost Of A Fallen Empire»
Auto-financiado
Os Youth Forgotten apresentam uma magnífica fusão de dark hardcore logo na sua estreia, plena de energia, dinâmica e alguma melodia nos riffs. A banda é composta por um ex-Integrity e elementos de bandas como Chimaira, Salt The Wound, Dead Even e Above This Fire, por isso o ADN está lá todo. Mas nada pode preparar o ouvinte para os níveis de intensidade e velocidade dos 40 minutos de «Ghost Of A Fallen Empire». Esta soberba mistura de street-punk, dark hardcore e metalcore old school está, por enquanto, apenas disponível digitalmente, mas aguarda-se a edição física para os próximos meses. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 28.01.2014

Iodine 2014Mais uma salada de “frutas” em forma de Posto de Escuta. Do EBM ao rock clássico, passando pelo death/grind, pelo power metal clássico e pelo black metal suicida. Há também o habitual experimentalismo/freak-out finlandês, os Nevermore italianos, o regresso à actividade de um guitarrista com créditos firmados e um dos grandes tesouros da cena nacional actual. Viagem connosco no comboio rápido com vista para alguns dos mais recentes lançamentos do mercado.

BasementTortureKllings_ANightOfBASEMENT TORTURE KILLINGS «A Night Of Brutal Torture»
GrindScene Records
Nada de novo no panorama death/grind, quando os Basement Torture Killings editam o seu segundo álbum. No entanto, e usando os – e abusando dos – mesmos elementos musicais dos Morbid Angel, Nailed, Exhumed ou Deicide, os ingleses conseguem um bom conjunto de temas em «A Night Of Brutal Torture», tocados na hora de estalar, com o entusiasmo de quem está motivado, o ataque vocal dual selvático de bandas como Gorerotted e os seminais samplings. O resultado é puro gourmet para os fãs de death/grind pintado a vermelho vivo. (4/5)

Circle_SseennsseessCIRCLE «Sseennsseess»
Ektro Records
Eis o terreno em que os finlandeses Circles se sentem à vontade. Um projecto em conjunto com o realizador Mika Taanila, um espectáculo multimédia ao vivo e quatro longos temas em que a banda tem hipótese de explorar todo o seu potencial de experimentalismo, incluindo partes de glam rock, improvisação, metal, shoegaze ou mesmo chanson francesa. Como em tudo aquilo em que os Circle tocam, o resultado final requer uma boa dose de habituação, mas compensa com momentos de verdadeiro frenesim genial. Em «Sseennsseess», no entanto, todos os 48 minutos estão envoltos numa lógica ainda mais experimentalista do que é habitual no projecto, pelo que podemos perder o fio à meada com alguma facilidade. Mas nunca deixa de ser interessante. (3/5)

Disharmony_ShadesOfInsanityDISHARMONY «Shades Of Insanity»
Noisehead Records
Depois de uma primeira encarnação no final dos anos 90, os gregos Disharmony separaram-se (alguns dos seus elementos formaram os Scar The Sun) para voltarem ao activo em 2009 e gravarem este álbum de estreia, originalmente editado em auto-financiamento pela banda em 2010 e agora lançado globalmente pela Noisehead. Óbvias influências do heavy metal emotivo dos Nevermore (Warrel Dane chegou a convidá-los para abrir um concerto dos Sanctuary em 2011), alguns toques de metal/rock gótico e uma versão de «Omen» dos Dead Can Dance seria uma “salada” suficiente para estragar «Shades Of Insanity», mas os Disharmony conseguem de alguma forma aguentar tudo com um bom sentido de coesão, melodia e arranjos. (3/5)

HardaSkit_RosRusHÅRDA SKIT «Ros Rus»
Art Of Propaganda
Os finlandeses Hårda Skit têm uma boa cena musical, misturando black metal cru, a distorção de guitarra da cena death metal old school sueca, os tradicionais leads melancólicos finlandeses e passagens de pós-metal. «Ros Rus» é o segundo EP do duo e é constituído por dois longos temas de 11 minutos cada um. Torturado e multifacetado mas ao mesmo tempo simples e melódico, o black metal segundo os Hårda Skit é uma coisa que vale a pena ser ouvida. (4/5)

Iodine_IzabelIODINE «Izabel»
Auto-financiado
Basta fazermos o exercício mental de imaginarmos que estamos a ouvir uma banda internacional para percebermos que os leirienses Iodine chegaram, com o seu novo EP «Izabel», àquele ponto de qualidade em que nos temos de orgulhar deles, gostemos ou não da sua abordagem progressiva ao metalcore. Fortemente (e bem) conceptualizado, o registo mostra uma coesão técnica impressionante, uma constante procura por parte do quinteto de novos territórios musicais (pós-rock e djent são apenas alguns dos “acessórios” frequentemente usados) e uma expansividade atmosférica apenas ao alcance das grandes bandas. O EP está disponível para download gratuito aqui. (4/5)

LeafHound_LiveInJapanLEAF HOUND «Live In Japan»
Ripple Music
Se os Leaf Hound já eram uma espécie de lenda do hard rock inglês, devido a uma curta carreira entre 1969 e 1971 e um álbum soberbo editado nesse período, imaginem quando este tipo de blues/hard rock cheio de soul começou a ser a cena outra vez. O vocalista, fundador e líder Peter Fench ressuscitou o projecto em 2004 e editou um segundo disco, não menos brilhante, em 2007, voltando agora com este trabalho ao vivo. «Live In Japan» divide-se entre os melhores temas de ambos os trabalhos de originais e mostra como a autenticidade, a honestidade musical e o génio rock’n’roll compensam e perseveram sempre. (4/5)

MRDTC_CD_booklet.inddMRDTC «#3 (We Travel)»
Emmo.biz
Os amantes de EBM têm normalmente as ideias bem definidas em relação ao que vale e não vale a pena ouvir, por isso um projecto de Christoph Lemke (Mr. Dupond) e Tino Claus (Amnistia) não tem forma de passar despercebido na cena. Electronic Body Music quente e com um cheiro a old school, electrónica até à quinta casa e cheia de classe é a proposta de «#3 (We Travel)» que, paradoxalmente, é a segunda proposta do duo. A versão de «Sick In Your Mind», dos Klinik, é um dos pontos altos de uma edição limitada a 300 unidades e que conta com duas remisturas de faixas do primeiro disco. (3/5)

RedDragonCartel_RedDragonCartelRED DRAGON CARTEL «Red Dragon Cartel»
Frontiers Records
Red Dragon Cartel é o projecto que traz de volta à cena musical Jake E. Lee, o guitarrista que assumiu a difícil posição de Randy Rhoads, quando este faleceu em 1982, na banda de Ozzy Osbourne. Escrito em parceria com uma “equipa” (que aparentemente o convenceu a fazer isto) e com gente relevante a aparecer e a desaparecer dos holofotes (Maria Brink dos In This Moment, o ex-Iron Maiden Paul Di’Anno e Robin Zander dos Cheap Trick, entre outros), «Red Dragon Cartel», apesar de rockar com a eficiência dos músicos envolvidos e com a qualidade de solos reconhecida a Jake E. Lee, não consegue (não quer?) afastar por inteiro a ideia de “Ozzy Osbourne de segunda divisão” que paira sobre os seus 46 minutos. (3/5)

Stormwarrior_Thunder&SteeleSTORMWARRIOR «Thunder & Steel»
Massacre Records
Há já década e meia que os alemães Stormwarrior vêm desenvolvendo o seu power/speed metal reminiscente de Helloween antigo, Iron Savior e Gamma Ray. “Desenvolvendo” não será bem o verbo a empregar, uma vez que o quarteto optou desde cedo, como «Thunder & Steel» volta a mostrar, por uma abordagem conservadora ao estilo, pese embora sempre cheia de garra, solos heavy metal irrepreensíveis e estruturas em que cabe tudo o que de bom o género tem. Se forem capazes de ultrapassar uma mistura em que as guitarras estão claramente mais altas que tudo o resto e em que a voz de Lars Ramcke fica desconfortavelmente perto do tom de Kai Hansen, esta pode ser uma boa proposta. (3/5)

TheKennedyVeil_TrinityOfFalsehoodTHE KENNEDY VEIL «Trinity Of Falsehood»
Unique Leader
O death metal “sem modas” dos norte-americanos The Kennedy Veil colocou-os na influente Unique Leader logo após um álbum de estreia auto-financiado e o quarteto californiano não desilude com «Trinity Of Falsehood». Precisão maníaca, boa dinâmica nos arranjos e um sentido de brutalidade que vai buscar influências aos mestres do género: Deicide, Morbid Angel e Cannibal Corpse. Um grande disco de death metal brutal para fãs de death metal brutal. (4/5)

Vardan_TheWoodsIsVARDAN «The Wood Is My Coffin»
Moribund
O regresso do italiano Vardan aos álbuns de originais, seis meses depois de «Dreaming… Living My Funeral…» não traz grandes novidades ao seu black metal fortemente atmosférico, suicida e depressivo. Mas também não é preciso, porque a receita musical do senhor contém basicamente tudo o que os fãs do género apreciam: black metal gelado de vocalizações desumanas, partes lentas e tristes, atmosfera quase palpável e um desolado sentido de ausência de esperança e luz. «The Wood Is My Coffin» pode acrescentar classe aqui e ali ao que Vardan já tinha feito anteriormente, mas é basicamente a continuação lógica da ascenção do multi-instrumentista na cena DSBM. (4/5)

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POSTO DE ESCUTA 24.01.2014

Midnite Hellion Promo Pic 1 copyMais uma semana que termina, mais um Posto de Escuta recheado de boas propostas e outras mais ou menos. O black metal mais depressivo está bem representado, assim como o heavy metal clássico. Depois, há o regresso dos veteranos do new wave progressivo Legend para uma espécie de estranha aclamação tardia, um guitar hero italiano e um compatriota que se lança num projecto a solo. Um pouco para todos os gostos, portanto.

Abyssal_DenouementABYSSAL «Novit enim Dominus qui sunt eius»
Iron Bonehead Productions
Auto-financiado pela banda no início de 2013, «Novit enim Dominus qui sunt eius», o segundo disco dos britânicos Abyssal, foi pouco depois reeditado em CD pela influente Profound Lore e, poucos meses depois, de novo pela Exitium Productions, numa edição em splipcase limitada a 150 unidades. Agora chega ao formato vinil, num LP duplo limitado a 500 unidades. O motivo é simples: o death metal do projecto britânico, ensopado de doom, black metal e atmosfera obscura, presta-se ao culto underground, cheio de partes caóticas, outras hipnóticas, outras puramente maléficas, e um grunhido com um low end que envergonharia grande parte das bandas “ocultistas” que se dizem inspiradas por Lovecraft. (4/5)

Apostolum_WindsOfDisillusionAPOSTOLUM «Winds Of Disillusion»
Moribund
Bom black metal suicida por parte dos italianos Apostolum no seu disco de estreia, depois de um EP de apresentação algo morno editado há seis anos. «Winds Of Disillusion» vem agora corrigir os aspectos menos positivos de «Anedonia» com uma utilização plena de bom gosto de rock suicida, black’n’roll e tendência para a sinfonia negra. Não é nada que deslumbre por aí além, mas trata-se de uma proposta sólida e sem falhas de um projecto que pode muito bem constituir uma alternativa credível para quem procura uma actualização extrema da sonoridade dos Beastmilk. (3/5)

DistantPast_UtopianVoidDISTANT PAST «Utopian Void»
Pure Steel Publising
Power metal na onda de Iron Maiden é o prato principal servido pelos suíços Distant Past, que chegam ao quarto álbum de originais ainda com resquícios da abordagem progressiva/misteriosa – e original – das três propostas anteriores e um sentido de variedade que os levou a gravar um tema que parece de Megadeth e outro à Black Sabbath da era do Dio. Interessante para fãs de heavy metal/NWOBHM tradicional mas, devido ao seu carácter extremamente específico, a pouco mais que esses. (3/5)

Hangatyr_ElementeHANGATYR «Elemente»
Auto-financiado
Se quaisquer provas fossem necessárias de que a cena de black metal “pagão” está bem e recomenda-se, «Elemente», o segundo disco dos alemães Hangatyr serviria na perfeição. Aliando melodias da Turíngia, de onde são originários, ao mais frio black metal escandinavo e acrescentando um sentido de melodia muito heathen, o quinteto consegue um bom conjunto de temas que, pese embora acrescentem muito pouco ao black metal pagão enquanto estilo, funcionam na perfeição dentro dos seus parâmetros. (3/5)

JoeSal_LiveAtSaimmieJOE SAL «Live At Saimmie»
Auto-financiado
Joe Sal é um dos virtuosos da guitarra em Itália, com um currículo cheio de passagens por bandas como KickStart, RedZen, SoulEngine ou Archangel. Em 2012 iniciou uma carreira em nome próprio onde mistura rock, pop, soul e blues e é esse o reportório presente em «Live At Saimmie», gravado em formato acústico na célebre sala milanesa. Tem alguma piada, mas quem possui um dos registos similares de Paul Gilbert sabe que este tipo de registo e estilo pode ser muito, muito melhor. (3/5)

Legend_SpiritLEGEND «Spirit»
Revenheart
A excitação com que este novo disco dos veteranos britânicos Legend está a ser recebido revela bem o hype do espírito old school. A mistura de rock progressivo, new wave, folk, doom psicadélico e vocalizações à Kate Bush não passaria, até à meia-dúzia de anos, de material para ser consumido pelos freaks que gostam de Renaissance, Jethro Tull ou Rush, mas «Spirit» tem recolhido rasgados elogios de revistas de referência como a Classic Rock ou sites como o ProgArchives. É meia dezena de longos temas que provam porque são os Legend um dos grandes segredos do neo-prog britânico há já tantos anos, mas daí a serem considerados os novos Hawkwinds ou Jefferson Airplane vai um longo caminho, apenas percorrido por uma imprensa irrealista e ansiosa por descobrir novos heróis de novos estilos que vendam uns disquinhos aos putos com a mania do old school. (3/5)

MidniteHellion_HourOfTheMIDNITE HELLION «Hour Of The Wolf»
Witches Brew
Os norte-americanos Midnite Hellion têm vindo a tentar a sua sorte no mundo do heavy/speed metal tradicional desde 2011 e, para este novo EP, recrutaram uma vocalista feminina – Pamela “P.J.” Berlinghof, dos Twilight Odyssey – para tornarem a sua proposta mais apelativa e mais trend-friendly. O resultado são dois temas – «Hour Of The Wolf» e «The Morrigan» – em que os princípios do heavy/speed metal tradicional são respeitados até à última escala, sem qualquer sombra de originalidade mas com uma energia e arranjos apreciáveis. Limitado a 500 unidades (100 em azul translúcido e 400 em preto “clássico”), o EP em 7” vale pelo seu sabor retro, mas no processo consegue sacar duas músicas que não ficam a dever nada ao heavy metal sólido de antigamente. (3/5)

Serpent_PossessedByNightSERPENT «Possessed By Night»
High Roller Records
Lado a lado com a recuperação das sonoridades dos Mercyful Fate ou da primeira fase do heavy metal clássico alemão, existe um movimento de novo/velho NWOBHM que se assinala mais uma vez com esta reedição em vinil (limitada a 333 cópias) da maqueta de estreia dos alemães Serpent. Os próprios admitem fortes influências de nomes como Satan, Blitzkrieg e Savage no seu heavy metal cru e algo naïve. A coisa resulta bem num registo de saudosismo do movimento original do New Wave Of British Heavy Metal, mas numa altura em que os próprios Hell parecem ter evoluído para algo mais do que a sonoridade clássica, não fará mais sentido ter as edições dos próprios Satan ou Blitzkrieg em vez de apoiar cópias modernas de segunda classe que tentam por todos os meios soar como se estivéssemos no final dos anos 70? (3/5)

SufferingInSolitude_APlaceApartSUFFERING IN SOLITUDE «A Place Apart»
Domestic Genocide
Os amantes de black metal depressivo têm nos Suffering In Solitude uma boa surpresa, já que o trio – que começou por ser um projecto do guitarrista, vocalista e baterista Christopher A. – não perde tempo e propõe uma sólida mistura de black metal suicida e shoegaze logo no lançamento de estreia. Entre as habituais passagens de tortuoso sofrimento sónico e os expansivos ambientes de pura tristeza, «A Place Apart» cumpre todos os parâmetros do black metal melancólico, segundo os ensinamentos de Lantlôs, Nocturnal Depression ou Sombres Forets. (4/5)

Thundeproject_VolITHUNDERPROJECT «Vol. I»
Auto-financiado
Riccardo Scaramelli, guitarrista e vocalista dos italianos Bluerose, aventura-se numa carreira a solo, onde toca todos os instrumentos e canta, e tem aqui o seu disco de estreia. «Vol. I» é uma espécie de fusão do thrash da Bay Area era Metallica, de algum metal progressivo, power metal e composição virada para os solos de guitarra. Não é irresistível, sobretudo porque os lugares comuns ainda são muitos e a produção poderia ser melhor, mas com um livro a acompanhar o disco, ambição e margem para evolução não parece faltar ao Thunderproject. (3/5)

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POSTO DE ESCUTA 05.01.2014

Black VulpineUma banda eslovena feminina de doom, uma recuperação de um split absolutamente javardo, duas propostas de novo-prog, uma jovem banda de stoner rock capaz de surpreender muita gente ou a versão italiana do clássico guitar-hero são apenas algumas das novas propostas que analisámos durante esta semana. Bem-vindos ao primeiro posto de escuta de 2014.

Barishi_SkyBurialBARISHI «Barishi»
Auto-financiado
Formados em 2010 como trio de metal progressivo e de fusão (na altura sob a designação de Atlatl), os Barishi foram, desde aí, incorporando elementos musicais cada vez pais pesados, até terem encontrado um vocalista em 2012. Agora, no disco de estreia, demonstram como se pode aliar uma abordagem verdadeiramente progressiva (há saxofone em duas faixas!), metal de fusão (escute-se a demonstração de guitar hero à quarta faixa) e prog-metal psicadélico, assim à Intronaut, com inventividade e sem pontas soltas. Uma boa surpresa à espera de quem gosta de metal verdadeiramente progressivo. (4/5)

blackvulpine_demoBLACK VULPINE «Demo»
Moment Of Collapse
Anteriormente conhecidos como Newphoria, nome com o qual lançaram o álbum «Stop And Start» em 2009, os Black Vulpine regressam agora com uma nova sonoridade. Stoner rock de riffs sludge, vocalizações femininas e melodias psicadélicas é a nova combinação do grupo, que cita agora influências de Kylesa, Baroness e Red Fang. E, a julgar pelas três curtas faixas que apresentam nesta maqueta, com razão. É que o stoner rock dificilmente consegue combinar efectividade de escrita, peso e leads psicadélicos com a convicção e estilo com que os Black Vulpine o fazem. Disponível exclusivamente em formato digital. (4/5)

BrunoCavicchini_MoodBalanceBRUNO CAVICCHINI «Mood Balance»
Videoradio
Versão italiana do guitar-hero que funda uma banda com o seu nome e cuja composição – instrumental, como é óbvio – anda sempre à volta da guitarra. Boa variedade, algum bom fraseamento com o instrumento, estruturas muito bem definidas, mas basicamente o mesmo de outros artistas. A qualidade de Bruno Cavicchini não fica atrás, mas se é uma questão de nomes, mais vale ouvir o Martin Freedman, Steve Vai ou mesmo o Paulo Barros, dos Tarantula. (3/5)

CD400_outCATEGORY VI «Fireborn»
Auto-financiado
Depois de se formarem em 2010 e editarem uma primeira maqueta em 2011, os canadianos Category VI chegam agora ao disco de estreia com o seu heavy/power metal relativamente desenvolvido. Na sonoridade da banda, destacam-se os riffs à Iron Maiden de parte dos temas, assim como as vocalizações femininas de Amanda Gosse, que são mesmo femininas e não tentam imular a voz thrashy de homem nenhum. Pelo meio o grupo incorpora também alguns elementos de metal melódico e mesmo thrash, mas falta à composição algo mais que transforme «Fireborn» numa proposta verdadeiramente memorável, não apenas num exercício vagamente interessante de heavy/power metal de voz feminina e portas abertas para outras influências. (3/5)

FullOfHell_CalmTheFireFULL OF HELL/CALM THE FIRE «Split 7”»
A389 Recordings
Lançado originalmente há uns anos pela Holy Roar Records numa edição limitada, este split dos norte-americanos Full Of Hell com os polacos Calm The Fire é possivelmente uma das coisas mais deliciosamente porcas que algumas pessoas têm em casa. A mistura de metal, hardcore, crust e sludge dos Ful Of Hell explodiu autenticamente com o novo álbum «Rudiments Of Mutilation», enquanto que o d-beat com laivos de rock’n’roll e hardcore dos Calm The Fire dá um bom complemento de exoticidade ao lançamento. Boa recuperação. (4/5)

MahoganyHeadGrenade_ReturnToTheMAHOGANY HEAD GRENADE «Return To The Point Of Departure»
Auto-financiado
Directamente do Texas, os Mahogany Head Grenade são um trio de metal/rock progressivo, daqueles instrumentais que usam sampling de filmes para adensar os ambientes. A abordagem musical do seu EP de estreia é algo conservadora no que diz respeito às regras do género e às influências mais óbvias de quem pratica este estilo de música, mas os senhores conseguem inserir uma forte dinâmica nos arranjos e possuem um sólido arsenal técnico e uma excelente qualidade de gravação. Vale a pena ouvir, se estiverem na onda do metal/rock instrumental/experimental/progressivo, mas não muito aventureiro. (3/5)

Mist_Demo2013MIST «Demo 2013»
Auto-financiado
Há qualquer coisa de irresistível num quinteto esloveno só de mulheres a praticar doom clássico como manda a tradição de Black Sabbath, Pentagram, Candlemass ou Saint Vitus e a editar uma maqueta de duas faixas. A «Demo 2013», composta pelos temas «Phobia» e «The Living Dead», parece pois ter a atmosfera certa à sua volta, apesar das Mist tentarem praticar basicamente doom metal ocultista e psicadélico como os seus ídolos, acabando o processo com um produto meio inocente, meio estéril em termos de originalidade, mas definitivamente com muita pinta. A maqueta está disponível em CD (Eur 4,00 mais um de portes) e formato digital. (3/5)

Opossum Holler_It Comes In ThreesOPOSSUM HOLLER «It Comes In Threes»
Auto-financiado
Depois de editarem o disco de estreia, e enquanto compõem o novo álbum, os Opossum Holler lançam aqui um EP digital de três faixas que pode muito bem servir de porta de entrada para quem não conhece o trio do Kentucky. Porque «It Comes In Threes» é o exemplo perfeito de como pode funcionar, no seu melhor, a rápida mistura de doom, rock’n’roll, punk e espírito rockabilly do grupo. Sem fillers e com aquela sensação de “menos é mais” dos EPs. (3/5)

Redneck_PossessionREDNECK «Possession»
Eolian Empire
Aparentemente muito intenso nas performances ao vivo, o projecto Redneck apresenta aqui dois temas, num total de 34 minutos, de puro noise, experimental e amplificado ao máximo, que parte de sampling de madeira a ser cortada ou vidro a ser partido para uma cacofonia quase inaudível. Aos dez minutos de cada um dos temas lá vem a voz, torturada e dilacerada como se pede num projecto com estas características, a trazer mais Spektr para uma proposta já de si absurdamente experimental. «Possession» é puro noise pelo prazer do noise e mesmo fãs com ouvidos treinados em Throbbing Gristle ou Merzbow terão dificuldades em engolir Redneck de um só trago. (3/5)

TheaterOfTheAbsurd_TheMythOfTHEATER OF THE ABSURD «The Myth Of Sysphus»
Graviton Music Services
Normalmente a “dinâmica” que implica mudar de estilo de música a cada 20 segundos, em composições que nos colocam a tentar acompanhar o que os músicos andam para ali a fazer, ao invés de nos dar composições que possam ser devidamente apreciadas, é má. No caso dos norte-americanos Theater Of The Absurd, é boa. A banda pega no prog-metal fortemente influenciado pelos anos 70, acrescenta-lhe um pendor de metal extremo, uma forte carga dramática e um sentido de esquizofrenia que redefine a palavra “imprevisibilidade” e acaba com uma viagem musical espantosa chamada «The Myth Of Sysphus». Ou, como diz o outro, o improvável mas bem executado cruzamento de Gentle Giant, Faith No More, Genesis, Cynic e Gonin-Ish. Assim mesmo. (4/5)

AA_EvilUnleashed_Banner_550-70_E

DA POLÓNIA, COM AMOR

A cena polaca não pára de nos surpreender, com quantidade e sobretudo com qualidade das suas jovens bandas. E se nomes como Vader, Behemoth, Riverside ou Decapitated são apenas a face mais visível de um panorama saudável, a verdade é que basta dar um pontapé numa pedra na Polónia para aparecer um jovem projecto e o mais certo é que tenha uma proposta muito válida para ouvirmos. Fomos, por isso, desenterrar na cena local alguns grupos independentes com novos lançamentos e analisar também as mais recentes pérolas de uma das mais respeitadas editoras underground locais: a Old Temple. Jechac dalej!

DormantOrdeal_ItRainsItDORMANT ORDEAL «It Rains, It Pours» Auto-financiado Com um início de álbum que não envergonharia os Emperor em «IX Equilibrium», os Dormant Ordeal estreiam-se com «It Rains, It Pours» e dão o melhor seguimento possível à escolha polaca de death metal. É bruto, é tecnicamente preciso e tem uma profundidade que lhes permite socorrerem-se de ambientes carregados e solos mais melancólicos para, camada a camada, fazerem uma proposta plena de intensidade e versatilidade. Os Behemoth, os Vesania e os Vader podem ter orgulho nestes compatriotas. E isto é o underground deles… (4/5)

Driller_AllShallBurnDRILLERS «All Shall Burn» Auto-financiado É nisto que os polacos são bons. Praticamente do nada, os Drillers surgiram no final dos anos 00, lançaram uma maqueta logo a seguir e agora estreiam-se com «All Shall Burn», um disco de thrash com desenvoltura estilística e técnica a todos os títulos apreciável. Basta meia-dúzia de faixas para perceberemos que a banda pode ir musicalmente onde quiser (do crossover de «Zombie Invaders» à poderosa injecção de grind onde é preciso, passando pela Slayeresca «Judgement Day»). Tudo feito com coesão, poder, peso e produção muito convincente. (4/5)

Inferis_ObscureRitualsOfINFERIS «Obscure Rituals Of Death And Destruction» Old Temple Oriundos de Santiago, no Chile, os Inferis têm aquela aura de death metal malévolo que parece verdadeiramente apenas ao alcance das bandas sul-americanas, mas completam a proposta com técnica e coesão. «Obscure Rituals Of Death And Destruction» é o segundo álbum de originais, apesar da origem do colectivo remontar a 1998, e oscila entre o mais bruto death metal de blastbeat bem afiado e uma aura gélida e extrema de death/black metal. Feito segundo os parâmetros do estilo, mas competente e sem falhas. (4/5)

InSilent_PotepienieIN SILENT «Potepienie» Auto-financiado Apesar de terem editado duas maquetas na segunda metade dos anos 90, altura em que se formaram, os In Silent passaram toda a década de 00 apenas com mais dois sinais de vida, através de outras duas demos, lançados em 2000 e 2009 respectivamente. O renascer da forma mais ortodoxa de death metal reacendeu, no entanto, a motivação do quarteto de Sandomierz, que surge neste registo oficial de estreia (sete faixas, 22 minutos), com um lado bruto e técnico que deixa para trás a abordagem doom da primeira fase da sua carreira. É mais ou menos coeso, mais ou menos técnico e com as referências habituais (Morbid Angel, Cannibal Corpse), mas há que reconhecer que, da Polónia, há jovens bandas de death metal mais interessantes actualmente. (3/5)

Pandemonium_TheAncientCatatoniaPANDEMONIUM «The Ancient Catatonia» Old Temple Com um magnífico álbum de regresso editado o ano passado pela Pagan Records, os Pandemonium recordaram ao mundo como deve o bom e velho dark/death/black metal soar. «The Ancient Catatonia» foi, em 1994, o disco de estreia da banda e reveste-se de um saudosismo especial devido à aura perfeita, misto de doom com violino e death metal tão lento e de riffs tão rock que não havia outro remédio senão chamar-lhe “dark metal”. Esta reedição feita agora pela Old Temple conta com um folheto maior do que o original, com scans de entrevistas dadas pela banda a fanzines polacas da época. Uma bela recordação que, incrivelmente, não perdeu a sua relevância musical. (5/5)

Pathogen_ForgedInThePATHOGEN «Forged In The Crucible Of Death» Old Temple Os filipinos Pathogen são especializados em death metal apocalíptico há mais de uma década e, neste seu terceiro álbum de originais, mostram que no seu mundo não existe old school. Apenas esta estirpe incrivelmente porca, deliciosamente underground e clássica do estilo. Na sua demanda por novas editoras – que já o meteu em sarilhos em em 2009 com uma reedição do seu álbum de estreia feita por duas editoras diferentes sem uma saber da outra – o grupo chega neste trabalho à polaca Old Temple. (3/5)

Pathogen_LustOfEvilPATHOGEN «Lust Of Fate» Old Temple Compilação que reúne os temas editados em dois lançamentos feitos anteriormente em cassete pelos Pathogen: «Lust Evil» (de 2011) e «Gryphon» (2012), incluindo versões de Brain Dead («Rites Of Tyrants») e Intoxication Of Violence («Another Destructive Century»). Death metal caótico e underground, com a deliciosa «Las Sandas Ng Diablo» a abrir as hostilidades. Edição numerada, mas não limitada. Dificilmente haverá death metal mais underground que este… (3/5)

TurinTurambar_RzeczpospolitaCzartowskaTÚRIN TURAMBAR «Rzeczpospolita Czartowska» Auto-financiado Apesar de formados em 1992, os Túrin Turambar (presentes na foto de destaque deste artigo) andaram a arrastar-se nos primeiros tempos da sua carreira, com três maquetas editadas em mais de 15 anos. Nada que o trio de Tarnów não compense este ano, em que já vai com dois (!) álbuns de originais e um EP. «Rzeczpospolita Czartowska», o primeiro dos discos completos de estúdio, foi gravado em 2012 e editado pela banda em Março deste ano, contendo nove faixas de um black metal tão vanguardista quanto progressivo e intrigante. Apesar da gravação, crua e caseira, dá para perceber que os Túrin Turambar vão para além do espectro de meros músicos a tentar imular os seus ídolos, com arranjos dissonantes nas guitarras, alguma fusão que chama o jazz ao metal, voz thrash e letras em polaco. Uma descoberta interessante para quem aprecia o lado bizarro mas musical de projectos como Lux Occulta. (4/5)

POSTO DE ESCUTA 21.05.2013

AngelsOfBabylon_ThundergodANGELS OF BABYLON «Thundergod» (Scarlet Records) Com um álbum de estreia, que começa a ser considerado de culto, editado em 2010, o ex-baterista dos Manowar Rhino, o baixista dos Megadeth David Ellefson e o talentoso guitarista Ethan Brosh regressam com «Thundergod». E, tal como o seu antecessor, o novo disco dos Angels Of Babylon contém uma séria dose de heavy metal épico que não é nem demasiado pomposo nem demasiado melódico, com a vantagem de ter todos os ingredientes no sítio certo para agradar a fãs de “true” metal. (4/5)

12 Jacket (3mm Spine) [GDOB-30H3-007}ENEMY REIGN «Tormented To Oblivion» (Auto-financiado) Com apenas um EP (em 2008) e um álbum de originais (em 2012) editados, os norte-americanos Enemy Reign não se ensaiam nada em lançar uma compilação com as faixas do primeiro e as melhores do segundo, devidamente remasterizadas. Para além da óbvia inutilidade de um lançamento que é mais feito para chamar a atenção que não foi conseguida aquando das duas edições originais, fica a nota do death metal bruto e tecnicamente competente, feito por quem e para quem aprecia o estilo, sem brilhantismo mas com uma enorme convicção. (3/5)

Gothminister_UtopiaGOTHMINISTER «Utopia» (AFM Recors) Quem gosta de metal industrial coberto com uma espessa camada de gótico dispensará apresentações aos Gothminister. A banda norueguesa combina há uma década som pesado, electrónico e industrial com melodias decadentes, lançando com «Utopia» a sua sexta proposta de estudio e aperfeiçoando a receita musical até ao ponto do mainstream. As melodias são pura e simplesmente irresistíveis, enquanto os ambientes góticos e os ritmos industriais/electrónicos se encarregam de restaurar a aura de modernidade decadente que o projecto liderado por Bjørn Alexander Brem tão bem soube cultivar no seu fundo de catálogo. Depois, há um ambiente de banda sonora que complementa a música dos Gothminister e a torna ainda mais apelativa. Um bom disquinho para se ouvir enquanto conduzimos para Leiria, a caminho do Entremuralhas. (4/5)

Imprecation_SatanaeTenebrisInfinitaIMPRECATION «Satanae Tenebris Infinita» (Dark Descent Records) Sendo um bom lançamento para complementar o dos seus companheiros de editora Lantern, «Satanae Tenebris Infinita», o disco de estreia dos norte-americanos Imprecation segue o mesmo caminho de death metal saturado de trevas e de underground, mas com menos dinâmica e mais baseado em meios-tempos. Ou seja, ideal para amantes das sonoridades de Incantation ou Infester, com uma grande ênfase no legado mais obscuro do death metal dos anos 90, década em que os Imprecation chegaram a editar duas maquetas, um EP e uma compilação antes de se separarem, para voltarem ao activo em 2009. (3/5)

Noisem_AgonyDefinedNOISEM «Agony Defined» (A389 Records) Anteriormente conhecidos como Necropsy, os Noisem são uma jovem banda (os seus elementos têm entre 15 e 20 anos) que se estreiam com «Agony Defined», um disco de thrash/death metal na onda dos grandes clássicos de Slayer, Kreator ou Morbid Angel. Não falta velocidade, solos vertiginosos, peso e atitude aos putos, que revelam igualmente um gosto pelo som de Satanás via óbvias influências de Helhammer. Uma estreia promissora para quem acha que os Toxic Holocaust deveriam ser mais tradicionais. (4/5)

PTSD_ASenseOfPTSD «A Sense Of Decay» (My Kingdom Music) O metal “alternativo” dos italianos PTSD tinha passado algo despercebido, devido à falta de esclarecimento que a composição revelava, no disco de estreia de 2008. Agora, com a segunda proposta, só passará despercebido a quem andar muito distraído. Os ritmos progressivos e intrincados, o trabalho de guitarra que oscila entre riffs ritmicamente sólidos, leads atmosféricos absolutamente deslumbrantes e a voz limpa e “cantada”, única referência verdadeiramente “alternativa” nos PTSD, faz de «A Sense Of Decay» um exercício de metal sofisticado, estilisticamente variado e moderno que merece ser conhecido e devidamente apreciado. (4/5)

SatanCarnage_RitualSATAN CARNAGE «Ritual» (Records Of Voztik) São jovens e são portugueses. Esta combinação costuma produzir bons frutos no metal, mas no caso dos Satan Carnage o álbum de estreia «Ritual» talvez tenha saído um pouco cedo de mais. Não que falte intensidade, peso ou extremismo ao black/death metal agraciado por voz “demoníaca” à grindcore do grupo. O que falta é uma melhor qualidade de produção, um maior esclarecimento na composição e evitar cair em tantos lugares comuns sem apresentar nada de verdadeiramente novo. O que significa que, passadas duas faixas da primeira audição, a receita começa basicamente a repetir-se. Nota-se que o entusiasmo e o talento estão lá. Falta apenas refinar a coisa. (2/5)

TheShakingSensations_StartStopWorryingTHE SHAKING SENSATIONS «Start Stop Worrying» (PelAgic Records) Considerados os líderes da cena pós-rock instrumental dinamarquesa depois de apenas um EP e um álbum de originais editados, os The Shaking Sensations regressam aos discos com «Start Stop Worrying», colecção de seis músicas que, apesar de mais directas e épicas do que aquilo que o colectivo fez no passado, continua a cair exactamente na gaveta do pós-rock instrumental de bandas como Godspeed You! Black Emperor, This Will Destroy You ou Mono. Sem surpresas, mas com qualidade suficiente para agradar aos fãs dos projectos supra citados. (3/5)

TräumenVonAurora_RekonvaleszenzTRÄUMEN VON AURORA «Rekonvaleszenz» (Trollzorn Records) Apesar de, na faixa de abertura de «Rekonvaleszenz», começar por rir-se da etiqueta “pós-black metal” que lhe foi colada com o disco de estreia o ano passado, o quinteto alemão Träumen Von Aurora rapidamente despe o seu lado de black metal rápido, brutal e agressivo para assumir as influências pós-rock que os colocam directamente no lado das grandes esperanças do black metal germânico actual. As cinco faixas propostas neste segundo álbum chegam a píncaros de beleza que dificilmente se observam fora do universo que gravita à volta de Neige, dos Alcest, mas os Träumen Von Aurora nunca perdem de vista uma certa abordagem vanguardista só para enveredarem pelo pós-rock simples e plano. O resultado é um disco de black metal meditativo, algo melancólico, que atinge o extremismo por via dos contrastes. (4/5)

VoiceOfRevenge_DisintegrationVOICE OF REVENGE «Disintegration» (MDD Records) A influência de uma banda como os Hypocrisy no mundo do metal não deve ser menosprezada. Eventualmente são eles – mas também os Unleashed, Omnium Gatherum ou Edge Of Sanity, por exemplo – que formam os gostos de jovens como os integrantes dos Voice Of Revenge que depois, quando se juntam para formar uma banda, acabam a praticar death metal bruto com um olho na melodia. «Disintegration», o segundo álbum do colectivo alemão, consegue equilibrar de forma muito decente ambas as vertentes e constitui-se como uma alternativa underground válida à banda de Peter Tägtgren. (3/5)

POSTO DE ESCUTA 16.05.2013

Impalers_PowersBehindTheIMPALERS «Power Behind The Throne» (Horror Pain Gore Death Productions) Depois de duas maquetas, é mais que tempo dos dinamarqueses Impalers saírem do mais profundo underground e mostrarem ao mundo a sua visão – retorcida e obscura – do que é o thrash. Rápido, visceral, vicioso e com um pé bem assente no mais agressivo dos estilos teutónicos, «Power Behind The Throne» é um refrescante regresso às origens de quem tem nos Desaster ou no material mais antigo dos Sodom os seus discos favoritos. (4/5)

Jacob_TheOminousJACOB «The Ominous» (Knockturne Records) Projecto levado a cabo por Marco Serrato (Orthodox) e David Cordero (Úrsula), Jacob é uma viagem soturna e altamente experimental àquilo que o duo chama “el cine de la mente”. Esperem de «The Ominous» seis faixas em que o dark ambient se une à música contemporânea, noise e algum drone, sempre em busca do som inexplorado, sempre com a atmosfera enevoada em mente. Não é uma caminhada no passeio marítimo da marginal ao domingo à tarde, mas pode muito bem ser a banda-sonora da viagem para mais uma sessão de quimioterapia. (3/5)

Lo!_MonstrorumHistoriaLO! «Monstrorum Historia» (PelAgic Records) Depois de andarmos uns anos a nadar em abundância, há já algum tempo que não aparecem novas bandas válidas de sludge/pós-metal. Uma das últimas foram os australianos Lo! Com o surpreendente «Look And Behold» em 2011. O regresso é agora consumado com «Monstrotum Historia», um som mais sujo e uma porta de ligação ao hardcore mais escancarada. O resultado é interessante sem ser entusiasmante, mas servirá de boa lenha para manter o sludge/pós-metal a arder. (3/5)

Orthodox_DerFliegendeholländerORTHODOX «Der Fliegende Holländer» (Knockturne Records) Os espanhóis Orthodox dispensam apresentações para quem gosta de bom doom metal experimental, mas mesmo esses terão uma enorme surpresa com este mini-álbum de três faixas gravadas ao vivo. Ao longo de «Al Allaudor» (música nova, com David Cordero dos Jacob e Úrsula), «Com sangre de quien te ofenda» e «Templos» (ambos do disco de 2007 «Amanecer en Puerta Oscura), o trio atira-se de cabeça para territórios de improvisação. Algures entre o puro experimentalismo e o pós-drone hipnótico dos Earth, o ambiente dos Orthodox neste documento é pura magia musical, daquela que torna privilegiado quem estava lá ou, numa escala menor, um dos 100 felizardos que colocar as mãos nesta edição em cassete assinada pelo grupo. (4/5)

RhapsodyOfFire_LiveFromChaosRHAPSODY OF FIRE «Live – From Chaos To Eternity» (AFM Records) Sem beliscar a excelente captação sonora, a magnífica prestação da banda e a qualidade – inegável – dos grandes clássicos e mesmo do material mais recente dos Rhapsody Of Fire, «Live – From Chaos To Eternity» disfarça mal o facto de ser apenas um cash in fácil da versão do grupo do vocalista Fabio Lione e do teclista Alex Staropoli. É que os Rhapsody, quando eram ainda apenas uma banda e tinham Luca Turilli no colectivo, lançaram um disco ao vivo há sete anos atrás. Certo, este é mais completo (é duplo) e tem uma qualidade sonora e um fogo motivacional que bate o lançamento anterior ao vivo, mas se é para desatar a fazer gravações ao vivo a torto e a direito e a mugir tetas de antigamente, mais valia estarem quietos. (3/5)

ServiDiaboli_WeAreHiddenSERVI DIABOLI «We Are Hidden» (Auto-financiado) Depois de uma primeira maqueta em 2011, o projecto de black metal formado por Armando Luiz (dos Obitu Vitae) está de regresso com este EP oficial de quatro faixas. E o que os Servi Diaboli nos propõem é uma espécie de cruzamento entre o mais caótico black metal sulista, de bandas como Decayed ou Sarcofago e o seu “primo” escandinavo. O resultado soa ainda algo generalista, mas não falta ao trio andaluz nem entusiasmo nem energia. (3/5)

Stahlmann_AdamantSTAHLMANN «Adamant» (AFM Records) Variedade de escolha não parece faltar a quem gosta de Neue Deutsche Härte e, desde que os Stahlmann se estrearam nos discos em 2010, qualidade também não. A banda liderada por Martin Soer e Alexander Scharfe tem um jeito especial para os ganchos nos riffs de guitarra, o que torna a sua abordagem, apesar das letras em alemão, bem forte e distinta. Seja com ritmos electrónicos ou industriais, seja numa receita mais próxima do rock gótico clássico, «Adamant», a terceira proposta de originais, mostra evolução e constitui-se um dos melhores exercícios do género nos últimos tempos. (4/5)

Terrortory_CityOfGhostsTERRORTORY «City Of Ghosts» (Discouraged Records) Apesar de irem já com quase década e meia de actividade, os suecos Terrortory contam ainda apenas com um álbum de originais («The Seed Left Behind», de 2011) no seu currículo, o que faz deles um dos mais preguiçosos colectivos da Escandinávia. «City Of Ghosts», o primeiro sinal de vida da banda depois do disco de estúdio, é um EP digital de quatro faixas em que o grupo dá boa conta do seu death/thrash metal de puro ADN sueco. Apesar dos trejeitos de inícios dos anos 00 (pensem em bandas como Night In Gales), a produção e a dinâmica da composição são bem modernas, embora exista ainda um caminho longo até à verdadeira personalidade musical. (3/5)

TheOldWind_FeastOnYourTHE OLD WIND «Feast On Your Gone» (PelAgic Records) Tomas Liljedahl, ex-vocalista dos Breach, recruta os ex-companheiros de banda Niklas Quintana (guitarra) e Kristian Andersson (baixo) e junta-lhes Robin Staps (The Ocean) e Karl Daniel Lide’n (Vaka). O resultado chama-se The Old Wind e, a julgar pelo disco de estreia «Feast On Your Gone», é a vossa nova banda favorita. Isto se gostarem de pós-hardcore apocalíptico, melódico e bruto e tiverem uma série de discos de Cult Of Luna, Breach, Switchblade e The Ocean na colecção aí de casa. (4/5)

Zombiefication_AtTheCavesZOMBIEFICATION «At The Caves Of Eternal» (Pulverised Records) Mesmo quando fazem uma coisa tão batida como death metal old school de inspiração sueca, os mexicanos têm um estilo muito próprio. Às vezes melhor do que a coisa standardizada a que estamos habituados aqui na Europa, por vezes pior, mas quase sempre original. No caso dos Zombiefication, o que os torna especial é a aura de negridão que os envolve. Apesar de tentarem soar tão suecos quando possível, o sabor a México está no seu death metal, nos seus zombies, na sua galeriazinha de horrores. (3/5)

POSTO DE ESCUTA 15.05.2013

Ara_TheBlessedSleepARA «The Blessed Sleep» (Auto-financiado) Apesar de serem uma nova banda na cena de Milwauke, os Ara são formados por músicos veteranos que vêm de outros projectos como Northless e Concentric. Ainda assim, como o EP de estreia «The Blessed Sleep» mostra, têm algo válido a dizer com um tipo de death metal dissonante, ligeiramente progressivo e muito técnico. Apesar de não abanarem as fundações do estilo, os quatro temas propostos pelo grupo conseguem equilibrar de forma muito interessante brutalidade e engenho instrumental, numa receita musical que pode não lhes valer a capa da Terrorizer, mas colocá-los-á certamente nas boas graças dos seguidores de death metal técnico. (4/5)

ChaosInvocation_BlackMirrorHoursCHAOS INVOCATION «Black Mirror Hours» (World Terror Committee) Apesar de meio parado nos últimos anos (passados pelo guitarrista A. a desenvolver o seu outro projecto mais experimental Ave Maria), os Chaos Invocation estão de regresso para confirmarem as boas indicações dadas em 2009 com a estreia «In Bloodline With The Snake». «Black Mirror Hours», a nova proposta, equilibra de forma convincente black metal gelado de produção visceral (mas clara e potente), com riffs bem engendrados e estruturas que permitem ao trio explorar atmosfera e variedade (com partes mais ambientais e/ou acústicas) e uma queda especial para a liturgia do Cornudo. Mais um ponto para o black metal alemão. (4/5)

4pnl_folderFLAGELLANT «Maledictum» (World Terror Committee) Três anos de silêncio separam este novo álbum dos suecos Flagellant do seu disco de estreia «Monuments». Três anos que, a julgar pelas oito faixas propostas no novo disco, serviram para o duo “limpar” a produção do seu black metal, que continua ainda assim a padecer de algum generalismo, quase sempre assente na receita meio-tempo/velocidade blastbeast e quase sempre com as influências mais óbvias das bandas escandinavas bem ali à vista de toda a gente. (3/5)

GamaBomb_TheTerrorTapesGAMA BOMB «The Terror Tapes» (AFM Records) Associados à nova vaga de thrash que trouxe ao mundo bandas como Municipal Waste ou Evile, os norte-irlandeses Gama Bomb estão à altura do seu próprio jogo com «The Terror Tapes», o quarto álbum de originais em cerca de oito anos. Apesar da receita se manter no thrash mais clássico e, aí, haver um número limitado de riffs, de ritmos e de melodias que se podem usar antes da coisa começar a cheirar mal, de algum modo o quinteto consegue manter as coisas refrescantes e excitantes, talvez à custa de uma redescoberta melodia, talvez devido a uma inesgotável fonte de inspiração para thrash que, no fundo, é reciclagem dos anos 80. Ou então somos só nós que estamos para aí virados. Mas que «The Terror Tapes» se presta ao headbanging sem sentido dos geeks do crossover, lá isso presta. (4/5)

ImperiumDecadenz_MeadowsOfNostalgiaIMPERIUM DEKADENZ «Meadows Of Nostalgia» (Underground Activists) Quando se diz que apenas recentemente o black metal alemão começou a responder em força aos avanços da Escandinávia e França, uma das bandas que serve para exemplificar essa afirmação são os Imperium Dekadenz. Chegado ao quarto álbum de originais, o duo domina de forma perfeita a estirpe de black metal de riffs frios e atmosferas melancólicas, cortados de forma sublime por delicadas partes acústicas. RIYL Farsot, Agrypine ou Frigoris. (4/5)

OldForest_TalesOfTheOLD FOREST «Tales Of The Sussex Weald; Part 3 (Andredsweald)» (Death To Music) Sensivelmente dois anos depois da edição original, os ingleses Old Forest relançam o capítulo final da trilogia «Tales Of The Sussex Weald», que contém também os temas dos dois EPs que constituíram os dois primeiros volumes. Puro black metal old school na onda dos primeiros trabalhos de Burzum, Darkthrone ou Emperor, com um twist tipicamente britânico e a vantagem de se debruçar sobre as lendas da região inglesa que dá título ao trabalho. Kobold (dos Jaldaboath e Ewigkeit) é o mentor do projecto, por isso esperem também uma boa dose de metal épico, atmosfera densa, monges a cantarem lá atrás, etc e tal. A reedição está disponível para download gratuito e numa edição limitada de CDs físicos, por isso esta é a oportunidade certa de conheceram esta pérola do underground britânico. (4/5)

RevelInFlesh_ManifestedDarknessREVEL IN FLESH «Manifested Darkness» (F.D.A. Rekotz) Chamar uma “banda clássica”, como a editora faz, a um grupo de pessoas que começou a tocar junto há um par de anos, é um pouco manhoso. “Banda à procura de facturar à conta da moda do death metal old school” seria mais apropriado. Ainda assim, com dois discos em dois anos, os Revel In Flesh conseguem ir directos à jugular de quem gosta de death metal “clássico” sueco de tal maneira, que por mais que queiramos, por mais que nos cheire a band wagon, é impossível ficarmos indiferentes a estes riffs, a esta produção, a este ataque vocal feroz e brutal. Raios partam os Revel In Flesh! (4/5)

Satan_LifeSentenceSATAN «Life Sentence» (Listenable Records) Quem não conhece os britânicos Satan, devia conhecer. Apesar de não terem sido dos mais famosos nomes do movimento NWOBHM dos anos 80, a clara ligação ao thrash de álbuns como «Court In The Act» haveria de garantir-lhes um espaço no coração das gerações vindouras de metal clássico. Isso e o facto de ter sido da sua formação que saíram Steve Ramsey e Graeme English para os Skyclad, de onde voltam agora para este álbum de reunião. Pese embora não tenha a genialidade do regresso dos Hell, «Life Sentence» consegue trazer de forma satisfatória o NWWOBHM/thrash dos Satan para o século XXI, com um conjunto de temas sólido na composição e confiante na interpretação. São grandes dias para o revivalismo. (4/5)

TearsOfMartyr_TalesTEARS OF MARTYR «Tales» (Massacre Records) No seu segundo disco de originais, os espanhóis Tears Of Martyr têm o seu público-alvo bem identificado: gente que aprecia metal gótico e sinfónico de vocalizações femininas, bem tradicional, sem qualquer tipo de risco na composição ou na abordagem estilística. Porque é isso que os Tears Of Martyr são. Mais uma banda de power metal gótico/sinfónico, com um álbum bem feitinho mas que cai exactamente a meio da tabela onde os Epica e os Edenbridge imperam. (3/5)

ZombieInc_HomoGusticusZOMBIE INC. «Homo Gusticus» (Massacre Records) A presença de Martin Schirenc (dos Hollenthon, ex-Pungent Stench), Wolfgang Rothbauer (Disbelief) e Martin Arzberger (Hollenthon) nos Zombie Inc. garante logo à partida uma certa qualidade ao death metal da banda. O que não garante à partida é este nível de solidez old school, regada com uma interpretação sem mácula por parte de músicos veteranos e talentosos, e a temática – certa e sempre apelativa – de zombies, filmes gore e morte em geral. Um segundo álbum que confirma os Zombie Inc. como os líderes da cena death metal velho da cena austríaca, e um dos mais interessantes que é possível ouvir actualmente. (4/5)

POSTO DE ESCUTA 14.05.2013

Acrania_AnUncertainCollisionACRANIA «An Uncertain Collision» (auto-financiado) Pela sua natureza que não conhece qualquer tipo de limites, o death metal presta-se a abordagens mais progressivas e experimentais do que outro género qualquer. Os mexicanos Acrania aproveitam-no para, por exemplo, lhe darem uma espinha dorsal de percussão acústica vincada e lhe inserirem partes de cha-cha-cha, bomba, samba, plena ou outros estilos musicais da América Latina, enquanto por outro lado mantêm o aspecto metálico bem vincado com um death metal tecnicamente evoluído que encheria de orgulho Chuck Schuldiner. É pena que a qualidade de gravação seja tão pobre, senão teríamos aqui um daqueles tesourinhos death metal para guardar com carinho em qualquer colecção de amantes de música verdadeiramente progressiva. (3/5)

Devil_GatherTheSinnersDEVIL «Gather The Sinners» (Soulseller Records) Começaram por ser uma espécie de resposta norueguesa à febre do revivalismo doom metal dos anos 70 mas ao segundo álbum os Devil revelam muito mais que isso. Enveredando por uma estética sonora que sugere uma dieta de garage rock e algum NWOBHM lá pelo meio, «Gather The Sinners» ultrapassa o mero espectro de “mais um” álbum de tributo aos Black Sabbath e consegue revelar uma personalidade própria, com um ambiente muito interessante e malhas viciantes. (4/5)

E-MusikegruppeLuxOhr_KometenbahnE-MUSIKGRUPPEL LUX OHR «Kometenbahn» (Svart Records) Kimi Kärki, fundador e guitarrista dos Reverende Bizarre junta-se a Ismo Virta dos Kosmos, a Pertii Grönholm dos Dystopia e a Jaakko Pentinnen dos Força Macabra e, juntos, recuperam o género musical alemão conhecido como Kosmische Musik, que é basicamente uma variante cósmica do krautrock. «Kometenbahn» são seis faixas de sequenciadores analógicos, sampling espacial, ocasionais e-bows e efeitos altamente atmosféricos. Imaginem Jean Michel-Jarre a fazer uma jam com Zombie na sala de ensaio cheia de fumos estranhos dos Hawkwind. Bem-vindos ao mundo espacial e profundamente atmosféricos dos E-Musikgruppel Lux Ohr. (4/5)

Halloween_NoOneGetsHALLOWEEN «No One Gets Out!» (Pure Steel Records) A celebrarem três (!) décadas de carreira, os norte-americanos Halloween deram recentemente uma prova de vitalidade com o novo trabalho «Terrortory», mas é no final dos anos 80 e início dos 90 que os mais acérrimos fãs do heavy metal clássico americano da banda têm os ouvidos. «No One Gets Out!» foi o segundo disco oficial do grupo, editado em 1991, numa altura em que o projecto forjava ainda a sua sonoridade meio-tempo, injectada de dramatismo e de horror, espécie de mistura de Mercyful Fate e de algo mais primordial, cru e autêntico. Esta reedição conta com os temas devidamente remasterizados e não passará despercebida a coleccionadores de heavy metal genuíno feito do outro lado do Atlântico. (4/5)

MysticProphecy_BestOfProphecyMYSTIC PROPHECY «Best Of Prophecy Years» (Massacre Records) Facto: os Mystic Prophecy são uma banda de power/speed/thrash do caraças. Do melhor que a Alemanha tem. Facto: o grupo conta com sete excelentes trabalhos. Facto: «Best Of Prophecy Years» é um best-of retirado apenas dos últimos quatro. Já aqui falámos vezes que cheguem deste tipo de compilações digitais que, por melhores que sejam os grupos, cobrem apenas uma parte da sua carreira. Posto isso, quem quer agora iniciar-se nas delícias metálicas dos Mystic Prophecy e não tem dinheiro para dar por sete discos, esta compilação pode funcioar. Mas fica desde já o aviso: “Best Of The Last Prophecy Years” seria um título mais adequado. (3/5)

OneInchGiant_TheGreatWhiteONE INCH GIANT «The Great White Beyond» (Soulseller Records) Imaginem as harmonias vocais dos Alice In Chains, coloquem-nas numa abordagem harmónica e ligeiramente progressiva de doom/stoner metal e terão os One Inch Giant. A banda impressionou com a maturidade do material da estreia «Malva» em 2011, mas é agora, com «The Great White Beyond», que ameaça tornar-se uma coisa séria. Os temas carregam uma espécie de melancolia que não é só pós-grunge; é a essência do hard rock e do doom metal metida num triturador, engolida em tragos pequenos pelo quarteto de Gotemburgo e cuspida numa cascata de melodias inteligentes, composição adulta e riffs pesados e sofisticados. (4/5)

ReignOfVengeance_TheFinalSolutionREIGN OF VENGEANCE «The Final Solution; The Final Rebellion» (Synister Empire Records) Novo EP da banda de death metal progressivo do Arizona Reign Of Vengeance, constituída por gente de Decrepit Birth e Rebirth e com um super-baixista (Nick Schendzielos, dos Cephalic Carnage e Job For A Coyboy) Apesar das vocalizações serem um pouco exageradas na abordagem que faz fronteira com o thrash, musicalmente os cinco temas de «The Final Solution…» funcionam bem, com aquela dinâmica de escalas tocadas à velocidade da luz (pensem em Periphery ou All Shall Perish) e estruturas sólidas e bem definidas. Não é nada que impressione por aí além, mas é competente e bem feito. (3/5)

Shrine_AetherSHRINE «Aether» (Moment Of Collapse Records) Quem aprecia descobrir jovens bandas de valor antes dos amigos, tem aqui uma boa oportunidade de brilhar Os jovens suecos Shrine formaram-se em 2010 e «Aether» é o EP em 7” que se segue à maqueta de estreia, contendo três temas do sludge psicadélico raiado de hardcore que constitui a sua sonoridade. Se os Mastodon são uma influência óbvia pela complexidade das composições – onde cabem sludge pesadão e partes mais atmosféricas – por outro lado a fúria das vocalizações é, toda ela, hardcore de nova geração na onda de Converge. A mistura resulta surpreendentemente bem e o facto disto ser um vinil limitado faz de «Aether» uma espécie de tesourinho que agraciará as colecções apenas dos mais iluminados. (4/5)

Sinocence_NoGodsNoSINOCENCE «No Gods, No Masters, Vol. 1» (auto-financiado) Com dois álbuns de originais em que deixavam de lado a abordagem mais abrasiva e dinâmica das bandas “modernas” para se concentrarem em comporem thrash/heavy metal de forma sólida e honesta, os norte-irlandeses Sinocence conseguiram uma boa dose de fãs de metal mais tradicional. «No Gods, No Masters, Vol. 1», terceiro disco do grupo, revela uma dinâmica mais intrincada mas o mesmo sentido melódico que os tornou especiais nas duas primeiras propostas, o que deverá significar um novo conjunto de admiradores, sem desiludir os que já estavam a bordo. Boa proposta. (4/5)

SwinginUtters_PoorlyFormedSWINGIN’ UTTERS «Poorly Formed» (People Like You) Em tempos considerados uma das melhores bandas de Oi!/street punk da Califórnia, os Swingin’ Utters souberam envelhecer e, no processo, foram transformando a sua abordagem numa espécie de punk/roots rock mais polido e melódico, de que «Poorly Formed» é a mais recente testemunha. Apesar dos ocasionais flirts com outros estilos («I’m A Little Bit Country» é punk/folk à Pogues chapado), trata-se de um conjunto de temas que não magoam ninguém e que podem reservar bons momentos a quem, como os Swingin’ Utters, passou duas décadas a rockar no duro e agora procura coisas mais melódicas e harmoniosas. (3/5)

POSTO DE ESCUTA 22.03.2013

(Quase) todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

NecrocurseComeçamos hoje com o death metal old school sueco dos NECROCURSE, que não se poupam a clichés no seu disco de estreia «Grip Of The Dead» (Pulverised), mas também, pudera: com um vocalista como Hellbutcher (dos Nifelheim) é fácil soar maldoso e old school. O resto da banda é constituída por elementos e ex-elementos de Runemagick e Masticator, por isso quando eles dizem “death metal” é mesmo death metal. Daquele negro, cheio de pus e a cheirar a doença (4/5). Os italianos ILLNULLA juntam death metal e thrash ao seu black metal técnico e coeso, assim à Satyricon, e não se saem mal na estreia «Illnulla» (auto-financiado).Illnulla As letras são em italiano (e bem perceptíveis, por isso é relevante) e a produção tem um lado bastante humano, não comprometendo nem na clareza dos instrumentos nem na força da mistura. Uma boa estreia para o duo saído directamente da formação dos mais tradicionalistas My Dark Sin (4/5). Os veteranos do rock alternativo/pós-grunge EVERCLEAR parecem ter uma fonte inesgotável de inspiração para malhinhas viciantes de potencial radiofónico e lançam mais uma Evercleardúzia em «Invisible Stars» (Eastworld), das quais «Be Careful What You Ask For» já começa a dar frutos. É impressionante como um grupo de tipos por volta dos 50 anos continua a fazer este estilo melódico e saltitante tão bem e a poder dar lições de energia a bandas de miúdos e 20 e poucos anos (3/5). Para lavar todo este açúcar do sangue, «Kiasma» (Denovali), a segunda proposta de Mario Diaz de Leon e do seu projecto ONEIROGEN, volta a misturar de forma surpreendentemente eficiente dark ambient, sintetizadores etéreos e a distorção de uma guitarra. O resultado é mais “metálico” do que a estreia «Hypnos»Oneirogen ou o EP de transição «Veni Nox Anima», mas continua a ter poderes hipnóticos e altamente atmosféricos, sem nunca perder de vista o lado musical (4/5). Os regressados BLACKLEVEL EMBASSY levam o seu noise rock dissonante um pouco mais longe, equilibrando-o de forma perfeita com groove e um ritmo mais cadente, o que sugere um maior esclarecimento na composição. «New Veteran» (OSCL) revela-se, por isso inteligente e intenso por parte de um dos grupos mais injustamente menosprezados da história do rock, sujo, indecente e viciante como é (4/5).

POSTO DE ESCUTA 21.03.2013

(Quase) todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

Damnation AngelsCom a faixa de avanço «Pride (The Warrior’s Way)» a ter mais de 100 mil vizualizações no Youtube, os ingleses DAMNATION ANGELS estavam em brasa ainda antes de lançarem a estreia «Bringer Of Light» (Massacre). Ainda assim, o quinteto fez o seu trabalho de casa e propõe uma dezena de temas de power metal sinfónico e melódico, bem produzidos, bem executados e bem compostos, ideais para fãs de Kamelot e Stratovarius (4/5). Com raízes igualmente sinfónicas – hoje em dia totalmente arrancadas da sua sonoridade de black/death metal – os dinamarqueses ILLNATH regressam às edições com o seu quarto álbum de originais «4 Shades Of Me» (Pitch Black), agressivo, Illnathpulsante e mantendo sempre debaixo de olho um certo sentido de groove e melodia. A prestação vocal de Mona Beck é sempre digna de registo, sobretudo para fãs do tom brutal de Angela Gossow (4/5). Já os norte-americanos DEADLANDS estreiam-se com «Evilution» (Massacre), disco que mal consegue disfarçar a admiração do grupo pelo power/thrash metal dos Seven Witches, tendo como principal atracção o vocalista Brian O’Connor (Consfearacy, ex-Vicious Rumours) e uma série de solos de guitarra de gente de Mercyful Fate, King Diamond, Testament, etc. Quando é esse o principal foco de atenção num disco, alguma coisa está mal, mas «Evilution» nem se revela um mau exercício de power/thrash tradicional, ainda assim, pesado (3/5). Os noruegueses OKULAR são provavelmente a grande surpresa Okularda semana, fazendo chocar no seu segundo disco «Sexforce» (Regenarative) os universos dos Virus, Borknagar, Obscura e Gojira. É, por isso, um exercício progressivo e vanguardista de death metal, mas nunca entra pelo caminho da auto-adulação técnica ou do progressivo-como-estilo-definido. Muito, muito bom, portanto (4/5). O power trio dinamarquês de thrash ESSENCE tem um legado grande às costas, sendo da terra dos Artillery e tal, mas «Last Night Of Solace» (NoiseArt), com os seus riffs e vocalizações cortantes à Destruction, leads melódicos e apontamentos de quem sabe claramente como tocar, revela que a banda é mais do Essenceque apenas o habitual truque de ressuscitar uma sonoridade que foi feita há 30 anos. A dezena de faixas proposta no trabalho vale bem uma exploração cuidada e os Essence prometem não se ficar pelo meio de tabela (4/5). Já os gregos EXARSIS levam o thrash muito mais à letra e, na sua segunda proposta «The Brutal State» (MDD) aceleram, gritam, puxam pelas guitarras e cobrem todos os clichés do estilo que se lembram. As vocalizações de Alex, agudas e inflamadas (com os habituais coros do crossover a apoiá-lo), podem ser um ponto de rotura mas dão ao grupo uma personalidade própria num meio que vai sendo cada vez imune a este thrash bem feito mas mais igual a 300 outras bandas. No entanto, os Exarsis têm de ter alguma coisa boa, ou os mestres do thrash grego – os Suicidal Angels – não teriam recrutado o guitarrista Christos T. para a sua formação oficial (3/5).

POSTO DE ESCUTA 14.03.2013

(Quase) todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

NecrowretchO death metal clássico (ou old school, se quiserem) parece estar na ordem do dia e a Century Media tem feito o seu trabalho de casa neste particular. No final de Janeiro editou a estreia dos franceses NECROWRETCH, «Putrid Death Sorcery» que, para além de soar como se tivesse sido gravada nos anos 80, se revela um disco obcecado com o álbum «Scream Bloody Gore» dos Death, com as devidas actualizações escandinavas e tímidas piscadelas de olho ao black metal. É suficientemente extremo e doentio para agradar aos fãs verdadeiros (4/5). Directamente de meados dos anos 90, os suecos SACRAMENTUM, por onde passou gente como Nicklas Rudolfsson dos Runemagick, vêm o seu disco de estreia «Far Away From The Sun» reeditado também pela Century Media, abrindo o baú das origens do death metal melódico e dando umas dicas a fãs de Dissection, Naglfar, Necrophobic ou Watain sobre o sítio de onde vem o estilo “original” das suas bandas preferidas (4/5). Por fim, a editora alemã desenterra também «The Book Of Truth», disco de estreia editado originalmente em 1993 pela banda sueca de death metal melódico CEREMONIAL OATH, cuja formação “deu” à cena gente como Anders Fridén (In Flames), Oscar Dronjak (HammerFall), Jesper Strömblad (In Flames) ou Anders Iwers (Tiamat). Apesar de algo primitivo, o death metal melódico da banda é a real thing no que ao old school diz respeito, sendo alvo de uma super-reedição de luxo, em CD e EP com nove (!) faixas bónus retiradas das maquetas e de um EP raro (5/5). A editora espanhola Art Gates Records também tem andado particularmente activa e tem actualmente três novidades nos escaparates. A primeira é «Slow Death», o disco de estreia dos valencianos EXODIA, numa espécie de thrash melódico que, apesar dos riffs mais açucarados, só não Exodiafacturará à conta do sucesso dos compatriotas Angelus Apatrida se os fãs destes últimos não derem por eles. A proposta é intensa, cumpre todos os requisitos do género e tem uma produção muito decente (4/5). Os também valencianos L’ENDEVI editam, com «An Eternity», o seu segundo álbum de originais, desenvolvendo um pouco mais o seu metal/rock gótico de vocalizações femininas mas ficando ainda um pouco longe dos melhores padrões internacionais, quer a nível de composição e personalidade musical, quer em termos de produção (2/5). Já os argentinos WULFSHON – uma das primeiras bandas internacionais no catálogo da Art Gates – não têm qualquer OLYMPUS DIGITAL CAMERAproblema em chegar a altos padrões de qualidade com «Prinnit Mittilagart», disco onde mostram um black/death metal agressivo e extremo por um lado, melódico, naturista e pagão por outro. É uma mistura meio estranha que poderia facilmente dar para o torto, mas o colectivo de Buenos Aires lá arranja maneira de pôr tudo a funcionar devidamente (3/5). Os ingleses BLACK MASS são água de outro poço. Misturando da forma mais visceral que possam imaginar death metal e crust, com uma produção caseira, distorcida ao máximo e uma composição cujo cuidado na variação (há riffs sludge um pouco por todo o lado nestas oito faixas) trai um pouco o lado mais extremo e imediato que querem fazer passar. «Of First And Last Things» (auto-financiado) reúne, em 21 minutos, todas as faixas editadas pelo quinteto (que conta com um guitarrista de Light Bearer e o baixista de Atavist), nos dois splits, na maqueta e no EP lançados até agora (3/5). Os PATHOGEN são uma Pathogendaquelas bandas de death metal underground pela qual ninguém daria se não fossem oriundos das exóticas Filipinas. «Misceants Of Bloodlusting Aberrations» (Dunkelheit) recupera o segundo álbum de originais da banda, editado originalmente em 2010 apenas em cassete e CD-r, e dá-lhe um lançamento em CD e LP com capa diferente. É interessante para quem gosta de death metal caótico com portas de ligação ao thrash e ao black metal, mas sem nada de extraordinário que separe os Pathogen de qualquer outra proposta underground deste género (3/5). Já os finlandeses GUNS OF GLORY estreiam-se com «On The Way To Sin City» (Pure Rock Records) e colocam-se directamente na linha de sucessão do melhor e mais descomprometido hard rock escandinavo de bandas como Hellacopters ou Gluecifer, com as habituais referências a AC/DC e Rose Tattoo. É fresco, energético e bem feito, mas sem a genialidade dos verdadeiras lendas do estilo (3/5).

POSTO DE ESCUTA 12.03.2013

(Quase) todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

NorthConsiderados até agora meio de tabela em termos de sludge metal atmosférico/pós-rock, os norte-americanos NORTH voltam à carga com «The Great Silence» (Cavity), o seu terceiro álbum de originais. A receita é a de sempre: longas partes atmosféricas sempre a crescer e depois riffs monolíticos com as vocalizações brutas do sludge. É bom, mas há melhor (3/5). Já os compatriotas SATANIC THREAT não têm problemas de identidade estilística e fazem punk/hardcore de inspiração thrash e black metal como se o mundo estivesse a acabar. «In To Hell» (Hells Headbangers) reúne o EP original, editado em 2008 em apenas 1.000 cópias, bem como uma actuação ao vivo de oito faixas desta banda que conta com elementos de Nunslaughter e um ex-membro de Midnight. Urgente, gravado caseiramente e delicioso (4/5). Do lado oposto do espectro musical, os fãs de power metal progressivo têm em «Coverin’ Thoughts» (Bakerteam), o disco de estreia dos italianos KARNYA, Karnyaanteriormente conhecidos como Zen, uma boa surpresa. Apesar do lado “progressivo” se limitar à habitual lambidela de botas aos Dream Theater, a coisa é suficientemente melódica e emocional para agradar à maior parte dos fãs do estilo (3/5). Já os gregos VALOR são bem menos prosaicos na sua abordagem musical e atiram com um power metal relativamente tradicional, menos melódico do que o estilo tipicamente europeu (ou italiano, se quiserem), mas igualmente interessante a nível de harmonias e arranjos. «The Yonder Answer» (Pitch Black), o seu terceiro álbum de originais, tem por isso de ser considerado uma proposta válida e bem interessante (4/5). Por falar em power metal italiano, quem Heimdalltambém está de volta às edições são os HEIMDALL. Os veteranos da cena sinfónica transalpina têm no seu quinto álbum de estúdio «Aeneid» (Scarlet) uma daquelas propostas irrepreensíveis em termos de produção, arranjos sinfónicos e composições em que os elementos musicais do power metal mais pomposo são usado em doses maciças. Infelizmente, já tudo feito antes – até pelos próprios – com mais originalidade e entusiasmo (3/5).

POSTO DE ESCUTA 11.03.2013

(Quase) todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

Primitive ManComeçamos hoje com o sludge/doom puro e duro dos norte-americanos PRIMITIVE MAN, que contam na sua formação com o vocalista e guitarrista Elm (Clinging To The Trees Of A Forest Fire, Withered), mais duas pessoas de identidade desconhecida. O álbum de estreia «Scorn» (Throatruiner/Mordgrimm) é uma coisinha viciosa e maldosa e pesada como tudo (4/5). Já os compatriotas EVIL ARMY regressam às edições com o 7” EP «I, Commander» (Hells Headbangers) e a habitual dose de thrash visceral, feito pela cartilha e mal gravado. Tem boas ideias e pode agradar a três ou quatro maníacos do underground, mas no geral há projectos mais válidos a fazerem isto bem melhor (3/5). Os compatriotas COLD STEEL tiveram uma carreira ente meados Cold Steeldos anos 80 e meados dos 90, regressando em 2012 com uma compilação e agora com o EP «America Idle» (Stormspell), composto por meia dezena de faixas que mostram porque nunca chegaram a ter sucessso na primeira encarnação. É que o thrash da banda é genérico, parco em boas ideias e nem as fugazes referências ao groove/thrash dos anos 90 o safam (2/5). No espectro oposto do metal, os cipriotas ASTRONOMIKON estreiam-se com «Dark Gorgon Rising» Astronomikon(Pure Legend), um álbum de heavy/power metal que agradará a fãs de melodia, mas também de true metal, ou não fosse este um projecto paralelo de quatro elementos dos irrepreensíveis Arrayan Path. Pesada onde deve, sem demasiado açúcar nas melodias, trata-se de uma das mais interessantes propostas de heavy/power metal dos últimos tempos (4/5). Igualmente tradicionalistas são os argentinos HELKER, que chegam à AFM e à verdadeira internacionalização com o seu quarto álbum «Somewhere In The Circle». E em boa altura, a julgar pela energia libertada pelo seu power metal de influências europeias triunfal e de produção bombástica (3/5). Já o norueguês JORN não tem problemas em “vestir” as suas principais faixas (incluindo versões de «Rock And Roll Children» de Dio, «Time To Be King» dos Masterplan e «The Mob Rules» dos Black Sabbath) de arranjos sinfónicos, no seu novo trabalho «Symphonic» (Frontiers). A voz de ouro do senhor está lá, como sempre, e os arranjos são grandiosos e a propósito, mas 14 faixas disto tornam a proposta apenas apreciável por quem gosta desta coisada orquestral toda (4/5). Igualmente sinfónicos, mas num grau muito mais modesto e inserido num black Luna Ad Noctummetal de riffs secos e que revelam claras influências de Satyricon, os polacos LUNA AD NOCTUM editam «Hypnotic Inferno» (Massacre) e são bem capazes de recolher algumas fichas na mesa de jogo de quem aprecia som bruto, precisão técnica e melodias arrepiantes (4/5). Bem mais depressivos – e até minimais, a espaços – os hondurenhos FAILURE movem-se com um à-vontade impressionante dentro do black metal suicida e não revelam, no novo EP «Perfect Isolation» (Pagan Forest), qualquer problema em piscar o olho ao pós-rock ou a melodias mais vincadas, embora sempre tristes e desoladas, parcamente cantadas e com um sentimento de desespero bem entranhado (4/5). Já os suecos CRASHDÏET respondem na mesma moeda ao avanço glam rock/heavy metal dos compatriotas Hardcore Superstar e editam «The Savage Playground» (Frontiers), trabalho de veneração aos Mötley Crüe bem feito, bem produzido e com malhas. Os fãs de glam estão a ter um grande ano (4/5). Old FuneralFinalmente, uma palavra para a compilação «Our Condolences (1988-1992)» (Soulseller), que junta as primeiras sete (!) gravações em maqueta dos noruegueses OLD FUNERAL, que entre 1988 e 1992 conseguiram ter na sua formação gente como Vars Vikernes, Demonaz e Abbath. Apesar de cobrir um lado mais death metal da sua sonoridade, esta compilação, editada em CD e vinil, não deixa de revelar as raízes do black metal podre e cru dos pioneiros escandinavos do estilo e constitui, por isso, um documento de interesse inegável, quase académico (4/5).

POSTO DE ESCUTA 10.03.2013

Todos os dias fazemos uma revisão de alguns dos novos lançamentos, aconselhando novos projectos e “picando” discos de bandas consagradas, de forma resumida, de modo a que não escape nada aos nossos leitores. Boas audições.

VirusAinda com o último «The Agent That Shapes The Desert», de 2011, a queimar-nos os ouvidos, os noruegueses VIRUS regressam às edições com o EP «Oblivion Clock» (Duplicate Records), composto por quatro faixas novas mais três raridades num total de 30 minutos que são uma espécie de estacionamento na evolução em fast forward do seu rock vanguardista e metálico. É uma espécie de complemento de «The Agent…» que nos permite respirar um pouco enquanto aguardamos pelo próximo passo genial (4/5). Já os compatriotas MAN THE MACHETES têm pouco de progressivo na mistura de punk, hardcore, rock e melodias pop que apresentam na estreia «Idiokrati» (Indie Recordings). Pode ser interessante para fãs de Architects, embora os jovens noruegueses tenham menos genialidade e mais sangue na guelra (3/5). Bem mais a sul, os sul-africanos JUGGERNAUGHT continuamJuggernaught a evoluir o seu heavy/southern metal com o segundo longa-duração «Bring The Meat Back» (auto-financiado), cheio de pó como se quer mas ainda longe da solidez ríffica de uns Alabama Thunderpussy, pelos quais todas as bandas deste estilo devem religiosamente guiar-se. Salva-os um lado psicadélico apurado e alguns dos leads de guitarra (3/5). De volta a norte, os suecos HARDCORE SUPERSTAR regressam para reclamar o trono do glam rock/metal com «C’mon Take On Me» (Nuclear Blast), um disco de irrepreensível cinismo, melodias viciantes e sexy como poucos (4/5). Para desenjoar de tanto açúcar, os jovens norte-americanos RINGS OF SATURN propõem uma mistura explosiva de deathcore e death metal técnico em «Dingir» (Unique Leader), o seu segundo disco de originais. Notas a voar por todo o lado a grande velocidade, bateria bem pronunciada e vocalizações over the top e gritadas. O hábito, mas bem feito (3/5). Mais prosaicos são os germânicos Milking The GoatmachineMILKING THE GOATMACHINE que, por esta altura já deviam ter esgotado as piadas caprinas do seu death metal brutal que lambe o leite (vêem?) do grindcore, mas a julgar por títulos como «Hornbreaker», «Milk ‘Em All» ou «When A Goat Loves A Woman», a coisa está para durar. «Stallzeit» (NoiseHead Records), o seu quarto álbum de estúdio, tem por isso de ser considerado uma boa proposta, levando em linha de conta a versão ultra-brutal e gorda que têm do género (4/5). Já os compatriotas e companheiros de editora WOLFCHANT não demoraram muito (concretamente, dois anos) para regressar depois do promissor «Call Of The Black Winds». «Embraced By Fire» segue o mesmo caminho de folk metal pagão das quatro propostas anteriores do septeto, acrescentando uma camada extra de influências sinfónicas, o que torna tudo bem mais épico, maior e irresistível para quem aprecia o estilo. Nortwin, dos Rebellion, volta a fazer um bom trabalho nas vocalizações limpas, o que torna o disco mais melódico e acessível que todas as outras propostas dos Wolfchant, sem perderem no entanto a agressividade e peso de outros tempos. Um bom disquinho (4/5). Quem também está de volta são os norte-americanos JOLLY, cuja mistura de rock progressivo, melodias pop e metal/grunge lhes Jollyvaleu uma reacção considerável à primeira parte de «The Audio Guide To Happiness» há um par de anos. Agora, «The Audio Guide To Happiness (Part II)» (InsideOut Music) vem explorar o mesmo filão, com melodias um pouco menos memoráveis, mas com o mesmo tipo de abordagem que vicia passadas três ou quatro audições (3/5). Do lado mais negro do espectro, os fãs de horror dark ambient que conheciam os Stalaggh devem agora conhecer os GULAGGH, que é basicamente um projecto da mesma gente, mas feito para explorar os horrores dos campos de concentração russos (em oposição aos campos de concentração nazis, dissecados em Stalaggh). «Vorkuta» (Coma Section) é a primeira parte da trilogia, foi completado em 2008 com o uso apenas de instrumentos clássicos (violino, trompete, etc) da maneira mais bizarra imaginária, enquanto as vozes foram gravadas por doentes mentais profundos por mais de 30 crianças internadas num asilo para doentes mentais. Imaginem vocês o resultado (3/5). Menos perturbante mas igualmente fascinante é a estreia, homónima, dos suecos HEAD OF THE DEMON, cujo percussionista e vocalista Head Of The Demonpassaram juntos por bandas como Kaamos, Gods Of Grief e A Mind Confused. Imaginem o death metal old school sueco que agora está tão em voga tocado à velocidade do doom rock dos anos 70 e não andarão longe do que se passa em «Head Of The Demon» (The Ajna Offensive), que tem alguma dificuldade em passar da fase do “estranhar” para a do “entranhar”, mas que ainda assim rende (3/5). Finalmente, uma menção para a compilação de tributo aos Dark Tranquillity «The Final Resistance» (Suspiria Records), em que participam os portugueses Shadowsphere e Thee Orakle, respectivamente com versões dos temas «Focus Shift» e «Dream Oblivion». Outras bandas integrantes do projecto são os Dawn Of Tears, Agónica, Apotheus ou The Agonist, numa colecção de músicas tão variada quanto os seus intérpretes e que, apesar de ter o clássico interesse limitado das compilações, vale por algumas preciosidades (3/5).