ARQUIVO DISCOS

Majesty_GenerationSteelMAJESTY
«Generation Steel»
NoiseArt Records
7/10
Já aqui referimos várias vezes que os alemães Majesty são das melhores coisas que aconteceram ao heavy/power metal nos últimos anos: são honestos, dedicados e têm uma consciência estilística perfeita. Neste que é o seu sétimo álbum de originais a questão é, no entanto, outra: quantos discos bons de heavy/power metal cabem na colecção de um fã? É que, se a mistura perfeita de influências da banda como HammerFall, Manowar e Blind Guardian que os Majesty fazem já produziram uma mão cheia de bons trabalhos (os dois melhores, «Thunder Rider» e «Banners High», editados ambos em 2013!), há que contar também com as bandas originais e, entre uns e outros, é um fartote de discos quase todos à volta da mesma abordagem musical, letrista e de imaginário. E se é verdade que um verdadeiro fã nunca se cansa de ouvir bom heavy/power metal, a produção ligeiramente inferior e alguns fillers de «Generation Steel» não beneficiam a nova proposta dos Majesty quando chegar a altura dos coleccionadores decidirem que álbum vão comprar, ou ouvir, a seguir. Certo, a sonoridade-homenagem (a música «War For Metal», por exemplo, é o hino que os Manowar nunca escreveram) e a postura diehard do grupo ajudam a querermos muito gostar de «Generation Steel» e isso provavelmente será decisivo. Mas, assim que o disco “assentar” na cabeça dos fãs, apostamos que continuarão a ser «Thunder Rider» e «Banners High» a sair mais vezes da prateleira em direcção ao leitor de CDs.


 

Heidevolk_VeluaHEIDEVOLK
«Velua»
Napalm Records
7/10
Os Heidevolk não são a mais imediata ou atraente das bandas de folk/viking metal e nem contêm na sua música o elemento festivo que se tornou a imagem de marca do género nos últimos anos. A abordagem da banda holandesa é, ao invés disso, agridoce, com um toque de doom e harmonias vocais graves providenciadas por dois cantores numa espécie de versão do estilo que se poderá comparar, muito ao longe, com a dos feroenses Týr. Ao quinto álbum disto, o septeto já não surpreende ninguém e entra numa espécie de ciclo repetitivo em que tem a sua sonoridade já consolidada e sabe trabalhar com ela. Isso não impede «Velua» de ser um disco com algumas surpresas, nomeadamente a explosão black metal que apanha o ouvinte desprevenido no tema título, eventualmente uma das mais dinâmicas, sinfónicas e emocionantes composições dos Heidevolk até agora. De resto, «Velua» navega em águas calmas de doom metal viking, épico pelo lado das vocalizações solenes e em holandês, completo com atmosferas tornadas reais com uso de violino e sem grandes variações ao meio-tempo nos ritmos. É interessante para quem procura coisas diferentes – e menos açucaradas – dentro do estilo, mas não acrescenta muito ao legado dos próprios Heidevolk.


 

Stillbirth_GlobalErrorSTILLBIRTH
«Global Error»
Rising Nemesis Records
7/10
Os alemães Stillbirth podem não ser muito originais a escolherem o nome para a banda (só na Alemanha há mais um grupo com o mesmo nome) nem a escreverem e tocarem o seu death metal/grindcore, mas sabem com certeza divertir-se. Pelo menos a julgar pela quantidade de groove, velocidade, breakdowns, momentos técnicos e apontamentos de humor incluídos no seu quarto álbum de originais, «Global Error». A banda percebe uma coisa ou duas de grindcore pela cartilha e não tem qualquer problema em mostrá-lo nos 11 momentos do disco, sempre muito bem executados, variados e com aquele sentimento festivo que a vertente europeia do estilo parece ter incorporado tão bem nos últimos anos. Em suma, apesar de não acrescentar nada ao death/grind (e se calhar é por isso que, com década e meia de carreira e quatro discos de estúdio, os Stillbirth continuam a ser um fenómeno ainda apenas local), o quinteto pega no género e pratica-o com coerência, competência e brutalidade a la carte. Haja bonecas insufláveis!


 

Drakkar_RunWithTheDRAKKAR
«Run With The Wolf»
My Kingdom Music
7/10
Sabe-se, por experiências menos bem sucedidas de discos de HammerFall, Sonata Arctica ou Freedom Call, que tentar modernizar o power metal melódico tipicamente europeu pode ser uma tarefa tramada. Os Edguy conseguiram-no até certo ponto, mas poucos mais. Os Drakkar com 20 anos de história e um estatuto na cena italiana que os coloca lado a lado com os Rhapsody e os Labyrinth como expoentes máximos locais do género, teriam tudo a perder em fazê-lo, mas isso não os impede de, à sua maneira, tentarem. «Run With The Wolf», a quinta proposta de originais da banda, continua no entanto a ser um disco bem power metal, épico e grandioso nas melodias e com o peso certo nos locais certos. E, pese embora falte a gravação algum do “brilho” dos discos que gozam de orçamentos milionários, continua a ostentar o selo de qualidade que o grupo soube criar com álbuns como «Quest For Glory» ou «Gemini». No entanto, há pormenores no trabalho que não escapam à vontade de progredir e evoluir que acompanha também sempre os Drakkar. Os teclados meio psicadélicos do tema «Watcher Of The Wall», as gaitas-de-foles de «Ride The Storm» ou a estrutura mais rock’n’roll do tema-título são exemplos, mas «Run With The Wolf» consegue a proeza de, apresentando todas estas alternativas, não se desviar nem um milímetro do power metal melódico à italiana que os Drakkar personificam tão bem. E, se os fãs mais conservadores da banda ainda não estão convencidos, fiquem a saber que o álbum contém um CD bónus com cinco faixas “clássicas” do grupo, devidamente regravadas, rearranjadas e “actualizadas”. Ah esperem…


 

Dynfari_VegferðTímansDYNFARI
«Vegferð tímans»
code666
8/10
Candidamente posicionados, em termos de género, entre o black metal atmosférico e o pós-metal, os Dynfari chegam ao terceiro álbum de originais numa espécie de redoma de popularidade underground, claramente beneficiando do facto da Islândia ser a nova Noruega em termos de black metal. «Vegferð tímans» não é muito diferente dos dois álbuns editados anteriormente pelo projecto, apresentando algumas melhorias em termos de estruturação da composição e de qualidade de som. A qualidade do duo continua, no entanto, a estar na capacidade de injectarem maciças doses de atmosfera na sua música, desacelerando quase sempre o black metal para ritmos de doom e enchendo as – longas – canções de várias camadas diferentes que devem ser descobertas em múltiplas sessões de audições. Para além disso, os Dynfari têm à sua volta uma aura de honestidade despretensiosa bem audível na forma simples mas eficaz com que usam todos os elementos musicais à sua disposição e que, quando combinada com as letras em islandês e os ambientes e texturas carregados que enchem a sua música, fazem uma espécie de proposta irresistível para fãs de Drudkh, Alcest ou Burzum.


 

ArstidirLifsins_AldafǫðrOkMunkaÁRSTÍÐIR LÍFSINS
«Aldafǫðr ok munka dróttinn»
Ván Records
9/10
É difícil gostar de black metal – verdadeiro black metal – e não gostar dos Árstíðir lífsins. A banda germano-islandesa incorpora de forma tão genuína e artística o espírito do género, sobretudo do que vem da Escandinávia, que podia muito bem ser a bandeira do black metal em 2015. «Aldafǫðr ok munka dróttinn» é o seu terceiro álbum de originais e gere de forma soberba folk antigo local, black metal nórdico, black metal vanguardista (pensem em Deathspell Omega), viking metal, relatos históricos da Idade Média na Islândia e letras em islandês-norueguês. Na sua tendência para a narrativa que imerge o ouvinte, os Árstíðir lífsins usam ainda instrumentos de cordas, partes atmosféricas e uma boa variedade de vocalizações, que vão do mais agressivo black metal aos coros graves e solenes. Presente em «Aldafǫðr ok munka dróttinn» está sempre o relato histórico e as referências literárias que são a imagem de marca do projecto, mas a banda-sonora que compuseram e gravaram para acompanhá-la é emocionante, grandiosa, original e a espaços roça o esmagador. Tudo o que o black metal deveria ser e, demasiadas vezes, por esquecimento, falta de talento, ausência de visão ou comodismo, não é.


 

AForestOfStars_BewareTheSwordA FOREST OF STARS
«Beware The Sword You Cannot See»
Lupus Lounge/Prophecy
8/10
Ao longo de oito produtivos anos, em que os britânicos A Forest Of Stars editaram quatro álbuns de originais, foi literalmente possível ouvir a banda a crescer e a tornar-se adulta. Não que, logo no disco de estreia «The Corpse Of Rebirth» em 2008, a trupe oriunda de Leeds não demonstrasse os traços vanguardistas, progressivos e psicadélicos que haveriam de tornar o seu black metal tão especial. Só que, na altura, faltava-lhes esclarecimento e experiência e sobrava-lhes prepotência musical que, no processo de escrita, os fazia darem passos (alguns deles deliciosos, é certo) maiores do que as pernas. Nos dois discos seguintes a banda soube corrigir exageros e acumular conhecimento, num processo de maturação que termina agora, com «Beware The Sword You Cannot See». Não é certo que este seja o disco que os A Forest Of Stars visionaram e buscam desde o início da sua carreira, mas é o primeiro em que o black metal vanguardista e psicadélico da banda bate verdadeiramente certo, numa unidade (mais ou menos) coesa de passagens fora da caixa, melodia, ambientes vitorianos e agressividade. O mais espantoso no meio disto tudo é que os ingleses não perderam aquela espontaneidade de tentar misturar violino, blastbeats, riffs escandinavos, vocalizações narrativas dramáticas e flauta, como acontece por exemplo na faixa ««Hive Mindless». A diferença é que, agora, os A Forest Of Stars conseguem fazê-lo funcionar. Não se sabe bem se é na perfeição ou não, porque isto raramente foi tentado antes, mas desconfiamos que, num próximo disco, esta mesma receita volte a surgir de forma mais coesa e brilhante. Até lá, «Beware The Sword You Cannot See» dá perfeitamente para nos entretermos.


 

Psycroptic_PsycropticPSYCROPTIC
«Psycroptic»
Prosthetic Records
8/10
Ao chegarem ao seu sexto álbum de originais, os australianos Psycroptic fazem precisamente aquilo que se espera deles. Continuam a evolução orientada dentro do death metal técnico, tornando ao mesmo tempo mais apelativa a sua abordagem musical, mesmo para quem não está a seguir as progressões de acordes com uma máquina calculadora na mão. Por um lado, «Psycroptic» é um trabalho composto por canções mais intrincadas, de padrões rítmicos mais variados, técnicos e complexos, em que o duplo-bombo é usado de forma exemplar. Por outro lado, as estruturas são mais simples, assim como alguns dos riffs, que se apresentam de forma mais cíclica e repetitiva, permitindo serem assimilados de forma mais rápida e indolor. É uma evolução feita à imagem dos Decapitated, por exemplo, pese embora mantenha intactas as imagens de marca dos Psycroptic, que são o groove e um lado mais death/thrash metal latente e omnipresente. Não se pense, com isto, que «Psycroptic» é um disco simples ou directo. Continua a ser death metal do mais tecnicamente puxado que é possível ouvir hoje em dia, só que elevado a uma estirpe de perfeição que os faz por exemplo, num tema como «Setting The Skies Ablaze», ter uma das secções mais rápidas da sua história de gravações e depois um refrão perfeitamente cantável e épico, com riffs bem bojudos lá pelo meio. É esta a verdadeira essência dos Psycroptic.


 

TheAnswer_RaiseALittleTHE ANSWER
«Raise A Little Hell»
Napalm Records
7/10
Muito antes do blues rock voltar a ser cool, os norte-irlandeses The Answer recuperaram-no e fizeram com ele uma sonoridade à qual bastou dois álbuns para conquistarem o mundo. Não são, no entanto, muitas bandas que conseguem números de seis dígitos em vendas de discos, andam dois anos a abrir para os AC/DC e depois não sofrem uma natural erosão de popularidade e inspiração com o passar do tempo. Por isso, praticamente uma década depois do disco de estreia, ao quinto álbum de originais, os The Answer andam pela Napalm Records, financiam a produção na Pledge Music e a sua relevância não é a mesma de fenómenos mais recentes do blues rock como Blues Pills, Rival Sons ou mesmo The Temperance Movement. Ainda assim, artisticamente, o quarteto não se foi abaixo. Mantendo a mesma formação desde o início do projecto, os The Answer arrancam, com «Raise A Little Hell», um crossover de blues e hard rock, reminiscente dos primeiros discos de Whitesnake (embora com um twist) que, pese embora não acrescente nada de novo ao género rola muito bem e revela assertividade na composição e cuidado nos arranjos. Ao longo de 52 minutos, os The Answer revisitam o blues/hard rock do passado, mesmo aquele feito por eles mesmos, e conseguem uma coisa que poucas bandas com uma década de carreira conseguem: relevância e qualidade.


 

EternalSolstice_RemnantsOfImmortalityETERNAL SOLSTICE
«Remnants Of Immortality»
Dark Descent Records
6/10
O regresso do lado mais clássico do death metal bruto europeu trouxe de volta uma série de bandas dos anos 90 que, nunca tendo atingido um estatuto verdadeiramente mainstream, tiveram um buzz suficiente para deixar saudades. É o caso dos holandeses Eternal Solstice que, entre 1989 e 1997, deixaram boas indicações com três álbuns de originais tão técnicos quanto brutos, tendo depois desaparecido. Estão agora de volta e, depois de dois 7” de “aquecimento”, propõem agora um conjunto completo de temas de death metal old school à boa maneira holandesa. Ou seja, com um pé no thrash, outro no doom, variedade rítmica e alguns apontamentos técnicos. Não é a última batata a sair do pacote death metal, mas constitui um bom meio de tabela para o género, sem falhas, com composição muito decente e execução impecável. A produção é bem melhor do que nos tais dois EPs editados recentemente, o que acrescenta uma boa dose de solidez à música da banda e transforma «Remnants Of Immortality» num momento vagamente interessante para o death metal old school holandês de 2015.


 

CancerBats_SearchingForZeroCANCER BATS
«Searching For Zero»
Noise Church Records
7/10
Os Cancer Bats são daquelas bandas rodeadas por uma aura de trabalho árduo, simpatia e talento de que apetece gostar mesmo antes de ouvirmos uma única nota. E, mesmo assim, nos quatro álbuns que editaram até chegarem a este «Searching For Zero», conseguiram reunir um belo conjunto de canções punk, hardcore, noise rock e/ou thrash que se alternam, misturam e combatem, em trabalhos de energia à flor da pele e dinâmica vincada que imprensa e público parecem ter adoptado sem reservas. Neste quinto disco de estúdio, a banda canadiana mistura todas as suas influências com um recentemente encontrado amor pelo doom rock dos Black Sabbath (o grupo iniciou há pouco tempo um projecto de versões da banda inglesa, chamado Bat Sabbath). Este novo elemento musical torna «Searching For Zero» um trabalho ainda mais multifacetado e completo, em que a velocidade por vezes se transforma num groove de baixo marcante de doom e as vocalizações de Liam Cormier surgem mais melódicas que nunca. Por isso, é justo chamar aos Cancer Bats de 2015 uma banda de hardcore/doom/metal, valendo isso o que vale. O que é certo é que, pese embora longe do génio predestinado de outras propostas do género, a banda volta a apresentar um conjunto de canções muito válido, esforçado, pesado, rápido e invulgarmente musical, que justificam plenamente o estatuto de press darlings que o colectivo, cada vez mais, tem.


 

Melechesh_EnkiMELECHESH
«Enki»
Nuclear Blast
8/10
Não há volta a dar: os Melechesh são uma das grandes bandas de metal da actualidade depois de terem atravessado, com sucesso, a linha imaginária que separa o metal extremo da música étnica e de se terem colocado lado a lado com os Nile e os Rotting Christ. Em «Enki», o seu sexto álbum de originais, o grupo internacional liderado pelo guitarrista e vocalista Ashmedi encontra novas e mais intrincadas formas de fundir thrash, black metal e música árabe. Regra geral, o “sabor mesopotâmico” da música dos Melechesh advém de padrões rítmicos étnicos, de melodias arábicas (a escala árabe é frequentemente usada em favor da escala pentatónica) e também por algumas faixas instrumentais inteiramente acústicas (neste disco é «Dorways To Irkala»). Em «Enki», no entanto, o colectivo foi um pouco mais longe e usou guitarras adicionais de 12 cordas, afinou os instrumentos numa pouco usual frequência de 432 Hz (em oposição aos convencionais 440 Hz) e convidou gente como Max Cavalera (Soulfly), Sakis Tolis (Rotting Christ) e Rob Caggiano (Volbeat) para tornar mais especiais partes específicas do disco. O resultado é um conjunto de temas de “metal mesopotâmico” levado à perfeição aural e de execução, em equilíbrio constante entre agressividade, complexidade e melodias e ritmos exóticos. Ou, se quiserem, os Nile do black/thrash metal a fazerem um dos melhores discos da sua brilhante e irrepreensível carreira.


 

NeguraBunget_TauNEGURA BUNGET
«Tau»
Lupus Lounge/Prophecy
8/10
É espantoso o quanto os romenos Negura Bunget crescem a cada novo álbum que editam. «Tau», o sétimo registo do grupo, inicia uma trilogia sobre a região Transilvânia, concentrando-se no aspecto geográfico das montanhas dos Cárpatos. E vai mais longe na abordagem étnica da banda, com a inclusão de instrumentos de sopro que, no tema «Impodobeala timpului» assumem a sonoridade brass que é tão tradicionalmente romena e que dá à música dos Negura Bunget um dos seus aspectos mais folk de sempre. O black metal naturista continua, no entanto, a ser a espinha dorsal de «Tau», negro e épico, de percussão multifacetada e rica e cheia de partes intimistas e reflexivas. No entanto, Negru e a sua trupe apostam numa dinâmica mais vincada, enveredando frequentemente por black metal convencional para realçar o lado inóspito e cru das paisagens da Transilvânia, regressando depois à atmosfera para passar a sensação de beleza esmagadora que elas também dão. É um disco de um alcance estilístico e emocional verdadeiramente notável, apenas possível aos Negura Bunget de 2015, com as ideias no sítio, os argumentos técnicos para lá chegarem e amigos como Rune Eriksen (ex-Mayhem) e Sakis Tolis (Rotting Christ) para abrilhantarem momentos específicos. Grande disco.


 

Moonspell_ExtinctMOONSPELL
«Extinct»
Napalm Records
9/10
É uma espécie de traição à pátria dizer algo que não seja bem dos Moonspell – representantes máximos do metal nacional – mas a verdade, se quisermos ser justos, é que os lobos lusos tinham estagnado estilisticamente nos dois últimos discos editados. Não que o dark metal superiormente escrito e gravado por Fernando Ribeiro e companhia fosse mau; simplesmente faltaram a «Alpha Noir» e «Night Eternal» aquelas componentes de evolução, novidade e auto-motivação que acabaram por se transformar, também, na imagem de marca dos Moonspell. E talvez seja por isso que «Extinct», o décimo primeiro disco de originais da banda, seja tão bom. Ou então é porque foi dada, de novo, ao teclista Pedro Paixão rédea solta no capitulo da composição. A verdade é que os dez temas do álbum são uma espécie de revisitação dos Moonspell ao seu período mais gótico – por volta dos discos «Irreligious» e «Sin/Pecado», na segunda metade dos anos 90 – com a experiênia e o know how de banda adulta que têm hoje. O resultado? Um festim de dark metal gótico em que os Moonspell aproveitam, talvez pela primeira vez na sua carreira todos os elementos de diferenciação que possuem: O tom barítono de Ribeiro explorado em todo o seu potencial, melodias sublinhadas por apontamentos sinfónicos, leads de guitarra perfeitos e um sentido de melancolia perfeitamente encaixado na agressividade lupina da banda. E, se os Moonspell hoje não são os miúdos cheios de motivação inocente de «Wolfheart» nem os novos-ricos do talento a lambuzarem-se no experimentalismo de «The Butterfly Effect», «Extinct» mostra que souberam reter dentro deles os ensinamentos e melhores partes de cada uma das suas épocas, que explodem agora naquele que, verdadeiramente, é o melhor disco da sua carreira.


 

LamentationsOfTheAshen_LibertineCystLAMENTATIONS OF THE ASHEN
«Libertine Cyst»
Fragile Branch/Sylvan Screams Analogue
7/10
Nascido e mantido na mente do norte-americano Bon Vincent Fry, Lamentations Of The Ash é um daqueles projectos de black metal de um-homem-só que podia ser igual a tantos outros. Dizemos “podia” porque, logo no segundo disco de originais, «EKIMMV» (lançado em 2011) o senhor se libertou das amarras do black metal depressivo e entrou pelo departamento do doom a dentro, embora algo timidamente. Nesta terceira proposta, a timidez é coisa do passado e os quatro longos temas apresentados são uma coesa mistura de black metal suicida, pós-rock e doom funerário. Nada de extraordinariamente novo, mas Fry consegue aliar de forma coesa e qualitativa os momentos de pacata intimidade com os de “libertação” extrema. Como tal, «Libertine Cyst» revela-se uma experiência envolvente, intensa e tridimensional, pese embora utilize um tipo de receita que começa a ser meio banal dentro deste tipo de black metal e o disco conte com uma sonoridade um pouco directa de mais para as diferentes camadas musicais que a proposta contém. Ainda assim, são 66 minutos de melancolia, raiva e contemplação que vale a pena serem experimentados.


 

StevenWilson_HandCannotEraseSTEVEN WILSON
«Hand. Cannot. Erase»
Kscope
8/10
De alguma forma, apesar de ser ele que compõe a música e lidera os Porcupine Tree, Steven Wilson soube sempre colocar alguma distância entre o material que edita nos discos a solo e o que reserva para a sua banda. Em «Hand. Cannot. Erase», a quarta proposta em nome próprio, as coisas não são no entanto assim tão claras. É certo que o nível de melancolia pop/rock atmosférico de um tema como «Perfect Life» ou baladas como «Routine» (que parece a segunda parte de «Drive Home», do último trabalho) seriam olhadas um pouco de lado pelos fãs do rock progressivo altamente técnico dos Porcupine Tree, mas na sua nova proposta a solo, Wilson não se limita a interpretar material demasiado estranho, calmo ou ousado para ser colocado num disco dos Porcupine Tree. Há temas mais rítmicos e de guitarras distorcidas, numa espécie de abertura do espectro musical em que trabalha que completa o álbum, lhe dá uma maior profundidade e, em última análise, permite ao senhor explorar toda a sua genialidade que, como é sobejamente conhecido, toca vários géneros musicais. Temos, portanto, em «Hand. Cannot. Erase», um disco de rock progressivo que não se limita a explorar os limites do género, mas fá-lo sempre que é necessário. Depois, confirma da melhor forma aquilo que já sabíamos ou desconfiávamos: ou Steven Wilson é um génio permanentemente inspirado ou, alternativamente, um ser tão inteligente e dotado que descobriu a fórmula perfeita para manter infinitamente a sua abordagem musical relevante, refrescante e variada.


 

Dunderbeist_HyklereDUNDERBEIST
«Hyklere»
Indie Recordings
7/10
A ascensão meio meteórica dos Dunderbeist, primeiro na cena norueguesa e, desde o último disco que editaram, também no panorama internacional, só é surpreendente para quem não conhece a música da banda. A mistura de metal alternativo, rock progressivo e pós-hardcore que o grupo pratica é um reflexo da experiência que todos trazem (de bandas como Stonegard, Kite e Krace), mas também de talento genuíno e de uma vontade férrea em fazerem algo diferente e original. «Hyklere», o sétimo álbum de originais do colectivo, junta a todos esses factores um auto-conhecimento de banda perfeito e um esclarecimento singular. Por isso, o álbum navega elegantemente entre rock progressivo e psicadélico, cantado em norueguês, e uma espécie de metal alternativo que vai buscar ao groove, ao thrash e ao pós-hardcore algumas das suas opções de riffs. Nem sempre a coesão é perfeita, mas há que apoiar quem procura originalidade com esta qualidade e resultados, nem que para isso aliene ao mesmo tempo os fãs mais metaleiros e o lado mais indie do rock, ficando na mesma plataforma estilística de projectos como Disillusion, condenados a verem a sua genialidade reconhecida apenas muito depois de encerrarem actividades. Com os Dunderbeist, a julgar pela proficiência de discos e claro entusiasmo em apresentar música verdadeiramente nova, não corremos esse risco imediato, mas isso não é motivo para negligenciar um disco de música interessante e deliciosamente complexa como «Hyklere».


 

TheStoryteller_SacredFireTHE STORYTELLER
«Sacred Fire»
Black Lodge Records
7/10
Os The Storyteller são uma espécie de parente pobre do melhor power metal sueco. Não gozam de produções tão opulentas quando os HammerFall, não caíram no goto da imprensa como os Wolf e não têm a receita musical perfeita como os Falconer. Ainda assim, misturam de forma mito decente todos os elementos que caracterizam os seus compatriotas mais famosos. A abordagem da banda é uma mistura do lado mais imediato e cru do heavy metal tradicional, do típico power metal europeu melódico e conta com óbvias influências medievais. «Sacred Fire» é o sexto capítulo da discografia do quinteto e, pese embora não deslumbre, mostra um conjunto de temas relativamente inspirado, coerente e competente. As influências de música medieval estão concentradas em duas ou três faixas, enquanto no resto do álbum os The Storyteller se preocupam em soar da forma mais coesa possível dentro do heavy/power metal clássico, sem invenções e sem grandes originalidades e cumprindo todos os lugares-comuns do género. Fazem-no com popa, circunstância e alguma queda para o épico, em temas mais rápidos e noutros mais grandiosos e cadenciados, mas nunca chegam a entusiasmar.


 

DrLivingDead_CrushTheSublimeDR. LIVING DEAD!
«Crush The Sublime Gods»
Century Media
8/10
No meio da revolução thrash que tem trazido toda uma nova geração – de músicos e fãs – para o género, é sempre bom ver uma banda que paga o seu tributo ao underground antes de chegar a uma editora verdadeiramente grande. Os suecos Dr. Living Dead! fizeram-no, com duas maquetas lançadas independentemente e dois álbuns que saíram pela especializada High Roller Records antes de editarem «Crush The Sublime Gods» pela Century Media. Por isso, não admira que as 13 faixas do novo disco sejam um aperfeiçoar da receita musical do quarteto de Estocolmo: thrash/crossover fortemente influenciado pelos Suicidal Tendencies, Slayer e Nuclear Assault. Os Dr. Living Dead! trazem a já seminal variedade e irreverência da juventude para a sua abordagem musical e combinam a agressividade do speed/thrash com canções mais cadenciadas e groovy, sempre com um refrescante sentido de divertimento presente, que é a verdadeira essência do thrash. É por isso que as letras versam candidamente sobre filmes dos anos 80, sobre o próprio thrash e sobre a morte, enquanto os riffs cortantes se sucedem, os solos encaixam na perfeição em estruturas conservadoras mas muito dinâmicas e a banda salta facilmente entre o crossover, o thrash europeu e o seu “primo” da Bay Area, sem qualquer incongruência ou falso espírito. É puro thrash/crossover, feito como mandam as leis do estilo e com uma emergência e energia verdadeiramente contagiantes.


 

Wolfpakk_RiseOfTheWOLFPAKK
«Rise Of The Animal»
AFM Records
7/10
Os vocalistas e compositores Mark Sweeney (ex-Crystal Ball) e Michael Voss (Mad Max. Ex-Bonfire) iniciaram a parceria Wolfpakk em 2010 e, logo no ano seguinte, provaram que o seu projeto era mais do que apenas uma colecção de canções gravadas com amigos. O disco de estreia, homónimo, revelava um talento para a composição dentro do heavy/power metal melódico apenas ao alcance dos predestinados, com músicas depois executadas, bem, por músicos verdadeiramente predestinados, conhecidos de Sweeney e Voss dos anos que passaram na cena. «Cry Wolf», em 2013, confirmou os créditos dos Wolfpakk e «Rise Of The Animal» volta a fazê-lo agora. A espinha dorsal dos 11 temas do álbum continua a ser a dinâmica do duo em termos de composição do mais melódico e atraente heavy/power metal, usando todos os lugares comuns do género da melhor e mais produtiva maneira possível. Depois, há uma série de vocalistas e músicos convidados por faixa, com os primeiros a darem diferentes sabores às músicas (por exemplo, as duas fases dos Helloween estão presentes em «Rider Of The Storm» e no tema-título, com Andi Deris e Michael Kiske como convidados, respectivamente). Guitarristas como John Norum (Europe), Axel Rudi Pell e Doug Aldrich (ex-Whitesnake), baixistas como Al Barrow (Magnum) e Barend Courbois (Blind Guardian) e bateristas como Mike Terrana (ex-Rage), Chris Slade (AC/DC) e Mark Schulmann (Foreigner) encarregam-se depois de profissionalizar e encher as canções de classe, em mais uma prova que os Wolfpakk estão muito para além de serem apenas um simples projecto de parceria de composição.


 

Hong KongUFO
«A Conspiracy Of Stars»
Steamhammer
8/10
De entre as inúmeras bandas “clássicas” de hard rock que regressam e as (menos numerosas) que, nunca desistindo, tentam manter-se relevantes numa cena cada vez mais ecléctica, há uma que soube envelhecer como poucas: os UFO. O grupo inglês mantém-se no activo (quase) ininterruptamente desde 1969 e nunca fica muitos anos sem editar um disco novo. Não são estrelas mundiais ao nível de uns Whitesnake ou Van Halen é certo, mas o legado musical que souberam construir vale-lhes uma dedicada e fiel base de fãs. «A Conspiracy Of Stars» é o vigésimo segundo capítulo da discografia do colectivo e foi essencialmente composto pelo guitarrista Vinnie Moore. E isso nota-se. Dentro do estilo hard/blues rock descontraído e classy dos UFO, os solos, riffs e arranjos do ex-guitarrista de Alice Cooper destacam-se pela qualidade, mas enquadram-se de forma perfeita na sonoridade da banda inglesa. Phil Mogg é outra peça-chave, quer pelas letras cuidadas quer pela prestação cheia de alma das suas vocalizações. Ou seja, não sendo particularmente inspirado (nenhum disco de um grupo com mais de três décadas de carreira o é), espelha na perfeição a maturidade, classe e excelente equipa de composição que os UFO de 2015 detêm. E respeitar o legado, estar à altura do nome que ostentam e, ainda assim, acrescentar mais um punhado de canções relevantes ao seu espólio pode considerar-se uma excelente vitória – mais uma – por parte de um projecto que, na teoria, já não devia preocupar-se muito com essa coisa de “música nova”.


 

Opmaak 1AN AUTUMN FOR CRIPPLED CHILDREN
«The Long Goodbye»
Wickerman Recordings
8/10
Não há muito a dizer em apresentação dos holandeses An Autumn For Crippled Children. A ascensão do trio dentro no universo do black metal depressivo foi rápida, decidida e acompanhada por uma notável evolução artística que, ao chegar ao quinto álbum de originais, não dá sinais de abrandar. Em «The Long Goodbye», o misterioso projecto mergulha ainda mais profundamente nas influências pós/indie rock que começou a explorar no último «Try Not To Destroy Everything You Love» e no EP que se lhe seguiu. Só que, desta vez, a ousadia é acompanhada de um carregar de peso na parte black metal e de espessura nas camadas atmosféricas que são a imagem de marca dos An Autumn For Crippled Children. O resultado são nove faixas em que todas as componentes da sonoridade do trio são levadas a um extremo de quase-exagero que, no entanto, não cai no repetitivo nem no ridículo por via do reconhecido bom gosto e talento da banda para os arranjos. Preparem-se, pois, para um disco mais tudo do projecto, numa espécie de vertigem black metal ambiental/indie rock/shoegaze que apela a tudo o que é agonizante melancolia e doce tristeza.


 

TheNealMorseBand_TheGrandExperimentTHE NEAL MORSE BAND
«The Grand Experiment»
InsideOut Music
8/10
Neal Morse é, cada vez mais, o “Senhor Prog Rock”. Formou os Spock’s Beard, é um quarto do mais excitante super-projecto do estilo (os Transatlantic), segue uma irrepreensível carreira em nome próprio e, pelo meio, ainda teve tempo de fundar os Flying Colors com o seu parceiro de composição favorito, Mike Portnoy. «The Grand Experiment», nova proposta da carreira a solo de Morse, segue o mesmo caminho musical de «Momentum», ou seja, endurece alguns dos riffs até ao ponto do quase-metal, enquanto por outro lado mantém as melodias, os arranjos e as estruturas tão tipicamente prog-rock que têm marcado a carreira do senhor. O álbum contém dois temas longos («The Call» tem dez minutos e «Alive Again» tem quase 27), em que os longos solos de guitarra, as melodias que vão e voltam e as partes diferentes nos levam numa “viagem prog” que Neal Morse sabe guiar tão bem. Depois, há três temas mais curtos, dos quais se destaca a atmosfera claramente Yes de «Waterfall» e o tal peso recentemente explorado por Morse, em canções mais imediatas e “modernas” como «Agenda» e «The Grand Experiment», em que o baterista Mike Portnoy pode dar largas ao seu estilo agressivo e tecnicamente sólido. Apesar de transmitir uma sensação de continuidade lógica, «The Grand Experiment» está longe de ser apenas mais um capítulo na liderança tranquila do Senhor Prog Rock de uma cena que não lhe dá rival à altura do outro lado do Atlântico. É um disco com qualidade, personalidade própria e material à altura do estatuto que Neal Morse tem, aceita e lhe assenta tão bem.


 

CarachAngren_ThisIsNoCARACH ANGREN
«This Is No Fairytale»
Season Of Mist
8/10
Desde muito cedo na sua carreira que os holandeses Carach Angren mostraram que tinham algo especial em mãos. A forma absolutamente destemida como a banda mistura black metal, música barroca e histórias e atmosferas de terror depressa lhe colocou uma boa maquia de fãs a ouvir a sua proposta. Depois, foram crescendo musicalmente a cada um dos quatro álbuns de originais que editaram após o EP de estreia em 2005. A banda que agora chega a «This Is No Fairytale» (em formato trio, com um violinista convidado nos concertos) é uma autêntica máquina de black metal sinfónico. Ou, como eles lhe chamam, “horror metal”. Nas nove faixas do novo trabalho o que se nota é uma dinâmica maior e um mais bem conseguido entrosamento entre os arranjos orquestrais – em modo de banda-sonora de filme de terror – e o lado metálico dos Carach Angren. Há também um maior cuidado no fraseamento e arranjos vocais, o que transforma o black metal da banda numa estirpe particularmente cortante do género, com riffs que são o cruzamento perfeito entre técnica, agressividade e melodia. O lado barroco da música do projecto, bem como a forma como os arranjos funcionam, funcionam de modo muito competente nesta espécie de cruzamento feliz e moderno dos universos de Bal Sagoth, Dimmu Borgir e Cradle Of Filth. O black metal sinfónico dificilmente ficará mais entertainment que isto.


 

Ensiferum_OneMan Army - ArtworkENSIFERUM
«One Man Army»
Metal Blade
8/10
Marinheiros veteranos no barco do viking metal, os Ensiferum estão ligados, por suor e sangue, ao destino do estilo, que actualmente vive uma espécie de ressaca da febre que assolou a Europa há meia-dúzia de anos. Por isso, paradoxalmente, agora que editam um dos seus melhores trabalhos discográficos, os finlandeses terão porventura uma das reacções mais extremadas que alguma vez obtiveram; os fãs de viking metal idolatrarão «One Man Army» e todos os outros não lhe darão uma oportunidade apenas porque é “folk”. E “folk” é uma expressão tão redutora para tudo o que se passa nos 53 minutos deste sexto álbum de originais dos Ensiferum, que chega a ser ridículo usá-la. A banda mistura de tão forma soberba power metal, melodias escandinavas à Amorphis, coros épicos e instrumentos folk que quase cria um estilo novo com todos estes elementos, sobretudo quando são compostos e produzidos com a qualidade que «One Man Army» apresenta. O disco começa com uma série de canções mais rápidas e agressivas para depois entrar numa fase intermédia de temas grandiosos, épicos e envolventes, em que a voz feminina volta a ser impecavelmente usada. A fase final é mais folkish sim, e intimista, mas é apenas uma das componentes de um álbum com personalidade própria e uma profundidade que – até para os parâmetros dos Ensiferum – quase não tem paralelo. Por isso, esqueçam o que a vossa revista preferida vos diz e esqueçam a tendência para dizer “O folk metal não é a minha cena”. «One Man Army» é tão folk, no sentido mais romântico e dançante da coisa, quanto uma horda ululante de vikings barbudos e ferozes a desembarcar de um drakkar na costa mais próxima.


 

Torche_RestarterTORCHE
«Restarter»
Relapse Records
7/10
Possivelmente os mais venerados filhos espirituais dos Corrosion Of Conformity e Queens Of The Stone Age, os Torche têm sabido capitalizar a atenção inusitada que o stoner/sludge rock tem tido ultimamente para subirem na cadeia alimentar. Ao chegar a «Restarter»,o seu quarto álbum de originais, o quarteto norte-americano limita-se a gerir a excelente mistura de riffs pesados e robustos, secção rítmica sólida e vocalizações harmoniosas e melódicas, mas fá-lo com mestria e classe. As dez canções do disco não são particularmente inspiradas, sobretudo quando comparadas com a obra-prima «Meanderthal» que os Torche editaram em 2008, mas são suficientemente intensas, bem feitas e com riffs poderosos. Como banda que escreve canções, para além de apresentar uma receita de sludge/stoner absolutamente desarmante, o grupo nunca fará um mau disco, mas o desgaste causado por uma cena que dispara demasiadas boas propostas neste espectro há demasiado tempo retira a «Restarter» o impacto e a unanimidade que um disco assim devia ter. É pena, mas é mesmo assim.


 

ISSA_CrossfireISSA
«Crossfire»
Frontiers Music
7/10
Mais uma prova que o hard rock/AOR clássico nórdico está bem e recomenda-se. Issa (ou Isabell Oversveen, no seu nome real) é uma cantora norueguesa que enveredou pelo estilo e segue agora as pisadas de nomes como Roxette, Heart ou Romeo’s Daughter. A receita é simples – hard rock de arranjos clássicos mas com dinâmica e produção modernas – mas a senhora sabe rodear-se de compositores, produtores e músicos de qualidade de topo e isso nota-se nos seus álbuns. «Crossfire», o quarto disco de Issa, é um festim de melodias hard rock, bons riffs, camadas de teclados subtilmente colocadas entre o peso e canções que poderiam ter sido hit singles se tivessem sido gravadas na primeira metade dos anos 90. A validar a (boa) voz de Issa e a relevância de um projecto como este, Steve Oerland (dos FM) faz um dueto com a senhora e existem uma série de outros convidados (incluindo Alessandro Del Vecchio dos Hardline e Robert Sall dos Work Of Hart) a contribuirem com solos nas canções. Por isso, e pese embora «Crossfire» não seja um disco de topo na nova geração hard rock, é suficientemente redondo e bem feito para agradar a quem procura esta estirpe particularmente melódica – e de voz feminina – do estilo.


 

AncientRites_LaguzANCIENT RITES
«Laguz»
Massacre Records
8/10
Quem está dentro da indústria musical sabe que há um momento decisivo na vida das bandas, seja quando o timing se perde, quando a motivação é substituída por um sentimento de rotina ou quando os seus elementos chegam à meia idade e precisam de priorizar empregos e famílias. Mais de 50 por cento das bandas não sobrevivem a esse momento e, das que acabam e regressam à actividade anos mais tarde, poucas são as que recuperam a relevância que em tempos tiveram. Os belgas Ancient Rites, no entanto, não encaixam neste perfil. Se já eram, no final dos anos 90, um dos projectos que mais batalhou a pulso para subir uma cena black metal sobrepovoada e selvagem, a queda de popularidade do estilo na década seguinte apenas lhes deu combustível para apurarem ainda mais a sua estirpe de black metal sinfónico e histórico e trabalhos francamente inspirados como «Dim Carcosa» ou «Rubicon». Foi, no entanto, aí que tudo cedeu. A saúde do vocalista e fundador Gunther Theys deteriorou-se consideravelmente, viram-se sem contrato, com uma formação cheia de elementos a braços com empregos exigentes e os anos foram passando. Mas, mais uma vez, os Ancient Rites não estavam preparados para ceder ao destino. Nove anos após o último disco, a banda tem um regresso glorioso com «Laguz», um conjunto de músicas tão épico e grandioso como se «Rubicon» tivesse sido editado o ano passado e os Ancient Rites fossem um conjunto de miúdos motivados para fazer apenas a música que amam. É por isso que, ao longo de 46 minutos, são os Ancient Rites de antigamente, de black metal fácil, inspirado no heavy metal clássico e no speed metal, mergulhados no ambiente de banda-sonora que a evolução musical e artística lhes permite apresentar tão bem em arranjos orquestrais coesos, sumptuosos e envolventes. Mais importante que tudo, é uma banda com alma musical própria que usa a singularidade como arma artística e veículo de expressão para aquilo que lhes vai, verdadeiramente na alma. Por isso, recostem-se, peguem no folheto do CD e preparem-se para uma viagem musical ao nível das que os Septicflesh ou os Rotting Christ costumam proporcionar. Os Ancient Rites estão de volta. Verdadeiramente de volta.


 

Unhold_ToweringUNHOLD
«Towering»
Czar Of Bullets/Subversiv
9/10
Vinte e três anos de actividade, sempre com a mesma formação, e serem uma das primeiras bandas europeias a embarcar no comboio de sludge, que hoje tem o número de carruagens que tem, fala pelos suíços Unhold. A banda de Berna chega agora ao seu sexto álbum de originais e volta a justificar a atenção que lhes tem sido renegada – talvez por nunca terem estado numa editora “da moda” – com um disco que mistura de forma perfeita sludge progressivo, pós-hardcore, pós-metal e alguns outros estilos. O sentimento que acompanha todos os 60 minutos de «Towering» é melancolia, intimismo e beleza cheia de força e os Unhold não se poupam a fusões para lá chegarem. É, por isso, normal encontrarmos na sua música riffs monumentais ao lado de passagens de drone hipnótico que faria inveja aos Earth, de momentos de pura introspecção pós-hardcore ou mesmo de instrumentos de sopro. Vale tudo na libertinagem artística deste projecto, cujo apurado faro artístico lhes evita exageros e os leva a equilibrarem todos os diferentes lados da sua abordagem com mestria e com a motivação de quem não edita um disco de dois em dois anos, só por editar. Deste modo, não se admirem se lerem em algum lado que os Unhold são a resposta artsy aos co-compatriotas The Ocean. Porque, no melhor sentido possível da palavra, são-no mesmo.


 

Whyzdom_SymphonyForAWHYZDOM
«Symphony For A Hopeless God»
Scarlet Records
7/10
Procurando assumidamente, neste terceiro disco, uma atmosfera mais “cinematográfica” para a sua mistura de power metal sinfónico e gótico, os franceses Whyzdom dão um ambicioso e decidido passo em frente. É certo que o sexteto parisiense já tinha provado dominar bem os meandros do estilo nas duas propostas anteriores, mas esta dose reforçada de orquestrações, algumas delas épicas ao ponto da comparação com os Septicflesh, dão definitivamente uma profundidade renovada à música dos Whyzdom. É só pena que o grupo não a acompanhe com as melodias e a distinção de composição que os arranjos orquestrais, a voz poderosa voz de Marie Rouyer, os coros grandiosos e a qualidade de produção merecem. «Symphony For A Hopeless God» é um bom disco de power metal sinfónico, não restam dúvidas disso, mas com uma personalidade melódica um pouco mais vincada e uma outra abordagem aos arranjos e teríamos aqui os verdadeiros concorrentes dos Epica na cena internacional. Assim, ao terceiro álbum de originais, os Whyzdom limitam-se a dar o tal ambicioso passo em frente, mas pequeno, ao tamanho de umas pernas de talento um pouco curto e atarracado.


 

PrintECLIPSE
«Armageddonize»
Frontiers Music
8/10
Se a Suécia tem boa fama no renascimento do hard rock clássico, tal facto deve-se a bandas como os Work Of Art e estes Eclipse. O quarteto, que com «Armageddonize» chega ao seu quinto álbum de originais, tem uma noção perfeita de como deve o hard rock ser composto, tocado e gravado no século XXI e prova-o de cada vez que lança um novo álbum. A sua versão do estilo mantém as melodias contagiosas do AOR clássico, dá um valente push nas guitarras e secção rítmica e apresenta uma dinâmica e clareza na sonoridade como raramente se ouviu antes uma banda de hard rock ter. É certo que ajuda o seu guitarrista e vocalista Erik Mårtensson ser um dos mais respeitados produtores de hard rock da actualidade, mas sem substância, sem grandes compositores e músicos de excelência os Eclipse nunca chegariam à receita clássica mas francamente entusiasmante de hard rock que apresentam em «Armageddonize». Se pensarmos que as boas ideias musicais do guitarrista Maagnus Henriksson se dividem entre os Eclipse e os W.E.T. (banda que partilha com Jeff Scott Soto e com Rober Säll dos Work Of Art), então percebemos que há uma fonte (quase) inesgotável de talento e genialidade de hard rock a brotar deste conjunto de músicos que, com cinco álbum de originais, não dá sinais de esgotamento nem cansaço, apesar de “trabalhar” com música que se dizia morta há mais de duas décadas.


 

CD400_in36 CRAZYFISTS
«Time And Trauma»
Spinefarm Records
8/10
Com a banalização do pós-hardcore as bandas realmente inovadoras do estilo, como os 36 Crazyfists, viram a sua importância e influência diminuir e diluir-se numa cena em constante procura dos “novos heróis” de qualquer coisa. E, no entanto, se repararmos bem, o grupo do Alaska continuou sempre a editar discos muito decentes, constituindo uma discografia invejável e uma carreira de que se pode, definitivamente, orgulhar. «Time And Trauma» enquadra-se nesta conjuntura como mais uma prova da maturidade e resiliência dos 36 Crazyfists. É uma dúzia de temas de pós-hardcore adulto e com uma elevada dose de personalidade própria, com maneirismos melódicos à Deftones e riffs à Alice In Chains para refrescar o esgotamento de um género musical que, com o quarteto, nunca foi uma coisa estanque e sagrada. Brock Lindow tem uma das melhores prestações vocais que lhe conhecemos – cheia de sentimento, entrega sincera e com a força da sua voz explorada em todos os seus diferentes lados. Por isso, quando no fim do álbum os 36 Crazyfists propõem dois temas de rock intimista, talvez os mais arrojados que já gravaram na carreira, há um sentimento de naturalidade e lógica que lhes vem associado. Afinal, faz todo o sentido que «Gathering Bones» e «Marrow» encerrem mais um capítulo da carreira de uma banda que faz sempre do seu último disco uma espécie de canto do cisne, como se fosse a derradeira coisa que faz na vida.


 

KeepOfKalessin_EpistemologyKEEP OF KALESSIN
«Epistemology»
Indie Recordings
8/10
Com uma participação no concurso local de acesso ao festival da Eurovisão, dois Grammys noruegueses e lugares cimeiros no top de vendas, os Keep Of Kalessin serão porventura a banda norueguesa de black metal de maior sucesso em actividade, a seguir aos Dimmu Borgir e aos Satyricon. A fama, no entanto, não chegou ao trio liderado por Obsidian Claw sem perder, pelo meio, os mais acérrimos fãs do estilo, por via da crescente consciência melódica da abordagem da banda e de alguma cedência ao death metal. «Epistemology», o sexto e novo trabalho de originais da banda, reforça no entanto todos os predicados que os tornaram acessíveis a um público mais lato dentro do metal: precisão técnica, tendência para o som épico e uma variedade que alia melodia e agressividade como poucos conseguem. Apesar de aperfeiçoar a receita musical que tão bons resultados deu aos Keep Of Kalessin no passado, o trabalho não é, no entanto, uma mera repetição de processos: o som ostenta uma distância maior entre a voz de Obsidian Claw e os restantes instrumentos, a prestação vocal do senhor pauta-se por uma variedade e panóplia de tons diferentes como nunca tinha gravado antes e o trabalho de riffs e solos está absolutamente perfeito. Do passado, sobra a máquina de precisão que é a secção rítmica do trio, que serve de base para uma mistura de black metal épico, death metal melódico e heavy metal tão intrincada, tão dinâmica que é impossível não ceder ao charme destes noruegueses que, partindo do black metal, prometem não se deter em barreiras estilísticas, públicos-alvo ou qualquer novo marco histórico que atinjam.


 

SinZeSaseTri_STĂPÎN PESTE STĂPÎNISYN ZE ȘASE TRI
«Stăpîn peste stăpîni»
Code666
7/10
No “campeonato” do black metal sinfónico, os romenos Syn Ze Șase Tri são daquelas equipas que começam de forma discreta, mas que a partir do meio da época é practicamente impossível ganhar-lhes. Em «Stăpîn peste stăpîni», o terceiro álbum de originais – e último da trilogia iniciada em 2011 com «Între două lumi» – a banda atinge níveis de coesão musical, composição e qualidade de produção verdadeiramente internacionais e claramente acima da média. A base continua a ser black metal sinfónico e melódico como mandam as regras do estilo, com orquestração suficientemente bem integrada para ser interessante, que os Syn Ze Șase Tri depois completam com alguma instrumentação tradicional transilvana e um atraente conceito sobre a história da Dácia e as suas lendas. É lógico que o tempo que o líder, vocalista e guitarrista Corb passou a tocar nos Negură Bunget fez maravilhas pela evolução deste projecto, dotando-o com uma dimensão extra ao nível atmosférico e de coesão de todos os elementos musicais envolvidos, mas a evolução natural da banda apontava já para este crescimento acelerado, que «Stăpîn peste stăpîni» consubstancia e realiza e que pode fazer maravilhas pelos fãs de black metal sinfónico.


 

DesertStorm_OmniscientDESERT STORM
«Omniscient»
Blindsight Records
7/10
Misturar stoner rock de inspiração sulista doom e uma pitada de blues provou ser uma receita vencedora para os ingleses Desert Storm que viram, com os seus dois primeiros álbuns de originais, o seu nome chegar a cada um dos fãs do hype doom que grassa no metal. «Omniscient», terceira proposta, segue o mesmo caminho: stoner gordo e de som saturado, riffs redondos e ocasional inspiração doom, num conjunto de temas que tem na faixa «Bandwagon» uma bem-vinda abordagem irónica e em «Blue Snake Moan» uma viragem para o blues rock distorcido que os Desert Storm vinham prometendo há dois discos. O resto do álbum não apresenta erros, exageros ou fillers, mas também não se esforça minimamente por sair do espectro do stoner mais batido e tradicional, limitando-se a acrescentar-lhe algum peso, força e/ou distorção. Trata-se, pois, de um conjunto de faixas convincente que peca apenas por aparecer numa altura é que é tão cool fazer isto e em que tanta gente o faz. E tão bem. Por isso, quem ainda tem espaço para mais um disco do género, «Omniscient» tem tudo para ser um clássico esquecido numa vaga de milhares de álbuns e pode muito bem ser aquele segredo de uma colecção de discos que, daqui a 20 ou 30 anos, fará as delícias dos vossos filhos.


 

Code_MutCODE
«Mut»
Agonia Records
8/10
A viagem musical dos Code merece ser observada com atenção. O grupo anglo-norueguês começou por praticar black metal com aspirações progressivas, passou por uma fase de metal francamente vanguardista e surge agora com uma abordagem pós-rock de roupagem prog. Tudo em apenas quatro álbuns de originais. Este crescimento rápido (ou estado de constante mutação, se quiserem chamar-lhe assim) não costuma ser bom conselheiro de projectos com demasiada ambição para o talento que detêm (ou vice-versa), mas não é esse o caso dos Code. Quem conhecer qualquer um dos lançamentos anteriores do quinteto, sabe que se ele quiser praticar pós-rock progressivo, será pós-rock progressivo de qualidade e com um twist. Neste caso, o twist é aquela atmosfera decadente/elegante, comum a projectos como Ulver ou Manes, que lança sempre uma sombra de dúvida na cabeça do ouvinte em relação ao que poderá ouvir a seguir. «Mut», no entanto, mantém-se sempre em níveis de melodia modesta, ritmos recatados e distorção controlada, equilibrando essa lado soft com algumas texturas mais ásperas e um sentimento de melancolia dissonante que terá nos noruegueses Virus o seu maior paralelo. Já são, no entanto, demasiadas comparações para um trabalho que segue tão claramente o seu próprio instinto, por parte de uma banda que soube crescer e que, definitivamente, tem unhas para tocar a nova guitarra que “comprou”.


 

Rwake_XenoglossalgiaTheLastRWAKE
«Xenoglossalgia: The Last Stage Of Awareness»
Relapse Records
8/10
É normal, para uma banda cujo grau de experimentação atinge níveis quase científicos, que o seu novo álbum de originais seja uma remasterização da sua maqueta de estreia. É precisamente isso que os Rwake fazem, entregando os seis curtos temas de «Xenoglossalgia (The Last Stage Of Awareness)», a maqueta que editaram em 1998, a Brat Boatright (produtor de bandas como Sleep, High On Fire ou Integrity) para remasterizar. A “espanadela” sonora torna as faixas um pouco mais dinâmicas, mas continua a sobressair a vontade férrea dos Rwake, em 1998 como em 2015, de experimentarem à grande com sludge, noise e doom, arrebanhando pelo meio tudo o que encontram, incluindo black metal e rock psicadélico. No final do disco está uma faixa de 44 minutos, que aparenta ser nova, chamada «Calibos/So Fucking Tired», em que o septeto do Arkansas embarca (e nos leva) numa viagem de camadas intrincadas de drone, sampling, sludge vanguardista e doom metal levado à quinta casa do chafurdanço cósmico. É feio e elegante ao mesmo tempo, assustador e avassaladoramente belo. Não é para todos – é para quem se deixa ir com a música e vai para onde ela for.


 

Gehennah_MetalPoliceGEHENNAH
«Metal Police»
Metal Blade
8/10
Estabilidade nunca foi o ponto forte dos suecos Gehennah que, em pouco menos de 25 anos de carreira, já alteraram o seu nome (nos dois primeiros anos chamavam-se Gehenna), já tiveram uma interrupção de actividades (entre 2008 e 2011) e viram dois dos seus fundadores abandonarem a formação (o último dos quais foi o marcante baixista Ronnie “Ripper” Olson, que saiu em 2013). No entanto, há uma coisa em que os Gehennah parecem ser realmente bons: em chegar àquele estado de embriaguez provocatória que funciona como dínamo do seu thrash/black metal e o incendeia até ao ponto em que passam a ser os Motörhead escandinavos. «Metal Police» reedita em CD os quatro temas do EP com o mesmo título lançado em vinil de 7” no ano passado pela Lightning Records e acrescenta-lhe duas faixas gravadas na mesma sessão de estúdio e seis canções “clássicas” regravadas, entre as quais «Piss Off, I’m Drinking», do infame disco de estreia editado em 1995. Com uma produção que equilibra bem clareza e crueza, os Gehennah despejam o seu thrash/black/punk como se fosse 1979 e fazem-no com a simplicidade dos génios e a ingenuidade dos iluminados. Nada mais, mas também nada menos que isso.


 

Periphery_JuggernautAlphaPERIPHERY
«Juggernaut: Alpha/Omega»
Century Media
9/10
Em pouco menos de uma década, os norte-americanos Periphery tornaram-se uma espécie de novos heróis do rock/metal progressivo, herdeiros espirituais de bandas como Genesis, Voivod e Dream Theater à conta da mistura dinâmica de djent, melodias sofisticadas, abordagem técnica e escrita complexa que apresentaram nos primeiros discos de originais. «Juggernaut» apresenta-se na forma de álbum duplo conceptual e ultrapassa facilmente os seus antecessores com uma mais intrincada tapeçaria de diferentes camadas, equilibradas entre peso, melodia e técnica, que levam mais longe o poder dos Periphery para fazerem canções com uma receita musical aparentemente díspar, acrescentando ao mesmo tempo uma série de pormenores deliciosos (ouvir o solo jazzístico do tema «Rainbow Gravity) que abrem – ainda mais – o espectro musical do proejecto. «Jugernaut: Alpha/Omega» revela, pois, uma viagem de altos e baixos, luz e sombra e diferentes emoções à música dos Periphery ou, se quiserem, ao mais completo, moderno e excitante metal/rock progressivo que a última década teve. Não lhes falta alma, técnica, ambição nem talento. Falta-lhes só ficarem verdadeiramente gigantes, à semelhança dos seus antecessores no género.


 

Callisto_SecretYouthCALLISTO
«Secret Youth»
Svart Records
7/10
Com a maldição de serem considerados para sempre os “Cult Of Luna finlandeses”, os Callisto têm feito a carreira possível que, dentro dos parâmetros do pós-metal/hardcore, se pautou até agora por três álbuns de enorme qualidade, sem grandes preocupações em fugirem ao standard do género musical em que se movem. «Secret Youth», a quarta proposta que agora é editada, muda um pouco esse paradigma com uma produção e alguns elementos musicais mais directos na música da banda, que os leva a chamar-lhe “noise rock” em vez de pós-metal. No entanto, trata-se de pouco mais do que semântica porque, para o bem e para o mal, todos os pontos da personalidade musical dos Callisto estão bem presentes no disco, sejam a voz distinta de Jani Ala-Hukkala, os ambientes expansivos que apelam à banda-sonora que foram aperfeiçoando ao longo dos anos ou o mais recente lado dissonante que “casa” bem com as harmonias melódicas do grupo. A composição é um pouco mais madura e coesa, mas também um tudo-nada menos genial, como se os Callisto tivessem chegado a um ponto em que desistiram de, ou não conseguem pura e simplesmente, ser uma banda de pós-metal com o mesmo poder atmosférico evocativo que os Cult Of Luna. E, nesse limbo de não serem mais que isso mas equipararem-se a não menos que os melhores, «Secret Youth» podia ser um disco bem pior, mas também podia ser o trabalho da vista dos Callisto, se eles não tivessem – por decisão própria ou não – deixado passar o ponto da sua carreira entre a motivação da juventude e a resignação da idade adulta.


 

Solefald_WorldMetalKosmopolisSOLEFALD
«World Metal. Kosmopolis Sud»
Indie Recordings
8/10
Os noruegueses Solefald são das entidades musicais mais vanguardistas que é possível ouvir actualmente e, apesar de nos últimos lançamentos se terem dedicado à história e temáticas nórdicas, a essência do duo é um experimentalismo musical mais global e universal. Por isso, «World Metal. Kosmopolis Sud» recupera essa versatilidade estilística e “viaja” até África, até à Índia e volta à Noruega, com um conjunto de temas tão variado e out there que o termo de comparação tem de ser, como os próprios Solefald enfatizam, o seu disco de 1999, «Neonism». Só que, em 2015, Cornelius Jakhelin e Lazare Nedland têm outros argumentos técnicos, outra maturidade e experiência suficiente para fazer uma fusão perfeita de metal vanguardista, prog-rock, techno e música étnica. É isso que «World Metal. Kosmopolis Sud» é: uma viagem alucinante a vários mundos diferentes, que vão do kalimba (instrumento de percussão tradicional africano) gravado em Zanzibar, aos teclados electrónicos, da percussão tribal ao mais poderoso dark metal ornamentado com riffs thrash. Na liderança da abordagem dos Solefald está o criterioso bom gosto musical da banda e um apurado sentido artístico que os leva a dividir as influências por faixas específicas, de modo a não termos uma sopa de tudo em todo o álbum, mas sim degustar diversos sabores diferentes nas diferentes faixas. Tudo preparado por dois chefs que, claramente, são os melhores naquilo que fazem, ajudados por convidados especiais que ainda apimentam mais os pratos.


 

Melanchoholics_SolarCaféMELANCHOHOLICS
«Solar Café»
Eibon Records
8/10
O terceiro longa-duração do projecto alemão Melanchoholics esteve em produção durante quatro anos, entre 2006 e 2010. A inspiração do disco foi uma série de fotos tiradas pelo guitarrista Benedikt durante a pesquisa para um documentário, num longo período de espera pelo solstício de Verão na aldeia de Flateyri, situada nos fiordes islandeses. Eventualmente, Benedikt morreria de cancro sensivelmente um ano depois, por isso «Solar Café» é não apenas o último lançamento dos Melanchoholics, como também uma edição muito especial. Através de gravações de campo, manipulações sónicas de dark-ambient/drone, experimentações com guitarras e sampling, os nove temas do álbum conseguem unir o melhor de dois mundos: o sentimento de claustrofobia do dark ambient e o poder invocativo das bandas sonoras. Existe muita melancolia em «Solar Café», mas também um ténue sentimento de esperança, passado através de fugazes melodias, uma atmosfera que vai do esmagador ao etéreo e um sentido de harmonia que dá uma aura de coesão a todo o álbum. É certo que os Melanchoholics nunca saem do espectro do dark ambient, mas para projecto que se move no mais obscuro, experimental e exclusivo género musical, «Solar Café» encerra o seu legado artístico com chave de ouro e um trabalho ao qual podemos regressar vezes sem conta.


 

OneWayMirror_CaptureONE-WAY MIRROR
«Capture»
Pavement Entertainment
7/10
Quando se estrearam, em 2008, pela Metal Blade com o seu disco de estreia, os One-Way Mirror causaram algum impacto. Afinal, tratava-se da “outra banda” de Guillaume Bideau, dos Mnemic, que contava também com elementos dos Lyzanxia, Phaze I, T.A.N.K. e General Lee. O timing, no entanto, pregou uma partida ao projecto e tudo o que era metal e rock “moderno” e “groove” começou a ser olhado de lado, por essa altura, pela imprensa especializada e, consequentemente, pelo público. É certo que «One-Way Mirror», assim como «Destructive By Nature» quatro anos depois, continham os exageros e erros naturais de um colectivo que ainda está a descobrir a sua personalidade musical e limitações mas, francamente, um projecto com estas características e potencial teria tido outro impacto e importância se tivesse tido a sorte de se estrear meia-década antes. O banho de realidade e humildade teria sido suficiente para mandar qualquer banda ao tapete, mas os franceses parecem ser bem mais persistentes do que a maioria dos músicos da sua geração e aqui estão eles, de novo, com um terceiro disco. «Capture» consegue retirar da equação grande parte dos resquícios de nu-metal que os One-Way Mirror ainda tinham há três anos e aperfila-se como um disco de groove rock/metal moderno, com capacidade para ir até terrenos de puro hard rock (ouvir a versão de «Lady Marmalade», dos Labelle), mas essencialmente focado em libertar o mais forte groove e depois misturá-lo com refrões antémicos onde a reconhecida capacidade melódica de Guillaume Bideau vem ao de cima. Por isso, não revolucionando a sua sonoridade mas com um decisivo passo em frente em termos evolutivos e de crescimento, os One-Way Mirror provam que estão aqui para ficar e, no processo, registam mais um bom conjunto de canções para quem acha que os Mnemic e os Soilwork podiam muito bem ser a mesma banda.


 

Hate_CruzadeZeroHATE
«Crvzade:Zero»
Napalm Records
8/10
Viver à sombra de bandas como os Behemoth e os Vader deve ser tramado, mas os polacos Hate nunca cederam nem um milímetro na sua visão anti-cristã, negra e técnica, mesmo quando os acusavam de ser meras cópias. E, entretanto, já passaram 15 anos e os índices de execução, qualidade de produção e composição do colectivo chegaram tão próximos dos mestres que já não existe praticamente diferença. É certo que os Behemoth têm naquele mistura maligna e os Vader têm na voz de Peter as suas imagens de marca e os Hate não têm nada de particularmente original, mas quem procura o death metal blasfemo da escola polaca tem aqui uma boa alternativa às suas bandas favoritas. «Crvzade:Zero» é o disco número nove da carreira do trio e estreia um novo baterista (Pavulon, que chega dos Antigama), mas a marcha da banda segue, imperturbável, num death metal tecnicamente preciso, de riffs e solos competentes e com uma abordagem vocal férrea, plena de brutalidade mas invulgarmente perceptível. É o estilo polaco em todo o seu esplendor, numa banda que já não é assim tanto de segunda linha, que mantém os níveis de motivação e entusiasmo em alta e isso acaba por reflectir-se na música.


 

Revenge_HarderThanSteelREVENGE
«Harder Than Steel»
Iron Shield Records
7/10
Expoentes máximos do speed/heavy metal colombiano, os Revenge não são uma banda para grandes evoluções ou revoluções no seu som. Por isso, em 13 anos de actividade a única coisa que fizeram foi aumentar a qualidade da produção dos seus lançamentos, a execução técnica e a coesão do seu estilo clássico. Consequentemente, «Harder Than Steel», o tal sexto álbum de originais dos Revenge, é um exemplo do que o speed/heavy metal mais conservador representa desde o início dos tempos: respeito pelas raízes (germânicas) do género, riffs e ritmos que andam sempre ali à volta do “galope” do speed metal e temáticas de letras épicas, beligerantes e anti-cristãs. «Harder Than Steel» apresenta, no entanto, melhorias nos departamentos de solos – que estão mais bem conseguidos do que em qualquer um dos lançamentos anteriores da banda – e na abordagem vocal, sem exageros mas com a dose de agressividade certa, num registo que se pode comparar,de certa forma, ao de Chris Boltendahl, dos Grave Digger. É no entanto, outra banda alemã que está em destaque em «Harder Than Steel»: os Running Wild, com uma versão de «Chains And Leather», do álbum «Branded And Exiled», de 1985. Por isso, não há nada que saber: quem gosta de speed/heavy metal clássico de marca alemã, terá em nesta nova proposta dos Revenge uns bons 44 minutos de pura diversão. Quem não aprecia, também não é com «Harder Than Steel» que vai ficar iluminado.


 

NapalmDeath_ApexPredatorNAPALM DEATH
«Apex Predator – Easy Meat»
Century Media
8/10
Existe uma frase no press release que acompanha «Apex Predator – Easy Meat» que, basicamente, resume tudo aquilo que os Napalm Death representam para a música extrema: “Estamos em 2014, o mundo está fodido e precisamos dos Napalm Death mais que nunca”. É precisamente essa a importância – sónica e social – do quarteto de Birmingham, que por um lado nunca abrandou na exploração do lado mais rápido e extremo do grindcore que ajudou a criar, mas por outro continua a estar na vanguarda do estilo misturando-o com elementos industriais e noise. Toda esta fealdade sonora tem um contraponto sublime nas letras, incrivelmente realistas e humanistas, escritas e vociferadas por Barney Greenway, criando a mistura perfeita para quem gosta de grindcore com tomates e cérebro. E, se é que «Apex Predator – Easy Meat» não mostra sinais dos Napalm Death abrandarem no seu extremismo e entusiasmo que os fãs da banda querem ouvir, temos todo o prazer em dizê-lo. A passagem das sétima e oitava faixas, respectivamente «Dear Slum Landlord…» e «Cesspits», demonstra todo o potencial dos Napalm Death em 2015: um indomável espírito experimentalista, a flirtar com ambientes noise/industriais, e depois o mais rápido, gutural e violento grindcore que é humanamente possível fazer. Os mestres podem já levar três décadas e meia disto, mas continuam a perceber uma coisa ou duas de grindcore.


 

Disharmonic_MagicheArtiEDISHARMONIC
«Magiche Arti e Oscuri Deliri»
Beyond… Prod
7/10
Numa altura em que o doom começa a ficar “emprateleirado” em diversos sub-estilos estanques e (cada vez mais) estéreis, um projecto como os Disharmonic é uma autêntica lufada de ar fresco. O colectivo chega ao seu terceiro longa-duração com um esclarecimento muito maduro na composição do seu doom ocultista e ritualista, espécie de herdeiro espiritual do legado transalpino de Paul Chain e Goblin e propõe 11 faixas altamente dramáticas, vocalizadas em italiano, com riffs e leads de guitarra profundamente influenciados por Mercyful Fate. Se a esta abordagem juntarmos uma produção extremamente directa e crua, arranjos estranhos e ocasionais passagens de trompete e outros instrumentos de sopro, temos um disco de doom/black metal ocultista de personalidade muito vincada, feito para apreciadores de música original e verdadeiramente ritualista. Porque os Disharmonic parecem usar as suas composições para chegarem – eles e quem os ouve – àquele estado de exaltação hipnótica que faz disto mais do que apenas um pedaço de música. Tem exageros? Claro. Não é convencional? Pois não. Mas, para coisas certinhas e convencionais, existem todos os outros grupos de doom/black metal.


 

Layout 1VENOM
«From The Very Depths»
Spinefarm Records
8/10
Despachemos já todo o peso influencial dos Venom dizendo apenas que foram eles, com o seu álbum de 1982, que inventaram a expressão “black metal”. Ao longo dos anos, no entanto, o projecto liderado pelo baixista e vocalista Cronos teve tremendos altos e baixos de popularidade, que foi dos píncaros de nomes como Metallica, Slayer e Megadeth os considerarem essenciais para a sua formação enquanto bandas até ao desprezo a que foram votados, por parte da imprensa, no final dos anos 90, com o disco «Cast In Stone». Hoje em dia os tempos são de novo generosos para os Venom, agraciados por uma nova geração que descobre e aprecia a abordagem selvagem, directa e crua do black/thrash metal dos seus primeiros discos. E é a essa sonoridade “clássica” que o trio regressa com «From The Very Depths», o seu décimo quarto álbum de estúdio. Uma mistura de black metal e thrash exponenciada por uma produção clara e forte, com ocasionais incursões pelo doom, por um som mais punk (a candidata a hino «Long Haired Paunks» lembra que eles são uma espécie de versão mais feroz dos Motörhead) ou por coisas mais experimentais como «Smoke», reminiscentes do meio da carreira do grupo. É uma espécie de viagem às origens dos Venom com paragens em todos os pontos da linha, composta e gravada por um colectivo que parece irradiar a energia que regularmente recebe de novas gerações de fãs e admiradores. Por isso, e pegando nas palavras de Lemmy Kilmister, se uma banda ficar em cena por tempo suficiente, terá tempo de ser grande e cair em desgraça, de fazer grandes discos e outros menos conseguidos – é um ciclo. E o ciclo dos Venom, com «From The Very Depths», volta ao francamente positivo, o que para uma banda com a história que têm, não é nada pouco.


 

Toundra_IVTOUNDRA
«IV»
Superball Music
8/10
Longe vão os tempos em que não era preciso muito para uma banda espanhola ter sucesso no seu mercado interno. Actualmente, a abertura de nuestros hermanos à cena internacional, coincidente com um aumento de concorrência das bandas locais, torna Espanha numa das cenas musicais com maior potencial da Europa. Os Toundra, no entanto, não são um fenómeno recente. A banda madrilena lança discos desde 2008, simplesmente intitulados com a numeração romana a que corresponde a sua ordem, e candidamente vem desenvolvendo e amadurecendo um pós-rock de texturas e complexidade riquíssimas. Ao chegar a «IV», o quarteto demonstra um impressionante equilíbrio entre a dinâmica intimismo/explosão rock e um lado experimental que, teimosamente, se mantém na abordagem do projecto desde o seu primeiro registo. As oito faixa do trabalho são manifestamente pós-rock instrumental, mas os Toundra não se inibem de lhe colar a sua própria personalidade musical, seja em momentos de surpreendente fusão sinfónica («Viesca»), seja com um lado mais épico e emotivo patente nas faixas maiores e mais intrincadas. Destaca-se, pois, esse maior sentido de dinâmica e uma tendência para a narrativa musical que, mesmo neste tipo de música instrumental, está bem presente na abordagem dos Toundra e faz de «IV» um disco verdadeiramente profundo e complexo, cheio de atmosferas, texturas, altos e baixos que se dão à descoberta, à exploração e, finalmente, a um prazer auditivo sem limites.


 

ByThePatient_GehennaBY THE PATIENT
«Gehenna»
Lifeforce Records
8/10
Já há muito tempo que a cena dinamarquesa deixou de ser o parente pobre do metal nórdico, pese embora continue a ter um ratio de bandas por habitante bem mais baixo do que outros países com uma população na ordem dos cinco milhões, como a Noruega ou a Finlândia. Se falarmos, no entanto, de qualidade, a conversa muda e os By The Patient são um dos expoentes máximos do talento e visão da nova geração de músicos dinamarqueses. Formados em 2006, demoraram três anos até lançarem o EP de estreia, mas logo aí, em «Catenation Of Adversity», se notava que o grupo tinha uma vontade férrea em diluir barreiras estilísticas dentro do metal extremo. «Servants» e «Premonition», respectivamente em 2010 e 2012, serviram para o colectivo de Copenhaga aperfeiçoar a receita e apurar a personalidade musical, que chega agora ao terceiro longa-duração no seu pico de forma. A base de «Gehenna» continua a ser o death metal moderno de distorção massiva de compatriotas como Illdisposed, mas os By The Patient não se ficam por aí e usam dinâmicas de death metal melódico, complexidades técnicas que não envergonhariam os Behemoth e melodias tipicamente nórdicas, perfazendo uma mistura sonora coesa e homogénea. Como se percebe facilmente pela faixa-título, o grupo não usa apenas um tipo de velocidade para fazer funcionar «Gehenna», mas raramente perde o sentido de dinâmica, musicalidade ou agressividade, terminando os 43 minutos do disco com um excelente conjunto de extremismo escandinavo que pode muito bem ser a linha directa – até agora invisível – que une os The Haunted, Illdisposed e Amon Amarth.


 

Archgoat_TheApocalypticTriumphatorARCHGOAT
«The Apocalyptic Triumphator»
Debemur Morti Productions
7/10
Os finlandeses Archgoat são daquelas bandas que fazem da autenticidade uma bandeira. O seu black/death metal não é particularmente técnico ou extremo, mas é gravado com uma produção directa e orgânica, cantado com uma ferocidade que faz de cada tom gutural uma lança espetada no flanco de Jesus e conta com uma atmosfera tão densa que é quase palpável. «The Apocalyptic Triumphator» repete, pela terceira vez num longa-duração, estes predicados do trio, embrulhados num manto de ausência de evolução musical e técnica de que os Archgoat se orgulham e do qual fazem a sua imagem de marca. Isso não os impede de recorrerem frequentemente a blastbeats e solos tocados a toda a velocidade, que alternam com mestria e parcimónia com partes mais cadenciadas que chamam o espírito do doom para a sonoridade da banda. A questão é que «The Apocalyptic Triumphator» poderia perfeitamente chamar-se «Whore Of Bethlehem» ou «The Light-Devouring Darkness» se um dos dois discos anteriores do trio por acaso não tivesse sido editado. A coerência musical dos Archgoat levou-os a um beco sem saída que a ética death/black metal e alguma arte nos arranjos vai conseguindo disfarçar, mas vai chegar a uma altura em que os Archgoat terão muito pouco para fazer que não tenham já apresentado aos seus fãs. Até lá, quem procura mais canções de um álbum que os Archgoat parecem estar a editar, em partes, desde o início da sua carreira, tem aqui mais uma dúzia de faixas.


 

Sweet&Lynch_OnlyToRiseSWEET & LYNCH
«Only To Rise»
Frontiers Music
8/10
Juntar o vocalista dos Stryper e o guitarrista dos Lynch Mob é daqueles projectos que a Frontiers Music está constantemente a fazer e que mistura uma necessidade premente de facturar com nomes conhecidos em novas plataformas musicais e o sonho de verdadeiros fãs em verem talentos icónicos cruzarem os seus dotes musicais. Neste caso, «Only To Rise» resulta na perfeição. Com uma secção rítmica à altura (o ex-baixista dos Megadeth James Lomenzo e o ex-baterista dos Whitesnake Brian Tichy) e uma área musical específica para se movimentarem (hard rock clássico dos anos 70 e 80), Michael Sweet e George Lynch sacam uma dúzia de canções com um pouco de tudo o que os fãs gostam, com riffs e solos de topo e uma das mais potentes, cristalinas e míticas vozes do hard rock/heavy metal da actualidade, a par de Sebastian Bach, David Coverdale e Jorn Lande. «Only To Rise» move-se graciosamente entre o AOR mais clássico, metal progressivo rápido e pesado, heavy/power metal melódico e um hard rock mais maduro e adulto, sem nunca mostrar brechas na coesão (apesar dos músicos nunca terem feito uma única sessão de ensaio ou gravação juntos!) e colocando sempre as canções em primeiro lugar, apesar dos óbvios talentos de composição e execução. Por isso, apesar de Sweet & Lynch ser apenas mais um projecto na onda de coisas como Allen/Lande ou Kiske/Sommerville, «Only To Rise» não é apenas mais um disco da Frontiers.


 

TheMarigold_KanavalTHE MARIGOLD
«Kanaval»
DeAmbula Records
8/10
Quem procura shoegaze a sério nesta época de fartura e cópias, tem alguma dificuldade em encontrar originalidade e profundidade e, sobretudo, falta de tempo para procurá-las entre as centenas de propostas afinadas pela mesma bitola. Os italianos The Marigold, no entanto, têm algo de diferente neles. A mistura de shoegaze e noise rock que praticam procura o hipnotismo através do experimentalismo e a beleza no lado menos óbvio do estilo. «Kanaval», o terceiro disco do projecto, é essencialmente instrumental e conta com ajuda de alguns convidados especiais, de onde se destaca Toshi Kasai (elemento dos Melvins) que participou nas gravações, produziu, misturou e masterizou o registo. O resultado final são nove faixas que, não sendo de magistral originalidade, são suficientemente variadas, inventivas e imprevisíveis para darem um valente pontapé numa cena que atravessa um marasmo aflitivo. Mais impressionante que tudo é o facto dos The Marigold conseguirem fazê-lo com um assinalável sentido de melodia e musicalidade, que nunca sacrificam em prol do experimental pelo experimental e que brilha por cima de toda a viagem «Kanaval», iluminando-a como um sol de harmonias sofisticadas. Boa cena.


 

Marduk_FrontschweinMARDUK
«Frontschwein»
Century Media
9/10
É cada vez mais clara a genialidade da decisão dos Marduk recrutarem, em 2004, os serviços do vocalista dos Funeral Mist, Mortuus. O sangue fresco que o músico trouxe ao grupo, juntamente com o crescimento dos Marduk enquanto unidade de black metal, tem dado à banda sueca um dos períodos mais prolíficos da sua história. «Frontschwein», a nova proposta, traz o colectivo de volta ao imaginário da guerra, década e meia depois de «Panzer Division Marduk», e fá-lo com brutalidade e atmosfera a funcionar como aliados. Entre alguns dos temas mais rápidos que os Marduk já gravaram (o último do disco, «Thousand-Fold Death», é mesmo o mais rápido), e uma improvável colaboração com o projecto industrial/marcial Arditi (apenas disponível como bónus na edição limitada), «Frontschwein» é um disco-besta que mostra todas as qualidades do black metal sueco que os Marduk tão indisputadamente lideram: bruto e directo na abordagem, atmosférico e obscuro nos pormenores, evocando uma narrativa de guerra que vai muito para além da habitual visão romanticista e mergulha de corpo e alma nas trincheiras húmidas, frias escuras e com cheiro a urina da frente de guerra. E se, com 25 anos de carreira, os Marduk deveriam, em teoria, já ter “secado” a sua fonte de inspiração e a energia motivadora, Morgan, Mortuus, Devo e companhia mostram que no black metal as coisas não são assim tão previsíveis.


 

AlphaTiger_iDentitALPHA TIGER
«iDentity»
Steamhammer
7/10
Os alemães Alpha Tiger põem-se exactamente a jeito para fãs do revivalismo do heavy metal clássico, mas ao longo de três álbuns de originais souberam evoluir musicalmente ao ponto de serem mais do que apenas mais uma proposta de miúdos que querem apenas tocar como os heróis de antigamente. «iDentity», terceiro longa-duração do quinteto que até 2011 se chamava Satin Black, tem uma maior variedade nas suas nove faixas. Há temas mais simples e directos – como o single «Lady Liberty» – e outros mais cuidadosamente arranjados e compostos em diversas camadas de heavy/power metal clássico, hard rock old school e metal progressivo reminiscente de Queensrÿche ou Fates Warning. Como nas duas propostas anteriores, os Alpha Tiger nunca arriscam muito em termos de originalidade ou personalidade musical, mas esta recentemente encontrada vontade de diversificar a sua receita cai bem, numa banda que tem claramente talento e argumentos técnicos para se tornar num dos mais importantes nomes da cena revivalista germânica. É só continuarem nesta direcção.
http://www.youtube.com/watch?v=p_QdMJ1C9RY


 

OrdenOgan_RavenheadORDEN OGAN
«Ravenhead»
AFM Records
9/10
Começam a faltar adjectivos superlativos para descrever os Orden Ogan, numa altura em que vão apenas no seu quinto álbum de originais. Já é mais ou menos consensual que o quarteto é o legítimo herdeiro do espírito do power metal alemão imortalizado primeiro pelos Running Wild e depois pelos Blind Guardian, mas não deixa de ser impressionante como a banda se mantém focada, inspirada e motivada a cada novo lançamento que faz. «Ravenhead» tem o condão de refinar a receita musical dos Orden Ogan e isto não é dizer pouco quando o último «To The End» já era, há três anos, uma proposta impecável de power metal massivo, de produção sem mácula, refrões épicos e ambiente melancólico. O novo disco consegue melhorar a receita, é certo, mas não baixa no nível de qualidade das melodias e nem na intensidade dos riffs e ritmos, mantendo como imagem de marca um tipo de arranjos muito próprios, algo reminiscentes dos Blind Guardian mas com uma influência folk muito ligeira (as raízes do grupo estão no folk metal) que chega para os tornar únicos e imediatamente reconhecíveis, coisa de que 95% das bandas não se podem gabar actualmente. Por isso, quando lerem os Orden Ogan dizerem nas entrevistas que «Ravenhead» é o seu melhor álbum de sempre, acreditem neles. E se ouvirem alguém dizer que é o melhor conjunto de temas de power metal à homem que a Alemanha exportou na última década, podem acreditar também.


 

Bi0184.cdrINGESTED
«The Architect Of Extinction»
Siege Of Amida Records
7/10
De banda de deathcore ligeiramente inspirada e desproporcionalmente levada ao colo pela imprensa metálica britânica – Terrorizer, Metal Hammer e Kerrang – os Ingested souberam evoluir, em poucos anos, para uma bem oleada máquina de demolição. «The Architect Of Extinction», a terceira proposta do quinteto de Manchester, não sacrifica as crenças hardcore da banda, recorrendo a breakdowns gigantescos e à típica dinâmica apurada do deathcore para tornar os temas mais apelativos. Só que carrega no lado da brutalidade e da técnica da sua música, acabando a propor uma colecção de temas invulgarmente coesa e forte. As músicas do álbum são brutas e orgânicas, com estratégicos pontos de melodia (escute-se a instrumental e épica «Penance» a meio do disco) para adensar ainda mais o ambiente. Não deixa de ser uma espécie de seguidismo na viragem para o death metal bruto mais conservador já operada por bandas como Job For A Cowboy, mas enquanto peça de música, «The Architect Of Extinction» é bom um exemplo de como o deathcore pode, efectivamente, tornar-se adulto.


 

Gurd_FakeGURD
«Fake»
Czar Of Crickets Productions
7/10
Os Gurd são uma das mais trabalhadoras e aplicadas bandas da cena metálica suíça e, se nunca deram com nenhum dos dez álbuns de originais que editaram nos últimos 20 (!) anos, isso deve-se ao facto da banda praticar um groove/thrash como tantas outras. Isso não significa, no entanto, que não o façam com qualidade e energia. Só que, de alguma forma, o quarteto de Berna prefere manter-se dentro das barreiras da sonoridade mais “clássica” do estilo (pensem num cruzamento de «Burn My Eyes» dos Machine Head com «Sound Of White Noise» dos Anthrax), que interpretam de forma descomprometida mas muito competente. «Fake», o décimo primeiro longa-duração do projecto, volta a fazê-lo. Armados com uma produção robusta e um groove generoso, os Gurd disparam uma colecção de 13 canções que podem ir da rápida e extrema «White Death» à mais inspirada pelo hardcore (com refrões cheios de coros Haggriden) que mostram que as influências de Biohazard podem não ser, afinal, assim tão más. Nos 54 minutos de «Fake» há ainda tempo para piscadelas de olho ao crossover e a canções mais tradicionalmente groove/thrash (fãs de Pantera, alerta!), numa variedade que se saúda e que tempera de forma muito decente a abordagem feijão-com-arroz da banda.


 

InsanityReignsSupreme_UnorthodoxINSANITY REIGNS SUPREME
«Unorthodox»
Shiver Records
7/10
Os belgas Insanity Reigns Supreme nunca se apressaram a lançar discos (têm quatro editados numa carreira que já passa os 25 anos), mas também nunca repetiram a sua fórmula musical em cada um deles. «Unorthodox», a nova proposta, completa a evolução do quinteto para um black/death metal massivo e intenso, mantendo no entanto alguns cuidados pontos de contacto com o doom/death metal que marcou os primeiros lançamentos que fizeram. As nove canções do novo disco (há também duas curtas introduções) espelham uma vontade férrea em terem uma qualidade de som acima da média (a produção do alemão Andy Classen nos seus estúdios Stage One consegue-o) e o death/black metal de pedaleira dupla, blastbeat e riffs gélidos agradece-o, constituindo-se assim uma boa proposta alternativa para quem aprecia a forma como as blasfémias dos Belphegor são musicadas. Ainda assim, «Unorthodox» continua a padecer de uma certa generalidade no âmago da sua abordagem, que as referências ao doom, assim como a presença da voz feminina soprano de Claudia Michelutti não conseguem contrabalançar inteiramente. Fica uma proposta sem erros, capaz de convencer os fãs mais ortodoxos, que representa o almejado passo em frente para o projecto. No entanto, a partir de agora, vai ser preciso mais do que “apenas” black/death metal competente, caso os Insanity Reigns Supreme queiram continuar o seu caminho ascendente.


 

Beardfish_4626ComfortzoneBEARDFISH
«+4626-COMFORTZONE»
InsideOut Music
8/10
Os suecos Beardfish são mestres em unir as pontas do rock progressivo. “Clássico” e “moderno”, “sueco” e “britânico”, há um pouco de tudo para todos na música do quarteto, em doses maciças de bom gosto, pormenores técnicos deliciosos e arranjos sublimes. Ao chegarem ao oitavo álbum de originais, os Beardfish não evitam alguma erosão das ideias mais geniais, quase todas “gastas” em discos como «Sleeping In Traffic» ou «Destined Solitaire», mas compensam com uma dose reforçada de variedade e com uma capacidade crescente para criarem os ambientes perfeitos em todas as abordagens musicais que experimentam. E elas são muitas – da acústica «The One Inside Part Two» a momentos mais multifacetados à The Flower Kings, passando por outros de melodias mais clássicas perfeitas para amantes da fase prog dos Genesis e mesmo ao peso das últimas propostas, todo concentrado na canção «Daughter/Whore» – e quase todas interpretadas na perfeição. Por isso, e sabendo de antemão que os Beardfish não são banda para reinventar o rock progressivo e que «+4626-COMFORTZONE» não é o seu mais exuberante disco de sempre, quem se aventurar por ele a dentro terá direito a uma generosa dose de art rock progressivo bem composto e bem tocado, em 65 minutos de puro prazer auditivo.


 

TheCrown_DeathIsNotTHE CROWN
«Death Is Not Dead»
Century Media
8/10
Visto assim, de fora, a sensação que temos é que os The Crown andam actualmente à procura de facturar com um nome – e receita musical – que abandonaram há anos por falta de motivação, de ambiente saudável no grupo ou do raio que os parta. Depois de (mais um) regresso à actividade feito há seis anos, é o vocalista Johan Lindstrand que agora volta mais uma vez, fazendo com que «Death Is Not Dead» fosse gravado com três quintos da formação original. O problema neste oitavo disco de estúdio dos suecos é que, por mais que nos cheire a interesse financeiro, eles conseguem mesmo recuperar aquela receita de death metal cortante, melódico e bruto que faz parte do imaginário dos fãs de música extrema sueca dos anos 00. Mesmo apesar de não serem revolucionários nem especialmente dinâmicos, os The Crown têm ainda energia e riffs que cheguem dentro de si para deixarem para trás boa parte da concorrência death/thrash metal sueca – seja feita na Suécia ou não – e sacar meia-dúzia de faixas intensas, coesas e suficientemente rápidas para fazerem parte do lado mais feliz do seu legado. A piscadela de olho à música clássica, com os riffs a buscarem as melodias da ópera “Carmina Burana”, do tema «Iblis Bane», cai de forma incrivelmente perfeita na velocidade furiosa de quase todo o restante disco, com o contraponto a ser dado por temas como «Speed Kills (Full Moon Ahead)», que poderiam literalmente ter sido gravados para qualquer um dos discos clássicos da banda. Por isso, e mesmo sabendo que o coração destes suecos já não está provavelmente aqui, temos de dar a mão à palmatória e reconhecer que a sua competência compensa (quase) tudo.


 

Viranesir_RapingFeministsForVIRANESIR
«Raping Feminists For Freedom»
Merdumgiriz
7/10
Se o título do quarto álbum de originais deste projecto do turco Emir Toğrul, dos Ayala, vos fez levantar as sobrancelhas, preparem-se para abrir a boca quando lerem os nomes das nove faixas. «Child Porn Is Sublimated High Art», «I Only Like Jews When They Kill Muslims» ou «I Only Like Gays When They Scream Like To Opposite Sex As I Rape Them» são apenas três exemplos da ironia aplicada nas letras (improvisadas) deste registo, que se regem pela máxima de Ruhanathanas (dos Blliigghhtted), “A correcção política é ignorância europeia”. Musicalmente, «Raping Feminists For Freedom» prossegue o caminho libertino, cru e experimental do black metal ambiental de Viranesir. Momentos da mais extrema fealdade, com distorção no máximo, riffs dissonantes, blastbeats e produção primitiva, são alternados com outros mais introspectivos, passagens acústicas ou momentos de morbidez doom. As letras ganham um particular relevo num disco com o carácter provocativo que este tem, mas a evolução de Viranesir ao nível da sua estética sonora – mais esclarecida, original e coesa do que em algum dos lançamentos anteriores – deve ser igualmente realçada. Um bom disquinho que, ao ser encomendado, é todo feito à mão por Emir Toğrul, desde a montagem do jewelcase à pintura do próprio CD. Arte na verdadeira acepção da palavra.

HoodedMenace_GloomImmemorialHOODED MENACE
«Gloom Immemorial»
Doomentia Records
8/10
Das bandas que chamam à sua música “metal of death”, os finlandeses Hooded Menace serão provavelmente a mais excitante de todas. O doom/death metal do projecto liderado pelo multi-instrumentista e vocalista Lasse Pyykkö presta homenagem a tudo o que é bom nas artes obscuras: filmes como “La noche del terror ciego” e o mais emergente e negro doom/death metal que é possível ouvir na actualidade. Em três álbuns de originais, os Hooded Menace fizeram-no com mestria e talento, deixando ao longo dos anos também um rasto de EPs, splits com outras bandas e uma maqueta. E são precisamente os temas dessas edições “menores” que estão presentes em «Gloom Immemorial», uma compilação que Pyykkö e os seus comparsas fizeram para que os fãs não tenham de gastar rios de dinheiro no Ebay a comprar vinis ou CDs em segunda mão para terem aquela faixa que lhes falta. Este CD tem 11 dessas faixas, que vão desde as duas primeiras versões dos dois temas que fizeram parte da única maqueta editada pela banda em 2007, até à canção «I, Devil Master», até aqui apenas disponível na compilação «Live Evil, Vol.1», passando pelas tais músicas com que os Hooded Menace contribíram para splits com bandas como Asphyx, Ilsa, Anima Morte ou Horse Latitudes. O fio condutor – que é o ambiente perfeitamente mórbido do doom/death metal que sai dos instrumentos da banda – está lá, bem como todos os elementos que fazem deste um projecto tão especial: distorção absurda, ocasionais solos, um grunhido do mais fundo dos infernos e riffs que vêm dos confins da memória colectiva do death metal old school. Há maneira de resistir a uma coisa assim?

ZeroDown_NoLimitToZERO DOWN
«No Limit To The Evil»
Minotauro Records
7/10
Misturar heavy metal clássico, apontamentos NWOBHM e punk pode parecer uma coisa fácil e natural no papel, mas fazer com que funcione em disco pode ser bem mais complicado. Não, no entanto, para os norte-americanos Zero Down, que o fazem com resultados satisfatórios há uma década e quatro álbuns de originais. «No Limit To The Devil» é a nova proposta e não acrescenta nada ao que o quinteto de Washington já tinha mostrado antes, para além de mais uma uma dezena de faixas de riffs contundentes, solos metálicos até ao tutano e uma receita que alia as virtudes mais divertidas do heavy metal e do punk como (quase) ninguém consegue fazer hoje em dia. A imobilidade estilística dos Zero Down, confirmada mais uma vez aqui, é um pau de dois bicos: vale-lhes a admiração de que acha que isto é que é metal e que sair daqui, seja para onde for musicalmente, os transformará em párias. Por outro lado, quem já ouviu qualquer um dos três discos anteriores do projecto e procura algo mais, não é em «No Limit To The Evil» que o encontrará. O disco tem dois pares de canções especialmente inspiradas – todas no início do trabalho – e começa a resvalar um pouco na segunda metade do registo, pese embora sem nunca perder muita qualidade ou força na abordagem. É um disco de Zero Down para fãs de Zero Down. Se ainda não sabem se o são ou não, é uma óptima altura para descobrirem.

Nervochaos_TheArtOfNERVOCHAOS
«The Art Of Vengeance»
Greyhaze Records
8/10
Activos desde 1996 e com uma média de um álbum editado de três em três anos desde e então, os brasileiros Nervochaos têm acrescentado qualidade de produção, coesão, competência técnica e experiência à raivosa energia thrash/death/punk dos seus primeiros lançamentos e, lenta mais paulatinamente, têm-se transformado numa banda do caraças. «The Art Of Vengeance», sexta proposta de originais do quarteto paulista, encontra-o numa forma difícil de bater, em que os riffs muito válidos se sucedem a uma velocidade alucinante, a secção rítmica apresenta a solidez de uma bola de demolição, a abordagem vocal é gutural mas claramente perceptível e a composição lhes permite gerir as mudanças de death/thrash para speed-thrash/crossover ou para death/doom de forma perfeita. E, apesar de poderem ser descritos como uma mistura da raiva sul-americana dos primeiros discos dos Sepultura, do poder abrasivo dos Bolt Thrower e do thrash robusto mas libertino da escola alemã, os Nervochaos conseguem manter uma personalidade musical muito vincada ao longo de todo o álbum e continuar a mostrar evolução, artística e técnica, 16 anos depois do seu primeiro disco.

Tourniquet_OnwardToFreedomTOURNIQUET
«Onward To Freedom»
Pathogenic Records
7/10
Desde os anos 90 que o baterista Ted Kirkpatrick e os “seus” Tourniquet nos habituaram a discos de pura loucura musical, em que o entusiasmo por vários estilos diferentes de metal leva por vezes a melhor ante algum sentido de coesão ou mesmo de bom senso. Por vezes funciona maravilhosamente, com um tipo de energia inocente que não se encontra em praticamente mais nenhum projecto actual, outras vezes falha miseravelmente. «Onward To Freedom», disco número nove da carreira dos Tourniquet, volta a fazê-lo, desta vez com o nobre conceito de luta contra a injustiça e crueldade feitas aos animais e gente como Marty Friedman, Chris Poland, Michael Sweet (Stryper), Bruce Franklin (Trouble) e Dug Pinnick (King’s X), entre muitos outros, a ajudar. Como é habitual no universo de Tourniquet, a música pode ir de um thrashcore com um breakdown imenso até um tema de death metal clássico, passando por riffs de heavy metal tradicional e por uma miríade de outros géneros, obviamente com um toque de classe dado pelos convidados e pela experiência do próprio Kirkpatrick, mas com loucura suficiente para envergonhar um paciente do Júlio de Matos. «Onward To Freedom», mantendo a tradição de Tourniquet, tem os seus momentos de brilhantismo alternados com outros um pouco bizarros, mas sempre feitos com um entusiasmo e inocência transbordantes e com a melhor das intenções por parte de um projecto que, esquizofrénico como se apresenta, é obrigado a auto financiar-se. Existe alguma coisa mais digna de apoio que isto?

RevelInFlesh_DeathKultLegionsREVEL IN FLESH
«Death Kult Legions»
Cyclone Empire
8/10
Terceiro álbum de originais para a banda mais sueca da cena death metal old school alemã. À custa de uma parceira de produção estável com Dan Swäno, de uma dieta de influência clássicas (Dismember, Entombed, Grave e Bolt Thrower) e de um assinalável poder evolutivo, os Revel In Flesh chegam ao terceiro álbum de originais a dominar totalmente o estilo que praticam. «Death Kult Legions» é, por isso, um disco obrigatório de death metal europeu da velha guarda, pleno daquela distorção tão tradicionalmente sueca, de riffs (bem) gamados às bandas clássicas e a um ambiente sonoro envolvente e contagiante. Os solos encostam-se frequentemente a um lado mais melancólico que encaixa bem no death metal mórbido e doentio e os padrões rítmicos recuperam aquele groove tão característico dos Bolt Thrower, a que é difícil de resistir. Estes são os principais argumentos dos Revel In Flesh para levarem os fãs de um estilo que tem tantas propostas a sair constantemente a dar uma oportunidade a «Death Kult Legions», possivelmente o melhor disco de death metal a sair depois do novo álbum dos Bloodbath. Se isso não vos chega, se calhar é melhor ponderarem começarem a ouvir outro género de música qualquer.

TheGathering_TG25DivingIntoTHE GATHERING
«TG25: Diving Into The Unknown»
Psychonaut
8/10
Numa altura em que celebraram 25 anos de carreira com um par de concertos especiais em que juntaram em palco todos os elementos que passaram pela formação da banda desde 1989, os holandeses The Gathering aproveitaram para anunciar a saída da baixista Marjolein Kooijman e um hiato do projecto por tempo indeterminado para “perceberem o que vão fazer” no futuro. «TG25: Diving Into The Unknown» é uma compilação de três CDs que visa não apenas assinalar as duas décadas e meia de música irrepreensível dos The Gathering como ajudar a colocar um ponto final neste capítulo. Os discos são temáticos: o primeiro contém os “singles” e escava até «Stonegarden», do primeiro álbum de originais do grupo, com natural ênfase na segunda metade dos anos 90, quando os The Gathering tiveram o seu boost criativo e de popularidade e se tornaram na banda que tornou possível toda a explosão de metal gótico e sinfónico na Holanda, de grupos como Within Temptation, Epica ou Delain. O segundo disco é chamado “Tracks” e, como o nome indica, reúne uma série de faixas marcantes do projecto que não foram necessariamente singles, como são os casos de «Nighttime Birds», «Home», «Travel» ou a mais recente «Heroes For Ghosts». Finalmente, um CD captado ao vivo na sala Paradiso em 2004, num ambiente em que os The Gathering se revelaram uma das melhores bandas do mundo, ainda com a marcante Anekke van Giersbergen no microfone, e com três faixas inéditas (duas delas em formato acústico gravadas na Radio Futuro, no Chile, em 2010, já com Silje Wergeland como vocalista) como grande atractivo. E, mais uma vez, nem que seja através de uma “simples” compilação best-of, fica bem claro que os The Gathering não são um projecto qualquer, mostrando um cuidado no seu acervo e uma atenção especial pelos fãs – os mais antigos e os novos – com um registo completo, atraente e que resume de forma exemplar o genial trabalho de um dos mais importantes projectos musicais europeus. Que voltem em breve.

Kauan_MuistumiaKAUAN
«Muistumia»
Blood Music
8/10
Os Kauan são uma das mais inspiradoras bandas a praticar doom/folk metal na cena actual. A banda russa, entretanto radicada na Ucrânia,canta principalmente em finlandês e tem um assinalável sentido de melodia, melancolia e bom gosto, injectando inclusivamente algumas influências pós-rock nos seus últimos lançamentos. «Muistumia» era, na sua génese, um projecto limitado em que o grupo pretendia rearranjar e regravar alguns dos seus temas mais antigos. Fê-lo com o crowdfunding de 53 pessoas, acrescentou uma música nova às seis retiradas dos dois primeiros discos, mas torrou todo o dinheiro na produção, ficando sem fundos para fabricar o CD. Por isso, o registo – até agora chamado simplesmente «Private Release» – tem sido disponibilizado online, nomeadamente no YouTube, mas nunca tinha tido uma edição física. Até agora, altura em que a Blood Music decidiu lançá-lo em vinil (800 cópias em várias cores) e CD (1.000 cópias). E em boa hora, porque esta “roupagem” mais sóbria e madura ao doom/folk inspirado de 2007/2008 dos Kauan é uma das coisas mais emocionantes que é possível ouvir actualmente. Espécie de cruzamento da melancolia tranquila dos Tenhi e do encanto folk dos Agalloch, «Muistumia» é o círculo a fechar-se para os Kauan, uma banda que merece, definitivamente, uma atenção maior.

MorsPrincipiumEst_AndDeathSaidMORS PRINCIPIUM EST
«Dawn Of The 5th Era»
AFM Records
9/10
Não existe uma forma fácil de explicar como, usando precisamente os mesmos recursos musicais de bandas como At The Gates, In Flames ou Dark Tranquillity, os finlandeses Morr Principium Est conseguem soar de forma tão refrescante, mas ao chegarem ao quinto álbum, é não apenas certo que o conseguem como chegam lá com uma popularidade invejável. É um dado adquirido que a banda liderada pelo vocalista Ville Viljanen tem uma queda quase inata para melodias e para a coesão musical que lhes permite uma impressionante dinâmica entre riffs cortantes, ritmos demolidores, produção cristalina e técnica apurada – quase à imagem dos compatriotas Children Of Bodom – mas existem outras propostas no mercado com as mesmas qualidades e com resultados musicais bem aquém dos Mors Principium Est. A diferença parece estar, como o novo «Dawn Of The 5th Era» volta a vincar, num talento natural para comporem grandes faixas e numa abordagem que segue as regras do death metal melódico mas não se fica por aí, acrescentando influências de thrash, heavy/power metal e mesmo algum black metal sinfónico. A coisa passa-se de forma tão rápida e é tão bem misturada no estilo da banda que mal damos por ela. Aquilo que é fácil perceber, ainda mais nesta colecção de 11 canções que surgem mais desenvoltas, mais confiantes e mais dinâmicas do que qualquer material anterior dos Mors Principium Est, é que esta não é uma banda qualquer. E que cada novo disco de originais, dos cinco editados até agora, os leva um passo mais próximo da perfeição artística.

SpaceVacation_CosmicVanguardSPACE VACATION
«Cosmic Vanguard»
Pure Steel Records
8/10
Bem montados na nova vaga de heavy metal clássico, os norte-americanos Space Vacation lançaram dois bons discos em 2009 e 2012 respectivamente, que aliavam de forma entusiasmante US power metal com influências NWOBHM. «Cosmic Vanguard», a terceira proposta, mantém a mesma abordagem musical, pese embora com refrões mais vincadamente old school e um trabalho de guitarras mais exuberante, cortesia do ex-Vicious Rumors Kiyoshi Morgan, recrutado para os Space Vacation há um par de anos. O que o quarteto californiano nos propõe é, pois, uma estirpe particularmente melódica de US power metal que consegue incluir nas suas canções elementos NWOBHM e speed metal (o início de «The Living Damned» é puro Helloween antigo) sem alterar em nada a sua essência e com claros resultados ao nível da originalidade e da variedade. A produção de «Cosmic Vanguard» merece igual destaque, num misto de som cristalino e orgânico que resulta de forma perfeita na música dos Space Vacation. A altura pode não ser a ideal para um bom disco de heavy metal clássico, a meio entre o intemporal e o old school, com coisas como White Wizzard, Vanderbuyst ou Cauldron a darem aos fãs um leque de boas escolhas maior do que os bolsos permitem, mas este terceiro longa-duração da banda californiana merece definitivamente uma hipótese.

DeathWolf_OstergotlandDEATH WOLF
«III: Östergötland»
Century Media
6/10
Como projecto paralelo mais liberto de amarras de Morgan, guitarrista e líder dos Marduk, os Death Wolf são uma entidade em constante mudança e cheia de paradigmas. Das raízes punk/metal horror inspirado em Misfits e Samhain (na altura o projecto chamava-se Devils Whorehouse) aos três discos editados enquanto Death Wolf, o quinteto foi metamorfoseando a sua música à medida das necessidades criativas e motivações do seu mentor e, por isso, os álbuns da banda carecem sempre de alguma coesão estilística, mas nunca de variedade ou surpresas. Só que o efeito-surpresa esvazia-se ao fim de algum tempo e, ao chegar a «III: Östergötland», a terceira proposta longa-duração enquanto Death Wolf (quinta, se contarmos com os discos dos Devils Whorehouse), Morgan e os seus rapazes têm muito pouco para oferecer para além de um conjunto de canções variado, bem feitinho mas pouco ambicioso. Certo, é interessante ver como a banda muda de registo entre o doom do tema-título, o death rock de «Today King, Tomorrow Dead», o thrash de «Wall Of Shields» ou o rock/punk à Motörhead de «Thorntree». Só que não há profundidade em «III: Östergötland»; o que temos é o que ouvimos à primeira, sem dimensão adicional e com temas que, cumprindo as regras estilísticas sem reparo, nunca chegam ao ponto de entusiasmar ou da genialidade. Resta a consolação de haver um disco novo de Marduk a caminho.

Ram_Portrait_UnderCommandRAM/PORTRAIT
«Under Command»
Metal Blade
8/10
«Under Command» é o resultado prático de duas das mais promissoras jovens bandas do heavy metal clássico sueco a fazerem aquilo que fazem melhor: divertirem-se e tocarem música. Ligadas por fortes laços de amizade, ambas as bandas contribuem para este split (disponível em CD e em várias edições diferentes em vinil) com uma faixa nova e inédita, com uma versão uma da outra e com uma versão das suas influências musicais. Os RAM apresentam «Savage Machine», que mostra toda a qualidade do seu heavy metal clássico, bem como «Welcome To My Funeral», retirada da primeira maqueta dos Portrait, com um considerável boost de peso e velocidade. Finalmente, uma versão de «Creaturs Of The Night», dos Kiss, um pouco mais metalizada mas relativamente fiel ao original. Os Portrait apresentam o tema novo «Martial Lead», naquele registo heavy metal satânico à Mercyful Fate que os caracteriza, mas depois viram a bitola para uma sonoridade um pouco mais genérica com a versão de «Blessed To Be Cursed», dos RAM, que contém no entanto tudo o que um fã de heavy metal pode pedir. A versão de «Aggressor», dos Exciter, acelera o ritmo até ao speed metal, mas aí os Portrait já conseguem (querem?) injectar boas doses do seu heavy metal ocultista e satânico, com resultados francamente entusiasmantes. Um split obrigatório.

Yes_LikeItIsYES
«Like It Is – Live At The Bristol Hippodrome»
Frontiers Music
8/10
Torna-se desnecessário aqui repetir o nível de influência que os Yes tiveram para todo o movimento do rock progressivo desde o final dos anos 60, por isso vamos apenas introduzir este texto dizendo que, se não sabem quem são os Yes, provavelmente estão a ler a página errada. Aos outros, os que conhecem bem a importância dos ingleses, informamos que «Like Is Is – Live At The Bristol Hippodrome» é muito mais do que apenas mais um álbum ao vivo dos Yes. É um disco duplo, bem captado, interpretado com a qualidade técnica e a entrega que são a imagem de marca desta banda e um excelente packaging onde não falta mais uma magnífica capa de Roger Dean. Musicalmente, no concerto em questão o quinteto interpretou, na íntegra, dois dos seus mais respeitados álbuns: «The Yes Album» (de 1971) e «Going For The One» (de 1977). A oportunidade é, pois, única de ouvir ao vivo músicas mais obscuras como «Clap», «A Venture» ou «Parallels», lado a lado com clássicos como «I’ve Seen All Good People: Your Move», «Wonderous Stories» ou «Going For The One». É, sobretudo, uma chance de ouvir os Yes interpretarem discos icónicos, com a lista de faixas como estamos habituados a ouvi-las, como se de um ritual se tratasse. E, como não podia deixar de ser, a banda não falha nem em técnica nem em sentimento e até mesmo o novo vocalista Jon Davison consegue estar à altura de tão importante ocasião, apesar de ter uns “sapatos” como os de Jon Anderson, para encher. Acaba por não estragar a magia da noite – e, por consequência, do disco – e isso já não é dizer pouco.

CANDLE471CD_BOOKLET_V3.inddHATEFUL ABANDON
«liars/bastards»
Candlelight Records
7/10
Os Hateful Abandon são um daqueles projectos que procuram tanto quebrar barreiras estilísticas, que a coisa pode descambar a qualquer momento. Os dois álbuns de originais editados pelo duo antes de chegarem a este «liars/bastards» eram uma espécie de manta de retalhos musical, feita de black metal, noise rock, industrial, música ambiental e algum pós-punk, que podia ir em qualquer direcção em qualquer momento. Ou se ama ou se odeia. A nova proposta segue o mesmo caminho, embora Vice Martyr e Swine sejam agora mais capazes de fundir os estilos, pese embora continuem a respeitar a regra de “cada música, cada género”. É por isso que somos brindados com uma faixa de metal industrial old school logo no início do disco para, de seguida, «Culprit» se instalar (nada) confortavelmente em terrenos de pós-punk/gótico britânico. Está dado o mote e, com um denominador comum feito de atmosferas carregadas, os Hateful Abandon voltam a provocar, chocar e espantar os fãs de música vanguardista e híbrida com um conjunto de canções bem feitas, seja qual for o espectro em que se movimentam. É estranho, mas é definitivamente um gosto que se adquire, como qualquer obra de artistas verdadeiramente originais e progressistas.

Nefandus_RealityCleaverNEFANDUS
«Reality Cleaver»
Daemon Worship Productions
8/10
No seguimento da saída do vocalista Blackwinged, que tinha formado o projecto juntamente com o multi-instrumentista Belfagor em 1993, os Nefandus estão de volta com um terceiro álbum de originais repleto de novidades. Por sinal, são agora uma banda completa, com a adição de um baixista e baterista, que se juntam a Belfagor e ao guitarrista Ushatar. Depois, mudam ligeiramente a sua sonoridade para um black metal mais lento e ocultista, a meio caminho entre o estilo frio, cortante mas melódico dos Vreid e do black’n’doom dos Khold. Dos primeiros lançamentos, resta aos Nefandus uma tendência para não facilitarem muito em termos de peso e morbidez, mantendo sempre os níveis de extremismo – apesar da óbvia desaceleração rítmica – bem altos. Com esta nova receita musical em mãos, a banda inspirou-se e gravou oito temas de uma intensidade invulgar, plenos de camadas diferentes, poesia ocultista e black metal lento. A excepção vai para a última faixa do álbum, chamada «Scorn Of The All-Mind», que é uma canção mais virada para o doom rock e para o rock ocultista de bandas como The Devil’s Blood, embora mantenha a distorção e o ambiente do resto do trabalho. Uma proposta de qualidade, completa e desafiadora para os antigos fãs da banda e para os admiradores de black metal em geral, que compensa largamente quem investir nela.

Harem Scarem - ThirteenHAREM SCAREM
«13»
Frontiers Records
7/10
Os Harem Scarem são possivelmente a mais conhecida banda de hard rock clássico do Canadá, pese embora com um sucesso de vendas algo limitado quando comparado com pesos-pesados do estilo nos E.U.A. como Journey ou Foreigner. Ainda assim, a carreira do grupo rendeu-lhes uma bela discografia de 12 álbuns de originais que foram acompanhando a tendência do AOR ao longo dos anos, sempre com uma sobriedade que se tornou a imagem de marca da banda. Até 2008, altura em que decidiram colocar um ponto final na carreira, que durou cinco anos até reconsiderarem e voltarem ao activo com uma regravação do segundo disco, originalmente lançado em 1993, «Mood Swings». Agora é altura dos Harem Scarem voltarem ao material original, seis anos depois do último «Hope», e é sem grande surpresa que mantém a qualidade do seu hard rock melódico clássico, sem surpresas mas também sem invenções desnecessárias. Com a equipa-base, constituída pelo vocalista, teclista e guitarrista Harry Hess e pelo guitarrista Pete Lesperance, a manter-se, não custou muito aos Harem Scarem fazerem um álbum “à Harem Scarem”: bons momentos de guitarra, boas melodias que evitam a exuberância e uma série de faixas que seguem a estrutuação mais conservadora do hard rock, mas enchem-na de arranjos de qualidade. É um disco para fãs da banda e para quem aprecia esta versão muito própria, algures entre o hard rock mais bluesy dos House Of Lords e a proeficiência técnica dos Mr. Big. Não é mais, mas também não é menos que isso.

Cruachan_BloodForTheCRUACHAN
«Blood For The Blood God»
Trollzorn
8/10
Os Cruachan carregam consigo a maldição da comparação, inevitável, com os compatriotas Primordial mas, tirando o facto de ambas as bandas tocarem metal de alguma forma inspirado pelo folk, tudo o resto é diferente. A começar pela abordagem – os Primordial têm um estilo pagão, enquanto os Cruachan derivam mais para o folk tradicional – e a acabar na forma como gerem a carreira, que levou os primeiros aos píncaros da popularidade, enquanto os segundos ainda procuram alguma notoriedade depois de duas décadas de carreira e sete álbuns de originais editados. Isso não significa que a nova proposta, «Blood For The Blood God», seja um mau disco ou metal “de segunda divisão” quando – lá está – comparado com o novo álbum dos Primordial. É, aliás, uma continuação do regresso à boa forma musical iniciado em 2011 com «Blood On The Black Robe», em que os Cruachan voltaram às raízes black metal e assumiram a sua esquizofrenia musical, com temas mais folk e épicos e outros mais negros e pesados. As 12 canções que agora chegam neste novo trabalho seguem precisamente esse caminho, sendo que o sexteto de Dublin carrega um pouco mais no pedal do peso e da velocidade, deixando as melodias (quase) exclusivamente para a flauta e reduzindo as vocalizações femininas a um mínimo histórico. Tudo isto faz de «Blood For The Blood God» um trabalho denso, cinzento e multidimensional de black metal ornamentado por folclore irlandês e temática da história e mitologia local, de uma forma directa e honesta que confirma que os melhores Cruachan estão, definitivamente, de volta.

MyShameful_HollowMY SHAMEFUL
«Hollow»
Moscow Funeral League
8/10
Podem não ser a mais badalada ou proficiente banda de doom do mundo, com seis álbuns de originais editados em 16 anos de carreira e este novo a sair na obscura Moscow Funeral League, mas o caminho musical dos My Shameful é deveras assinalável. De um doom/death metal relativamente standard – para os parâmetros finlandeses – nos seus primeiros discos, a banda soube tornar a sua música ainda mais lenta, injectar-lhe um maior sentido de trevas e de atmosfera opressiva e acabou com uma estirpe de funeral doom/death metal difícil de igualar em termos de intensidade. «Hollow» é um conjunto de oito faixas e 61 minutos em que a luz da esperança não entra, profundamente firme nas suas fundações funeral doom, cumprindo os seus preceitos com uma convicção quase ritualista. Lado a lado com nomes como Shape Of Despair ou Mournful Congregation, os My Shameful encontraram a fórmula certa para mergulhar quem os ouve no mais profundo desespero, sem qualquer réstia de melodia ou sentimentos positivos, onde apenas o mais negro e opressivo doom tem lugar. Pode ser uma repetição de processos em relação a outros projectos que tornaram o funeral doom/death metal um estilo tão especial, mas «Hollow» fá-lo com uma renovada fé na morte, na tristeza e na condenação eterna.

Bloodbath_GrandMorbidFuneralBLOODBATH
«Grand Morbid Funeral»
Peaceville Records
8/10
Apesar do espectro de “super-banda” (o autocolante “com membros de Katatonia e Opeth” está sempre nas capas), os Bloodbath souberam sempre, ao longo de mais de 15 anos de carreira intermitente, evitar o estatuto de super-estrelas. Como? Mantendo o seu death metal tão extremo, orgânico e obscuro quanto possível e evitando seguir tendências. Em «Grand Morbid Funeral» é esse, de novo, o caminho traçado, apesar se todas as atenções se concentrarem em Nick Holmes, o vocalista dos Paradise Lost que substituiu Mikael Åkerfeldt, dos Opeth, como cantor do grupo. É certo que o seu “grunho” é articulado, tem um cunho único e está ligado à história do metal extremo, mas se pensarmos bem também o tom de Åkerfeldt estava e nada disso contaria muito se o quarto álbum dos Bloodbath não fosse um monumento de death metal obscuro, com ocasionais e inteligentes piscadelas de olho ao doom e black metal e as referências certas às cenas de Gotemburgo e da Florida dos anos 90. Esta versão da banda com Nick Holmes é igualmente competente em termos técnicos, igualmente talentosa e tem como grande vantagem o esclarecimento de perceber perfeitamente o que quer e como lá chegar. E o que quer é um death metal tão pujante, tão negro e tão orgânico que chega a ser quase sufocante. E, com gente como Holmes a cantar, Jonas Renkse (Katatonia) e Martin Axenrot (Opeth) na secção rítmica e Blakkheim (Katatonia) e Per “Sodomizer” (ex-Katatonia) nas guitarras, mal seria se não chegassem lá com classe e autoridade na matéria.

DeadAlone_NemesisDEAD ALONE
«Nemesis»
Supreme Chaos Records
5/10
Oriundos da capital bávara Munique, os Dead Alone poderão ser uns ilustres desconhecidos para a maioria dos nossos leitores, mas já levam uma década de actividades e «Nemesis» é o seu quarto álbum de originais. O motivo pelo qual provavelmente nunca ouviram falar do quarteto prende-se com uma conjuntura interna nada favorável aos Dead Alone: uma ambição musical desmedida que os leva a misturar death metal melódico, algum black metal e influências doom, falta de consistência para fazerem a mistura funcionar condignamente e incapacidade para evoluírem até ao ponto em que tornem o seu estilo minimamente funcional. Embora «Nemesis» deixe perceber algumas – poucas – melhorias no capítulo da coesão enquanto banda, a produção é demasiado plástica, a composição é demasiado derivativa e, mesmo quando Christos Antoniou (dos SepticFlesh e Chaostar) entra em cena com arranjos orquestrais compostos para a faixa «The Awakening», a coisa soa deslocada e demasiado forçada. Os Dead Alone não são uma má banda; falta-lhes apenas, como «Nemesis» volta a provar ao longo de uma hora de medianismo, alguma clarividência musical, dinâmica e possivelmente uma pitada de alma musical própria.

AmericanHeritage_ProlapseAMERICAN HERITAGE
«Prolapse»
Solar Flare Records
8/10
Quem procura o mais integral sludge dos confins dos Estados Unidos tem tida muita e boa oferta ultimamente, mas nem sempre foi assim. Na segunda metade dos anos 90 a cena estava reduzida a poucas dúzias de propostas e ainda bandas como os Mastodon ou os Baroness não estavam sequer nas cogitações dos seus criadores, os American Heritage já faziam e editavam música. Por isso, por mais batida que, ao início, pareça a receita de sludge deste grupo, pensem duas vezes e, sobretudo, dêm-lhes uma oportunidade. Para além da generosa dose de autenticidade, estes veteranos aceleram frequentemente a sua música, neste sexto álbum de originais, ao ponto do hardcore e juntam todas as pontas da sua abordagem musical com uma complexidade técnica acima da média. «Prolapse» constitui-se, assim, numa inteligente e visceral proposta de sludge, plena de honestidade, frontalidade e energia, que deixará facilmente para trás qualquer um dos projectos surgidos na última década. Basta, para isso, que os fãs do estilo que ainda não os descobriram tenha clarividência suficiente para perceber que este não é um sludge qualquer.

Isole_Booklet.inddISOLE
«The Calm Hunter»
Cyclone Empire
8/10
Se existisse algum justiça no mundo, os Isole seriam hoje uma banda de referência dentro do doom metal épico, a par dos While Heaven Wept ou dos Solitude Aeternus. É certo que, ao chegarem ao seu disco número seis, os suecos não são propriamente uns desconhecidos na cena, mas basta uma audição a «The Calm Hunter» para perceber que, mesmo uma década depois do início da sua carreira, a banda continua a evoluir e isso nota-se nos seus álbuns. Os 52 minutos da nova proposta estão pejados de riffs monumentais, tapeçarias rítmicas que variam entre o mais tradicional doom épico e o death metal e vocalizações dinâmicas que vão do mais melódico à brutalidade gutural. Os Isole fazem-no com um sentido narrativo que dá às sete faixas uma lógica de princípio, meio e fim, apesar da complexidade progressiva da sua estruturação, e com uma estética doom/heavy metal que revela as influências “clássicas” do grupo, mas não as imita cegamente. Como tem sido habitual nos últimos tempos, um bom disco nunca vem só e, no caso do doom/heavy metal épico de contornos progressivos, «The Calm Hunter» é o parceiro ideal para o – também – recentemente editado trabalho dos While Heaven Wept, embora seja mais negro, mais variado e, em última análise, mais triste.

BornFormPain_DanceWithTheBORN FROM PAIN
«Dance With The Devil»
Beatdown Hardwear Records
8/10
Olhando para a “cena” metálica no geral, é possível perceber que, ciclicamente, há estilos em voga, mini-modas que vão e vêm e bandas que aparecem, desaparecem ou simplesmente se adaptam para alimentar essas correntes. Depois, há bandas como os Born From Pain. Os holandeses apareceram no final dos anos 90 e afirmaram categoricamente que queriam praticar um crossover de hardcore e thrash old school para o resto da sua carreira. “Certo”, pensámos muito de nós. Pouco tempo depois o metalcore estava a explodir e discos como «Reclaiming The Throne» ou «Sands Of Time», juntamente com uma editora como a Metal Blade a apostar neles, fizeram os Born From Pain parecer apenas mais uma banda que estava ali para cumprir um sonho de miúdos que se esfumaria assim que a motivação se acabasse. Agora, em 2014, enquanto o grupo edita o seu sétimo álbum de originais, sabemos que não. O metalcore já não é o sabor do momento – muito menos esta espécie de metalcore – mas os Born From Pain continuam a escrever e a gravar músicas como se fosse 1997. «Dance With The Devil» tem a vantagem de, inclusivamente, a energia adicional das letras socialmente revolucionárias da banda terem, mais que nunca, um mundo em pantanas para as inspirar. Por isso, não se admirem se, ao ouvirem este hardcore profundamente inspirado pela cena de Nova Iorque, mas com a força e o peso de bandas clássicas de thrash como Obituary ou Slayer, derem por vocês a fazerem headbanging e a levantar os punhos como há muito tempo não faziam. É que o poder dos Born From Pain, agora como há cinco, dez ou quinze anos, é genuíno e a sua música reflecte e transmite isso. Não é original, não é visionário e não é vanguardista. Mas é fusão coesa e beligerante de hardcore e metal como não há muitas bandas (tirando talvez os Terror e os Hatebreed) capazes de fazer.

Engel_RavenKingsENGEL
«Raven Kings»
Gain Music
8/10
Claramente a sofrer as restrições do estado da música actual – noutros tempos, teriam sido tão grandes como os In Flames ou os Soilwork – os suecos Engel não parecem minimamente preocupados com números de vendas ou estatuto e continuam a editar bons discos de death metal melódico uns a seguir aos outros. «Raven Kings» é o quarto e, apesar de um lado mais progressivo e power metal em temas como ««My Dark Path» ou «Hollow Soul», continuam a constituir uma excelente alternativa para quem procura dinâmica entre a agressividade cortante escandinava a uma melodia apelativa e moderna. «Raven Kings» é composto por 11 faixas relativamente curtas e directas de um estilo que fica ali a meio entre os refrões bombásticos dos Soilwork e os arranjos rápidos e letais dos Sonic Syndicate, com um apreciável trabalho de guitarra (quer nos riffs, quer nos solos), onde se destaca com naturalidade Niclas Engelin que, desde 2011, é também membro dos… In Flames. No fundo, é um passo em frente, em direcção a um estilo mais próprio e a uma personalidade musical mais vincada, sem no entanto saírem do espectro estilístico do death metal melódico contemporâneo, com um óbvio cuidado na composição individual de cada faixa e a progressão natural de quem acha que o «Jester Race» é bom, sim senhor, mas é coisa do passado. Os Engel são o presente, e ele saúda-nos com doses generosas de qualidade e motivação.