PAIN OF SALVATION

Press_Logo_01Nada na carreira dos metálicos progressivos suecos Pain Of Salvation acontece de modo fácil. Por isso, quando a banda decidiu gravar ao vivo um disco acústico, não poderia ser apenas um disco acústico ao vivo. O concerto na Alemanha em que era suposto acontecer a captação acabou por não reunir as condições técnicas necessárias e o grupo acabou a gravar «Falling Home» num estúdio, com um tipo de intimidade e ambiente que resumem bastante bem o que os Pain Of Salvation têm de tão especial. O mentor, guitarrista e vocalista Daniel Gildenlöw falou-nos do álbum, dos fãs e da assustadora bactéria devoradora de carne humana que quase lhe ceifou a vida no início do ano.

Press_Photo_01Por uns dias, cheguei a temer que a nossa última entrevista tivesse sido a nossa última entrevista de sempre. Temeste pela tua vida durante o problema de saúde que tiveste recentemente?
Sim, a dada altura temi. Acho que não interessa muito que tipo de doença é… Demora algum tempo até que o cérebro humano tenha plena consciência da morte. Apesar de estarmos sempre conscientes de que vamos morrer, basicamente desde miúdos, quando acontece [uma coisa destas] nunca estamos bem mentalizados. Uma vez estava num avião em que algo correu mal com o sistema de segurança e as hospedeiras começaram a dizer a toda a gente “Isto não é um exercício, coloquem as máscaras de oxigénio” e tudo isso. Era esperado que toda a gente entrasse em pânico, mas de alguma forma quando uma coisa destas acontece parece irreal. E foi o mesmo tipo de coisa que senti com o problema de saúde que tive. Começou de uma forma quase inofensiva, basicamente com uma dor, mas continuou sempre a aumentar. No entanto, demorei algum tempo a chegar àquele ponto em que me apercebi que a situação não era boa, que [os médicos] já tinham tentado todos os tipos de antibióticos de grande espectro e nada funcionava. Foi uma coisa rápida e assim que me apercebi que aquilo tinha de ser a bactéria fascite necrosante sobre a qual li tanta coisa, intelectualmente comecei a pensar que podia morrer disso. Basicamente só me ocorria… Não sei bem como dizer, mas algo do género “Hã-hã… Isto é estúpido”. [risos] Sair de casa para ir ao hospital ver uma dor e, de repente, estou a piorar tão rapidamente que me apercebo que, se esta situação não se reverter depressa, não volto para casa. E isso significa que nem sequer vou ter oportunidade de me despedir dos meus filhos. Porque foi uma questão de horas. Foi um sentimento muito estranho mas, tal como naquele avião, não houve qualquer pânico, nem uma grande angústia. Foi mais uma sensação de aceitação e um certo sentimento de ironia. Felizmente reverteu-se, porque basicamente me abriram e tiraram-na cá para fora.

Já é normal para ti que todos os aspectos da tua vida pessoal se tornem públicos e tenhas de discuti-los com jornalistas e fãs ou ainda é um pouco embaraçoso para ti?
A mim não me faz muita confusão. Acho que o que a maioria das pessoas na minha situação sente é que uma coisa sou eu, outra coisa é a minha família. Já aceitei e interiorizei que sou público… Não podemos ser músicos, estar no palco e em entrevistas basicamente todos os dias e esperar ter o mesmo tipo de privacidade que qualquer pessoa tem. Mas isto, claro, estende-se a quem quer que esteja à minha volta. E isso, na minha opinião, é uma situação mais manhosa e complicada.

As canções que fazem parte deste disco são exactamente as mesmas que tocaram ao vivo na Alemanha, no concerto que era suposto ser gravado?
Sim, são basicamente as mesmas, mas não me lembro bem da ordem das músicas no concerto e podem ter havido pequenas alterações aí. Mas sim, são as mesmas canções. As pessoas têm visões diferentes sobre isto, mas para mim as versões dos álbuns são sempre intocáveis. No entanto, eu cresci a ouvir Kiss e tentei mesmo adorar os discos ao vivo deles, porque é suposto adorarmos esses discos. [risos] Talvez as coisas fossem diferentes quando era miúdo ou talvez tivesse uma opinião diferente daquela que tenho hoje, mas sempre pensei que as músicas eram como as dos álbuns mas com um som pior e normalmente eles tocavam-nas demasiado rápido, demasiado atabalhoadamente e havia um grande barulho do público, o que era irritante. [risos] Provavelmente pensava isto porque era miúdo. Mas ainda tenho esse sentimento que as versões dos álbuns são uma espécie de personalidade da canção, enquanto as versões ao vivo serão, sei lá, variações diferentes. Creio que, se comparássemos ao mundo dos livros de banda desenhada, as versões dos álbuns são a versão oficial do Homem Aranha, enquanto que as versões ao vivo são todas aquelas versões diferentes do Homem Aranha que existiram durante algum tempo e que toda a gente leu. Não sei se isto faz algum sentido.

Faz todo o sentido. Mas se tentares gostar mesmo de discos ao vivo, provavelmente os Kiss não serão a melhor opção.
[Risos] Provavelmente não, mas os mais acérrimos fãs dos Kiss à minha volta, que geralmente são dois ou três anos mais velhos do que eu, têm todos os álbuns ao vivo em grande estima. Existiam alguns discos dos Kiss que era suposto venerarmos. Era suposto venerarmos o álbum a solo do Ace Frehley mais do que os álbuns a solo dos outros elementos. E era suposto venerarmos o «Kiss Alive I» mais do que dos outros discos ao vivo. Era assim que as coisas funcionavam, de certo modo.

Pain Of Salvation Band 2014Quando existe uma hierarquia como essa estabelecida, normalmente obrigamo-nos a gostar dos álbuns obrigatórios pelo simples processo de ouvi-los até à exaustão.
Exacto. [risos] E nessa idade, por volta dos dez ou 12 anos, era supostamente tudo mais a preto e branco. Pelo menos para mim. Na minha geração ou gostávamos de material mais pop electrónico, em que acho que os Depeche Mode serão a banda que melhor representa esse género, ou gostávamos de metal e hard rock e ouvíamos os Kiss. Não creio que existisse, nessa época, qualquer hipótese de dizer que gostávamos de ambas as bandas. [risos] Simplesmente, não era possível. Existe uma altura, creio que na vida de toda a gente, em que praticamos o “sim” ou “não”, o “isto” ou “aquilo”. É muito importante; gostamos desta banda ou daquela banda, gostamos desta côr ou daquela côr. Não podemos dizer que gostamos de todas. Acho que é uma fase importante na vida de toda a gente, mas olhando agora em retrospectiva, não é normalmente a fase mais inteligente e sábia das nossas existências. [risos]

Mudam muito a lista de canções dos vossos concertos ou existe um conjunto de temas obrigatórios e depois, entre todos os outros, podem escolher um ou outro de vez em quando?
Acho que há um pouco de verdade em ambas as hipóteses. Existe normalmente um conjunto de temas que ou queremos incluir ou sentimos que somos quase forçados a incluir nos concertos. Demos muito poucos espectáculos sem a «Ashes», por exemplo. É uma daquelas canções que está quase sempre no alinhamento. Mas sou muito inquieto… Preciso de sentir que nos estamos a desafiar a nós próprios. Quando subo a um palco tenho muita dificuldade em sentir uma grande paixão se tocarmos as mesmas músicas noite após noite. Por isso preciso – acho que todos nós precisamos – de fazer alguma rotação de temas. Por isso quando estamos prestes a embarcar numa digressão específica, sentamo-nos todos e decidimos se vamos tocar mais canções antigas ou mais canções totalmente novas que sentimos muita vontade de tocar. Depois há algumas músicas que estão quase certas no alinhamento. Com a formação que temos agora, todos são músicos tão dotados e versáteis, que tenho uma fonte quase infinita de possibilidades. Por exemplo, agora vamos tocar o «Remedy Lane» seguido e tenho muita dificuldade em imaginar essa possibilidade antes desta formação estar reunida, porque cada um conhece não apenas o seu instrumento muito bem, mas são todos também cantores muito dotados e multi-instrumentistas. É um ponto de partida totalmente diferente, o que torna tudo muito mais interessante para digressões futuras. Sinto que posso escolher qualquer faixa do fundo de catálogo, dizer “Quero tocar isto” e no espaço de uma ou duas horas dominamos aquilo. É uma das coisas boas em tocar com estes tipos que estão na banda agora. Sempre estive rodeado de grandes músicos, só que agora estamos um passo à frente em termos de versatilidade, julgo eu.

Em relação às expectativas do público, é uma coisa totalmente diferente.
Tenho notado que existem diferentes tipos de fãs. Existe um tipo de fã que parece acreditar que conhecemos todas as canções e letras de cor e que podemos, de um dia para o outro, tocar uma faixa que nunca tocámos ao vivo na história da banda. [risos] O que é querido, de certa forma, mas obviamente não é possível. Precisamos de sentar-nos, especialmente quando estamos a falar de uma digressão completa, e temos de trabalhar não apenas na canção em si, mas também na produção e em tudo o que é suposto funcionar. Há um engenheiro de som que precisa talvez de reprogramar a mesa de mistura para uma nova música e o mesmo se passa com as luzes. Normalmente penso no alinhamento de temas no esquema de quadro principal e quadro secundário. Temos um quadro principal de temas e depois temos um quadro secundário, do qual podemos retirar uma ou outra música e usá-la para rotação durante a digressão. Mas no que diz respeito a acrescentar canções completamente novas, existem algumas que são relativamente fáceis de preparar, mas outras nem por isso. Existem muitas canções que muitos destes novos elementos da banda nem sequer gravaram e que nunca tocámos enquanto banda. Existem inclusivamente músicas que eu nunca mais toquei desde que as gravámos, talvez há uns 15 anos. Há uma piada recorrente dentro do grupo há não sei quantos anos… Provavelmente desde o tempo do «The Perfect Element I»: sempre que falamos de setlists, usamos a «Shore Serenity» como piada, tipo “Vamos lá colocar a «Short Serenity» na lista”. Porque essa é a única canção – provavelmente haverá mais, mas na nossa piada é a «Shore Serenity» – que nunca mais tocámos desde que a gravámos. Gravámo-la e nunca mais lhe tocámos desde aí. E parece sempre uma música muito improvável de incluir nos concertos, porque todos sabemos que já ninguém a sabe tocar. Mas depois desta última digressão, quando íamos a caminho de casa, eu disse “Ei, talvez devêssemos acrescentar a «Short Serenity» à lista de temas quando fizermos a próxima digressão, só porque sim”. [risos] Porque é a tal canção da piada que assumidamente nunca iríamos tocar. Vamos ver o que acontece.

Press_Cover_01Havia alguma coisa – não quero dizer erros – que fizeram na gravação do vosso último disco ao vivo, o «12:5», que sabiam que queriam evitar desta vez?
Nem por isso. Quer dizer, existem algumas questões sonoras… O «12:5» foi o primeiro álbum que misturei, por isso existem algumas questões no som que eu encaro de forma diferente desde essa altura. Queria que este disco fosse mais quente, mais seco, mais íntimo e mais poderoso. O «12:5» e o «Falling Home» são duas criaturas muito diferentes. No «12:5» algumas das criações são mais medleys, enquanto que no «Falling Home» focámo-nos muito em pegar na essência de cada canção e mantê-la. Tenho sentido uma espécie de revivalismo do vinil e, em todos os álbuns que fizemos com os Pain Of Salvation, existem canções grandes, temas que entram por outros temas a dentro e por aí fora. E senti a necessidade e uma paixão criativa repentina por pegar numa canção, deixá-la ser uma entidade e depois haver dois ou três segundos de silêncio antes da canção seguinte. Basicamente, como os álbuns costumavam ser quando eu era miúdo. Isso é algo que trouxe para o «Falling Home»… As músicas são muito mais individuais do que no «12:5», em parte porque o «12:5» foi interpretado ao vivo, é uma gravação ao vivo, enquanto o «Falling Home» é na realidade um disco de estúdio, apesar de o termos gravado a tocar juntos. Isso é outra das coisas que ajuda a que o trabalho tenha músicas individuais, porque não existe um som natural da audiência entre cada faixa.

Estás pronto para ser queimado na estaca pelos fãs do Dio por causa da versão lounge da «Holy Diver»?
Sim, claro. [risos]

Preparaste-te mentalmente para isso?
Não creio que me importe assim tanto. Tenho quase a certeza de que o próprio Dio gostaria da ideia e isso é o que mais importa. Não quero usar a expressão “base de fãs” como uma coisa genérica, mas diria que uma grande parte de qualquer base de fãs é normalmente mais condenadora do que defensora dos artistas de que gosta. Sei que alguns fãs da nossa música, por exemplo, disseram mal do «Road Salt One» e, não quero mencionar nomes nem nada, mas vários deles falaram de outra banda de metal sueca, dizendo quão maus éramos neste álbum, quando comparados com eles. E por acaso sei que esse disco é um dos favoritos do vocalista dessa banda a que eles se referiam. [risos] É uma coisa que se vê muito e eu vi certamente muito disso ao longo dos anos. Por isso acho que sou um pouco indiferente em relação a esse tipo de coisas. Tenho muita dificuldade em lidar com as más críticas em geral, porque acho que é uma coisa humana… A maior parte das pessoas que trabalha na indústria musical têm uma espécie qualquer de necessidade de afirmação e atenção. Por isso quando criamos alguma coisa ficamos relativamente frágeis em relação a essa coisa, porque é uma criação nossa. É por isso que tenho dificuldade com as más críticas. Podemos ler nove boas e uma má, mas é da má que nos vamos lembrar, claro. Mas no que diz respeito a esse tipo de reacção, tipo os fãs do Dio dizerem que fizemos uma heresia ou assim, antes de mais tenho a certeza que o próprio Dio adoraria a heresia da música, e depois é uma coisa divertida e desde que sinta que fizemos uma coisa boa com o coração cheio de admiração, não creio que existam muitos ressentimentos. Mas vamos ver. [risos] Talvez se me entrevistares daqui a um ano eu esteja totalmente devastado com as reacções, quem sabe.

«Falling Home» foi editado no dia 10 de Novembro pela InsideOut Music.
Página Oficial

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