VESANIA

new_vesania_logo copyMais do que uma “super-banda” polaca que junta no seu seio elementos dos Behemoth, Dimmu Borgir e o ex-baixista dos Decapitated, os Vesania são uma das mais antigas e fiáveis entidades de black/death metal sinfónico do seu país. E, ao chegarem ao quarto álbum de originais, dão um decidido passo em frente, levando o seu estilo às fronteiras do que está estabelecido e montando um espectáculo de palco como raramente foi visto antes no metal. O guitarrista e vocalista Orion analisou «Deus Ex Machina» connosco e fez uma espécie de balanço da carreira do projecto.

VESANIA_04O vosso último álbum foi lançado em 2007. Porque demoraram tanto tempo a editar um novo disco?
Depois de termos lançado [o disco «Destractive Killusions»] embarcámos em várias digressões e, pelo que me lembro, fizemos três tours e todas elas foram desafortunadas para nós, por diferentes motivos. A última foi uma digressão europeia que tivemos de cancelar a meio. Não quero entrar em grandes pormenores, mas a agência de booking não conseguiu lidar com o assunto e o promotor dos concertos franceses simplesmente desapareceu quando estávamos lá. E, de repente, vimo-nos numa situação em que havia gente à espera em frente à sala de concertos em Paris e fomos forçados a ir embora de lá. Estávamos a abandonar o local e a olhar para as caras das pessoas e a ver as impressões delas, bem como os dedos do meio levantados. Porque não sabiam exactamente o que se estava a passar; apenas viram a banda a ir embora. Nenhuma da merda que aconteceu na altura foi culpa nossa, mas as pessoas não precisam de saber tudo o que se passa nos bastidores. Foi uma incrível sucessão de coincidências infelizes, por isso quando regressámos a casa decidimos que temos coisas melhores para fazer na vida do que lidar com a incompetência das pessoas e colocámos a banda de lado por algum tempo. Mas regressámos a ela depois de alguns anos.

Ainda te deixa frustrado que esse tipo de coisas recaia sempre nas costas da banda e o público não perceba bem o que se passa, ou com a experiência a tendência é perceberes que esse tipo de falta de informação é algo que faz parte da indústria musical e não se pode fazer nada em relação a isso?
As pessoas têm a sua forma de ver as coisas e, em última análise, têm direito àquilo por que pagam. Não creio que as bandas estejam em posição de explicar tudo. Se um grupo começa a trabalhar com alguém, também é da responsabilidade da banda que as coisas corram bem. E, naquela altura, tomámos algumas decisões erradas. Por isso não culpo as pessoas por não compreenderem bem o que se passou. O público comprou bilhetes, queria ver o concerto e ele não aconteceu. Um membro da banda explicar “Sabem, foi este tipo que nos enganou, fez isto e aquilo” não adianta nada. As pessoas têm os seus motivos para se aborrecerem com a situação e eu compreendo perfeitamente isso. Dentro da indústria musical em geral – e do metal em particular – existem montes de situações destas e, na era em que vivemos, qualquer pessoa pode ser um promotor de concertos. E há uma série de pessoas incompetentes. É por isso que é sempre uma escolha sensata trabalhar com pessoas de confiança e verificar sempre se as entidades com que trabalhamos são mesmo fiáveis. Porque, vistas bem as coisas, quem arca sempre com as culpas – pelo menos do ângulo de visão do público – são as bandas. É a única coisa visível para as pessoas e, consequentemente, é a elas que culpam. E têm todo o direito de fazê-lo.

VESANIA_05Devido ao carácter excepcional do vosso trabalho com os Vesania, têm tendência a encarar o projecto como uma “banda de férias” ou levam-no tão a sério e com o mesmo empenho que as vossas bandas principais?
Antes de mais, Vesania é a banda que todos começámos. Eu e a maioria dos outros elementos somos amigos desde miúdos, desde os seis ou sete anos, e Vesania foi a primeira banda que fizemos, quando ainda éramos adolescentes, por volta dos 16 ou 17 anos. E foi a partir deste projecto que nos juntámos a todas as outras bandas. Hoje em dia as pessoas vêm este grupo como um projecto paralelo dos músicos dos Behemoth, Dimmu Borgir, Vader e Decapitated. Tecnicamente é isso que é porque, por exemplo, os Behemoth são o meu trabalho e a agenda dos Behemoth é bastante apertada… Faça o que fizer com os Vesania, tenho de encaixá-lo na agenda de Behemoth. Por isso, tecnicamente Vesania funciona como um projecto paralelo, mas de facto na realidade é uma banda muito importante para nós e nunca esteve posta de parte em relação a quaisquer outros projectos em que estejamos envolvidos. Existiram períodos duros e coisas difíceis que tivemos de enfrentar no passado, mas continuamos a tocar aqui e tratamos este grupo como se fosse um filho nosso, que temos de criar e proteger. Falaste em férias… Por exemplo, neste ano de 2014 tive apenas um mês de folga dos Behemoth, em que não estive em digressão com eles. Esse mês foi em Setembro e decidi fazer uma tour com os Vesania nessa folga. Mais uma vez aqui, tecnicamente parece que estou de folga, mas na realidade estou constantemente em digressão, por isso não considero esse mês um mês de férias.

O que fizeste às tuas ideias musicais no período em que não estavas tão motivado para continuar com as actividades dos Vesania? Continuaste a compor nesse período ou deixaste pura e simplesmente de te inspirar?
Durante algum tempo – seis meses ou um ano – todos parámos completamente, mas depois desse período começámos de novo a reunir ideias. Muitos de nós temos muito em comum, tanto musicalmente como nas vidas privadas. Alguns de nós estamos noutras bandas, outros têm trabalhos em estúdios como produtores, outros fazem música para jogos de computador ou assim, por isso é uma vida constante de música, estúdio e gravações. Sempre que um de nós tem uma ideia que ache adequada para Vesania, escrevemo-la ou gravamo-la. E quando chega a altura de compor o álbum, é assim que funciona: juntamos as ideias que todos tivemos e eu e o Daray, o baterista, pegamos em todas elas, fechamo-nos na sala de ensaios durante um mês ou dois e transformamos essas ideias em estruturas de canções. Temos liberdade para usar qualquer parte de qualquer ideia de qualquer elemento da banda da maneira que quisermos. Fazemos então as bases das músicas e depois gravamos uma maqueta, que damos a todos os nossos companheiros. Depois eles fazem o seu trabalho, com os teclados, com a segunda guitarra, etc. Depois rearranjamos todas as canções e mudamos tudo de novo. A música dos Vesania é muito complexa e multifacetada… Há muitas coisas a acontecerem sempre. Os discos requerem um longo período de trabalho para nós, mas é um processo que apreciamos muito e que achamos que vale a pena.

Alguma vez aconteceu um outro elemento da banda não gostar da sua própria ideia depois de tu e o Daray a trabalharem e apresentarem-na de novo ao resto do grupo?
Isso nunca aconteceu assim; normalmente é ao contrário: costumamos ouvir os outros elementos da banda dizerem “Ei, pensava que esta ideia era uma porcaria e transformaram-na numa coisa boa!”. Por isso costuma funcionar ao contrário.

VESANIA_03Esse método de trabalho deve brindar-vos com uma série de ideias “fora da caixa”. Sentem total liberdade para comporem tudo aquilo que quiserem ou existem algumas restrições devido à personalidade musical, já estabelecida, do projecto?
Acho que já nos afastámos bastante daquilo que se pode considerar o black metal sinfónico “convencional”. Não vivemos deste projecto e não nos sentimos forçados a fazer nada que não gostamos de fazer. Não existem restrições aqui. Fazemos a música que queremos ouvir e que queremos tocar e nada nem ninguém nos diz o que podemos ou não podemos fazer. E por falar em restrições, ou barreiras, demos um passo em frente com este álbum, porque enquanto músicos já andamos em palco há bem mais de dez anos, a tocar espectáculos no mundo todo; existem alguns de nós na banda que já deram bem mais de mil concertos. E sentimos que estávamos um pouco fartos de fazer a mesma coisa repetidamente: ir para o palco suados, ensanguentados, fazer headbanging e tudo isso. Sempre houve uma grande influência dramática e teatral nos Vesania em geral, mas agora levámos isso um pouco mais longe e incorporámos um lado teatral na actuação em palco. Por isso, actualmente, o espectáculo dos Vesania parece muito mais um teatro do que um concerto de metal normal.

Deve ser bem mais complicado montar um espectáculo assim, em termos logísticos e de ensaios.
É bem mais difícil fazer com que aconteça nas salas, porque é exigente. Temos de levar em consideração os tamanhos dos palcos, a iluminação e todos esses aspectos técnicos, mas mesmo assim vale a pena. Terminámos recentemente uma digressão na Polónia e possivelmente já viste a sessão fotográfica que fizemos para este álbum, em que estamos no palco de um teatro. As coisas que estão nas fotos fizeram parte da cenografia dos nossos concertos nesta digressão e parece que toda a gente que fez parte da tour gostou da ideia e as pessoas exteriores à banda começaram a incorporar o conceito e a sugerir ideias de modo entusiasta, chegando mesmo a interpretar os seus próprios papéis no espectáculo. Por isso, sempre que temos um palco maior para trabalharmos, como no concerto em Varsóvia, temos dez pessoas lá em cima a interpretar os seus papéis durante o nosso concerto. É uma boa experiência e algo completamente novo para mim e para todos nós em geral.

Este lado mais visual é toda uma nova dimensão para a banda, certo?
Sim, sempre fomos fascinados por este tipo de ideias mais teatrais, mas desta vez não tivemos receio de dar um passo em frente, sair das convenções restritas do heavy metal e seguir nesta direcção. É uma coisa que nos está a dar grande prazer.

Vesania - Deus Ex MachinaMusicalmente também existem algumas ideias novas neste disco. Ainda tens flashes de inspiração mesmo quando não estás no local de ensaios ou tens de trabalhar muito para teres esse tipo de ideias mais originais?
Antes de mais, vivemos no Século XXI e somos constantemente bombardeados com uma série de coisas: fotos, obras de arte, livros, música e por aí fora. Vem tudo de todas as direcções; vemos e experimentamos milhares de coisas todos os dias. Escolher as que nos influenciam particularmente, mais do que todas as outras, é difícil. Ao mesmo tempo, do modo como compreendo todas estas coisas de hoje em dia, acho que somos inspirados e influenciados pelo que nos faz pensar e agir. E existem muitas coisas dessas em geral.

E achas que misturas essas influências contemporâneas com as tuas influências mais antigas ou, porque essas já fazem parte da tua personalidade, não são tão importantes, por si só, como eram antes?
Serão sempre importantes como as coisas que fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Nunca vou dizer que já não estou interessado em tudo isso. Existem vários álbuns que me inspiraram a fazer aquilo que faço actualmente e viver a vida que levo, por isso nunca vou cortar o meu relacionamento com eles. Mas hoje em dia existem uma série de estímulos e influências à nossa volta à espera de serem usados. Fecharmo-nos a isso para sermos apenas influenciados pela cena de black metal norueguês, ou algo desse género, não representaria quem somos hoje em dia.

Sobre o que falam as letras do disco? Existe uma espécie de linha condutora em todas as canções, certo?
Sim. O disco chama-se «Deus ex Machina», que se traduz em “o deus da máquina”. A história por detrás disso vem do tempo das tragédias da Grécia antiga, em que os autores tinham um truque: assim que o drama se tornava irresolúvel, simplesmente colocavam lá um deus. Tecnicamente, era uma máquina que baixava o actor que fazia de deus no palco. Ele resolvia todos os problemas que não tinham solução, porque basicamente era um deus. É daí que vem a expressão. No nosso caso, se lermos as letras sob a perspectiva dos olhos humanos, podemos perceber que a situação está para além de qualquer tipo de esperança – é um disco muito triste, em termos de letras – e chega a um ponto em que não se vê qualquer tipo de sentido em coisa alguma. Soa um pouco niilista, mas é tudo uma questão de relatividade das coisas. E esta coisa “Deus ex Machina”, do modo como o compreendo enquanto título do álbum, é uma espécie de pedido de ajuda, de algum tipo de intervenção, seja ela divina ou de algum tipo de fonte exterior que não seja humana, porque o ser humano não consegue resolver os seus próprios problemas. É apenas um ser humano solitário que morre sozinho – é disso que fala este álbum.

VESANIA_02Porque é que os títulos das canções têm todos apenas uma palavra? Foi propositado?
Sim. Normalmente o meu método de trabalho com as letras é escrever primeiro os textos e só depois pensar nos títulos. Têm existido excepções de vez em quando, mas é principalmente este o método. Desta vez tinha todas as letras escritas para o álbum e nem sequer um único título. Nos primeiros tempos colocava no booklet dos discos algumas considerações, uma espécie de explicação ou interpretação do que estava escrito nas letras. Desta vez não achei que isso se adequasse e, depois de reler todas as letras, pensei que em cada uma delas havia uma palavra específica e forte que simplesmente descrevia da melhor forma aquilo de que a canção fala. Não havia necessidade de usar quaisquer outras palavras.

O Nergal foi algo enigmático há algumas semanas numa entrevista, quando disse que o futuro está em aberto para os Behemoth e que o último álbum poderia até ter sido o último da banda. O que achas que ele quis dizer com isso?
Esta é a forma como a imprensa e os media em geral funcionam. Estou numa espécie de “modo de entrevistas” porque estou a lançar este novo disco com os Vesania e temos estado a fazer umas coisas com os Behemoth aqui na Polónia, por isso tenho respondido a dezenas de entrevistas basicamente todos os dias. E diria que em 90 ou 95 por cento delas aparece esta questão do nada. O que se passa é que os meios de comunicação social vêm a palavra “fim” a meio de uma frase do Nergal numa entrevista qualquer e imediatamente a retiram do contexto e tornam-na sensacional. O que é profundamente errado. O Nergal teve leucemia e venceu a doença. É uma pessoa saudável agora mas esteve bem perto de morrer. Depois de ele passar por esse processo gravámos um álbum muito bom, porque todos na banda consideramos o «The Satanist» um disco muito forte, e estamos plenamente satisfeitos com ele. E, estando conscientes que tudo pode acabar a qualquer momento, porque podemos morrer amanhã e não haverá dia seguinte, e tendo em conta que acabámos de fazer uma coisa que é extremamente satisfatória para nós, estamos numa mentalidade do tipo “Fiz isto. Se acabar tudo amanhã, morro feliz. Porque fiz uma coisa boa”. A declaração dele deve ser entendida deste modo. Ele não quis dizer que íamos terminar a história dos Behemoth; não existe, de modo algum, essa intenção.

VESANIA_01Sentes, de alguma forma, o mesmo em relação aos Vesania e a este novo álbum?
Se puder evitar, não quero sentir-me assim, porque gosto da minha vida e estou plenamente satisfeito com a posição em que estou agora e com tudo o que alcancei. Sinto que o mereço, porque passei toda a minha a vida a lutar por isto. Ao mesmo tempo tenho uma enorme dívida de gratidão a todas as pessoas que me rodeiam, que tornaram tudo isto possível. Por isso, não quero que nada disto termine. Mas, ao mesmo tempo, quem sabe o que pode acontecer amanhã? Acho que fizemos o nosso melhor trabalho de sempre com os Vesania, mas estou cheio de ideias e quero continuar. Por isso, se tiver escolha, prefiro não morrer amanhã. [risos]

Receias que a tua satisfação com este novo álbum possa retirar-te um pouco a motivação para trabalhares no próximo?
Neste momento não consigo imaginar nada que me possa retirar a motivação. Pelo menos nada que venha de fora da banda. Mas não sei… Simplesmente sinto que estamos no caminho certo. Existe muita motivação e entusiasmo, por isso só pensamos em continuar neste caminho.

E não sentem qualquer tipo de pressão para fazerem melhor do que os vossos discos anteriores?
Não. O que sinto é que tenho de lidar com as minhas próprias expectivas em relação a mim próprio. É com isso que compito. Sempre que vejo comentários das pessoas na internet a compararem o nosso álbum mais recente com o anterior, tenho consciência que é o modo delas de verem as coisas e têm todo o direito a expressá-lo. Mas não é a minha forma de ver. Esta banda é como um filho para mim e somos os primeiros a ficar satisfeitos com o que fazemos. Com sorte, depois de nos satisfazermos a nós próprios, existem outras pessoas que também se sentirão satisfeitas. Mas, antes de mais nada, queremos satisfazer-nos a nós próprios.

«Deus Ex Machina» foi editado no dia 25 de Outubro.
Página oficial

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