MABEL GREER’S TOYSHOP

MabelGreersToyshop_LetteringAs raízes dos icónicos Yes remontam aos obscuros e longínquos meados dos anos 60 e, se perguntarem a cada um dos seus elementos, todos têm uma versão própria de onde e quando a banda começou. O que é mais ou menos unânime é que Robert Hagger e Clive Bayley foram essenciais na génese do rojecto, formando uma banda de rock/bues psicadélico chamada Mabel Greer’s Toyshop que, após algumas alterações – incluindo a saída dos dois elementos – se metamorfoseou nos Yes. Agora, quatro décadas depois, os dois músicos reencontraram-se em França, e decidiram reactivar os Mabel Greer’s Toyshop, juntamente com dois ex-elementos dos Yes (Tony Kaye e Billy Sherwood) e o baixista Hugo Barré. O resultado chama-se «New Way Of Life», vem em forma de disco, e foi o ponto de partida para a nossa conversa com Clive Bayley, que não se escusou a fazer a inevitável comparação entre a sonoridade da “sua” banda e os Yes.

MabelGreersToyshop_Band2015_4Fala-nos um pouco do tal encontro em França em 2013. Foi a primeira vez que vocês dois se encontraram desde a década de 60?
O Bob [Hagger] já tinha tentado encontrar-me na internet, mas ele escrevia mal o meu nome – o meu apelido é “Bayley” e ele pensava que era “Bailey”. [risos] Mas eventualmente acabou por encontrar-me e decidimos encontrar-nos em Nice, num restaurante. Ele entrou com a esposa e a filha e reconheci-o imediatamente, só que tinham passado 45 anos. [risos] Jantámos juntos, tivemos uma bela conversa sobre o passado e disse-lhe “Vá lá, vamos reformar banda”. E ele respondeu “Sim, porque não fazemos isso?”. E foi o que fizemos.

O que andaram a fazer todos estes anos?
Pouca coisa. Quando deixei a banda, por volta de 1968, parei de tocar. Livrei-me de todos os instrumentos, dos amplificadores, de tudo. Sabia que, se queria sair daquilo, tinha de livrar-me de tudo e foi o que fiz. Mas depois comecei a tocar música clássica há cerca de 25 anos e achei interessante. Por isso peguei na guitarra e recomecei a tocar. Diria que recomecei a tocar guitarra há uns 15 anos. Sempre tive empregos muito exigentes que não me deixavam muito tempo livre, mas na medida do possível comecei então a compor umas coisas, a tocar com uns amigos e acabei por gravar um álbum sobre a Primeira Guerra Mundial. Foi uma colaboração com o meu amigo Matt Davies, com o meu filho Richard a produzir. Gravámos o disco e depois não fiz nada com ele. [risos] Está editado, tenho-o em formato CD, mas depois reencontrei o Bob – ou o Bob reencontrou-me – e decidimos recomeçar os Mabel Greer’s Toyshop, porque aí poderíamos voltar à música um pouco mais facilmente. Por isso já toco guitarra de novo há uns 15 anos, mas a tocar activamente – guitarra eléctrica e tudo – apenas há uns quatro anos. Tive uma enorme pausa pelo meio, em que não toquei guitarra…

Durante essa pausa nunca sentiste necessidade de te expressares artisticamente, mesmo que não fosse através da música?
Nos anos em que não fiz música tive montes de negócios… Tive clubes nocturnos, negócios nos E.U.A. e inventei alguns produtos estranhos… Um deles era um copo com uma palhinha incorporada que vendeu milhões de unidades. Por isso envolvi-me a fundo nos negócios, tive uma empresa de design em Nova Iorque, com a qual trabalhava para a Matel e clientes desse género. Tive uma vida bastante ocupada e a minha criatividade transferiu-se da música para o design de produtos, clubes nocturnos e esse tipo de coisas. Por isso em vez de fazer música, investi a minha criatividade em marketing e em produtos e isso foi muito interessante. Sempre estive um pouco à parte na minha actividade empresarial, mas depois quando comecei a tocar de novo pensei “Oh meu deus, tinha mesmo saudades disto”. Agora estou numa fase em que posso colocar muito mais ênfase de novo na música, porque tenho muito mais tempo livre, e quero ver onde isso me leva. Mas existe uma parte de mim que de vez em quando diz “Idiota, devias ter continuado!”. Mas as coisas são como são, fiz as minhas escolhas e não me arrependo de nada. Mas aqui estou eu, de volta.

MabelGreersToyshop_Band2015_2O que sentiste sobre o sucesso que os Yes tiveram todos estes anos?
Achei óptimo. Obviamente, senti muita falta da música e quando eles começaram a ter muito sucesso e a vender milhões de discos pensei “Óptimo para eles! Excelente!”, porque sabia que ia acontecer. Quando deixei a banda sabia que eles iam ser grandes, nunca pensei “Isto nunca vai chegar a lado nenhum”. Só que na altura deixei o grupo porque a indústria musical estava a tornar-se muito estranha e o resto da banda queria fazer uma coisa e eu queria fazer outra. A minha música ia numa direcção um pouco mais psicadélica e as coisas aconteceram como aconteceram. Mas voltando à tua questão, senti-me muito feliz por eles. Encontrei-me com eles algumas vezes, nomeadamente quando iam aos E.U.A. e fui a alguns concertos. Sempre lhes desejei sorte, acho que fizeram música excelente e tiveram uma boa dose de sucesso, o que foi óptimo. Os Mable Greer’s Toyshop foi onde tudo começou e, pode ouvir-se nos arranjos e nos riffs do primeiro álbum [dos Yes] a identidade dos Mabel, mas depois diversificou-se um pouco. Mas são todos músicos muito talentosos, por isso os Yes enveredaram por uma direcção musical muito mais intrincada em termos técnicos; eu gosto um pouco mais da música aqui-e-agora, sou mais adepto de tocar o que sentimos naquele momento e pronto. A música dos Yes é mais ponderada, é mais “profissional” se lhe quiseres chamar assim.

Não te lembras então de pensar “Aquilo podia ser eu”?
Não. Sim, poderia ter sido eu, mas nunca me senti arrependido. Em algumas alturas pensei que poderia ser eu, mas estava a fazer outra coisa. [risos] Ocasionalmente pensava “Adorava tocar para aquele público de dez mil ou 20 mil pessoas”, mas estive envolvido no projecto basicamente por causa da música. O meu maior arrependimento foi nunca ter tocado a música com eles e ter fincado um pouco o pé para lutar pela minha visão em relação aos sons e às canções. Porque, basicamente, acho que sou um primeiro um compositor, e só depois um músico. Por isso, em alguns momentos posso ter desejado estar ali a tocar perante aquele público porque gosto de tocar para as pessoas, gosto da participação da audiência. Mas nunca foi um grande arrependimento. Talvez quando era mais novo, mas nunca depois do primeiro par de anos. Foi sempre um sentimento do género “Sim, eles estão a safar-se lindamente, óptimo para eles. As coisas também estão a correr-me bem, por isso está bem”. [risos] As coisas são como são.

MabelGreersToyshop_Band2015_1Quando se predispuseram a compor as cinco novas canções que estão no álbum, qual era o objectivo? Tiveram total liberdade artística ou tentaram conscientemente regressar à sonoridade típica de Mabel Greer’s Toyshop?
Quando o Bob e eu começámos a discutir este álbum pensámos “OK, vamos fazer um disco tipicamente Mabel, mas o que significa isso?” E decidimos gravar cinco das canções que tocávamos naquela altura, sendo a primeira a «Beyond And Before», com a qual começávamos sempre os concertos. E terminávamos sempre com uma faixa chamada «Electric Funeral». Por isso decidimos logo gravar essas duas, mas depois pensámos “Espera aí, e as outras quatro? E a «Sweetness»?”. A «Sweetness» não é uma canção típica de Mabel Greer, mas fomos nós que a escrevemos e a tocávamos, por isso sentimos que tínhamos de gravá-la. Foi este o processo que nos levou a gravar todas as músicas que a banda tinha na altura, mas queria rearranjá-las. Uma delas foi tocada completamente de memória e, por acaso, tocámo-la de maneira totalmente errada mas gostámos da forma como ficou por isso aproveitámo-la, o que é um pouco estranho. [risos] Mas a ideia era rearranjar as canções, não totalmente mas acrescentar umas guitarras um pouco mais agressivas aqui e ali. As vocalizações são, no entanto, similares, excepto na «Sweetness» em que tive de abandonar os tons mais altos… O Jon [Anderson] tem uma grande voz, mas não tenho hipótese de chegar aos tons altos dele. [risos] Por isso mudei um pouco as vocalizações, mas depois pensei em acrescentar também algumas das músicas que eu compus nos últimos anos, como a «Singing To Your Heart», que escrevi há uns quatro anos atrás. E depois aconteceu uma coisa interessante: O tema «Oceans», que aparece mais para o fim do disco, foi escrito completamente no momento. Não houve qualquer construção, ninguém pensou nele… Limitámo-nos a tocar ao vivo em estúdio enquanto o produtor gravava. Foi uma coisa completamente espontânea, não sabíamos o que estávamos a fazer, não tínhamos acordes preparados, nada… Deixámo-nos, pura e simplesmente, ir. E isso é o caracteriza os Mabel Greer, era isso que fazíamos nos anos 60. Tipo, um perguntava “O que vamos tocar agora?” e outro respondia “Sei lá. Começa mas é a tocar”. [risos] Foi muito refrescante e, estranhamente, eu e o Bob já estávamos muito confortáveis com o processo, mas o Hugo [Barré, baixista], que é mais novo e não é da nossa altura, entrou imediatamente na onda, o que foi fantástico. Por isso, as canções do álbum são uma mistura da sonoridade de Mabel Greer, das canções que escrevemos e tocávamos nos anos 60, e cinco novas. É algo que me agrada, tipo o antigo e o novo, é por aqui que podíamos ter ido, mas não necessariamente. Estamos também muito satisfeitos por tocarmos o material original, embora um pouco actualizado.

É estranho, porque é um conjunto de temas muito coeso. Se não soubermos quais são as canções antigas e as novas, ao ouvir o disco é complicado dizer quais são quais.
Isso é interessante, porque em todas as canções antigas as sequências de acordes são um pouco estranhas. De facto, as músicas de antigamente de Mabel Greer são mais difíceis de tocar do que as novas; muito mais difíceis. Lutei um pouco para conseguir dominar alguns dos acordes desses temas, mas nas canções novas é tudo muito simples.

MabelGreersToyshop_NewWayCoverDe certeza que nos primeiros tempos da banda existia uma sensação de tela vazia, liberdade e a inocência da juventude que, pura e simplesmente, não podem ser reproduzidos agora, certo?
Pode muito bem ser. Os acordes que compusemos e a construção das canções na altura eram totalmente rebeldes. Era uma rebeldia contra todo o cinzentismo que tinha saído dos anos 50. E éramos extremamente experimentais, como dizes. Por isso, basicamente experimentávamos tudo. [risos] Mas à medida que envelhecemos, juntamente com a forma como a música se desenvolveu nos últimos 40 anos, em que tanta coisa diferente foi tentada, acho que nos tornámos um pouco mais convencionais. Julgo que toda a gente se tornou um pouco mais convencional, mas ainda somos um bocado estranhos e, como a canção «Oceans» prova, podemos voltar a essa forma de trabalhar. E, quando gravámos a «Oceans», o Bob estava na lua, a pensar “Uau, era assim que isto costumava ser!”. [risos] Nos anos 60 era tudo muito experimental… Se podemos reproduzir esse sentimento agora? Acho que podemos, porque não tocámos música durante 40 anos. Por isso creio que continuámos mais ou menos a partir do ponto em que tínhamos ficado. Tanto para o Bob como para mim isto é uma espécie de assunto inacabado e, para voltar à questão de há pouco sobre se nos arrependemos, não creio que nos arrependamos de não estarmos na banda, mas acho que ambos queremos dizer algo do género “Sabem uma coisa? Tínhamos boa música na altura, criámos uma boa sonoridade. Os Yes pegaram em alguma e tiveram sucesso com ela, mas queremos terminar o que começámos”. Acho que é esse o principal motivo daquilo que estamos a fazer aqui. E, a um nível pessoal, gosto de tocar música e de tocar música para as pessoas. Gosto de me ligar à música e, se puder escrever alguma coisa de que as pessoas gostem, óptimo. É isso que quero fazer.

Qual é a tua visão sobre este revivalismo de art rock e rock psicadélico que anda por aí?
É excelente e fico satisfeito por estar a acontecer. Os revivalismos são bons e existe muito retro no mundo neste momento, o que é fantástico, e estamos contentes por fazer parte desse movimento e fazer alguma coisa com ele. Gosto de fazer parte dele, também gostaria de introduzir sonoridades novas e revelar novas facetas desse revivalismo. As coisas não têm de ser exactamente iguais ao que eram nos anos 60. É como no negócio da moda… Uma moda pode voltar a cada 30 anos, mas não será exactamente a mesma. Será actualizada, será um design de há 30 ou 40 anos atrás, mas ligeiramente diferente porque entretanto o mundo mudou. É óptimo que as pessoas estejam interessadas no prog-rock. Sei que na minha era, quando tinha 18 anos, era um movimento extremamente importante para mim.

MabelGreersToyshop_Band2015_3Encaras este revivalismo como uma mera rotação de tendências ou mais como uma resposta à indústria musical actual e à forma como o mundo está neste momento?
Boa pergunta. Nunca tinha pensado nisso, por isso vou reflectir um pouco. Se será indicativo do mundo a tentar recuar um pouco para o modo como as coisas costumavam ser… Quando o rock progressivo surgiu era bastante rebelde, depois apareceu o punk rock que era uma rebelião contra o prog rock. [risos] Acho que a cada 15 ou 20 anos cada geração precisa de se rebelar ou, pura e simplesmente, mudar as coisas. Mas é interessante que exista esse revivalismo agora e estou curioso para saber qual é o grupo etário que está a alimentar o revivalismo. Houveram épocas muito interessantes no final dos anos 60, como o flower power, e lembro-me de ter crescido no Kingston Upon Thames e muitas bandas grandes eram de lá, como os Moody Blues e, mais tarde, os Genesis… Os The Yarbirds andavam na minha escola, o Eric Clapton morava ao virar da esquina. E costumávamos encontrar-nos todos em bares em Kingston, todos nos conhecíamos e estávamos a criar uma cena completamente nova. Existia muita criatividade. O simples facto de, agora, existir um revivalismo de prog rock pode significar que as pessoas estão de novo à procura de mais criatividade. Porque a indústria musical talvez se tenha transformado em algo demasiado “organizado”, tipo uma fórmula para uma canção de sucesso é algo definido, e acho que a maioria das pessoas está farta disso. Julgo que as pessoas geralmente subestimam as outras e isso acaba invariavelmente numa procura de maior criatividade por parte de quem é subestimado. E quando procuramos criatividade viramo-nos para o prog rock e para a música clássica, que é o expoente máximo da criatividade, mas que não é exactamente uma coisa muito cool. Por isso compreendo que exista um revivalismo do rock progressivo, quando as pessoas procuram mais criatividade e mais liberdade musical, que saia dos constrangimentos da fórmula-tipo da canção pop.

Quais são os planos para o futuro imediato da banda? Planeiam fazer digressões e já há música nova a ser composta?
Vamos dar um concerto em Nice dentro de duas semanas, num clube muito pequeno chamado The Jam, para cerca de 60 pessoas. Queremos fazê-lo porque, basicamente, não tocamos para uma audiência há 45 anos. [risos] Depois vamos dar um showcase em Londres, provavelmente em Abril, e há conversações para tocarmos em alguns festivais de Verão no Reino Unido. Depois, se as pessoas ouvirem o álbum e gostarem dele e fizermos alguns espectáculos bem recebidos, gostaríamos de montar uma pequena digressão na Europa e nos Estados Unidos. Ninguém ainda nos propôs nada desse género, porque os agentes não nos conhecem e não acham que estaremos disponíveis, mas estamos. [risos]

E música nova?
Por acaso já tenho o próximo álbum na minha cabeça. Vai ter 12 ou 13 canções… Já tenho as músicas e as linhas melódicas. Não tenho problema com as linhas melódicas, que consigo criar bastante rapidamente… O problema é como arranjar a canção, qual o som que vai ter. Será prog-rock, terá uma sonoridade mais “fácil”, terá ou não instrumentos de cordas, terá piano ou não… Todo esse tipo de coisas que ainda não faço a mais pequena ideia. Tenho os temas e o que vamos fazer é entrar em estúdio, que será em Paris ou talvez no estúdio do Billy Sherwood, arranjamos as músicas juntos e vemos o que acontece. Mas temos material para o segundo álbum. É apenas uma questão de onde colocamos o som e que género será. Vai ser dentro do rock progressivo, mas será totalmente prog-rock ou terá outras coisas também? Gosto de misturar um pouco os géneros. Talvez contenha umas baladas estranhas, música psicadélica ou talvez tenha um par de canções gravadas ao vivo em estúdio como fizemos com a «Oceans». Gosto de misturar as coisas de modo a que as pessoas possam dizer “Ei, isto é excitante, é novo”, em oposição a “Aqui está a sonoridade prog-rock como mandam as leis”. Quero manter este projecto mais livre que isso.

É esse, em última análise, o sentido da palavra “progressivo, certo?
Sim. [risos] Bem dito, obrigado.

Sim, porque as pessoas normalmente pensam que é um estilo musical, mas é uma ausência de estilos pré-definidos, certo?
Exactamente. É exactamente isso que significa. E é isso que quero fazer. Não deve ser música algemada; deve ser livre e, como disseste, é esse o significado de “progressivo”.

«New Way Of Life» é editado no dia 6 de Março pela RSK.
Página oficial

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